A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia)
Chapter 23
Esta tacita provocação durou alguns minutos, no fim dos quaes poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos labios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quasi ameaçador:
Emfim soltou o texto latino do sermão.
Seguiu-se nova pausa, e principiou.
Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas paginas humoristicas da _Vida e opiniões de Tristam Shandy_, um sermão sobre a consciencia, eu não ouso transcrever para aqui o modelo de eloquencia sacra, recitado pelo missionario n'aquelle dia.
Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o tom rouco de voz, a extravagancia de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador acompanhava a recitação dos descosidos periodos d'aquella indigesta prática, talvez me animasse á empreza, para lhes dar um exemplo da vigorosa eloquencia, com que se anda atrazando a civilisação do povo e prejudicando a verdadeira religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz é abafada por aquella gritaria.
As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.
Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntaria falta á missa, uma penitencia esquecida, uma oração supprimida, arriscava as almas por toda a eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo Officio, onde os autos de fé, os pôtros, e cavalletes aguardavam os delinquentes arrastados até alli; eis o resumo da oração. A fatal e desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no portico do inferno, traçava-a este sobre os umbraes do tribunal do Eterno.
Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto de um accusador, surgindo alli a pedir vingança, e não o do Redemptor sublime a implorar e prometter perdão. E tudo isto de mistura com imprecações contra as modernas instituições sociaes, contra a obra do seculo, contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que se descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e as ideias em sentido menos favoravel á propaganda reaccionaria.
Á medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; augmentava a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens.
Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditorio, e principalmente da parte feminina d'elle iam crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos. Cêdo era já um angustioso clamor em toda a igreja. Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco impressionada por este espectaculo de desolação, voltou os olhos para Christina. Viu-a trémula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas, tendo no gesto todos os signaes de um intenso pavor.
Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e tacitamente lhe communicou as apprehensões que sentia.
Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia que se estava exercendo no animo timido de Christina.
Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as com commentarios satyricos ás palavras do sermão e á figura do orador, que ambas offereciam farto alimento para elles.
D'ahi a pouco Magdalena instava já com Henrique para que se calasse.
Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles commentarios improprios do logar.
Effectivamente não tinham passado despercebidos, do padre os commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de Magdalena; e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava mais o orador, exacerbando-lhe a virulencia da phrase.
Já não podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e por vezes a cólera, estrangulando-lhe quasi a larynge, interrompera-lhe o discurso.
Alguns ouvintes, seguindo a direcção d'aquelles olhares faiscantes, haviam attingido já a causa d'elles.
D'ahi algumas murmurações que principiaram a sussurrar pela igreja.
No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fôram ellas mais acerbas do que nenhumas. A sr.^a Catharina e as suas companheiras fartaram-se de anathematisar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no coração da filha do Cancella, dominado pelo terror que o sermão levára ao cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se fôssem já prezas do inferno, para Magdalena e Christina, a irmã e a prima de Angelo, do seu amigo de infancia, em quem já não se atrevia a pensar.
N'uma occasião em que o missionario fulminava com mais vehemencia os progressos da industria moderna e chamava redes do demonio e caminhos do inferno aos telegraphos electricos e ás vias-ferreas, Henrique approximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão tanto a proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria Christina sorriu tambem.
Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as faces apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos e estendidos na direcção de Henrique, rompeu n'estes violentos termos:
--Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui escarnecer da palavra do Senhor! Fóra do templo, impios libertinos, que não respeitaes os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos, se não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus arraze esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São esses os que trazem das cidades a peste para as aldeias; são estas as pragas que nos veem com as estradas e com a civilisação. Fugi d'elles, que trazem o demonio na alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade retró!...
E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionario estendia o braço na direcção de Henrique.
Este, desde que viu que a imprecação lhe era dirigida, levantou-se e fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder alli mesmo.
Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja má vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que se suspeitam alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As ameaças soavam já distinctas, os varapaus mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomára proporções assustadoras.
Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a presença de espirito, que nunca a abandonava, segurou o braço de Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.
Henrique resistia e procurava falar.
O velho Torquato, trémulo e enfiado, puxava tambem por elle como podia.
O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido a cabeça, e do pulpito animava a anarchia, berrando e bracejando.
Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que havia na freguezia, obrigaram, quasi á fôrça, Henrique a sair da igreja por a porta da sacristia.
