A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia)

Chapter 22

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Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de bôca aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro só Angelo sorria, elle só interpretava o milagre. Todos os mais escutavam silenciosamente aquella voz de creança, que, em campo descoberto e no meio de tantos espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse alguma coisa de sobrehumana.

Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro rompeu este quasi encantamento. Profundamente impressionado tambem por aquella scena, exprimiu n'um «bravo» todo o enthusiasmo que sentia. Foi o signal.

O silencio degenerou na mais altisona ovação.

O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a sustentar, a logica da situação, e tomando nos braços musculosos o corpo debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para a beira do palco; os outros actores disputavam-lh'a; do pateo estendiam-se centenas de braços para a receberem; das janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a, os lenços das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes parecia devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo e de paixão; e Ermelinda foi de braços em braços, entre beijos e afagos, transportada do tablado para a sala do Mosteiro, onde não foi menos calorosa a recepção.

Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esforços do mestre Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de vêr as restantes scenas, com grande desgosto dos actores que entravam n'ellas.

O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se não fôsse bastante pathetico para commover.

--Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os dizia!--exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena que vira.

Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe:

--Foi Augusto que fez aquelles versos?

Angelo sorriu.

--Por que me perguntas isso a mim?

--Porque o deves saber.

--Então não crês no milagre?

--Responde.

Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o conselheiro:

--Se eu digo a v. ex.^a que o Bernardim existe.

--Mas quem é?--perguntou o conselheiro.

--Não sei; porém posso afiançar a v. ex.^a que não são estes os primeiros vestigios que encontro d'elle. As paredes das capellas dos montes são as suas confidentes. Não está certa, prima Magdalena, de umas quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora da Saude?

--Sim; recordo-me.

--Não acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que a levem a attribuil-as á mesma pessoa?

--Estou pouco habituada a analysar estylos, primo.

--Mas talvez este lhe seja habitual.

Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a accrescentar:

--Por muito o vêr por ahi desperdiçado por paredes de capellas e ruinas, e nos troncos das arvores.

Ermelinda foi de uma discreção impenetravel. Quando lhe perguntavam quem lhe ensinára os versos, sorria, respondendo que não sabia, ou que não podia dizel-o.

--Apostemos que n'isto entra Angelo?--disse o conselheiro.

O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fôra pura inspiração.

Henrique, aproveitando uma occasião em que estava proximo da morgadinha, disse-lhe ao ouvido:

--Parece-me que ia pôr o dedo no rouxinol silvestre, que tão bem canta sem se mostrar.

--Sim?

--Não ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas immediações. Estas aves melancolicas amam as inspirações nocturnas.

--Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo. É a hora favoravel á espionagem e ás... calumnias... Mas se sabe quem é, diga-o. Aqui em minha casa e no seio de minha familia, é sempre bem recebida a verdade. Não ha quem se tema d'ella.

E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.

--D'esta vez foi de uma severidade!!--pensou Henrique.--Cada vez me convenço mais de que o idyllio existe e que vae já muito adeantado. Mas agora me lembro; e o meu duello com o Romeu, que nunca mais vi? Não foi má tolice aquella minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que o caso não vale a pena.

O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fôra d'esta vez mais intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da tenção que alimentava ainda, pois disse a Christina:

--Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que a elle.

--Que dizes?!

--Nada. Ha doenças que fazem desesperar os medicos.

Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram no pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos proprietarios, fôram dispersando pouco a pouco.

A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para as serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a quem era devido o cantar os Reis.

Angelo saíra da sala. Fôra para o fim da rua de sobreiros, anterior ao pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus.

Á medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras á fronte e ao coração do pobre rapaz.

Era a noite de Reis, a ultima dos dias de férias; na manhã seguinte devia partir com o pae para Lisboa.

Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades não se amontoam no coração das creanças ao expirar o termo d'esse feliz espaço de tempo, que viveram para os carinhos da familia e para os folguedos despreoccupados!

Percebe-se em nós mesmos aquella imminencia de lagrimas, que á menor palavra rebentam.

Quem não terá recordações de infancia a falar-lhe d'isto?

O pateo despovoára-se de gente; através das vidraças da casa viam-se já brilhar as luzes interiores. Com o olhar fito no chão, a cabeça inclinada, Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e mulheres, sem que elle désse por isso.

De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos. Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae ficára atraz a pôr em ordem as roupas e mais objectos que serviram no auto.

--Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus--disse Angelo.

--Então vae-se embora?

--Vou ámanhã--respondeu Angelo, com a voz presa de commoção.

--Muito cêdo?

--De madrugada.

Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado.

--E agora quando volta?

--Eu sei lá? agora... só para agosto.

Novo silencio.

--Então... adeus...

--Adeus, Ermelinda.

E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo estreitou contra o peito aquella que de pequena tratára como irmã, e que chorava ainda mais do que elle.

Que melancolico fim de dia tão alegre!

A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou.

--Ermelinda--disse logo a voz esganiçada e colerica, que saiu d'aquelle vulto.

Ermelinda estremeceu ao ouvil-a.

Era a mulher do Zé P'reira que voltava das suas devoções e ficára surprehendida com o espectaculo que vira. A assustadiça castidade d'aquella matrona toda se alvoroçou com a tocante despedida das duas creanças.

Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou pelo braço e a levou comsigo.

Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das mãos d'aquella harpia a innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o.

A sr.^a Catharina do Nascimento de S. João Baptista ia dizendo, ao levar comsigo a afilhada:

--Que terão ainda de vêr meus olhos, meu Divino Pae do Céo? Que mundo este de abominação, meu doce Jesus! Ó Virgem das Dores, isto é para se vêr e não se crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer, e já assim com a alma perdida! Ó meu Jesus crucificado!...

--Minha madrinha--dizia Ermelinda, chorando.

--Anda, anda, anda, minha amiga, que já os demonios saltam e riem de contentes. Teu pae é que tem a culpa. Isto são lá modos? trazer-te por entremezes, que são artes do demonio, e arredar-te da igreja, que é a casa do Senhor! É a missa dos domingos, e acabou-se. Os resultados são estes!... Ai, filha, que muita penitencia te é já precisa para salvares a alma!

--Minha madrinha, minha madrinha, por as almas não me diga isso--exclamava Ermelinda, aterrada.

--Os tres inimigos da alma te farão guerra, creatura, assanhados como cães raivosos... Eu previa isto... É o lucro de andar por essas casas de Satanaz, onde não ha religião nem temor de Deus... Ó meu divino Jesus, e para isto tanto padeceste por nós! E nós tão pouco caso fazemos dos vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois queixamo-nos da vossa justiça, quando já ardemos nos fogos do inferno...!

A pequena Ermelinda tremia cada vez mais.

A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas exclamações, bramando contra o peccado, contra a familia do Mosteiro, que acoimava de herejes, contra o pae de Ermelinda e contra esta, e, no seu fervor religioso, desenvolvia sobre o thema do peccado dissertações não em demasia apropriadas aos ouvidos de uma creança.

O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficára-lhe uma horrivel convicção de que tinha a alma perdida, e com lagrimas ardentes pagava a pobre creança bem caro as alegrias d'aquella tarde, de que já tinha remorsos. Este desalento e pavor quasi a fizeram doente.

Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao abraçal-a, Interrogou-a; pediu, ordenou; nada pôde saber que explicasse os vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se instava, provocava-lhe o pranto; desistiu pois.

Pobre pae! não pôde dormir aquella noite! Logo de madrugada teve de levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em recovagem.

Deixou Ermelinda a dormir; não a quiz acordar; beijou-a na fronte desmaiada, abençoou-a e saiu.

--Comadre,--disse ao passar por casa do Zé P'reira--ahi lhe deixo a pequena. Olhe-me por ella, que não está lá muito boa.

--Vá com Deus--disse uma voz de dentro.

Era a sr.^a Catharina.

O recoveiro partiu, silencioso e triste.

XIX

No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a muitas saudades. O conselheiro devia voltar sómente por occasião das eleições geraes que estavam proximas.

Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro, estava Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas conferencias de coisas de pouco interesse e ás quaes elle ligava a minima attenção.

Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da cadeira; D. Dorothéa, de mãos cruzadas deante da cinta, falava; Maria de Jesus que, depois de pôr em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume patriarchal, tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a memoria da ama sempre que esta emperrava, corrigia-lhe as involuntarias e frequentes inexactidões em que a via cair.

Henrique habituára-se já a estes placidissimos habitos; e apesar de não ligar attenção á conversa, ou por isso mesmo que lh'a não ligava, achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam agradavel.

Depois de muitas voltas a conversa caíu sobre as occorrencias do auto dos Reis.

--Eu ainda estou para saber como aquillo foi!--dizia D. Dorothéa.--Quando me lembro! Como aquella rapariga falava!

--Ó senhora; olhe que já me disseram que a pequena tinha espirito--disse Maria de Jesus, com ar de mysterio.

