A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia)
Chapter 11
Henrique continuava a ser todo attenções e galanteios com Magdalena; parava a cada momento n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mão a ella, sempre a ella, a quem dirigia tambem todas as reflexões que o aspecto da paizagem lhe suscitava e nunca á esquecida Christina que, n'esses momentos, quasi achava a manhã desagradavel e o sitio feio e sombrio.
A morgadinha respondia sempre em curtas phrases a Henrique e recusava insistentemente o auxilio, que elle lhe offerecia.
--Estou a suspeitar que esses offerecimentos do primo são mais devidos á necessidade, que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho de nos auxiliar--disse ella sorrindo.--A falar verdade, para quem tem passado a vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto. Tenho um pouco de alpestre. Adeante.
E de uma occasião, em que estava perto d'elle, disse-lhe a meia voz:
--Pode ser que Christina careça mais do seu braço, primo. Ainda não teve a lembrança de lh'o offerecer.
Henrique só então deu por esse esquecimento; apressou-se a remedial-o, offerecendo a Christina tambem o braço, que esta recusou, córando.
--Então por que recusas?--perguntou-lhe a morgadinha, em voz baixa.
--Porque não quero abusar da delicadeza d'elle, nem da tua.
A morgadinha abanou a cabeça em ar de reprehensão, fitando-a, mas não lhe disse nada.
Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio em torno d'elles. Já tinham passado acima dos rumores do valle, que não subiam a mais de meia encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo annunciava o proximo apparecimento do sol.
--Chegamos a tempo!--exclamou Magdalena que, deitando a correr, fôra a primeira que attingira a planura. Sua Magestade ainda se não levantou.
Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao pé d'ella.
Houve um longo espaço de silencio, concedido espontaneamente á contemplação d'aquella perspectiva solemne.
As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa, n'aquelle tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presença de um espectaculo grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco: não se formulam longos periodos de aprimorado estylo, nivela-se a eloquencia de todos em simples phrases, como estas:
--É bello!
--É magnifico!
--É sublime!
E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na occasião de que falamos. E eu, por analogas razões, os imitarei, desistindo de descrever o que só bem se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto de todo o panorama. O leitor, que nunca visse alguma scena similhante, não a imaginaria pela descripção, forçosamente pallida, que ahi lhe deixasse d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencherá bem a lacuna.
Desvanecida a primeira impressão, que não deixa ao espirito a serenidade precisa para os processos da analyse, principiaram, como é costume, a fazerem notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.
Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre os quatro.
Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos; Magdalena dos seus projectos e desconfianças; Henrique e Augusto deixaram tambem a sua mutua frieza.
--Lá está o Mosteiro--disse Magdalena, apontando para o logar indicado.--Como parece pequeno, visto d'aqui!
--É verdade--respondia Christina--e olha, Lena, como se vêem bem as janellas do teu quarto.
--Lá está aquella que tu abriste esta manhã para cumprimentares...
Sentindo a mão de Christina comprimir-lhe o braço, concluiu:
--Para cumprimentares a estrella d'alva.
--As janellas do quarto da mamã julgo que ainda estão fechadas.
--Tanto não posso eu distinguir; comtudo afianço-te que sim. A tia Victoria não é muito matinal.
--Aquella casa acolá não é a de Alvapenha?--perguntou Henrique, apontando n'outra direcção.
--É--respondeu Augusto--e, mais adeante, alli tem a deveza, em que passou ante-hontem. Não é verdade?
--É justamente. Com effeito! Foi um soberbo passeio, o que eu dei! D'aqui é que se vê. Lá vejo umas prêsas, por onde me lembro de ter passado tambem.
--Vê, acolá, aquella casa que tem uma capella ao lado?--perguntou Magdalena, apontando para um ponto distante.
--Perfeitamente.
--É a minha quinta dos Cannaviaes.
--Ah! É verdade, lá estão uns cannaviaes, se me não engana a vista.
--Justamente. Não sei se sabe que ha n'aquella capella uma imagem de Nossa Senhora, muito milagrosa.