Ao vêl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou-se em confusão para a porta principal, para os vir esperar á saída da sacristia, e correu clamando atordoadoramente.
E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma impenetravel parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de braços que os ameaçavam, e de bôcas d'onde partiam gritos de «morte aos pedreiros livres, aos libertinos e aos herejes.»
Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.
Henrique parou á porta, pallido, mas sem recuar deante d'aquella gente furiosa e ameaçadora.
--Que querem de mim e d'estas senhoras?--perguntou elle, com voz firme.
Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia:
--Morra o pedreiro livre!
--Ensinem esses senhores da cidade!
--Pouca vergonha!
--Isto não fica assim! Isto é de mais!
--Mação!
--Hereje!
--Quero passar!--repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso.
--Havemos de ensinar estes fidalgos.
--Excommungados!
--Havemos de lhes dar os risinhos na egreja.
Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do genio; deu um passo para elles, levantando o chicote que trazia na mão.
Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de varapaus cruzou-se sobre a cabeça d'elle.
E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros livres e herejes!» levantaram-se mais ameaçadores do que antes. Magdalena susteve, a tremer, o braço de Henrique.
E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo.
Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da sacristia, e na quéda ameaçava ferir a cabeça de uma creança que, entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se junto de Magdalena, e de olhos espantados assistia áquillo tudo com infantil curiosidade, emquanto a mãe afflicta a chamava em altos gritos, procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo as mãos para proteger a cabeça da creança, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto sereno, e em tom desaffectadamente reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse para toda aquella gente:
--Não vêem que iam matando esta creança?
Esta simples acção, e estas palavras da morgadinha, produziram mais effeito do que todos os arrazoados e todas as resistencias. Havia n'ellas claros indicios de uma indole generosa, e a generosidade foi e será sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e commover as massas. Sabem-o os especuladores politicos, que tanto se esforçam por simulal-a, quando precisam do povo.
--Quem foi que atirou a pedra?--perguntou um.
--Temos tolice!
--Nada de pedra, olá!
--Então isto é coisa de garotos!
Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam «morra» achavam já reprehensivel a primeira tentativa de lapidação. E comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a sentença. Era evidente que o maior perigo passára e que um pouco de prudencia resolveria a crise.
O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e, irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido, apesar dos esforços de Christina e de Torquato para o reprimirem.
Uma circumstancia, porém, veio inesperadamente em auxilio d'elles, e concorreu para dissipar a tempestade.
Foi o caso que, depois de ser posto fóra da igreja o Zé-P'reira, que, pelas razões que o leitor já sabe, e inda mais depois do mallogro da interpellação ao missionario, não olhava com bons olhos para este, veio desconsoladamente sentar-se no adro, sobre os degraus de um cruzeiro, tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento das suas glorias, e que ainda n'aquelle dia servira á frente da procissão.
Ahi se conservou em quanto durou o sermão. Junto do artista deitára-se a dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o que, a passadas compassadas e valentes, secundava os rufos rapidos e febris que o outro executava na caixa--pancadas que eram, por assim dizer, as virgulas d'aquelles floridissimos periodos acusticos.
Em posição de cansaço e desalento o Zé P'reira monologava, como era habito seu, sempre que tinha o cerebro repassado do espirito familiar.
Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazêlo domestico da sua cara metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das familias, e sobre tudo a indifferença que principiava a perceber nas massas para as maravilhas do predilecto instrumento, que elle conhecia a preceito.
Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortelão.
Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a philarmonica na aldeia, Zé P'reira andava triste e desassocegado.
N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um _ceci tuera cela_, como o que preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris, analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e gôsto publico entravam em nova phase, preparava-se uma revolução na arte. O reformador era o mestre Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira extravagancia romantica comparada á simplicidade e nobreza classica dos portentosos rufos do Zé P'reira, o mestre de latim realisou um commetimento digno de menção na historia da arte.
Pobre Zé P'reira!
Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o, havia perto de uma hora, em uma posição contemplativa deante do tombado instrumento de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se n'aquelles olhares fixos uma melancolia quasi poetica.
N'esta contemplação o surprehendeu a tumultuosa e subita saída do povo pela porta da igreja, e as scenas de motim que se lhe seguiram. A intelligencia pêrra de Zé P'reira não achou logo a explicação do que via. Pouco a pouco porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão, principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular.
