A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia)

Chapter 31

Chapter 313,857 wordsPublic domain

E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava Henrique.

Estava já Henrique em convalescença, e o facultativo permittira-lhe alguns passeios pela quinta, mas ainda não a sua transferencia para Alvapenha. O logar favorito de Henrique n'estes passeios era á sombra de umas laranjeiras, que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do quarto de D. Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia tenção de ler, e apoiando-se ao braço de Christina, que levava a costura para junto d'elle, para lhe fazer companhia.

D. Victoria seguia-os da janella com as suas recommendações.

--Por ahi não, Christe!... Olha que é muito humido... Dá antes a volta pela nora... Assim... Cautela com essas hervas, que hão de estar molhadas... Vê lá que não esteja frio... Olha se esses troncos estão molhados...

Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de uma manhã Christina o interrogar, n'aquelle tom de familiaridade affectuosa, que principiára a poder ter para com elle, desde que o vira fraco e doente e a carecer do seu auxilio e protecção.

--Que é isso! Por que está sempre triste, agora que vae melhor?

--Estou triste, porque estou melhor--respondeu Henrique.

--Que está a dizer?!

--A verdade. A poucos doentes terá succedido o que succede commigo. Este renascer para a vida, este sangue novo que sentimos circular nas veias, este vigor que de instante para instante conhecemos accumular-se em nós, que tantos gósos dá aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como que estou presentindo já as saudades d'este tempo, que passei prostrado no leito da doença, Christina.

--Não diga isso.

--E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida! Não sabe que me eram desconhecidos inteiramente os ineffaveis carinhos de familia que me fez experimentar? Com a saude vão voltar para mim os dias da solidão, do desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino, desde que principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber, Christina! Quando penso em voltar para Lisboa...

--E tenciona voltar?

A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma intima commoção. Ha d'estes effeitos. Ás vezes o olhar menos significativo, a palavra menos pensada, é pelo coração interpretada de maneira tal que elle proprio se sente estremecer.

--E queria que eu ficasse, Christina?--perguntou Henrique, sob o dominio d'essa impressão.

Christina não respondeu logo.

--Deixe-me acreditar que sim; é bastante generosa para isso, para não vêr partir sem saudade o homem a quem salvou com os seus extremos de irmã. Esta ideia será a minha consolação; deixe-me partir com ella.

--Partir?... mas... para que ha de partir?

--Então quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia Dorothéa, cuja vida placida vim alterar com os meus habitos cidadãos?

--Pois não lhe custaria a ella mesma vêl-o partir! E depois... que vae fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar que está doente, que é quasi a mesma coisa.

--E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar?

--Por que havia de lh'a negar?

--Tempo virá em que outros me disputarão a menor porção de affecto que me conceder, Christina... e então... então é que eu ficarei mais só do que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o estou.

--Anda só, por que quer... Não ha tanta gente por esse mundo?

--Então a menina não sabe que se está só mesmo em companhia? Quem está só é a alma. Ai, a alma está só quasi sempre!

--Por que quer.

--Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que não obteve a que desejava. Além de que, ha almas tão tristes, que intimidam outras. E a minha é d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer companhia á minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci, não hesitaria? Confesse.

Depois de um momento de silencio e hesitação, Christina respondeu:

--Se a companhia da minha fôsse bastante para desfazer essa tristeza...

--Concedia-m'a?

--E por que havia de negar-lh'a?

Henrique tornou-lhe a mão, apaixonado.

--Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras? Se o meu coração é tão ousado...

Christina, córando, retirou a mão de que Henrique se apoderou, e levantando-se, sobresaltada, disse:

--Julgo que são horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o.

E fugiu, correndo em direcção de casa.

Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias durante a convalescença de Henrique. Reinava o idyllio e uma como perfumada atmosphera, que exercia profundas revoluções no caracter de Henrique e de Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas exterioridades artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em vão; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo uma d'essas metamorphoses analogas ás da vida de borboletas, da infancia, estado de chrysalida para a imaginação, passava á verdadeira juventude, ao periodo em que a imaginação ganha azas, em que o coração se completa.

Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, não havia razão possivel para permanecer no Mosteiro; portanto tornou-se inevitavel a mudança para Alvapenha.

Já se não fez sem lagrimas a despedida.

Choraram as creanças, chorou D. Victoria e a propria Magdalena se sentiu commovida; só Christina não se achava na sala em que se passou a scena.

Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair.

Seria casual esta circumstancia?

Henrique não perguntára por Christina; dizia-lhe o coração que a encontraria alli.

--Volto á minha solidão, Christina--disse-lhe, commovido.--Não lh'o tinha eu dicto?

A pobre menina quiz sorrir, mas do esforço que para isso fez só lhe resultaram lagrimas.

--Não diga mais nada--disse Henrique, levando aos labios a mão que ella não retirou.--Essas lagrimas bastam-me.

Escusado é dizer que estas palavras mais lagrimas produziram.

E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas.

Christina ficou a chorar na varanda.

A morgadinha veio, sem ser sentida, abraçal-a, dizendo:

--Pago-te hoje o abraço que me déste no outro dia; mas eu escuso de te perguntar... «Pois tu amaval-o?»

--Ai, Lena!...--exclamou Christina, cada vez chorando mais.

--Faltava aos vossos amores este arremêdo de infelicidade, e imaginaram uma separação de duzentos passos para poderem representar a scena das despedidas, e chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!--dizia Magdalena, para consolal-a.

Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia. Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual taes mudanças notava n'elle, que chegou a aventar á ama a ideia de que a doença tinha transtornado o juizo ao rapaz, opinião que D. Dorothéa levou muito a mal.

Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a indignação que lhe causou a carta de um amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava novas dos seus habitos pastoris e das Tirces e Galatéas que o traziam enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do coração, contra aquelle tom frio e sarcastico da epistola, e nem lhe respondeu.

Depois teve Henrique uma visão.

Não se assustem os leitores que antipathisam com o maravilhoso. Nada ha aqui que se pareça com as visões épicas; foi uma visão como muitas, que nós todos, uma ou outra vez na vida, experimentamos; um d'esses espectaculos, que nos prepara de quando em quando a imaginação, esta fertil e poderosissima creadora, que nos acompanha incessantemente. A quem não terá de facto succedido vêr transformar-se pouco a pouco uma perspectiva, desvanecerem-se os effeitos da visão exterior, enfraquecerem as impressões dos sentidos, e avultarem, tomarem fórma, realidade, vida, as imagens de uma mais intima, espontanea e mysteriosa visão?

Estava Henrique á janella do quarto que habitava em Alvapenha. Sabemos já que se gosava d'alli um panorama extenso e amenissimo. A tarde parecia de primavera. Henrique corria com prazer a vista pelos differentes logares da quinta de Alvapenha, com as suas noras e mêdas, colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma verdadeira quinta rural, resentindo-se, porém, um pouco de ser a proprietaria d'ella uma senhora velha, e com pouca actividade para tratar da lavoura.

Pouco a pouco deixára Henrique de vêr a quinta como ella era.

Principiava a visão interior.

As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se de cereaes os celleiros; alastrava-se de grão o chão das eiras; gemiam as noras e os lagares; soltavam-se ás prêsas os diques, e uma verdadeira rede liquida envolvia em suas malhas a vegetação dos campos; alvejavam as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos as cantilenas aldeãs; e os mais caracteristicos e poeticos episodios da vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente allucinados, do sobrinho de D. Dorothéa. Era uma perfeita georgica! E elle a dirigir todos os trabalhos, a regular o serviço, verdadeiro patriarcha ao modo antigo; e ao seu lado, e em toda a parte, á sombra de uma arvore, á borda do tanque, debruçada no muro, por entre os silvados das sébes vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura de Christina!

Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as qualidades boas e más da sociedade que frequentava, havia de ter uma visão como esta!

No quasi extase, em que a imaginação o lançára permanecia ainda, quando soube que o procuravam de mando das senhoras do Mosteiro.

