A Morte Vence

Chapter 10

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Ao baixar da noite, desdobrou-se sôbre a cidade um denso lençol de sombra. Branca saíu contente, com a esperança de que Frederico se encontraria com ela, volvido pouco tempo, para a continuação dum capricho sentimental que ainda lhe parecia absurdo, tanto a havia surpreendido a resolução inesperada do seu amante dalgumas horas; e êle, ficando só no imenso casarão de treva e de silêncio, experimentou uma sensação de tédio mais fundo. Tôda a vida lhe parecia deserta, especialmente a vida emotiva; e, recolhendo-se, a si mesmo perguntava se valeria a pena vivê-la, sem encontrar nas almas e no mundo exterior alegrias puras e interêsses morais. Sentado numa cadeira de braços, junto duma mesa de pau preto sustentando jarras com flores que Bernardo tôdas as manhãs substituía, ia sofrendo o seu permanente suplicio. Verificava que, em certos momentos, ideias claras, fáceis, luminosas, o obrigavam a obedecer-lhes alegremente, e que, em outras, essas ideias eram sombrias, indecisas, indecifráveis, e o assustavam. Encontrava-se, precisamente, num dêstes últimos instantes em que as inquietações interiores o consumiam, como as brasas se consomem no fogo intenso. Justos céus! Como o seu desamparo era grande! E cada vez a solidão mais pesava à sua volta e mais insuportável lhe tornava a carga que trazia sôbre os ombros. Naquela vivenda em que a conhecer, o da mãe, que morreu na sua infância, o duma irmã, Maria das Dores, que era afilhada de Nossa Senhora, com quem brincara na meninice e que tambêm se sumira nos negros boqueirões da morte. Da sua casta, que se extinguia, era êle o derradeiro representante directo: e entrava no outono da existência sem ter a coragem e a abnegação de criar uma família. Porque não procuraria uma doce mulher que fôsse capaz de fazer um luar de ventura à sua roda, de oferecer-lhe o peito para êle repousar a cabeça nas horas de angústia, em vez de levar para o leito criaturas que transformam o divino sentimento do amor numa mercadoria e numa torpeza? Ah! como Nuno lhe era superior! Êsse sim! Havia seguido, na sua marcha para os tempos vindouros, o caminho da verdade e da beleza, de que êle se afastara--de que se afastava ainda mais, de dia para dia!...

Com a imaginação perdida na melancolia destas evocações aflitivas, via novamente a imagem de Júlia erguer-se, radiante de luz, ante os seus olhos: e, então, lembrava-se com infinita saudade do lar inefável e calmo de Nuno, da felicidade perene que o envolvia, radiosa como uma nuvem dourada. Enquanto êle para ali estava curtindo o seu padecimento, desgarrado de tudo quanto fôsse humano, fecundo, produtivo, sob o ponto de vista psíquico e material, Nuno, no seu escritório, e depois de um dia fértil em trabalho útil, em inteligência, repousaria lendo um livro, perto de Júlia, que a claridade aureolava e que pousaria de momento a momento a agulha da costura para colhêr um beijo na bôca nobre e risonha do marido. E não haveria acidez, cólera, impurezas, nos corações dum e doutro, unidos pelo mesmo afecto, nutrindo-se de idênticas aspirações, enlevando-se numa confiança ilimitada... Ou talvez que Júlia, ao piano, no sossêgo nocturno, tocasse uma bela página em que vozes enigmáticas narrassem, numa linguagem de som e de harmonia, a ascensão dos espíritos subtis para a purificação e para a graça. Dentro do seu berço, o filho de Nuno, ainda pequenino, dormiria inocentemente, lindo como um botão de rosa, e tôda a casa adormeceria tambêm ao embalo suave da música. Isto sim! Era viver! Mas êle, que com tanta ansiedade buscava a ternura, não passava dum esquecido do destino, dum foragido...

Fóra, na rua, começavam a acender-se os candeeiros de iluminação pública. A chama do gás, torcendo-se à ventania, projectava sôbre as vidraças sombras oscilantes e fantasmagóricas. O ruído afrouxava. Bernardo, entrando de súbito na sala, perguntou:

--Para que horas quere V. Ex.^a o jantar?

