A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia)
Chapter 19
--Sejamos francos. A prima deve confessar que a minha presença aqui foi um desagradavel contratempo. Uma certa altivez e consciencia de invulnerabilidade, de que tinha o incómmodo de se revestir, sempre que tratava commigo, depois d'esta importuna occorrencia terá de se modificar.
--Não havia dado por essa... _revestidura_ que diz; mas, se ella existiu, far-me-ha o favor de dizer: por que não pode continuar?
--Essa é boa! porque eu faço a justiça á prima de suppôr que não vae tão longe a sua hypocrisia.
--Hypocrisia!--disse Magdalena, com accento mais severo.
--Perdão; não tive tempo para inventar outro termo mais... brando. Dissimulação talvez lhe agrade mais. Seja dissimulação. Mas depois do occorrido...
--Agora exijo eu que se explique, senhor.
--Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar uma explicação... edificante... d'esta sua excursão nocturna?
--Obsta apenas a que eu lh'a dê, sr. Henrique de Souzellas, a falta de uma pequena formalidade: a de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.
--Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha ideia. A prima é uma mulher admiravel, uma mulher superior, educada na alta escola de uma sociedade distincta, sobranceira por isso a pieguices provincianas. Tanto mais me encanta! E creia que me envergonho só ao lembrar-me do que terá pensado de mim, vendo-me tomar a sério as suas profissões de fé, tão cheias de franqueza e de candura. Devo ter-lhe parecido bem ridiculo, não é verdade?
--Agora é que me está parecendo bem enygmatico!
--Sim? N'esse caso eu me decifro. A prima não ignora que eu a amo.
--Pois ignorava!--atalhou Magdalena, com ironia.
--E sabe de certo, por experiencia do mundo, que para homens como eu, a indifferenca, a frieza e os desdens redobram o ardor da paixão.
--Sim; já li isso n'um romance.
--A prima tem sido para commigo de uma crueldade revoltante, mas pouco sincera. Eu resignava-me a soffrer, porque um resto de ingenuidade que me ficou dos quinze annos, illudia-me na interpretação de taes resistencias. Tive a puerilidade de a suppôr uma mulher de excepção; pouco me faltou para a divinisar. Estava reservado para esta memoravel noite de Natal o desengano.
--Ah! então parece-lhe...
--Que a prima representa admiravelmente o seu papel. Pode gabar-se de ter illudido um homem habituado ás scenas da comedia social.
Magdalena respondeu, com um tom de voz cheio de severidade e de nobreza:
--Tenho-o estado a escutar, sr. Henrique de Souzellas, sem que eu propria bem saiba o que me retem aqui: se é a compaixão que me inspira a profunda doença moral de que o vejo tomado, se a curiosidade de saber a que tendem todos esses arrazoados. Vejo-o inclinado a imaginar que por um facto, que a sua pouco delicada indiscreção preparou, eu ficarei de hoje em deante á mercê da sua generosidade. Conhece-me muito pouco, sr. Henrique! Ainda quando esse facto não pudésse ter uma explicação natural, e que me não repugnará declarar quando quizer, saiba que tenho orgulho de mais para arrostar com tudo, até com a calumnia, de preferencia a resignar-me ao menor predominio que me seja odioso.
--Bravo!
--Saiba mais, sr. Henrique de Souzellas, que se eu não lhe fizesse a justiça de acreditar que d'esses seus actos e palavras não é absolutamente irresponsavel talvez a má influencia da ceia d'esta noite, bastariam elles para me inspirarem por si e pelo seu caracter o mais completo desprezo; e então seria, como nunca, manifesta a minha independencia, porque eu nunca temi os seres que desprezo.
Henrique principiava a ser de novo subjugado pelo tom de severidade e de energia, com que a morgadinha lhe falava; ainda assim um resto de scepticismo obrigou-o a replicar:
--Santo Deus! prima Magdalena; não dê um colorido tão pavoroso ás minhas supposições. Despojal-a de uma crueza deshumana, para a dotar de uma sensibilidade, verdadeiramente feminil, é uma justiça feita ao seu coração. E o facto que o acaso me revelou a nada mais me auctorisa. O pequeno e natural despeito por me haver deixado illudir desvaneceu-se já, creia; e agora só me resta invejar a sorte de quem tem a felicidade...
--Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem mais um instante o escutarei; poupar-lhe-hei assim os remorsos, que ámanhã teria da sua infamia...
E animada por uma resolução mais energica, Magdalena caminhou soberanamente para a porta.
Henrique collocou-se-lhe outra vez deante.
--Um momento mais.
