A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia)
Chapter 32
--Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que eu só agora estou habilitado para a apreciar como merece; pagina, porém, tão recatada, que julgo que ainda a não leu bem o principal interessado n'ella. Cego, como eu fui.
--Não leria?--perguntou Magdalena, sorrindo.--Está certo d'isso?
--E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por inspiração a adivinhasse. Ha casos d'esses.
Magdalena tornou, mudando de tom:
--É ainda cêdo para tratar de mim. Quando me resolver a isso, verá que sou um doente modelo. Não hesitarei ante a violencia do remedio.
--E por que demora o tratamento?
--Pois parece-lhe que será urgente o caso?
--Prima Magdalena, o que vejo é que ha mais fortaleza da sua parte do que....
--Silencio!--disse a morgadinha, escutando.--Pareceu-me ouvir...
N'este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata, voltou, dizendo em voz baixa:
--Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles.
--Então depressa--disse Magdalena.--Abra-nos o côro; mas antes apaguemos as luzes. Teve uma feliz lembrança em prevenir-se com essa lanterna de furta-fogo. Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça barulho.
Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um corredor estreito, no côro da capella, d'onde a morgada costumava ouvir missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento inferior.
Quando alli chegaram, com as precisas precauções para não fazer estalar as tábuas do soalho, havia já em baixo uma luz escassa, que desenhava longas no pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a varanda do côro.
Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu serem Christina e Torquato.
Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato subiu os tres degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas vélas de cera que, em ennegrecidos castiçaes de madeira dourada, ornavam uma imagem da Virgem da Soledade. Espalhou-se no recinto uma frouxa claridade, que não dissipou as sombras dos recantos, nem as que se condensavam no tecto.
Christina fez signal então a Torquato, para que se retirasse; e o velho, com os passos arrastados e tossindo, caminhou para a porta, que dentro em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e fechar-se com estrondo.
Tudo ficou depois em silencio.
Christina então ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a de que a tradição popular contava milagres, e em profundo recolhimento ficou immovel a rezar a devoção promettida.
Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella angelica creatura viera alli agradecer á Virgem o tel-o salvado! Aquelle anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um amor puro e candido, em que elle já nem acreditava. E cabia-lhe a suprema ventura de gosar um amor assim!
Magdalena via com alegria a commoção de Henrique.
A oração de Christina prolongou-se por alguns minutos.
Henrique murmurou, ajuntando as mãos:
--Deus te recompense, anjo, a consolação que me dás.
--Não peça a Deus o que está na sua mão--respondeu-lhe em voz baixa Magdalena.
--Que diz?
--Está ou não sinceramente apaixonado?
--Como nunca imaginei que fôsse possivel estar.
--Crê na pureza d'aquelle coração?
--Como na dos anjos.
--Está convencido de que o pode salvar, ella?
--Não ha crédo que professe com mais fé.
--Por que não vae então ajoelhar ao lado d'ella e jurar-lh'o?
--E consente?
A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas escadas que pela espessura da parede iam do côro para a capella-mór.
--Aqui tem o caminho--disse ella.--Siga-me. E, servindo-se da lanterna de furta-fogo, foi descendo com precaução. Henrique seguiu-a.
No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais alguns passos, parou junto de um reposteiro.
--Agora faça o que lhe dictar o coração--disse ella para Henrique.
Este correu o reposteiro com precaução, e achou-se na capella.
Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique entrára ficava por detraz d'ella, não o viu chegar.
Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a oração.
Ao levantar-se, Christina, voltando a cabeça, descobriu-o, e soltou um grito de susto. A obscuridade que havia na capella não lhe deixou perceber logo quem fôsse, o que mais lhe augmentou o terror.
Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe:
--Não tenha receio, Christina. Sou eu.
Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a presença de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de imaginar explicações. Henrique accrescentou:
--Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado, Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os castos e abençoados prazeres da familia; depois de me dedicar as suas vigilias, dedicou-me as suas orações. Deixe-me beijar-lhe a mão com todo o affecto, com toda a paixão que pode haver na minha alma.
E dizendo isto, levou aos labios a mão, que ella, de enleiada, nem ousára retirar das suas.