--Eu não janto hoje, criatura--afirmou Frederico, erguendo-se e dirigindo-se ao criado.

--Santo nome de Maria! Não janta?

--Ou por outra, janto fóra. Arranjem-se lá vocês, tu e a Rosalina.

--Então, está bem!--disse Bernardo, retirando-se, sem estranhar já as excentricidades do amo, desde que nessa manhã o vira almoçar com uma mulher da vida airada, em sua própria casa.

Que fatalidade o perseguia!--pensava Frederico, reatando novamente o fio das suas meditações. A ambição duma família estava agora para sempre comprometida, porque êle não poderia ligar-se a uma mulher que não amasse, que havia de ser-lhe odiosa, sempre que se lembrasse de Júlia, sua única e infeliz paixão... Nesse instante, Frederico via-a bem real, duma personalidade bem determinada, diante de si. A sua beleza era perigosa. Nos seus olhos existia um ardor secreto que denunciava a amorosa. Parecia-lhe que ela tinha uma dessas expressões pensativas que nunca se definem com nitidez e que tanto seduzem, porque denunciam almas de indizíveis delicadezas. Frederico sentia-a em si, consagrava-lhe a adoração perseverante, o culto absoluto, o amor que se bastava a si próprio e que duraria, veemente, vivaz, enquanto êle tambêm durasse. A esta certeza, revoltava-se mais uma vez. Com efeito, que maus fados o tinham levado para casa de Nuno! E que fraqueza lamentável a sua, apaixonando-se pela espôsa do seu melhor amigo, sem que reagisse violentamente contra o amolecimento da vontade, o desfalecimento do coração!

Júlia insinuara-se--sem querer, porque era honesta--na sua admiração, no seu desejo, na sua carne, em todo o seu ser de homem: e, sendo tam pura e tam santificada de bondade, envenenara-o para sempre, fizera dêle alguma coisa de vil e de abjecto que entrava num santuário familiar não para purificar-se ao contacto das grandes virtudes, mas para trair. Porque já traía Nuno, não por actos irreparáveis, mas pelo sentimento!...

Sôb a influência mórbida dêste raciocínio, exasperou-se. Sufocava. Os olhos dardejavam-lhe um brilho especial. Sentia a necessidade de aturdir-se, de bestializar-se, de apagar tôda a claridade da consciência. Outra vez evocou Branca. Iria para ela, embora se afundasse; havia de procurar nos ásperos delírios da sensualidade ou nas alucinações do alcool o sossêgo indispensável que lhe fugira, com o desespêro com que Alfredo de Musset procurava nos copos de absinto o reflexo verde dos olhos da Quimera! O que êle pretendia era esquecer Júlia, por todo o preço--mesmo à custa da sua dignidade...

Como as noites fôssem já frias, vestiu um sobretudo, pôs o chapéu, pegou nas luvas e na bengala e saíu, mergulhando no movimento exterior, que o acalmava. Ao chegar à porta da rua, viu, na casa fronteira, as vizinhas que, por detrás dos vidros da janela, o espiavam. Irritado, não as cumprimentou, seguindo em passos nervosos pela calçada. Tinha feito uma promessa a Branca. Ia cumpri-la, com o coração tranzido e com a certeza de que se dirigia para o mal e para uma nova dor...