--Deixe-me passar, senhor.
--Não, sem que me ouça antes.
--É uma violencia?
--É uma supplica.
N'este momento saiu da obscuridade da rua fronteira um vulto que avançou para elles.
--Sr.^a D. Magdalena, se fôr preciso reter o insolente, que se lhe atravessa no caminho, ponho um braço á sua disposição.
E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio collocar-se entre Henrique e Magdalena.
Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu de cólera. O olhar que fixou no recem-chegado trahiu a vehemencia da impressão recebida. Depois succedeu-se-lhe no espirito outra ordem de ideias. Olhou para Magdalena, em quem não era menor a surpreza causada pela inesperada presença de Augusto, olhou outra vez para este e soltou uma risada cheia de malignidade e de ironia, que a ambos fez estremecer.
--Ahi está uma apparição tanto a tempo, prima Magdalena, que aos mais incredulos infundiria fé na intervenção da Providencia. Que foi sem dúvida providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas horas mortas, um tão generoso e intrepido salvador. Não é verdade, prima? O que vale estar de bem com Deus!
Estas palavras mostraram a Augusto que a sua intervenção, ainda que generosa e devida a um espontaneo impulso da alma, não fôra porventura das mais convenientes.
--Senhor!--exclamou elle, indignado, dando um passo para Henrique.
--Socegue--tornou este, com dobrado sarcasmo.--O senhor é um perfeito heroe de romance; enthusiasta, cavalheiresco, mas, em certas occasiões, incómmodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse o transtorno que veio causar a um bello dialogo que eu sustentava aqui com a sr.^a D. Magdalena! Não vê como a deixou embaraçada? Perdeu com a sua vinda o fio da comedia, que desempenhava com perfeita sciencia de actriz. As almas ingenuas e generosas, como a sua, sr. Augusto, são ás vezes de uma impertinencia! Vamos, sr.^a D. Magdalena; não descoroçôe. Assim exgotou todos os recursos da sua imaginação? Vamos, introduza mais este elemento de apparição de um heroe no enredo, e organise a comedia com o superior talento que tem! Eu por mim acceito todos os papeis que me distribuir.
Augusto ia responder, quando Magdalena o atalhou, dizendo com voz firme:
--Perdão; vejo n'esta noite em todos uma notavel disposição para usurparem direitos, que não possuem! O sr. Henrique, o de me interrogar; o sr. Augusto o de me defender. A um repetirei o que já ha pouco lhe disse; se algum dia tiver necessidade de explicar as minhas acções, fal-o-hei deante de outros juizes, em quem reconheça o direito de o serem. Ao outro peço licença para lhe lembrar que, se o titulo de hospede e de parente não fôsse bastante para me assegurar da parte do sr. Henrique de Souzellas os respeitos que me são devidos, tinha ainda na minha familia defensores legitimos e não seria por isso obrigada a recorrer á protecção de um estranho. Meus senhores...
E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha passou por entre elles e entrou para a quinta, sem que nenhum a procurasse reter.
--Se esta senhora acceitasse a sua protecção e eu teimasse n'aquillo que chamou a minha insolencia, qual seria, pouco mais ou menos, o seu procedimento? Poder-se-ha saber?--perguntou Henrique, logo que a morgadinha desappareceu.
Augusto, em quem a fria altivez da resposta d'ella deixára o desespero no coração, respondeu acerbamente:
--Procuraria ensinal-o a ser cortez. Bem vê que não me esqueço facilmente do meu programma de mestre-escola.
--Vejo; é a segunda tentativa de lição que lhe mereço. Permitte-me que ámanhã o procure para dar principio a um curso de educação mais regular?
Augusto respondeu, sorrindo:
--É um cartel em fórma? Não sei se estarei ensaiado para essa comedia.
--Se o genero tragico lhe agrada mais, dar-se-lhe-ha esse sabor.
--Bem ouviu que se me negou o direito de tomar partido por esta causa. Qualquer scena d'essas entre nós seria pouco delicada... ámanhã.
--Pois bem, contemporisemos; e até lá é de esperar que algum motivo occorra que a explique melhor... aos olhos dos outros.
--Como queira; a minha porta não se fecha a quem me procura.
E separaram-se depois de se cortejarem.