--Agora peço-lhe, Christina, que, já que me fez antever as delicias do viver da familia, não me condemne para sempre ao supplicio de não as vêr realisadas. Lembre-se de que não conheci mãe, de que não tenho irmãs, de que tenho vivido só, e de que cêdo voltarei a essa vida solitaria e gelada, que me será agora uma tortura. Compadeça-se de mim. Quer vir occupar no meu coração o logar vago que ha n'elle para as affeições de mãe, de irmã, e de...
--Henrique!...--murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada creança.
--É deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor, é pousando a mão sobre os Evangelhos d'esse altar, que eu lhe prometto mais do que uma paixão ephemera de rapaz, prometto-lhe a constante adoração, rodeada de respeito, do homem que as suas virtudes reconciliaram com o mundo. Acceite, Christina, acceite o offerecimento do meu coração.
Christina tremia sem poder responder.
Magdalena entrou por sua vez na capella.
--Não se pode exigir assim uma resposta directa, primo Henrique--disse ella.
Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e inesperadas apparições, correu para a prima.
--Tu, Lena! Tu tambem aqui?!
--Então não me competia receber em minha casa as visitas? Mas vamos, dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu dê por ti ao sr. Henrique de Souzellas, que me parece acaba de te pedir, muito terminantemente, a tua mão.
Christina não respondeu, senão cingindo-a mais intimamente ao seio.
--Não responderam os labios, primo,--continuou a morgadinha--mas falou o coração ao meu na linguagem das pulsações. Estou-o sentindo.
--E disse?...
--Que havia de dizer? Que sim.
E Magdalena, que tinha a mão de Christina na sua, extendeu-a a Henrique, que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo.
Parece-me poder affirmar que d'esta vez já houve correspondencia.
O velho Torquato, farto de esperar de fóra da capella, e achando que as rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.
Ao entrar divisou porém tres pessoas em logar de uma só, que esperava, e recuou estupefacto e aterrado.
Suppôz que almas penadas andavam na capella.
O bom do homem não ousava approximar-se.
Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo:
--Não tenha mêdo, Torquato. A alma de minha madrinha encarregou-me de fazer esta noite as suas vezes. Sou eu.
O espanto do feitor não era agora menor. Esfregava os olhos, como se receiasse estar dormindo, e não passava de olhar para Magdalena, para Henrique e para Christina, sem entrar na explicação do que via.
Custou a fazel-o voltar da sua estupefacção.
Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique fôra recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes serviu o chá.
A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como já percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e Henrique, soltou algumas insinuações, que a obrigaram a córar, e a rir Magdalena.
Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita intimidade.
--Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso serão!--disse Henrique.--Decididamente é de maravilhas esta casa; o povo tem razão. A morgada defuncta foi decerto quem se encarregou de fazer os convites.
--É verdade, como foi que vieram aqui?--perguntou Christina, já mais desenleiada.--Já sei, foi este Torquato que me não guardou segredo. O que merecia!...
--Eu, menina?! Ora essa! Eu até...
--N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a indiscreção--disse Magdalena.
--Que é?--tornou a prima.
--É a discreção.
--Então por quê?
--Torquato é discreto, com umas meias palavras, que exprimem mais do que a verdade.
--Eu...--ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o interrompeu.
--Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presença aqui.
--N'esse caso é justo que fale primeiro Christina.
--Que hei de eu dizer?
--Explica a tua presença aqui. Então não ouviste o primo Henrique?
--Ora, já o sabem.
--Mas talvez não lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da tua bôca.
--Não, não, a minha vinda, essa não tem que explicar.
--Que diz, primo Henrique?
--Não tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido já.
--Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida por um sentimento de piedade e de...
--Lena!
--Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a narração dos sustos que ella sentiu por o caminho desde o Mosteiro até aqui. O Torquato não era decerto bastante para lhe limpar a estrada de visões e malfeitores.
Christina poz-se a rir.
--Mas vamos ás explicações da presença dos mais. A Christina avisou o Torquato, o Torquato avisou o primo Henrique...
--Eu?!
Christina olhou para o velho com um meigo gesto de reprehensão.
--Se eu o soubesse!...
--Eu... eu não disse... eu... só disse...