VII

Certa manhã, ao entrar em casa depois de tôda uma noite passada com Branca--já instalada numa luxuosa e recolhida vivenda que Frederico para ela escolhera numa rua solitária da Foz e onde reùnira tudo quanto pudesse oferecer bem estar ao seu egoísmo e encanto aos seus olhos saudosos de beleza artística--encontrou uma longa carta de Nuno que o correio trouxera e que Bernardo solicitamente pousara sôbre a larga mesa do seu gabinete de trabalho, num sítio bem visível. Durante muito tempo conservou-a, hesitante, nas mãos, sem ter a coragem de rasgar o envelope. Mirava-a, remirava-a, voltava-a entre os dedos nervosos, estudava a letra miúda e firme do amigo, como se quisesse perscrutar nas particularidades exteriores o oculto sentido do que ela dizia, das revelações gratas ou dolorosas que iria fazer à sua inquietação de espírito cada vez mais violenta e que os delírios da sensualidade carnal não apaziguavam, ao seu sofrimento moral de dia para dia mais veemente, roendo-o com a lentidão com que um acido corrosivo rói certos metais. Era a primeira vez que Nuno lhe escrevia, desde que Frederico deixara a quinta rural, afastando-se duma atmosfera mórbida que fazia mal aos seus nervos, que lhe desgastava a energia, que lhe amolecia a vontade, fugindo à permanente adoração de Júlia--uma adoração criminosa que inutilmente se esforçava por abafar dentro do coração e que subtilmente crescia sempre, invadindo-o todo, cegando-o, alucinando-o, vivaz como uma planta daninha que se quere destruir e que constantemente surge, com teimosia, à superficie da terra. Que iria Nuno dizer-lhe? Inconscientemente, na ignorância do seu amor impuro, o amigo trabalhava contra si próprio, avivando coisas que Frederico pretendia, em vão, esquecer para que mais de-pressa curasse os seus nervos doentes, a sua alma enfêrma!...

Passeando agitadamente, com a carta apertada na mão trémula, Frederico notava que, por uma singularidade inexplicável, tôda a gente, mesmo as pessoas que mais estimava, conspiravam, contra a sua paz, contra a sua ventura. Nuno, por exemplo, havia de falar-lhe da sua felicidade conjugal, da ternura de Júlia, da sua perfeição como mulher e como espôsa, o que o atormentaria, agravaria excepcionalmente o padecimento que trazia consigo. Os beijos de Branca, a graça, a formosura esplêndida do seu corpo nú vibrando dos desejos voluptuosos que êle acendia, só lhe avivavam na imaginação ardente o fogo da paixão alucinante pela outra, por Júlia--uma complexa paixão em que havia conjuntamente delicadezas, mimos, aspirações, purezas quáse místicas e as impulsividades grosseiras duma luxúria que maculava as emotividades mais castas. Vivia, por isso mesmo, numa perpétua ansiedade, sobressaltado de temores contínuos diante dos insignificantes factos que pudessem recordar-lhe a mulher que a todo o transe deveria olvidar para seu sossêgo, por imposições da sua dignidade ainda não totalmente amolecida. Estava reduzido à necessidade de procurar a calmaria interior, aturdindo-se nas orgias sensuais com Branca, nas noitadas com os conhecidos pelos teatros e pelas mesas dos restaurantes, em que bebia até perder a lucidez da consciência, ou a fugir ao seu semelhante, acolhendo-se ao isolamento da sua fria casa de solteirão, onde não encontrava nada daquilo que o sentimento imperiosamente lhe reclamava e onde, frente a frente, o encarava o seu pior inimigo, que era êle próprio. Estas rudes emoções, de que lhe era impossível emancipar-se, iam-lhe aviltando o carácter, extenuavam-no físicamente. A fôrça, a resistência, a saúde, escapavam-se-lhe do corpo como a tranqùilidade se lhe havia escapado da alma. Durante horas seguidas, nada mais sentia do que o pêso esmagador do infortúnio que teimava em acabrunhá-lo; e, se tentava reagir era para se crivar de sarcasmos, de ironias cruéis e fulgurantes, súbitamente avassalado pelo prazer secreto de destruir-se, de se afundar mais nas torpezas que dilaceram e matam, de acabar, com um golpe feroz e rápido, aquela contínua tortura de todas as horas, fermentando nas impurezas emocionais, de que era feito o seu abjecto sêr de homem. Em Frederico, exauriam-se as fontes psíquicas de que brotam as seivas criadoras que engrandecem e nobilitam as criaturas. O seu aniquilamento tinha começado: mas, por cobardia moral ou por orgulho, evitava tudo quanto pudesse sobressaltá-lo neste vagaroso trabalho de desagregação, e lhe perturbasse a alegria feroz com que assistia à sua devastação desordenada...