--Se me não engano--dizia comsigo Henrique, em caminho do quarto--é um verdadeiro desafio o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me parecer que estou sendo bem ridiculo, desafiando um mestre-escola. Se lhe deixo a escolha das armas, decide-se pela férula. Tem graça! Veremos o que ámanhã, á luz do dia, eu penso d'isto tudo. Eu já não fico por mim esta noite. Estou a querer convencer-me de que tenho andado estouvadamente e com não demasiado cavalheirismo. Que diabo! É que esta mulher e este creancelho são irritantes. Ella com a sua altivez, elle com os seus brios. Mas, na verdade, será este o Endymião d'esta esquiva Diana? Caprichos feminis... É o tal primo ingenuo e timido... A ociosidade da aldeia para alguma coisa ha de dar. Mas da maneira por que ella lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias... O que é certo é que estou em lucta com uma mulher superior... Pois luctemos, priminha, mas com armas leaes. Não me prevalecerei do segredo que o acaso me revelou, se segredo existe... Veremos como ella ámanhã me trata...
Esta scena deixou em Augusto uma perturbação de espirito mais profunda.
As operações mentaes, que o preoccuparam toda a noite, eram d'aquellas a que repugna chamar pensar. É mais uma febre intellectual, um succeder de imagens sem ordem nem filiação, que não conduz a nenhum resultado, que não aconselha nenhum partido, que não esclarece, offusca.
Como se explica esta differença entre os dois? Por um apparente parodoxo; porque Augusto tinha mais habitos de reflectir. Quando n'uma vida de episodios uniformes e apparentemente vulgares, o espirito exerce demasiado a analyse, habitua-se a estudar factos que para outros passam por insignificantes, e descobre-lhes faces novas e desconhecidas. Costumado assim a ligar valor a tudo, quando succede que no decurso da vida se lhe depara um facto de maior vulto, a confusão do primeiro momento é inevitavel. Assim como a balança de precisão, apropriada para oscillar com pesos tenuissimos, não é a que pode servir para os grandes pesos, tambem a intelligencia costumada a pesar subtis accidentes, de que se compõe o drama habitual da vida, não é a que de subito pode avaliar algum mais complexo e importante.
A resolução n'estes espiritos, depois de formada, é mais tenaz; mas, emquanto se não fórma, vae n'elles um tumulto de ideias, que se não podem analysar.
Não analysemos, pois, as de Augusto.
Magdalena não socegou emquanto não viu Henrique voltar ao quarto, pelo mesmo caminho por que saíra.
--Que resultará d'isto?--pensava ella.--Que fará elle ámanhã?... É preciso não me acobardar, ou estou vencida... Mas que se passaria depois que os deixei?... Veremos ámanhã.
No meio d'esta serie de pensamentos, Magdalena sorriu.
É que lhe occorrera então este pensamento:
--Dizem que nós, as mulheres, temos filtros subtis para nos tornar amadas. Pois será mais difficil fazer-se aborrecida? Como o conseguirei?
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
BIBLIOTHECA ESCOLHIDA
XXIII
ROMANCE
III
A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
Vol. II
CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28 TELEPHONE 2337
JULIO DINIZ
A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
(CHRONICA DA ALDEIA)
DECIMA-SETIMA EDIÇÃO
LISBOA J. RODRIGUES & C.^a, EDITORES 186--Rua Aurea--188 _1920_
A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
XVII
Não havia mentido a grande scintillação das estrellas na noite de Natal.
A manhã do dia seguinte correspondeu ao augurio meteorologico, rompendo pura, desennevoada, com um céo azul sem manchas, e um sol de fundir os gêlos dos montes e os gêlos da velhice.
O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã aldeões de ambos os sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos, saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas e quelhas na direcção da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da Natividade.
Era dia santo entre os que mais o são; e os dias santos na aldeia teem uma feição solemne e festiva, que mal avaliamos nós, os que passamos a vida nos apertados horizontes das cidades, phantasiando o campo por meia duzia de pardaes, que chilram ruidosamente nas cópas das enfezadas arvores das nossas praças e jardins.
Desde que a moda estabeleceu a lei de não solemnisar o domingo nem o dia santo, com um vestuario mais asseiado, com um prato mais exquisito na lista do jantar, com uma diversão excepcional, que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar n'esses dias, exactamente como em todos os da semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a feição typica e interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quizer apreciar tem de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer no domingo ao som do sino, que chama para a missa matinal.
Dirá então se não parece que até o sol tem outra luz e que as arvores e as plantas se toucaram de flores novas, que guardam de reserva para os dias de festa.
Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manhã sentindo Henrique de Souzellas, encostado á varanda do quarto em que pernoitára, e emquanto esperava que o chamassem para o almoço.
De vez em quando a recordação das scenas nocturnas da vespera desviava-lhe para outra ordem de reflexões o pensamento; acudiam-lhe todos aquelles incidentes á memoria, mas vagos e confusos, como se tivessem sido sonhados; chegava quasi a duvidar da realidade d'elles.