--Sim? hei de visital-a.
--Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da meia noite, é concedido--disse Christina, fitando d'esta vez Henrique, com a expressão da mais insinuante sinceridade.
--Que quer dizer o voto da meia noite?
--Tem uma pessoa de rezar á meia noite, e sósinha, sete estações no altar da Senhora--continuou Christina.
--Só isso? Boa é de cumprir a promessa. Já vejo que não ha aqui na terra desejo que se não satisfaça.
--Mais devagar,--acudiu Magdalena, sorrindo--pouca gente se atreve até a ir lá á meia noite, porque a alma de minha madrinha passeia a horas mortas por a sua antiga casa, dizem.
--Cada vez sinto mais desejos de lá ir--accrescentou Henrique, depois de ouvil-a.
--Além, entre aquellas arvores, sr.^a D. Magdalena, vive um philosopho--disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva.
--É verdade; o bom do tio Vicente.
--Tio Vicente? Quem é o tio Vicente? Temos mais algum tio, com que eu possa augmentar o meu parentesco na aldeia?
--O tio Vicente é um santo velho, que se occupa a colher hervas pelos montes e valles para fazer remedios, que dizem milagrosos. Ainda é nosso parente, mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe tio, assim como quasi toda a gente por aqui.
--Que sombras negras são aquellas que se vêem no adro da igreja?--perguntou Christina.
--Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um cordão de formigas--disse Henrique de Souzellas.
--São as mulheres que vão ouvir o missionario--respondeu a morgadinha.--Escutem, lá está a tocar o sino.
Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis mas sonoras badaladas do campanario da aldeia.
--A estas horas principiam as lamentações d'aquelle pobre Zé P'reira, que tão mal olhado anda por a mulher, desde que ella deu n'essas devoções--notou Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena domestica a que na vespera assistira.
--Degenerou aquella mulher!--disse Magdalena--e, se quer que lhe fale a verdade, sr. Augusto, custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena é tão apprehensiva!
--Visto isso, já chegou aqui á aldeia a influencia dos missionarios?--perguntou Henrique.
--E não tem lavrado pouco!--tornou Magdalena.
Christina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as palavras da morgadinha.
--Primo Henrique--disse ella--julgo que ainda será preciso o seu auxilio para livrar do contagio esta innocente Christina.
--Prompto, prima Magdalena; para as boas causas tenho sempre armada a minha vontade.
--Olha, Lena, não vês?--exclamou Christina--são os pequenos que nos estão a dizer adeus das janellas do mirante.
De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se uns lenços brancos.
Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irmã e a prima. Estas tiraram tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes.
Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:
--Annuncio a v. ex.^{as}, que chega o rei da creação.
Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da alameda já se tingiam de luz.
Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida faixa de purpura, que, em insensivel graduação, desmaiava para as extremidades até se perder de todo no azul-celeste.
Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento do sol, depois, o astro inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal candente, e logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, e subiu nos ares, como um brilhante aerostato, ao qual se rompessem as prisões que o retinham.
O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada.
Nisto appareceu do outro lado da capella um dos criados de Alvapenha, que veio annunciar que o almoço estava prompto.
--Pois devéras temos um almoço?--exclamou Henrique, sinceramente surprehendido.
--Graças á previdencia de minha tia, previdencia de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o appetite--respondeu Magdalena. E logo após continuou para Henrique:--Agora é occasião mais accommodada de pôr em prática os recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina?
Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a intenção de lhe render a ella a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender, limitando-se a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar que Magdalena fingiu não perceber.
E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar onde, sobre uma mesa de pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoço.
D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de emprezas d'estas. A alvura da toalha, a excellencia da louça e o bem disposto e apurado das iguarias convidavam.
Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto de circumstancias. O fastio, n'este caso, seria um fastio mórbido, correspondente a lesão organica e como tal sem poesia.
Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justiça á cozinha do Mosteiro.
Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenças, conversou animada e espirituosamente.
Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de Henrique; este riu com vontade das que ouviu a Augusto.
