A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia)
Chapter 20
Henrique, na presença d'estes sitios, recordou-se da scena da vespera e tentou outra vez experimentar Magdalena.
--Esta porta é da quinta do Mosteiro, não é, prima?
--É--respondeu Magdalena, imperturbavel; e voltando-se para Angelo:--O que te faz lembrar esta porta, Angelo?--perguntou ella.
--Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós ambas já de noite, e sem a tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que voltava da caça das borboletas.
--Fica perto a casa d'elle?--perguntou Henrique.
--É alli, logo ao dobrar d'aquella esquina--respondeu Angelo.
Henrique pensava:
--Seria para provocar uma explicação que ella fez a pergunta? Esta mulher é admiravel! Não lhe sei resistir.
E já lhe não restavam vestigios da impressão causada por Christina.
--Este herbanario--continuou elle em voz alta--deve, pelos seus habitos excentricos e até pelo solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra certa famazinha de feiticeiro.
--E tem,--affirmou Magdalena--mas de feiticeiro bem intencionado.
--Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle, do seu viver.
--É certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar de todo o bem que elle faz de dia.
--Ah! Então temem-se de passar aqui de noite!... Pobre homem!... O que lhe valerá é algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia. Que diz, prima Magdalena? haverá?
Antes que a morgadinha respondesse, Angelo disse:
--Á excepção de Augusto, que ahi vem quasi todas as noites, ninguem mais o visita.
--Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas as noites?!
Magdalena luctava para reprimir a impaciencia.
--Lá me parecia que havia de existir algum de coragem. Para tanto não chegava o seu animo não, prima?
--Tanto chega, que já muita vez alli tenho ido só, e a altas horas--respondeu Magdalena com a maior firmeza.
--Sim?! E não tem mêdo?
--De quê? De almas do outro mundo? não tenho crença para tanto. De malfeitores? não os ha aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com uma suspeita me offendem--disse a morgadinha, accentuando com expressão as ultimas palavras.
Henrique acudiu immediatamente:
--Longe de mim duvidal-o.
E calaram-se por muito tempo.
Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho para casa do herbanario. Cruzou-se com varios homens, mulheres e creanças de aspecto doentio e soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos, creanças de aspecto rachitico e enfezado, os mais melancolicos exemplares do infortunio humano.
--São os peregrinos que veem de Meca--disse comsigo o conselheiro.--Pelo que vejo a clientela do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel, como d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor não trata com muito respeito o codigo.
Entrou emfim a porta do quintal.
Poucos passos andados encontrou-se com o Zé P'reira, que vinha virando e revirando nas mãos um papel e monologando, segundo o costume:
--Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso Senhor com esta mexerofada! Isso até era um peccado. N'essa não caio eu!
O conselheiro interrogou-o sobre as causas d'aquelle aranzel.
O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe dera o herbanario no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho, causa dos seus males. A receita era extrahida da _Polyantheia_, e tinha por ingredientes uma cabeça e sangue de carneiro, cabellos de homem e figado de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe a efficacia.
Depois de se separar do Zé P'reira, o conselheiro seguiu por uma rua de limoeiros, e como homem a quem era familiar a topographia do quintal. Cêdo chegou á vista do herbanario, que dera audiencia _sub tegmine fagi_.
Estava sentado á borda de um tanque, a que uma d'essas arvores dava sombra.
O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros e veio ter com elle.
Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e, depois de reconhecer quem era, retomou a sua primeira posição e ficou silencioso.
--Bons dias, Vicente--disse o conselheiro com familiariedade e parando defronte d'elle.
--Bons dias, Manoel--respondeu o herbanario, deixando-se ficar sentado.
--Saía agora d'aqui um homem, que julgo será rebelde a toda a tua medicina. Padece de mal que se não cura.
--Os vicios são enfermidades mais rebeldes do que os achaques do corpo, são.
--Já que tu não appareces no Mosteiro, como d'antes, para solemnisar comnosco as festas do Natal, vim eu vêr-te.