Agora estava experimentando certa curiosidade e tambem receio de saber como seria recebido pela morgadinha, e que posição deveria tomar na presença d'ella.
Formava a este respeito varias conjecturas, sem se fixar em nenhuma.
D'estas cogitações veio por fim arrancal-o o toque da campainha annunciando o almoço.
--Vamos,--disse Henrique--preparemo-nos para o primeiro embate. Apuremos a vista para n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle regular o meu plano de tactica.
E depois de uma rapida consulta ao toucador, desceu para a sala do almoço.
Já alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro, e a morgadinha presidindo á mesa e preparando o chá.
Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que elle tinha passado a noite.
Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente; e, falando, desviava o olhar para Magdalena, que o encontrou do modo mais natural, sem timidez nem audacia.
Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de cumprimentar Magdalena.
--Bons dias, prima Magdalena,--disse Henrique, estendendo a mão e fixando-a com olhar investigador.
Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada tinha de affectado nem de constrangido:
--Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos estes nossos habitos matinaes. Foi uma indiscreção mandar tocar a campainha. Esqueci-me de prevenir que respeitassem a indolencia cidadã.
--Eu é que não consentia:--disse o conselheiro--na aldeia como na aldeia. Em Lisboa tambem as minhas alvoradas são mais tardias.
--Tem razão, sr. conselheiro. Eu proprio não esperei que me acordasse o toque da sineta. Ha muito que eu namorava a manhã da janella do meu quarto.
--Eu não pude dormir toda a santa noite--disse D. Dorothéa.--Estranhei a cama e a casa. Eu cá sou assim, quem me tira do meu ninho!...
--Ó prima, não vá sem resposta--disse D. Victoria--que tambem eu não puz olho, e mais sou de casa. E por signal que sempre hei de querer saber quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade; o primo Henrique não ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.
--Não, minha senhora; eu não senti rumor.
E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que justamente n'aquella occasião lhe servia uma chavena de chá, e que de novo o fixou sem perturbação nem affectada indifferença.
Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava um pouco á sua vaidade este nenhum vestigio de resentimento ou de receio, que encontrava em Magdalena.
No entretanto D. Victoria continuava a commentar com D. Dorothéa o facto das passadas que ouvira de noite.
--Deixe-se d'isso, prima. É porque não sabe o que vae. São coisas d'estes criados. Não faz ideia! É uma pouca vergonha! É preciso paciencia de santa para os aturar.
--Angelo,--disse a morgadinha ao irmão--entretido como estás a conversar com as creanças, esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece de se fazer lembrar. Que distracções por aqui vão!
Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle tempo estivera calada e caida em uma d'aquellas abstracções, a que ultimamente era sujeita.
--Eu não sei que tem hoje esta Christe--disse Angelo.--Julgo que lhe fez mal o frio na noite de hontem.
--É verdade, até está falta de côr! Ora queira Deus que não seja coisa de cuidado. Dóe-te alguma coisa, menina?--perguntou D. Victoria, apprehensiva.
--Não, mamã--respondeu Christina.
--Ó meninas, vocês tambem são umas desacauteladas. Eu bem te dizia hontem, Christe, que levasses mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é não tem dúvida, e depois é que vem o queixarem-se.
Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais n'este sentido. Estas reflexões fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era objecto d'ellas.
Christina estava effectivamnte pallida e pensativa; e d'esta côr e d'esta expressão recebia uns ares de poesia melancolica, que a tornava mais graciosa.
Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta creança, em que mal fixára a attenção até alli, e pela primeira vez se demorou a observal-a com alguma insistencia.
--É interessante esta pequenita--pensava elle comsigo.
Christina ia a levantar os olhos para responder a D. Dorothéa, quando encontrou os de Henrique a fital-a. Assomou-lhe então ás faces um mal pronunciado rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e os olhos baixaram-se de novo.
--Ha de ser adoravel esta mulher--pensou d'esta vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto.
O conselheiro disse, sorrindo:
--Ora, que estão a dizer? A Christe até está com umas côres muito bonitas. Triste? Melancolias dos dezoito annos nunca me deram cuidados. Provavelmente está agora n'algum episodio sentimental no romance da sua imaginação. Não sondemos aquelles mysterios, mana. Já não é para nós comprehendel-os, prima Dorothéa.
Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Christina.
A morgadinha, a quem não passára despercebida a impressão, que a prima d'está vez parecia ter causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que havia tanto procurava, e para isso propoz que se désse uma volta pela aldeia antes da missa do dia. Esperava ella que as attenções de Henrique, durante o passeio, seriam para Christina, se não decorresse o tempo preciso para que se dissipasse no espirito do voluvel rapaz a impressão que o dominava.
A manhã convidava á excursão campestre. A proposta da morgadinha foi acolhida com applauso. O conselheiro prometteu acompanhal-os até á casa do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manhã.
Levantaram-se todos da mesa, e á excepção de D. Victoria e D. Dorothéa, todos saíram.
A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco atraz para dar tempo a Henrique de offerecer o braço a Christina, o que effectivamente aconteceu.
--Bem,--disse Magdalena comsigo ao vêl-os--agora que os anjos bons de um e de outro se convençam da obra meritoria que fazem entendendo-se.
E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe no braço.
Angelo ia com as creanças adeante.
Approximemo-nos nós de Henrique e de Christina, para vêr se os anjos bons d'elles ambos accederam ao convite de Magdalena.
--Não ha prazer que se compare ao de um passeio assim pelos campos, n'uma manhã como a de hoje, e em companhia tão amavel--dizia Henrique, procurando aquilatar o espirito da sua _partner_, n'um certame de galanteria, fóra do qual não concebia que se pudesse temperar uma paixão.
Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas respostas lhe estava porventura ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava-lhe os labios, não lhe deixando formulal-as; apenas pôde responder:
--Está muito agradavel a manhã, está; nem parece de inverno!
--Pelo que vejo, não gosta do inverno? É natural em uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as aves, suas irmãs. Eu prefiro o inverno, porque prepara a vida intima, as scenas ao canto do fogão, as leituras em commum, e traz-me á ideia as imagens de um viver a que a phantasia de todos sorri; de todos os que teem um resto de coração; refiro-me ás imagens de uma familia.
Não ha quem sustente mais tremendas luctas do que os timidos. A alma revolta-se n'elles, com toda a violencia dos seus instinctos, contra não sei que mysterio de temperamento, que lhes reprime as expansões. Na apparencia é fraqueza e serenidade, mas no intimo ha esforços realisados, que os fortes nem concebem sequer.
Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas. Os labios só puderam responder:
--Na cidade o inverno é mais facil de passar, julgo eu; porém na aldeia...
--Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a felicidade que eu imagino. Não é fóra das portas de casa que devemos procurar os elementos para instituir a nossa ventura, e por isso... Mas a prima ha de estar admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e sete annos sem familia. Não é verdade?
Christina só pôde sorrir:
--Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se a morrer apaixonado do ideal e abraçado á peor das realidades. É a consequencia legitima e triste do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado na vida mulheres formosas, amaveis, interessantes; porém nenhuma que satisfizesse ás necessidades do meu coração, de quem me affirmasse a consciencia poder esperar a realisação do meu sonho. Perdôe-me falar-lhe n'isto, priminha; é uma ousadia que tomei, porque um instincto me disse que possue no coração bastante bondade para m'a perdoar.
--Está a gracejar?--disse Christina, em quem redobrava a turbação, e que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava vêr interrompida a sua felicidade: contradicções proprias dos timidos.
--A prima é muito moça--continuou Henrique, que não desesperava ainda de animar esta Galatheia--e talvez por isso lhe causará estranheza este meu modo de falar. Um dia virá, porém, em que o comprehenderá melhor. Se então encontrar um desconfortado como eu, peço-lhe que tenha misericordia d'elle e o salve do desalento, em attenção a quem a conheceu n'uma época, em que só podia vêr em si, priminha, a aurora de uma esperança que já não tinha de luzir para elle.
--Mas... salval-o!... como salval-o!...
--Como as mulheres salvam; amando.
--Bem digo eu que está a gracejar--balbuciou Christina, com voz trémula.
--Tem o defeito da innocencia--disse Henrique para si.--Não se lhe tira uma resposta de geito.
N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena tinha saído da quinta na noite passada.
--Agora deixo-os por aqui--disse o conselheiro--irei encontral-os á igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao proprio covil.
--Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei--disse Magdalena.
--Socega, filha; serei de cera. Até logo.
--Até logo.
E o conselheiro tomou a direcção da casa do herbanario.
--Era tempo!--disse Henrique comsigo.--A minha eloquencia arrefecia na proximidade d'este gêlo.
A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando as physionomias de Christina e de Henrique, conheceu que se não haviam entendido.
--Ainda não!--murmurou ella.--Pobre Christe! como se deve estar odiando a si mesma! Como ha de esta creança vencer este obstinado? Mas não perco ainda as esperanças.