Apressou-se logo a receber a visita.

Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e das meninas.

O pobre homem era um dos que ficára com affeição a Henrique depois que estivera no Mosteiro.

Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle já em poucos encontrava, contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso era o bastante para o velho lhe querer bem.

--Diga ás senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo incómmodo que estão tendo commigo. E vossê tambem, Torquato, na sua idade, estes passeios.

--Ai, não tem dúvida! Isto faz bem... É exercicio a final... Pois é verdade. Eu d'antes corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe que eu já tenho os meus annos! Veja lá, se no tempo dos francezes eu era já homem feito... Inda me lembra...

Seguiu-se um episodio da época, e depois, sem transição sensivel:

--Mas lá emquanto ás senhoras... Isso sempre devo dizer que teem tomado um cuidado!... Todas!... Até a Christininha!

--Sim? Tambem essa?

--Ora se tambem!... Pois a sr.^a D. Victoria?

--Mas... mas... Christina... a sr.^a D. Christina, então...

--Isso é um coração de pomba. Inda ha pouco, ao sair, já vinha no pateo, e ella veio ter commigo a correr, e disse-me: «Olhe, ó Torquato, ha de reparar-lhe para a cara e vêr se tem ar mais triste.»

--Ella disse-lhe isso?

--É verdade. E eu lá lhe vou dizer que o encontrei alegre como...

--Não, não; não lhe diga isso, homem--atalhou Henrique.

--Então por quê?!

--Porque... porque... porque não é verdade... Então eu estou assim tão alegre como isso?

--Não digo que esteja, mas para a socegar...

--Diga que me achou com saude, mas triste. E não lhe disse ella mais nada?

--A sr.^a D. Victoria...

--Falo de Christina.

--Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso é segredo.

--Diga, diga.

--Não é nada; é uma promessa que...

--Uma promessa? Que promessa?

--Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve muito mal, que nem o cirurgião dava nada por si, a Christinita prometteu rezar na capella dos Cannaviaes as estações da meia noite...

--As estações da meia noite?

--Sim; as estações rezadas á meia noite á Senhora que está na capella da casa dos Canaviaes; É tão milagrosa que, dizem, nunca recusou favor que se lhe pedisse assim. Contava meu pae...

E vinha um caso comprovativo da tradição popular.

--Sim, lembra-me que já me falaram n'isso--disse Henrique, pensativo.

--É verdade. O peor é que é este seu criado quem tem de a acompanhar até á quinta, depois d'ámanhã á meia noite...

--Então depois de ámanhã á meia noite?

--Sim, mas não diga nada, que isto é segredo da pequena.

--Esteja descançado.

E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que Henrique não ligou attenção, aquelle retirou-se.

Ao ficar só, Henrique caiu em nova e profunda abstracção. Elaborava-se-lhe na ideia um projecto. O de ir aos Cannaviaes para presenciar aquelle acto de fervorosa devoção de Christina, que supplicára por elle, enfermo, com o ardor da mais pura crença, com a effusão do mais generoso affecto.

N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que conduziam á quinta, que elle ainda não visitára, e sobre como penetrar até á capella da casa, onde devia ser cumprida a promessa.

D. Dorothéa, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os esclarecimentos precisos sem que suspeitassem das intenções com que elle lh'os pedia.

XXVIII

A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada n'um dos mais êrmos e melancolicos logares da aldeia.

O tempo, cuja acção não contrastada se exercera livremente n'ellas, viera augmentar o aspecto soturno que desde a origem apresentava esta casa, ennegrecendo-lhe as paredes, revestindo-lhe de hervas os telhados, de musgo as padieiras e as junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos e de corujas os buracos dos muros. Emfim a superstição popular terminára a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por aquellas salas e corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta, entregue á natureza.

A defuncta morgada, que não se recolhera á aldeia senão depois de ter gosado na capital de todos os esplendores da vida das cidades, e brilhando nas mais concorridas e elegantes salas do seu tempo, gosava n'esta pequena terra, onde passára o resto da vida, de uma fama de espirito forte, que em grande parte concorrera para generalisar a opinião de que a sua alma andava ainda penando por cá.

Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em relação aos annos da mocidade da morgada. A imaginação popular fazia a biographia d'aquella senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada.

A morgada, que só renunciou ao mundo quando os espelhos começaram a falar-lhe da vaidade das glorias que repousam nos encantos da belleza, passou, como succede muitas vezes, de um extremo a outro extremo, e da vida elegante ás práticas de devoção.

Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente os habitos de elegancia de que já fizera uma necessidade natural. Trajava sempre com distincção e esmero, e ao corrente das modas.

Tudo isto e as proprias devoções da morgada, acabaram por convencer o povo de que havia grandes culpas no passado d'ella, as quaes procurava remir á fôrça de missas. Dizia-se que a morte a viera tomar antes das contas saldadas, e que por isso a sua alma voltava á terra penando.

Já se vê que o logar era para apavorar as imaginações timidas, e de noite pouca gente da aldeia gostava de passar por lá.

Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais cêdo do que a hora devida, e fazendo obra pelas informações da morgadinha, dirigiu-se para os Cannaviaes para escolher posição d'onde pudesse, sem ser visto, observar Christina, não tendo ainda resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria imperturbada na sua piedosa tarefa.

A noite fizera-se escura e ameaçava chuva.

Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, já um pouco habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo, atravessou a aldeia, examinando com attenção todos os objectos que lhe deviam servir de indicadores da estrada.

Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que por apparencia, julgou ser a demandada propriedade.

Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a um lado um alto portão da quinta, do outro a capella, cuja porta Henrique achou ainda fechada.

O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver acertado.

Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a escuridão a fazer receiar grandes aguaceiros.

Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se. N'este intento approximou-se do portão. Com grande espanto seu, achou-o aberto.

Já teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na casa?... Estaria habitada a quinta?

Estas tres explicações do inesperado facto debatiam-se-lhe no espirito, sem que elle soubesse qual adoptar.

Transpoz o portão e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de vida.

A chuva caía com mais fôrça. Para se abrigar, Henrique subiu os degraus de pedra, no tôpo dos quaes havia um patamar lageado e convenientemente toldado.

Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim de um corredor pareceu-lhe divisar luz.

Henrique parou indeciso.

--Decididamente enganei-me. Não é aqui a casa dos Cannaviaes. Sempre perguntarei.

E bateu as palmas.

Ninguem lhe respondeu.

Bateu outra vez; o mesmo resultado.

Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu.

O mesmo silencio; seguiu até o fim do corredor em direcção á luz; chegou a uma sala mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada por um candieiro de metal, pousando na pedra da chaminé, em cujo fóco brilhavam ainda uns carvões candentes.

--Parece uma historia de fadas!--pensava Henrique.--Dar-se-ha que a alma da morgada goste ainda das commodidades?

Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mão. Henrique voltou-se e preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella primeiro lhe disse:

--Procurava alguem, o senhor?

--Peço perdão pelo meu atrevimento. Bati muito tempo á porta, e emfim como a visse aberta, decidi-me a entrar. Desejava saber onde é aqui a casa dos Cannaviaes.

--A casa dos Cannaviaes é esta mesma.

--Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que não morava aqui ninguem.

--E não o enganaram. Hoje por acaso é que está cá a sr.^a morgada.

--A sr.^a morgada?--perguntou Henrique, sem bem saber o que devia pensar da resposta e de tudo que via.

--Sim, senhor; a sr.^a morgada, e não tarda aqui. Ella esperava-o.

--Ah! A sr.^a morgada esperava-me?

--É verdade--disse a mulher, sorrindo.--Adivinhou que o senhor vinha aqui. E o que é que ella não adivinha?

Henrique dava tratos á imaginação para comprehender esta scena.

--Então é a sr.^a morgada em pessoa que...

--Que o convida para tomar uma chavena de chá--disse uma voz por traz d'elle.

Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz.

Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos labios e a mão estendida, com aquella habitual franqueza de maneiras, que de tantos encantos a revestia.

Henrique exclamou, admirado:

--A prima Magdalena!

--A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as honras da minha propriedade, que pelos modos está para ser muito visitada hoje. Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu muitos annos aqui com a minha madrinha, e hoje vive em casa sua do rendimento do legado que aquella senhora lhe deixou. A Brizida é quem se encarrega de vir, de quando em quando, abrir as janellas d'esta casa, para que os ratos não a destruam de todo, e os tortulhos lhe não enfeitem as paredes.

--Mas como soube que eu?...

--Isso é um segredo. Não o esperava, porém, tão cêdo, nem imaginei que nos viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraçada quando o vi. Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas fez bem em recolher-se... Ouve?

E com o gesto indicava a chuva, que já batia com fôrça nas vidraças.

--O peor é se isto não espalha e a Christina muda de tenção.

--O vento é do mar, menina; isto são aguaceiros--notou Brizida, como para desvanecer aquelle receio.

--Pois sabe que Christina vem?

--Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogão, que deve vir muito frio. Accendi o lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento, muito pouco hospitaleiro.--Brizida, olhe que se não percebam lá fóra as luzes, que podem amedrontar Christina. E feche a porta da sala. Abra o côro da capella e prepare chá para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo, porque a cozinha está pouco habitavel.

Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta, chegando uma cadeira para o fogão, sentou-se defronte de Henrique de Souzellas.

--Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais nada, responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui?

--Pois não diz que sabe tudo?

--Até certo ponto, entendamo-nos. Não vão tão longe as minhas faculdades que cheguem a devassar intenções, que por ventura á propria consciencia de quem as fórma, repugne acceitar.

--Não é esse o meu caso; as minhas intenções são reconhecidas e approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo commovente de um anjo que ora por mim. É um espectaculo a que ainda não assistira, prima. Admira-se da minha curiosidade?

--Acho-a natural e até... louvavel. O ponto está que a sua convalescença esteja bastante segura já. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias de duas doenças.

--De duas?

--Sim; e a mais rebelde não foi a de que o cirurgião o tratou.

--Então?

--A peor, aquella de que eu havia chegado já a desesperar, era a que lhe tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma doença moral; revelava-se por uma maneira de vêr as coisas, de pensar e de proceder verdadeiramente doentia.

--Estou curado d'isso.

--Estará? eu sei!... É certo que já é bom signal admittir que era doença.

--Dou pelo seu diagnostico, prima, e até pelo tratamento que me aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos negocios locaes... e sobretudo em uma paixão sincera.

--Ah! e experimentou a receita?

--Experimentei e curei-me.

--Ou tomou por fôrças de saude o que era apenas o falso vigor da convalescença? Convem não abusar; ouço dizer aos medicos que são perigosas as recaidas.

--Pois teme que eu recaia?

--Por que não? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas mortas... comquanto motivada por louvaveis intenções... tem ainda assim uma certa feição romantica... que era bom vigiar... Sempre vim para acudir a algum accidente.

--É um perfeito medico da época; não tem fé na efficacia dos remedios que prescreve.

--Tenho; mas não desacompanho a acção d'elles, isso não. Agora fale-me com franqueza: ao recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa não se lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis já?

--Confesso que algumas...

--E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do coração que o minava, tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que puzera os pés no Mosteiro, e teimava em ser cego para o não vêr.

--Desde o primeiro dia? Pois Christina...

--Christina deixou de ser creança desde aquelle dia.

--Querido anjo!

--Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella é ingenua, timida, supersticiosa até, se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma indole talhada para acalmar as paixões demasiado violentas de um caracter como o seu; para lhe fazer ter mais esperança na vida, mais coragem e mais fé no futuro.

Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para Magdalena:

--Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo tão bem as necessidades do coração dos outros, não pensou ainda nas do seu?

--E quem lhe disse que as tinha?

--Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e não se julgue tão impenetravel, que não offereça leitura aos olhos que a observam.

--Ah! Então leu?