Ao cabo de demoradas cogitações, aproximou-se duma janela e olhou para fóra. A manhã corria serenamente, iluminada por um fulvo sol de inverno que caía do alto sôbre a cidade como o pólen duma imensa flor de ouro. Na rua, curvada sôbre a carga do seu gigo cheio de hortaliças frescas, passava uma mulher lançando nos ares um pregão vibrante, com a saia rôta embrulhando-se-lhe nas pernas. Bernardo entrou de repente, perguntando a Frederico se tinha visto a carta que o homem do correio trouxera.

--Vi. Tenho-a aqui. Vou lê-la--respondeu.

E, quando o criado saíu, fechando a porta, Frederico, vencendo, por uma decisão súbita, tôdas as irresoluções que o alanceavam, rasgou com desespêro o envelope, desdobrou a larga fôlha de papel ennegrecida de tinta e encetou a leitura. Logo às primeiras palavras se lhe desenrugou a face que envelhecia e se abaixou a curva das suas sobrancelhas contraídas. Nuno narrava-lhe a labuta constante a que se entregava na quinta, sob as soalheiras de verão, que lhe tisnavam a pele, sob as chuvadas de outono, que lhe enrigeciam a fibra, comunicando-lhe mais elasticidade. As obras da vasta propriedade, alugada ao caseiro, estavam quáse terminadas. Instalara o vélho Mateus e a família num «palácio», só para que perto dêle não houvesse o espectáculo dissolvente da miséria humana; rompêra mais minas que, de muito longe, da encosta dos montes próximos, traziam em levadas uma água muito clara e cantante que, pelos estios calcinadores, regariam as terras, levando o alento e o vigor às culturas benéficas: transformara tudo. Entusiasmado, confiava-lhe os seus projectos futuros. Andava com ideia de se fazer lavrador, de abandonar para sempre a cidade, que só visitaria de fugida, para tomar um banho de civilização, regressando logo à simplicidade do campo, à placidez rústica. Se esta vontade vitalizadora, que o galvanizava, não viesse a esfriar, teria, mais tarde, em estábulos bem cuidados, manadas de vacas que lhe dariam o bom leite, o queijo, a manteiga. Exploraria a indústria, tam atrasada entre nós, dos lacticínios, concorrendo para a riqueza do país com uma parte da sua fértil actividade...

Frederico interrompeu a leitura da carta, para murmurar humorísticamente, como se conversasse com o amigo:

--E nas horas vagas, como Vergílio, podes fazer versos, escrever as _Geórgicas_ ou as _Bucólicas_!...

Sorrindo com a sua observação, reencetou a longa epístola de Nuno que ia desenrolando outras empresas que lhe pareciam fabulosas, esquecido completamente de que Júlia lêra aquelas linhas que lhe eram dirigidas, que os seus olhos pensativos haviam pousado em cada palavra, que ela fôra mesmo composta a seu lado, num daqueles demorados e pacíficos serões que constituiam um dos maiores encantos da vida familiar do amigo. Nuno falava agora, sempre com o mesmo júbilo, em granjas, espigueiros, eirados, tulhas e celeiros para os cereais que colheria, adegas para o vinho, apetrechos de lavoura.

«Quero--dizia êle--trabalhar para aumentar assim a fortuna do meu filho--que está um figurão, um grande senhor de olhos espantados e cara rabujenta, que se ri de tudo com uma alegria a que as misérias da existência ainda não comunicaram o seu veneno e a sua dôr--de outros filhos que venham, porque me não satisfaço com ter únicamente por descendente e representante um sêr pequenino e frágil que a menor doença pode arrebatar ao meu afecto. Júlia é da minha opinião...»