Henrique tomou a palavra.
--Torquato não é de todo o culpado. Pois acha que não haveria em mim alguma coisa que me ajudasse a adivinhar? Torquato atraiçoou-se involuntaria, inconscientemente. Mas quanto á prima...
--Eu? Soube-o tambem do Torquato.
--Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo!
--Isso é que não. Eu não disse á sr.^a D. Magdalena... Ella é que...
--Foi o que eu disse ha pouco. A discreção do Torquato é que revelou o segredo.
--Como?
--O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario.
--Eu a esse não disse.
--Não, a esse quiz occultar, e d'ahi é que veio o mal.
--Ora, ora...
--O que eu sei é que Vicente veio procurar-me á porta do Mosteiro, e ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como ainda lhe não tinha merecido nunca. Estava o homem convencido de que eu era a heroina de umas aventuras romanticas que se verificavam de noite n'esta minha propriedade dos Cannaviaes. E tão irritado estava, que me não quiz ouvir, quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito enigma. Ao retirar-se, porém, disse-me que não lhe quizesse occultar a verdade, porque do Torquato soubera tudo.
--Eu não disse...
--E depois a prima...
--Eu então chamei este senhor, armei-me de toda a minha gravidade, e exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o que sabia a respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava pêrro, mas a final falou.
--Mas sabia tambem que eu vinha?--perguntou Henrique.
--Pois não se lembra de que pela manhã me tinha cançado com perguntas a respeito do caminho para a casa dos Cannaviaes? Eu já extranhava a insistencia; depois do que soube, tive uma suspeita. Perguntei ao Torquato se lhe falára n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua hesitação e ambiguidade, habilitou-me a concluir que teria o gôsto de receber o primo em minha casa.
--E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste?
--Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. Bem me viste sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para pôr a casa em arranjo.
--São mesmo coisas tuas--disse Christina, rindo.
--Mas eu não disse nada--insistiu Torquato.
--Porém, por que motivo se irritou tanto o herbanario?--perguntou Henrique.--Que imaginava elle a final?
-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as suas meias palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de arranjar as coisas de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se de que havia aqui um romance em que entrava eu... A discreção do Torquato é das que respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura fôram-me todas attribuidas... N'este mesmo romance parece que entrava tambem o primo Henrique...
--Ah! percebo agora--disse Henrique, rindo.--O velho é ciumento por procuração.
Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem.
Christina, que já estava habilitada para entender a allusão de Henrique, sorriu com elles.
O Torquato foi o unico que nada percebeu.
Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de voltarem a casa.
--Choverá?--perguntou Brizida.
--Julgo que não--respondeu Magdalena, e como para assegurar-se correu a vidraça da janella e examinou o firmamento.
Henrique acompanhou-a.
--A noite está serena--disse ella.--São horas de voltarmos.
--Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas horas--disse Henrique, debruçando-se á janella, e continuou:--Mas que agradavel noite! Não poder prolongal-a por toda a eternidade!
--Vamos, vamos,--respondeu Magdalena--o dia d'ámanhã deve ser feliz ainda, porque...
N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe attrahisse a attenção, calou-se, mal podendo reter um leve grito.
--Que foi?--perguntou Henrique, que o percebeu.
--Nada--respondeu ella, correndo a vidraça e afastando-se da janella.
--Viu a alma da morgada?--perguntou jovialmente Henrique, vendo-a preoccupada.
--Não--respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio séria.--Pode porém haver apparições peores.
--Que é, Lena? Que viste tu?--perguntou Christina, assustada.
--Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos.
E, passados poucos minutos, sairam todos os que até alli animavam aquella habitação solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em silencio e na sua quasi desolação.
XXIX
No dia seguinte, pela manhã, recebeu-se na Alvapenha noticia da chegada do conselheiro e de Angelo. A impressão profunda que a este ultimo causára a morte de Ermelinda, tinha resolvido o pae a trazel-o comsigo para a aldeia a distrahir e robustecer com ares livres do campo. D. Dorothéa apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro; Henrique acompanhou-a e de caminho pôl-a ao facto do estado do seu coração, e encarregou-a de communicar isto mesmo a D. Victoria e de fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da mão de Christina.
D. Dorothéa ficou a principio admirada. Ainda se não desacostumára de considerar Christina como uma creanca. Havia tão pouco tempo que usava ainda vestidos curtos!
Reflectindo porém, acabou por achar a coisa natural, vantajosa e agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que fizera.
Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, não se fartou de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta vez as habituaes prolixidades da boa senhora não conseguiram enfastial-o. Estava devéras apaixonado!
Chegaram ao Mosteiro.
O conselheiro recebeu-os com ar de satisfação e apparente tranquillidade de espirito; mas um exame attento conseguiria descobrir-lhe no sorriso o que quer que era forçado a revelar certa preoccupação interior.
É que, desde que chegára, tinha sondado melhor o animo do publico da terra, ou dos influentes que o representavam, e reconhecera que estava muito arriscada d'esta vez a sua candidatura.
Não lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a dois dias realisavam-se as eleições. Tudo estava por fazer, emquanto que os seus adversarios havia muito que tinham tudo feito. Algumas das personagens politicas, com que contava, falharam-lhe, e até nem o visitaram. As auctoridades locaes eram-lhe manifestamente hostis, desde o administrador até o cabo de policia.
Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o conselheiro para conversar em assumptos alheios á questão que o interessava, para sorrir e prestar attenção ao que se dizia.
De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento, escrevia um bilhete, retirava-se por momentos para receber algum agente eleitoral que o procurava, despachava um emissario; finalmente não podia socegar.
Foi na occasião em que elle consultava mais uma vez a lista dos recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e Magdalena faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos, que entrou D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D. Dorothéa, e em nome de Henrique, o pedido da mão de Christina. D. Victoria trazia bem visivel na physionomia todo o jubilo que a nova lhe causára. Era muito amiga de Magdalena, mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais que tudo a lisonjeára, fôra a preferencia dada por Henrique a sua filha sobre a morgadinha.
--Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique--dizia ella.--Estou mesmo muito arrenegada comsigo.
--Por quê, minha senhora?--perguntou Henrique, sorrindo.
--Pois então isso é coisa que se faça? Já precisa de embaixadores para se dirigir a mim?
--Perdão, minha senhora! Era meu dever deixar completa liberdade a v. ex.^a para fazer todas as reflexões que a proposta lhe suggerisse e discutil-a á vontade, e, por delicadeza, podia v. ex.^a ás vezes, sendo eu mesmo quem a fizesse, cohibir-se...
--Ai, eu havia de pôr muitas dúvidas! Na verdade um rapaz de tão má nota! Ora sempre tem coisas!
--Visto isso, posso esperar?
--Da minha parte uma guerra de morte--disse D. Victoria, não resistindo a dar um abraço a Henrique, já com familiaridade de mãe; abraço que Henrique retribuiu com affecto.
O conselheiro não dava attenção á scena.
--Então, mano!--bradou-lhe D. Victoria.--Deixe lá essas politicas que temos negocios sérios em casa.
--Sim?--disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um ar de interesse, que realmente estava muito longe de sentir.--Então de que se trata?
--De um negocio importante, em que é preciso que seja ouvido.
--Ah! Então é um caso de consciencia?
--E não o diga a rir, que é. Aqui o sr. Henrique de Souzellas acaba de me fazer um pedido... Isto é, a prima Dorothéa foi que m'o fez.
--Mas por ordem d'elle--acudiu esta.
--Pois sim, o que era escusado.
--Mas então que pede de nós este caro sr. Henrique?
--Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas.
O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. Já, por mais de uma vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe tinha passado pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique tinha um bom nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro na sociedade, e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos.
Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz tiral-o quanto antes da illusão e disse:
--Quem mais razão tinha para protestar era eu. Ha de fazer-me falta a amizade de Christina.
--Ah!--disse o conselheiro, com um sorriso um tanto contrafeito.--Então quer-nos roubar a nossa Christina, sr. Henrique?
--É apenas uma restituição que peço, sr. conselheiro, porque não me posso resignar a viver sem coração.