Os instinctos ordeiros e pacificos de Zé P'reira acordaram, e o homem ergueu-se.
Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao tiracollo a alça do tambor.
Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satellite, que, estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do acompanhamento.
Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena. Então o Zé P'reira não esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um signal ao rapaz, e...
_Pom_--fez a baqueta d'este, caindo com toda a fôrça sobre a retesada superficie do bombo.
_Taplão, taplão, rataplão, rataplão_...--responderam as baquetas movidas pelas amestradas mãos do Zé P'reira.
Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na direcção do som.
O Zé P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo das baquetas; começava a ganhal-o o vapor do enthusiasmo.
Principiou a acudir o povo para junto do artista.
Este tomára-se já do _raptus_, do phrenesi musical. Já não eram só as mãos, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que rufavam. De olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas offegantes, contrahidos quasi tetanicamente os musculos do pescoço, a vergal-o para traz, Zé P'reira parecia endemoninhado. Não via, não ouvia, não sentia, não tinha consciencia de si, nem dos seus actos; todo elle era fogo, delirio, convulsão, febre, loucura. Parecia que poderosas correntes electricas se transmittiam do tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor, desafiando aquelles movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos, aquellas visagens extravagantes, aquellas contracções geraes, que o torciam, desconjunctavam e desfiguravam.
Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro, tudo era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou, rufou com desespero, rufou até as baquetas se não avistarem, de rapidas que se moviam; rufou até o ouvido quasi não perceber a descontinuidade dos sons; rufou finalmente até cair por terra exhausto, no collapso que succede ás convulsões do espasmo. Se tinha de ser aquelle o declinar de uma gloria, todos os astros lhe invejariam tão esplendido crepusculo.
O povo inteiro applaudiu o artista.
E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam já fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da familia do Mosteiro. O povo dispersou pacificamente.
XX
Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos.
O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe é impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma terra, mal pode fazer ideia da sensação que produz no habitante de uma aldeia, villa ou cidade pequena, a presença de uma cara estranha.
Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta curiosidade instiga-o a decifrar a significação d'aquelle apparecimento.
Isto aconteceu com o Cancella.
Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, não tirou mais os olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e largos chapéos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas escuras.
--Passaros de arribação...--pensava o Herodes comsigo--que vento traria isto para aqui?
E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente.
Um d'elles dirigiu-lhe a palavra:
--Olá, ó amigo, onde ha por aqui uma casa habitavel, em que nos alojemos?
--Por pouco ou por muito tempo, meu amo?
--Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada.
--Ah! então v. sr.^{as} são engenheiros?
--Julgo que sim.
--Então, visto isso, as estradas sempre vão principiar?
--Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que não.
--Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, não tem nada que saber; os meus amos vão por ahi sempre a direito, e lá adeante, chegando ao pé de uma oliveira, tomam á sua mão esquerda por um caminho estreito, que tem uma cancella no fim; depois, logo que virem uma nora, carregam á direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, até chegarem á eira; ahi tomam por um outro atalho, que está ao lado e vão dar a um larguinho... Depois não tem que saber, deitam pela rua em frente e perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.
Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a explicação.
Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os engenheiros.
--Se v. s.^{as} querem, esta pequena vae ensinar-lhes o caminho.
Acceitaram contentes, e cêdo partiam, precedidos por a pequena cicerone.
--Grande novidade!--ficou dizendo o Cancella comsigo--sim, senhor; com que vão principiar as estradas! Pois nunca cuidei que fôsse nos meus dias. Então... querem vêr que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que vae abaixo a casa e o quintal do tio Vicente?... Pois se querem vêr... O pobre homem estala de paixão, se isso assim é; isso é com certeza... Pois, senhores... isto de estradas... é bom, é; pois não é? Sempre é outro arranjo para quem tem de ir á cidade...
Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe ainda, divisou affixado á porta da igreja um edital. Outra circumstancia que nas cidades nem nos obriga a desviar a cabeça, porém que nas aldeias toma as proporções de um grande successo.
--Ui! Temos novidade--disse o Herodes ao vêl-o.--Edital á porta da igreja!--e approximou-se para ler.
Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim já construido. Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e murmurando contra o governo e contra o conselheiro, e falando de opposição e motim.