A morgadinha, por sua propria mão, preparou o chá.
N'estas alturas do almoço encetou novamente Henrique o tiroteio de amabilidades, de que por muito tempo não sabia prescindir.
Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a santa harmonia do congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam contrariados.
Henrique ficára sentado junto da parede da capella. Inclinando-se sobre o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas letras escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça.
--Bravo!--exclamou, depois de as ler para si--não imaginava que havia poetas na aldeia! Querem ouvir?
E leu:
Se estás mais perto do céo N'estas alturas da serra, Ai, porque tens, peito meu Inda saudades de terra?
Em vez-de erguer os olhares Á luz d'este firmamento, Desço-os á sombra dos lares, Onde tenho o pensamento.
--É pena que a chuva apagasse o resto. Quem é o bardo, prima?
--Não sei; da aldeia de certo que não é--respondeu Magdalena, com indifferença.
Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a alameda.
--Da aldeia, não, diz a prima; e por que não? Com esta natureza é facil crearem-se os poetas. Eu estou vendo n'esta quadra a folha solta de um romance. Aqui a serra de algum Bernardim inedito, tão capaz de escrever saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do poeta trocava os esplendores do céo... algumas d'essas casas, que ahi se vêem em baixo. Quem sabe se não será até o Mosteiro? Eu, por mim, confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra companhia--accrescentou, olhando significativamente para a morgadinha-não teria dúvida em subscrever esta quadra, como a exacta expressão do meu sentir, porque...
Em vez de erguer os olhares. Á luz d'este firmamento
Eu tambem...
Os _abaixaria_ aos lares Onde tenho o pensamento.
Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter com Augusto á alameda.
Magdalena, que a seguiu com a vista, não disfarçou um gesto de despeito ao ficar só com Henrique.
--Prima Magdalena,--disse em tom mais affectuoso Henrique, passado tempo, e depois de mais algumas palavras--deixe-me falar-lhe com franqueza, agora que estamos sós. Conhecemo-nos ha dois dias; eu, porém, sinto-me tão seguro já do que lhe vou dizer, que não hesito. Não pode imaginar a indelevel recordação que me ficará d'esta manhã.
--Perdão,--atalhou Magdalena--diga-me primeiro o que é isso que me vae dizer. Prepara-se para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis; gosto de estar prevenida do sentido das felicitações que me dirigem, para ir preparando uma resposta adequada.
-Que prazer tem em ser cruel!
-Deixemo-nos de loucuras--continuou Magdalena, séria já.--Quem ouvisse o sr. Henrique de Souzellas havia de suppôr que se preparava para me fazer uma declaração.
-Uma declaração do mais puro affecto, do mais sincero sentimento, por que não?
-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas intenções, peço-lhe desista d'ellas.
--Por quê?
--Porque não posso escutal-o.
--Ou não quer.
--Ou não quero; seja.
--Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu coração já...
--Que impertinente pergunta? Se _já_, não tenho ainda no sr. Henrique a necessaria confiança para o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas de hontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.--E accrescentou logo depois:--Christina, anda ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo Henrique.
--Que vae fazer?--perguntou-lhe Henrique, admirado.
Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique não desviava os olhos da morgadinha que, sem lhe dar attenção, proseguiu para Christina:
--O primo Henrique falava com certa exaltação da doçura do teu caracter; o meu amor proprio disse-me que--era pouco delicado estar assim a lisonjear uma mulher na presença de outra--e redargui por isso, pondo em dúvida a asserção e affirmando que havia um fermentozinho de maldade na tua doçura. Elle nega por impossivel, eu insisto e estamos n'isto. Agora dize tu.
Christina córou intensamente e não teve que responder.
Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou ouvir algumas que, pelo sentido e inflexão, com que foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou desaffrontadamente a posição, em que Magdalena o collocára, e respondeu:
--Venci eu! O facto de querer a priminha poupar uma réplica amarga á accusação que lhe fazem, é a mais eloquente prova, já não digo só da doçura, mas da natureza angelica do seu caracter. Já vê, prima Magdalena, que «quando uma das mulheres que diz, fôr como a nossa boa Christina, não se podem admittir essas revoltas de amor proprio, a que alludiu.»