--Olhem o milagre!--respondeu D. Dorothéa.--Por essa estou eu.

--Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a mesma.

--Então é mais do que certo.

--Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!--disse Henrique, rindo.--Então parece-lhe que traz espirito aquella creança?

--Pois, menino, aquillo a falar a verdade!

--E não é mais natural suppôr que alguem lhe ensinou os taes versos?

--Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e até que aquelles não calhavam bem nas lôas?

--O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo á pequena e até suspeito com que fim.

--Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. Tambem o filho do Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas tão bonitas, que nem um livro. A senhora não se lembra?

--Ora se lembra!

--Digam-me--insistiu Henrique.--Quem ha aqui na aldeia que faça versos?

--Versos!--repetiu a D. Dorothéa, admirada.--Ninguem, que eu saiba.

--Ó senhora! Então o João do Trolha? Não deita tão bonitos versos nos desafios?

--Sem ser o João do Trolha--tornou Henrique, sorrindo.

--Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, não se lembra, senhora, dos versos que elle botou?

Viva a senhora D. Dorothéa, Raminho de bem-me-queres, Quando põe a sua touca É a rainha das mulheres.

--E depois a mim:

Viva a senhora Maria, A perola das criadas, Quando se chega á janella Ficam as estrellas pasmadas.

--Ora com o que você vem, mulher! Não tinham as estrellas mais que fazer do que pasmarem--disse D. Dorothéa.

--Isso é por dizer, senhora; já se sabe que... sim... como o outro que diz...

--E além do João do Trolha, quem ha mais que faça versos?--perguntou Henrique.

--Que eu saiba...--disseram as duas.

--E aquelle Augusto?

--O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim! Credo! Não, aquillo é um rapaz de muito juizo.

--Isso não tira. Então a tia julga que só os tolos fazem versos?

--Tolos não digo, mas...

--Mas um pouco feridos na aza, não é verdade?

--Ora pois então dize-me tu, menino, se um homem sério... sim... um homem de respeito, faz versos?

--Por que não?

--Versos?!

--Versos, sim, senhora.

D. Dorothéa fez um gesto de incredulidade.

Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da entrada e após algumas pancadas á porta da sala.

--Abra, tia Dorothéa--disseram de fóra as vozes de Magdalena e de Christina, que fôram logo reconhecidas.

E cêdo depois entravam alegremente na sala, em companhia de D. Victoria, que vinha mais retardada.

D. Dorothéa levantou-se para recebel-as.

--Bons dias ou boas tardes, tia Dorothéa, porque me parece que já jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Victoria, que não nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do missionario--disse a morgadinha.

--Eu não; para apertos e barafundas é que não estou.

--E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorothéa.

--Então? Não quero passar por impenitente. Ainda o não ouvi. Pode crer? Além de que percebi na Christe um fervor, com o qual quiz condescender.

--Dizem que préga tão bem--atalhou Christina.

--Pois prégará, mas eu é que já não estou para sermões--ponderou D. Victoria.

--Vou eu tambem ouvir o missionario--disse Henrique, levantando-se.--Já m'o mostraram ha dias. Se os dotes oratorios do homem corresponderem á figura...

--Então?--interrogou D. Dorothéa.

--É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, typo da grossura do pulso.

--Pois bom é que vás, menino--disse D. Dorothéa--para acompanhares as pequenas.

--Como quizer, primo,--acudiu Magdalena--mas não se constranja. O Torquato tambem vae.

--Que quer dizer? Que me dispensa?

--Não; mas que se é só por condescendencia que...

--É por prazer. É por devoção.

--N'esse caso...

E Henrique foi procurar o chapéo para acompanhar as duas primas á igreja.

O Santo Amaro fôra festejado com espavento na freguezia da sua invocação. Vesperas, missa cantada, duplo sermão, e procissão á volta da igreja, nada faltára para solemnisar a festa.

O sermão da manhã fôra prégado por o abbade; o da tarde havia sido concedido ao missionario, que o aproveitára para uma das suas catechéses.

A procissão já tinha recolhido, quando chegaram á igreja a morgadinha e Christina, na companhia de Henrique e de Torquato. Havia no adro muita gente, e algumas barracas de doce e de café, como n'um arraial.

Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como em bôca de sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as aguas impetuosas.

A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão.

As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram, por deferencia excepcional dos mesarios, entrar pela sacristia para a capella-mór.

Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella occasião. Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e lugubre parecia com a extraordinaria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres de roupas escuras e em que só alvejava o lenço branco que usavam á cabeça.

Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar.

Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom, orações e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se escutavam lá fóra, e requintava a triste impressão que se recebia ao entrar. Alli um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de pias orações, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces rojadas no chão, batendo no peito e desentranhando exclamações, para commoverem a Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de braços abertos deante da imagem da Virgem; outras amortalhadas, em cumprimento de promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia uns pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. Ás portas d'estes nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as lapas nos rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro a circumstanciada exposição dos peccados da semana, e recebendo de lá regras de bem viver, preceitos de devoção, ás vezes exaggerada e inspirada de certa moral de convenção, com que a ignorancia ou a má fé porfiam em falsificar os simples e luminosos dictames da moral, que a consciencia reconhece e que o Evangelho apregôa.

Ás vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das confessadas; e exhausta de fôrças, abatida de animo, descrendo da misericordia divina, ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo cego, senão hypocrita, lhe pintára inexoravel verdugo. Quando outra se não succedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes cubiculos, e sair de lá um padre de batina, sócos e capote de cabeção, satisfeito de si, e revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles gemidos surdos, n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo, tristes indicios de desalento moral, com que conseguira quebrantar os ingenuos espiritos que dirigia pela intimidação cruel.

De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre á igreja, que nem as luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.

Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.

Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que nutria contra o clero, cuja influencia moral, aliás justa e vantajosa, é cada vez mais diminuida por aquelles dos seus membros que pretendiam augmental-a por meios improprios da sublimidade da sua missão e até dos preceitos da religião, de que se dizem ministros.

Henrique fez algumas reflexões n'este mesmo sentido a Magdalena, que não pôde deixar de apoial-as, tanto mais que sabia o animo de Christina, que os escutava, não de todo superior a este apparato terrorifico.

A hora marcada para o sermão approximava-se; haviam-se já evacuado os differentes confessionarios, e o povo cada vez se apertava mais em todos os pontos da igreja e trasbordava para fóra das portas do templo. Quem de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande distancia, na rua, se prolongava a multidão.

Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a cabeça coberta por a capa de panno, com que rodeava o crivo do confessionario.

Nem o menor movimento revelava animação n'aquelle vulto.

Henrique notára essa immobilidade, que ao principio o fez sorrir; depois causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar. Qual, porém, não foi a sua surpreza e a de Magdalena, quando, ao terminar a confissão, reconheceram as feições da penitente por as de Ermelinda, a filha do Herodes, a formosa e amoravel creança, que, dias antes, tanto enthusiasmo causára, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos labios, que tanta graça lhe davam!

E era esta creança que tão longos peccados tinha a narrar, para assim ficar tanto tempo aos pés do confessor?

Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestigios de lagrimas, e, como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os grupos de mulheres ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado da madrinha e cêdo rojava com ella a fronte no chão, que regava de lagrimas ferventes.

Pobre creança! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas? Que culpas teria a expiar aquella inconsolavel dor?

O confessionario d'onde ella se afastára, abriu-se, emfim, e ás vistas, que para alli se voltaram, mostrou um padre gordo, córado, de olhos e fronte pequenos, cabellos grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das sobrancelhas. O homem parou algum tempo a fitar o auditorio.

Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum animou aquellas cabeças todas, quando este homem appareceu.

Era o missionario.

A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente triumphal. Curvaram-se até ao chão as beatas, beijando-lhe a mão ou as borlas da batina, e pedindo-lhe a benção, que elle distribuia com profusão.

Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi do chão um estorvo.

Zé P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle, gesticulando e realisando um triplice e admiravel esforço para firmar as pernas, para abrir os olhos, e para desembaraçar a lingua.

Dizia o homem:

--Ó sr. aquelle... ó sr. padre, ou missionario, ou lá o que é... eu quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A religião manda... Quando um homem se casa...

O missionario não esperou pelo fim da inesperada interpellação; com modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de cólera:

--Então que desafôro é este? Deixam um homem n'este estado vir ter commigo?!

E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo, que rira do desengano do Zé P'reira. Os mordomos acudiram logo para afastarem o Zé P'reira d'alli para fóra. Elle deixou-se ir, limitando-se a dizer mansamente:

--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Então uma pessoa não pode dizer o que sente?

Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir:

--Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!

Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha:

--Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas não é mais de magarefe do que de pastor?

O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio pharisaico. Henrique arrostou-o com audacia provocadora.

O padre entrou para a sacristia.

No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão, o mais commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto.

No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e pouco attrahente do famigerado educador dos povos.

Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com firmeza.