--Bom, mais outra!--dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.--Grandes coisas se passaram cá na terra, emquanto eu andei por fóra! O peor é que não sei se a coisa irá assim ás mãos lavadas; ao que já ouço por ahi rosnar!... É o diabo!... Eu digo, não sei se é do costume em que uma pessoa se põe... mas... lembrar-se, a gente de que fica assim á chuva e ao sol... Mas é do costume, é... Bem sente lá uma pessoa o frio depois de morta.
E fazendo estas reflexões proseguiu no seu caminho.
Passou por uma pequena capella, erecta á borda de um pinheiral, sob a invocação da Virgem da Esperança, e reteve-se a fazer oração. Áquella imagem costumava encommendar a filha, sempre que saía da aldeia, e no regresso pagava-lhe em fervorosas orações a protecção obtida, e separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez, porém, ficou triste e sobresaltado. Porquê?
É que se lembrára de que tinha, ao partir, deixado Ermelinda doente, e estremecia agora na incerteza de como a iria achar.
Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes, tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros da casa parou irresoluto.
Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para nós um mesmo aspecto. Ha occasiões em que as casas, as arvores, os muros, as portas, se nos mostram com certos ares melancolicos, e quasi direi pensativos, que nos enchem de sombras o coração; outras em que umas apparencias de sorrisos lhes dão uns ares de festa que alegram e convidam.
Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas.
Seria o effeito das tintas desmaiadas, que dá aos objectos o sol crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe estavam confrangendo o coração? Mas como lhe acudiram tão de subito esses presentimentos, a elle, ainda pouco tempo havia tão despreoccupado! Como lhe occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em que, voltando tambem de fóra, viera encontrar quasi morta a mulher, que chorava ainda, a mãe de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte obscura da vida moral, da qual ainda a analyse não conseguiu devassar as sombras.
Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os pés nos primeiros degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre, não tivera coragem de perguntar; receiou sair da incerteza.
Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que encontrou aberta.
Logo ao entrar, recuou espantado e não reprimiu uma exclamação de surpreza.
Fôra a causa o achar novidades na primeira sala.
Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que não deixára alli ao partir. E ninguem a recebel-o.
--Crédo!--disse o Cancella, desgostoso.--Para longe o agouro! Cruzes negras á chegada! São coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me scisma em casa e na cabeça da rapariga, e se não lhe acudo...--Ermelinda!--exclamou, chamando por a filha.
Como não recebesse resposta, passou para os aposentos interiores.
Á entrada do corredor descobriu uma pequena pia de louça cheia de agua benta, em que mergulhava um ramo de alecrim.
--Mau!--disse o Herodes, cada vez mais descontente.--Vou vendo que a minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus... Ermelinda!
E correu toda a casa, que não tinha muito que correr, e explorou o quintal, e sem achar a filha; já inquieto, chegou a um quarto mais retirado, o unico que ainda não revistára. A porta estava fechada por dentro, porém a péquena cravelha fraca resistencia oppoz á pressão que na porta exerceu o Herodes.
Franqueando assim a passagem, parou no limiar.
Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um canto escuro do quarto.
--És tu, Linda? Estás ahi?--perguntou o Cancella, affirmando-se n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer,
--Meu pae... respondeu com voz fraca.
--Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este quarto, filha? no quarto mais escuro e mais abafado de toda a casa? Chega-te cá, rapariga, quero-te abraçar e beijar... Então que é isso?... Tens hoje tão pouca pressa de abraçar teu pae?... D'antes, até ao caminho me vinhas esperar... Vem cá, minha filha, vem cá... Se soubesses como me consola...
E estendia os braços para a filha, que lhe viera emfim ao encontro. Quando, porém, a viu mais perto da luz, calou-se subitamente e principiou a examinal-a com inquieta anciedade. Depois, como se lhe não bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer não sei que suspeitas assustadoras que o devoravam, trouxe, silencioso ainda, a filha para o corredor, e continuou ahi a fital-a com os olhos eloquentes de paixão e de espanto, bradando emfim, com voz consternada:
--Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás doente? Estas não são as tuas feições... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem côr... sem risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Estás doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, fala!
A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.
--Meu Deus! Isto que é, meu Deus?--exclamava, mais assustado, o pae.--Choras ainda mais? Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu não tens pena de mim? não chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar; mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Então?