Esta última frase transtornou Frederico como um insulto à pureza do seu amor, como uma maldição que tornasse estéril o seu sentimento. Parecia-lhe que Nuno o ofendia e o escarnecia, confiando-lhe a esperança que alimentava de Júlia lhe dar mais filhos--filhos que seriam seus, gerados no calor genesíaco dum beijo profundo em que duas bôcas, que se queriam, se transformavam numa só bôca, em que dois corpos, latejantes e convulsionados pela febre da fecundidade, se fundiam num só corpo! Uma cólera absurda subiu do seu coração por essa mulher que se lhe apoderara da alma e que ao marido entregava tudo e ao amante ignorado nada oferecia que o tranqùilizasse. Para Nuno, para a sua satisfação, para a sua vaidade, para a sua felicidade completa, a vida jorraria ininterruptamente do flanco de Júlia, o seu ventre geraria os sêres quáse divinos pela graça e pela inocência--sêres admiráveis em que ambos, através do tempo, se prolongassem, se perpetuassem. Para êle, que tanto a amava, e que, por isso tanto sofria, não havia mais do que uma amizade certamente sincera, mas que não bastava à sua ansiedade dolorida e que repelia com amargura! Irritado por êstes raciocínios, Frederico nada mais via em Júlia do que o facto brutal que derivava da sua ligação legítima, com Nuno--facto que manchava a purificação do amor impossível que lhe consagrava, sem que ela sequer o soubesse. Considerava que o seu drama passional se transmudava em comédia. Sentia-se ridículo e exagerava o que na sua situação havia de grotesco, para conseguir desdenhá-la, já que a não podia olvidar. Estava, certamente, fóra da equidade, da razão, da justiça, mas achava que a sua revolta era natural... Por fim, reagindo sôbre si próprio, reentrou na realidade das coisas, monologando, revoltado:

--Já não haverá então limites para a minha miséria?

Com que direito, efectivamente, se insurgia êle contra a ternura de Nuno pela espôsa? E com que direito tambêm a reclamava para si, como se ela lhe pertencesse, sem se lembrar do que devia à sua dignidade, á sua afeição fraternal, ao respeito por um lar sagrado onde entrara como um amigo e donde saíra enxovalhado, ennodoado por um sentimento criminoso que fôra impotente para sufocar, à nascença, no coração? Estaria por tal forma perdido para a vida moral sadia, honesta, elevada, que não compreendesse a vileza suprema da acção que praticava? Mas a sua libertinagem--a libertinagem em que esperava consumir-se, matar a sensibilidade, endurecer, embrutecer--era recente...

Arrependido, pedindo íntimamente perdão a Nuno da sua loucura, pegou novamente na carta que tinha pousado sôbre o peitoril da janela, continuando a lê-la. O amigo anunciava-lhe que o inverno havia chegado, com as suas intermináveis noites de treva, os seus cinzentos dias de vento e de chuva. As árvores do parque já não tinham fôlhas, a paìsagem dos arredores da quinta parecia morta ou embebida num sonho inerte em que as vidas futuras germinavam, preparando-se para ascender à luz. Nuno e Júlia levavam agora uma existência mais recolhida e monótona, porque não podiam sair de casa. A água, descendo em torrentes das serras, alagava a planície, transformava caminhos, córregos, azinhagas, barrocais, em rios lamacentos, tornava intransitáveis aquelas estreitas veredas, entre densos silvados, que pelas primaveras românticas floriam e se perfumavam com o aroma das madre-silvas e das roseiras bravas e onde, nas manhãs de verão, amadureciam as negras amoras silvestres...

«Mas--concluia Nuno--eu tenho os meus livros, que leio e releio para colhêr alguma humilde parcela da verdade e da beleza que através dos séculos os cérebros e as sensibilidades mais finas nunca deixaram de perscrutar; Júlia tem o seu piano, o seu Beethoven, o seu Liszt, o seu Schubert, o seu Debussy; e ambos temos ainda, para prender a esta casa solitária um encanto sempre novo, o nosso amor e o nosso filho. E estamos com uma infinita curiosidade de passar aqui todo o inverno, assistindo à ressurreição primaveril, à aleluia das fôlhas e das florações... E tu? Se te aborreceres por aí, com os teus teatros, os teus romances de coração, mais efémeros do que as rosas de Malherbe, os teus conhecimentos, os teus tédios, faz as malas e vem. Serás recebido com a afabilidade e a alegria que, no vasto mundo, apenas nesta cabana amiga encontrarás...»

As últimas linhas da carta enterneceram-no. Bom, admirável Nuno! Como a sua afectuosidade perene se recordava dêle e de tam longe o chamava!...

Havia ainda um _post-scriptum_. Frederico, alvoroçado, leu:

--«Júlia, que está aqui ao meu lado, depois de ter adormecido ao colo o nosso morgado, recomenda-se, manda-te muitas saùdades e pede-te que te lembres de nós. Anda a estudar, com interêsse, uma sonata de Beethoven, que será para ti e que, na tua volta à quinta, hás de ouvir...»