--Faz madrigal? Está então apaixonado devéras, já vejo--disse o conselheiro.--Pela minha parte folgo de o vêr assim associado á minha familia, por tão bom caminho. Mas onde está a thaumaturga, que fez o milagre de converter este celibatario emerito, que eu conheci em Lisboa a rir-se do casamento?
--Por piedade, não me recorde esses peccados deante da prima Magdalena, que é tão rigorosa nos castigos!
--Diga antes, que sou tão excessiva nas recompensas.
--Mas o mano tem razão--disse D. Victoria.--Onde está a Christe? Admira-me não a vêr aqui!
--Admirar, não me admiro eu--tornou o conselheiro.--É provavel que soubesse do que se tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi decerto discutido por as partes interessadas, antes de subir ao nosso tribunal.
Henrique e Magdalena sorriram.
--Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S. Gonçalo. Deus queira que te não queimes ainda no fogo ao ateares d'estes fachos.
--Eu vou buscar a Christe--disse a morgadinha, rindo das palavras do pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a direcção que elle lhe deu.
O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas, emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Dorothéa tentava distrahir Angelo, contando-lhe várias historias de creanças, que elle mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento accommodado á intelligencia d'elle.
Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual já vinha com o rubor nas faces e com os olhos no chão.
--Aqui está a accusada--disse a morgadinha ao entrar.
O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse jovialmente para a sobrinha:
--Ora venha cá, venha cá, que temos muito que falar.
E passando-lhe a mão por baixo do queixo, para a obrigar a fital-o, continuou:
--Então assim se trama uma conspiração ás caladas? Surprehender a gente com uma noticia de tal ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de bonecas, e já um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora, é energia. Nunca o esperei. Ora dê cá um beijo, emquanto não tenho quem me peça explicações por os que lhe roubar.
E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces tingidas pelo pejo e pela alegria.
Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo:
--São os penultimos.
--Os penultimos?--disse D. Victoria, rindo.--Ora essa! Então para quando ficam os ultimos?
--Para quando a vir com a grinalda de noiva.
--O que eu nunca esperei é que fôsse a nossa Christe que désse o exemplo á prima. Não tens vergonha, Lena--disse D. Dorothéa para a morgadinha, em quem esta reflexão fez nascer um gesto de contrariedade, que trouxe aos labios d'Angelo o primeiro sorriso d'aquella manhã.
O conselheiro e Henrique sorriram tambem.
--Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia--disse Henrique com intenção.
--Não prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem sabe que sou teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha coisas no mundo que se devem decidir pelo coração sómente.
--E Deus me livre de o não consultar. Seria abjurar os meus proprios actos.
--O _sómente_ é que veio de mais, filha--disse o conselheiro.--Attende-se ao coração, embora. Mas só ao coração? Isso era bom se vivessemos em um mundo de corações.
A chegada de novas personagens desviou a direcção da conversa e modificou a scena.
Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se. Henrique ficou, a pedido do conselheiro. O mestre Bento Pertunhas entrava no numero dos recemchegados. O papel que alli desempenhava o latinista era de suspeitosa natureza.
Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que n'estas épocas não comia, não dormia, não respirava, por assim dizer, senão eleições, e desenvolvia uma miraculosa actividade, correndo a todos os pontos perigosos, conquistando votos, um a um, e lidando por desenredar as meadas politicas dos adversarios e enredar as suas.
--Então que novas temos da campanha, meus senhores?--perguntou o conselheiro, puxando cadeiras para os seus constituintes, e affectando um tom de confiança que não sentia.
--Más, sr. conselheiro,--respondeu o Tapadas--muito más. Vejo isto muito feio.
--Ora a coisa ainda não ha de ser tão má como diz.
--Nada, nada; não me agrada. V. ex.^a descuidou-se. Tenha paciencia, mas eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas são. É preciso não as desacompanhar. V. ex.^a devia vir ha mais tempo.
O Pertunhas acudiu:
--Deixe lá, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos decididos, e os serviços que fez á terra...
--Ora com o que vmc.^ê vem!--replicou o Tapadas, com modo azedo.--Então não sabe como é esta gente? Então não os ouve ahi berrar já contra as estradas, quando até agora berravam por não as terem?
--Meia duzia de garotos--tornou o Pertunhas.