--Obrigado.
--A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente--continuou o conselheiro, sentando-se á beira do tanque.--Cada vez te estás a sequestrar mais dos homens, cada vez mais os aborreces.
--Eu não aborreço os homens, enganas-te. Não os aborrece quem passa a vida a procurar os meios de alliviar os padecimentos dos seus semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro já no mundo pouca gente com quem me entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle.
--És um homem singular; um verdadeiro philosopho. Ora dize-me: e em que cogitas tu, quando assim passas uma manhã inteira, sentado n'esse banco, com os joelhos ao sol, os braços cruzados, e os olhos no chão?
--No passado. Pois não t'o disse já? O domingo reservo-o eu para me recordar. Ahi está que ha pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques na igreja, lembrei-me de que era, dia de Natal, e o meu pensamento voltou quarenta annos atraz a um dia igual ao de hoje. Lembras-te d'elle, Manoel?
--Do dia de Natal de ha quarenta annos? Não.
--Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois annos que, mais cêdo do que estas horas, vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou menos a idade que hoje tem teu filho Angelo. Meu pae saíra; julgámos nós ambos boa a occasião de levar a cabo um projecto que havia muito tempo traziamos na cabeça. Crescia a um canto do muro, além, á beira do poço, uma pequena faia que alli não podia durar muito tempo; meu pae todos os dias a ameaçava com a enxada e a custo a tinhamos defendido. Resolvemos transplantal-a. Deitámos mãos á obra essa manhã, e, no fim de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a para onde a deixassem em paz os hortelões, e para junto da agua que ella já tinha procurado. Conheces a arvore hoje?
--Não--disse o conselheiro, olhando em roda, como á procura de algum pequeno arbusto.
--Olha que ha quarenta annos; a planta é hoje arvore. É esta a que me encosto.
O conselheiro levantou então os olhos para os ramos vigorosos da arvore, como se lhe parecesse impossivel ter sido removida para alli por suas mãos.
--É singular como os annos correm, e as arvores crescem depressa--disse elle, distrahidamente.
--Depois da nossa tarefa, sentámo-nos--proseguiu o herbanario.--Tu ficaste, exactamente como estás agora, á beira d'este tanque. Então, lembra-me bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto, que ainda não sabiamos se viveria, tu disseste: «Fizemos uma obra que durará mais do que nós.» E eu respondi: «Quem sabe? O machado vem, quando menos se espera.»
--Como te lembras bem d'essas coisas!--disse o conselheiro, sorrindo constrangidamente, porque não agourava bem do exordio que abrira a entrevista.
--Ai, eu tenho boa memoria!
Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu subitamente, dizendo:
--Mas a final o que te trouxe hoje aqui?
O conselheiro respondeu com resolução:
--Vêr-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave.
--Sim? E commigo é que vens tratar os objectos graves?
--Por que não? sempre foste homem de bom conselho.
--Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste assim.
--Não poderás dizer que deixasse alguma vez de te respeitar. Os nossos genios differem, os nossos diversos habitos da vida ensinaram-nos a pensar diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi procedem divergencias naturaes, que comtudo nos não obrigam a deixar de nos estimarmos, julgo eu.
--Bem, então dizias tu que vinhas?...
--Trata-se de um negocio de muita importancia, Vicente.
--Dize.
--Responde-me primeiro: tens ainda animo para sacrificios?
--Pouco tenho que sacrificar.
--Tens, e é um sacrificio doloroso.
--Acaba.
--Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este quintal, para abrir por aqui a estrada em projecto.
O herbanario, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpreza estas palavras, e respondeu, com certa ironia:
--E para que me vens consultar? Posso eu oppôr-me a isso? Avisas-me para eu me arredar a tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do que eu, a fim de que não me esmaguem ao caírem decepadas? És generoso, Manoel, em teres ainda em conta a vida de um homem inutil.
--Ahi estás já com as tuas recriminações. Acredita que eu...
--Não mintas, Manoel, não mintas. Ias dizer que não tinhas tomado parte n'este projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e dize tudo. Entre mortificares o coração de um velho e pobre amigo e offenderes os interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro partido; e, como os differentes habitos de vida te ensinaram em muitas coisas, como dizes, a pensar differente de mim, não déste a isso o nome de ingratidão.
--Ouve.
--Sê franco, que eu te ouvirei.
--Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era indispensavel que esta estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava n'isso empenhada a minha palavra e a minha honra. Ha muito que os meus adversarios me fazem guerra por causa d'ella. Trabalhei e consegui, apesar d'esta situação politica me ser contraria. Tres traçados se offereciam. Um sacrificava uma grande parte dos bens de meus filhos, de Angelo que não é muito rico, que está no principio da existencia e que só Deus sabe se no decurso d'ella não teria occasião de maldizer a imprevidencia de quem devera olhar por os seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo, convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querias que o fizesse? ou não me desculpas por o não ter feito?
--Fizeste bem--respondeu o herbanario.
--O outro traçado cortava os bens do brazileiro Seabra. Conheces este homem? Um elemento que, nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas tambem uma cabeça que, entregue a si, não faz coisa de geito. O homem oppunha-se formalmente a esse traçado; se o não attendesse, declarava-se, por despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia (e algumas armas tem para luctar), imagina a calamidade que seria para este circulo o confiar áquellas mãos os seus destinos; vencido, era perder a esperança de tirar dos bem fornecidos cofres, que o homem possue, alguma coisa mais util do que um sino para a igreja ou vestimentas novas para as imagens dos altares. Eu ando a catequisar o homem, para vêr se consigo d'elle uma casa para escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos, e um estabecimento sericicola; se o desattendesse, lá iam as esperanças d'estes melhoramentos tão uteis, e que o mais que nos poderão custar é um diploma de visconde ou uma commenda. Sei que te não agradam estes meios, porém olha que em politica são dos mais innocentes que podem empregar-se. Já vês pois que o segundo traçado tinha desvantagens para o circulo, por cujo interesse me empenho devéras; podes crel-o. Resta pois o terceiro traçado que, lealmente o confesso, não era o melhor, nem scientifica nem economicamente considerado; eu sabia de mais o que valia para o teu coração o sacrificio que se te vinha exigir; eu mesmo possuo memorias ligadas a estas arvores, e não ha homem que, aos cincoenta annos, veja sem repugnancia desapparecerem os vestigios dos seus tempos de infancia e de juventude; mas sabia tambem que tu eras uma alma generosa e heroica, e que não duvidarias comprar, á custa das tuas dores e saudades, um melhoramento para esta terra, que tanto amas. Esta estrada, promettida ha tanto, e concedida ainda agora de má vontade, corre risco de se não fazer, se, quanto antes, não principiarem os trabalhos; a menor opposição dos proprietarios, o menor embargo dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura indefinido. Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente. Enganei-me?
O herbanario estava cada vez mais pensativo.
--Pensaste bem. A velhice é assim; e eu queria dar mais importancia a dois annos de vida que me restam, do que á vida nova que vae haver para esta terra. Fizeste bem.
--Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que, dissipa as apprehensões com que estás; em toda a parte terás arvores...
O herbanario interrompeu-o:
--Se não entendes o amor que eu tenho a estas, não faças por consolar-me, Manoel, porque me affliges mais.
--Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em qualquer das nossas propriedades, tens sempre um logar vago á tua espera, tanto á mesa, como ao canto do fogão, e amigos que te receberão com prazer.
--Não receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de pobre teria tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem que semeei.
--Eu farei com que o contracto da expropriação seja o mais favoravel possivel. Vejamos, em quanto avalias...
--Não falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero, ninguem m'o pagaria; a não attender a isso, tudo será pagal-o bem.
--Mas...
--Não falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores me ouçam propôr o preço por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, então...
--Tudo. Dize em que te posso servir.