A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido d'estas ultimas palavras; mas fingiu não comprehender.
Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos n'elle, emquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos labios a grave expressão que lhe era habitual, temperando-a com não sei que de ironico, que não escapou tambem a Henrique.
Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum parecesse disposto a baixar-se deante do outro.
Desviou-os porém uma dupla exclamação de Magdalena e de Christina, dizendo:
--Olhem o tio Vicente por aqui!
Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina da ermida, e approximava-se da mesa do almoço, o velho herbanario, em que já temos falado no decurso dos passados capitulos.
X
Era uma expressiva figura de ancião o herbanario.
A fronte larga e desaffrontada de cãs, os olhos ainda vivos e penetrantes e, em toda a physionomia, permanentes indicios de habituaes meditações e por ventura de passados infortunios, elevavam aquelle semblante muito acima da vulgaridade. Os annos ou, mais ainda do que os annos, os pezares haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos; os habitos de solidão, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o caracter até fazerem do velho um d'esses typos excepcionaes, que atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguem permittindo sondar os mysterios que guardam comsigo e para si, e creando para uso proprio regras de viver, sem attenção ás convenções sociaes.
Era um enigma vivo.
Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de nigromante; attribuiam-lhe curas milagrosas, obtidas com os simplices, a cuja cultura e colheita consagrava as maiores attenções e canceiras.
Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera nunca. Poucos porém ousariam, depois do esconder do sol, ir procural-o á isolada casa em que vivia, escondida n'um quintal, que era cultivado com todo o amor pelo velho.
Em todos os casos intrincados vinham consultar o herbanario, e elle, como seguro da sua proficiencia, em caso algum recusava o alvitre.
Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem methodo, de uns alfarrabios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e mal digeridas noções de sciencia, de que se mostrava orgulhoso. Livros de medicina antigos, alguns de jurisprudencia, outros de logica e de astronomia, constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os livros mais predilectos e consultados contava um exemplar da _Polyantheia_ de Curvo Semedo.
O herbanario principiára em creança uma educação tal ou qual, que revézes de familia haviam interrompido.
Os meios conhecimentos, que das suas habituaes leituras extrahira, e os erros, que de taes livros assimilára, eram os elementos, com que chegou a architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava por maravilhosa.
E o caso era que a fama do homem voára de freguezia em freguezia, de concelho em concelho, e de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.
Os costumes do velho, que errava por valles e montes á procura dos simplices, cujas occultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a austeridade da physionomia, a franqueza, sem contemplações, com que dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imaginação popular aquelle typo, para ella quasi lendario.
Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu familiarmente a mão a Augusto, que lh'a apertou com affecto.
--Bons dias, rapaz,--disse o velho; e, dirigindo-se a Magdalena e Christina, accrescentou com maneiras paternaes:--Adeus, pequenas; grandes madrugadas hoje!
Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quasi desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente:
--Guarde-o Deus!
Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.
Sem mais o attender, Vicente voltou-se para Magdalena e perguntou-lhe com voz audivel para Henrique, e referindo-se a elle:
--Quem é?
Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:
--O homem que, melhor que ninguem, está habilitado a responder a essa pergunta.
O velho nem sequer o olhou.
--Este senhor--respondeu Magdalena--é sobrinho de D. Dorothéa; está hospede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saude.
Vicente tornou a examinar Henrique.
--Então é doente?... Não parece... Olhar vivo... Côres boas... voz sã... Umh!...
Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam desagradando a Henrique; por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente:
--A doença d'este senhor é um pouco de imaginação.
--E grandes effeitos nascem d'ahi--acudiu sentenciosamente o velho.--Lá veem na _Polyantheia_ muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido umas amoras, foi atacado de dôres de cabeça, de que morreu. Pois tanto scismou que das amoras lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo uma pedra do feitio de uma amora.