Por um momento, estas palavras tam naturais e tam simples, conturbaram-no, excitaram-lhe a imaginação. Júlia pedia-lhe para se lembrar dela, estudava pra êle uma das mais belas sonatas de Beethoven, talvez inspirada ao maior poeta de música por uma profunda, transfiguradora paixão, tinha consigo delicadezas do que apenas são capazes as almas que amam em silêncio. Quem sabe se essa doce mulher fôra tocada pelo fluido invisível do amor que o abrasava, se tambêm o amaria em segrêdo, escondendo êsse sentimento, ao mesmo tempo pecaminoso e divino, bem no fundo do coração, para que nem Nuno nem mesmo êle sequer o pressentissem? Quem poderia adivinhar, decifrar o drama oculto naquela alma tam requintadamente feminina?... Depois dalguns minutos de reflexão, porêm, o seu desvairado scismar pareceu-lhe vão e sem sombras de realidade. Com efeito, se Júlia lhe consagrasse um afecto que, por sua essência, tivesse de esconder cautelosamente, não pediria a Nuno para acrescentar à carta que acabava de receber um _post-scriptum_ em que se denunciaria. O amor obrigado a esconder-se é sempre assustado, supersticioso, teme mesmo os actos mais inocentes com mêdo de revelar-se a olhos perspicazes. Não! Que ideia a sua! Júlia era, para êle, apenas uma bôa, sincera amiga, e nada mais do que isso. E esta virtude nobilitava-a para Frederico!...

Sôbre a sua alma passou, nesse momento, uma nuvem da tristeza que, por um instante, o deixara para de novo voltar a deprimi-lo; no seu espírito manifestaram-se alternativamente as crises contraditórias, a desilusão que o pungia pela secura e as aspirações indefinidas que sossegavam a intervalos o seu mal estranho. Amarrotou nervosamente nas mãos a carta de Nuno, atirando-a para cima da mesa, e, concentrado e sombrio, recomeçou o seu passeio. Voltar à quinta, ser uma testemunha da felicidade de Júlia e do marido, tam estreitamente unidos por um amor que incessantemente refloria, que ao fim de dois anos mantinha a mesma febre, a mesma ansiedade, o mesmo calor, a mesma infinita, inextinguível adoração? Não tinha coragem para isso, porque não podia conservar-se impassível, ao menos, diante do espectáculo duma ventura que ardentemente desejava para si e de que, conjuntamente, fugia como fugiria dum pavoroso crime. O amor de Júlia e de Nuno era sagrado pela sua pureza; no entanto, tomava-o, no seu egoísmo, como um insulto, como um sarcasmo de fogo que o queimava, como um escárnio ao seu infortúnio. Não! Nunca mais! Não queria presenciar a florescência maravilhosa e suave duma ternura que tam ardentemente apetecia para si e que um outro, legitímamente, fruía. A sua pessoa não era necessária em casa do amigo para que êle fôsse feliz: e Frederico, êsse carecia de estar longe de ambos para ser menos desgraçado... O que existia de paradoxal no seu caso singular! Sabia que Júlia e Nuno o estimavam fraternamente; que, se a sua alegria de viver, a sua placidez interior, dêles dependessem, seria absolutamente ditoso; que não tinha, no tumulto vertiginoso da existência, mais seguros e nobres afectos; e, no entanto, era justamente de Nuno e de Júlia que para si vinha a maior dor, a mais intensa amargura!...

E o que tambêm havia de bizarro, de incompreensível, de insensato, no seu sentimento! Amando Júlia alucinadamente, querendo-a acima de tôdas as coisas, não odiava agora Nuno, que a possuía. Pelo contrário, a sua afeição crescia cada vez mais por êsse belo rapaz que a uma dignidade inquebrantável aliava os brilhantes dons de carácter, de inteligência, de grandeza moral. Tudo aquilo lhe parecia confuso, baralhado, incoerente, fóra da realidade humana, obedecendo talvez a leis psicológicas ainda ignoradas...