--Peco-te que decidas a pretenção d'aquelle pobre rapaz, de Augusto; que te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um homem, que tem vinte annos, um coração e uma cabeça como tu sabes, e que de ti e dos teus, da gente que dá e vende graças, honras e empregos, só quer um favor... mais uma justiça: lembra-te d'isso.
--Falas do despacho effectivo para professor? É uma coisa facilima; mais que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse rapaz perde por modesto. Acredita, ás vezes é mais facil servir os ambiciosos. Nem eu sei o que tem empatado esse negocio. É certo que ha um competidor, por quem alguem trabalha; mas não importa; conta com isso, como negocio concluido.
--Emquanto não vir...
--Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que pedes? Vê lá.
--E que me deixes agora só.
--E não me ficas querendo mal, Vicente?
--Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou pelo menos que suppões que a tens. Basta-me isso para te perdoar.
--Vêr-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de Reis volto a Lisboa, e só tornarei para a campanha eleitoral.
--Não prometto.
--Adeus.
O conselheiro estendeu a mão ao herbanario, que não retirou a sua, e partiu.
--Está feito!--ia pensando o conselheiro á saída--não foi tão difficil como julgava. Está razoavel o homem. Quem o viu e quem o vê! O que faz a idade! Bem! Agora é apressar os trabalhos para antes das eleições, a vêr se acalmam algum fermentosito de opposicão, que por ahi possa haver, que pequeno será.
N'estas cogitações chegou á igreja. Magdalena esperava-o no adro.
--Então?--perguntou ella, com anciedade.
--Tudo está remediado; entendemo-nos perfeitamente--respondeu o conselheiro, com manifesta satisfação.
--Devéras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!--exclamou Magdalena, com alegria.
--Como ceder?--tornou o pae.--Elle é que foi mais condescendente do que eu esperava. Não oppôz a menor resistencia, nem se queixou muito amargamente.
--Pois consentiu?!
--Sem grande custo, ao que parecia.
--Ó meu Deus! meu Deus! agora é que eu temo devéras. Pobre tio Vicente! assusta-me isso que diz, meu pae!
--Ora vamos; a tua imaginação é que te illude. Mas deixa-me aqui falar com o morgado das Perdizes e com o brazileiro, que julgo que teem que me dizer. Vae para a igreja, que eu vou já ter comvosco.
E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que estavam aquellas duas notabilidades.
--Dou-lhes uma boa nova, meus senhores--disse o conselheiro, depois de cumprimental-os--dentro em pouco temos os alviões a trabalhar cá na terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do homem, que nos obrigassem a expropriações judiciaes, sempre demoradas. Mas não, achei-o nas melhores disposições; e assim, dentro em poucos dias...
--Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios não sejam tão doceis--lembrou o brazileiro.
--Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores com pouco se contentam.
--Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco--disse o brazileiro, sorrindo velhacamente--mas os modernos...
--Pois mudaram de senhorio?
--Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo.
--E quem os comprou?
--Este seu criado.
O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, porém, dizendo:
--Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos publicos, do que...
--Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar estão os melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.
--De certo que não ha de querer pôr estorvos a uma empreza como esta.
--Estorvos, não, mas emfim... Amigos, amigos, negocios á parte.
O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo.
--Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?--requereu do lado o sr. Joãozinho das Perdizes.
--Mil que pretenda--acudiu o conselheiro; e tomando o braço do morgado afastou-se do grupo.
--Eu tenho a pedir-lhe um favor--principiou o morgado.-- Eu, como sabe, interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro, que quer vir ensinar para aqui. Este negocio está empatado, como sabe; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito.
--Pois sim, mas...--fez-lhe notar o conselheiro--não sabe que é Augusto o outro concorrente?
--Então que tem isso?
--Não lhe parece que seria uma injustiça? Um rapaz de merecimento, como elle é, aqui da terra, que já exerce o emprego ha tres annos e com tanta intelligencia? e haviamos de...
--É verdade,--atalhou o outro--pois isso é verdade, mas... Emfim, elle que passe para outra parte.
--Mas se o rapaz quer isto?
--Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa é fresca. E vamos, sr. conselheiro, a gente tambem não ha de estar só a fazer favores, sem os receber quando os pede. Com este já são tres. Pedi-lhe para o meu tio abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas caudelarias lá para a freguezia... estou á espera d'ellas... Ora isto não se faz. O senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições com a gente da minha freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora não sei o que será. A não se decidir este negocio depressa...
--Ora não será isso motivo para tanto.
--Com certeza que é--insistiu o sr. Joãozinho.--Então digo-lhe mais: a mim já me falaram. Ha ahi alguem que não desgostaria dos votos de que eu disponho, e votar pelos que já estão no poleiro não sei se lhe diga que não é peor.
O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo:
--Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em relação ao que me diz, eu verei.
--Mau! Não é «eu verei». Então falo-lhe claro. Se d'aqui até ás eleições não estiver feito o despacho, não conte commigo.
--Mas quem lhe diz que não ha de estar?
--Pois lá isso...
--Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.
--Bem.
O sino tocava a chamar para a festa.
Terminou o dialogo.
--O peor--ia pensando o conselheiro--o peor é que prometti ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. Não tem dúvida; é tão magra a posta, que não vale a pena disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. É preciso ter ambição por elle. Se elle quizesse ir para Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se maquina no campo contrario! Hei de sondar o Tapadas, a vêr o que sabe.
Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado o pae de Magdalena a ponto de não conter um movimento de impaciencia, assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e, á fôrça de cortezias e cumprimentos, lhe pedia um momento de attenção.
Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o latinista com tanto ardor namorava.
O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente:
--Ora adeus! O senhor é uma sanguesuga que se não farta de chupar. Contente-se com o que tem; vá conjugando o _laudo, laudas_, que outros, com mais merecimentos, nem isso conseguem; e deixe-me.
O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a admoestação, e curvou-se para deixar passar o conselheiro.
Mas lá comsigo dizia:
--Sim? Elle é isso?! Pois veremos se a sanguesuga te não pica.
E entrou tambem para a igreja, com não muito christãs disposições de espirito.
XVIII
Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em visitas ás freguezias e aos influentes d'aquelle circulo eleitoral, visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que tomava parte, com gôsto, n'estas excursões politicas.
Em casa do sr. Joãozinho das Perdizes, na freguezia de Pinchões, passaram elles um dia. Nos solares do morgado tudo era desordem e desmazelo; a cada passo se tropeçava n'um podengo ou se trilhava a cauda a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira lucta com o proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes dóses de carne de porco e de vinho, com que elle, á viva fôrça, o queria regalar.
No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos pés dos leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles não conseguiram desalojar, e que toda a noite os incommodaram com latidos ao menor rumor que escutavam fóra.
Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o obrigava a esta noitada.
Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em affectadas exclamações, deante dos prodigios de mau gôsto reunidos alli.
As estatuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana, por onde se entrelaçavam magras trepadeiras; um pequeno modelo de fragata brazileira com tripulação de altura dos cestos de gavia, fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e com assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra, eram as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas vulgar; lithographias coloridas em custosas molduras douradas; bordados, diplomas de socio de não sei quantas sociedades brazileiras; tudo encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus de Braga. Á impertinencia de admirar estas preciosidades accrescia a de ouvir e de ter de achar graça a um papagaio que cantava o hymno brazileiro.
Henrique saíu de lá exhausto de paciencia.
Com estas visitas politicas, passou, como dissemos, todo o periodo das festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa historia occorresse coisa que mereça nota.
Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que tão acerbas palavras se haviam trocado. Augusto não voltára ao Mosteiro desde então. Era tempo de férias para as creanças, o que fazia natural esta ausencia, contra a qual Angelo em vão protestava. Magdalena nunca porém alludia a ella. Christina passava o tempo, querendo-se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os dissipava com uma palavra.
Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.
Henrique e D. Dorothéa vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para assistir á solemnidade popular.