--Com effeito!--disse Henrique, com ironica expressão de pasmo--ahi estava um cerebro de concepções rijas!
--É divertido!--disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para Magdalena.
--Pelo contrario--acudiu a morgadinha--o seu mal é a melancolia. Não é verdade?
--Eu já não sei qual é o meu mal. Estou quasi a dar razão á tia Dorothéa, que lhe chamou mania.
--Mania e melancolia não são a mesma coisa--emendou o velho.--Tambem lá na _Polyantheia_ se diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem furia, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou cólera requeimada.
--De cólera requeimada? Deve ser uma coisa terrivel!--continuou Henrique, no mesmo tom.
Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios de Henrique acabasse por irritar o velho, perguntou a este:
--Parece-lhe que terá cura a doença?
--Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. Este é divertido a final. Umh!... Mas contra tristezas e manias não ha como as folhas de ouro em caldo de frangão com flores de borragem e de herva cidreira.
--Este é como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer o cabello; é um argumento vivo contra a efficacia da beberagem que receita para as manias--disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe ficava proximo.
O velho, que não tinha ainda dado mostras de offensa pelas maneiras impertinentes de Henrique, córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um relampago de irritação.
Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.
--Está bom, menino,--replicou elle amargamente.--Não diga mais, para se não envergonhar depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou costumado a vêr pobres e ricos virem a minha casa pedir-me o favor de os attender. Ainda assim ahi vae mais um conselho, apesar de m'os não pedir. Seja attencioso com a velhice que não é baixeza nenhuma. Mas que é isto?--exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas sêccas que o vento trouxera até perto d'elle.--As folhas veem d'este lado! Então virou o vento? É verdade. Ah! sim?... Percebo.
E, depois de olhar para o ar, continuou:
--Mudanças tão repentinas!... Umh!... Já me não agrada aquelle azul e aquellas nuvens.
E levantou-se.
--Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto e quem sabe o mais que virá! Aconselho-os a que vão descendo o monte, que não é seguro descel-o quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, já me não demoro, que não tenho confiança na firmeza das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!... Emfim tudo tem de acabar. Adeus!
E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata, em que archivava as hervas medicinaes e outras substancias, que andava colhendo, e partiu, depois de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.
Logo que o herbanario desappareceu, Henrique soltou uma risada, em que parecia haver o que quer que era de forçado.
--É realmente curiosa esta antigualha--disse elle, que interiormente sentia já remorsos pela maneira por que tratára o velho.
--Ai, primo Henrique; que ainda está muito pouco preparado para viver na aldeia!--disse a morgadinha.--Tem uns melindres e uma maneira de vêr as coisas! Tudo lhe parecem faltas de attenções, propositos de offender! depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos não estão aqui habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso não é bom! Se vae assim, ou terá de nos deixar cêdo, ou grandes desavenças suscitará por ahi. Não repara que estes modos são proprios do campo?
--Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem...
--É um homem de bem--atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade de expressão, que até alli não mostrára ainda.
Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou firmemente aquelle olhar.
--Não o nego--respondeu Henrique, pouco depois--mas infelizmente os homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a imbecilidade.
--Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um juizo são e uma razão clara.
--Acha?--tornou Henrique, já algum tanto azedado.--Ha de dar-me licença de não fazer obra por as suas apreciações... se me é permittido.
--Procede mal--redarguiu Augusto.--Porque eu conheço aquelle homem ha muito e o senhor acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o senhor quem primeiro deu ás suas palavras um tom irritante, que desafiou uma digna correcção. Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor do que eu.
--Lê fundo nas consciencias dos outros!
--Não é difficil. Em todos os homens a consciencia tem uma só maneira de ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.
--Estou admirando a subita loquacidade que se lhe manifestou! Até aqui suppunha-o taciturno. Vejo que lhe mereço a fineza de abrir uma excepção aos seus habitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que dizia eram maximas ou pensamentos moraes? Não reparei.
Augusto córou, mas respondeu com firmeza: