A Morgadinha dos Cannaviaes (Chronica da aldeia)

Chapter 10

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--Que lembrança!--tornou Christina, cada vez mais embaraçada--pois imaginas devéras que eu?...

--E por que não?

--Lena!

--Não ha nada mais natural.

--Se queres, juro-te...

--Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão nos labios.--Isso não, que é mais sério. Jurar não te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua consciencia, e não quero obrigar-te a remorsos. «Juro!» E com que ousadia ias pronunciar um juramento falso!

--Falso!

--Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha pobre Christe, queres então que te fale com toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de proposito para confirmar umas suspeitas, que se me formaram e que vejo agora que eram fundadas.

--Suspeitas! que suspeitas?...

--O primo Henrique de Souzellas deixou em ti uma tal ou qual impressão.

--Lena!

--Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o depois e agora. Então! tem juizo. Commigo sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito do privilegio de conversar á vontade comtigo e de te vêr sem aquella timidez que tens deante dos outros. Com o teu genio, precisas de uma pessoa, como eu, com quem não tenhas acanhamento e em quem possas até descarregar algumas maldadezitas; e acredita que me lisonjeio com me dares a preferencia.

--Mas como imaginaste?...

--Continuas? Não tens de que te envergonhar pelo interesse que por ventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souzellas é elegante, é espirituoso, affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito trato do mundo...

--Mas...

--Faça favor de me ouvir--atalhou Magdalena, pondo um dedo nos labios. Reconhecendo todas essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te já. E nem receio que isso aconteça, para te falar sinceramente, porque te conheço o genio timido e porque... porque te conheço o genio timido e mais nada.

Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa que se dissesse. Magdalena sabia demais que Henrique não saíra d'aquella primeira visita demasiado impressionado por a imagem de Christina; sabia talvez, suspeitava de certo, não me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto, que no coração do hospede de Alvapenha reinava outra imagem mais persistente. Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ella o poderia formular? O remedio pois era completar a phrase como a completou.

Christina já não tinha ousadia para negar, nem ainda coragem para confessar. Encostando a face á mão, calou-se e deixou falar Magdalena.

A morgadinha proseguiu:

--É preciso que saibas, Christe, que é mais facil conhecer os defeitos de uma pessoa, do que as suas boas qualidades. Os defeitos são imprudentes e linguareiros, denunciam-se, dão signal de si, basta meia hora para se descobrirem em qualquer logar que habitem. As boas qualidades, não; essas são modestas, humildes, discretas; sabem esconder-se. São precisos annos para as descobrir todas. Mas com que olhos de espanto me estás fitando! Parece que te causa estranheza o meu sermão? Eu te digo a que elle vem. Logo que falei com este nosso primo... e quem sabe se o futuro virá confirmar, em relação a mim, esse titulo, que por phantasia lhe dou? escusas de corar por eu dizer isto, Christe...; mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me aos olhos muitos dos seus defeitos.

--Quaes são?--perguntou Christina com viveza.

--Socega; são ligeiros felizmente, e parece-me que os poderá ainda perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu logo em mim a vontade de o sondar, a vêr se conseguia purifical-o do que n'elle houvesse de menos heroico. Então que queres? para a aldeia era um passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e revestiu em mim mais sério caracter, desde que vi a impressão que este sobrinho da tia Dorothéa te causára.

--Lena! Como te deu para suppôr que eu me apaixonei assim em poucas horas? Julgo que me imaginas apaixonada?

--Não, ainda não; inclinada, agradada, attrahida... ou outro qualquer termo d'esta fôrça, que deixarei á tua escolha, isso sim. Para isso não é preciso muito tempo. As razões, pelas quaes julguei isto, dispensa-me de t'as dizer, que pouco valem. Suppõe que foi por um tacto especial, por uma qualidade occulta, como a do tino que dizem que teem certos medicos para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente.

--Pois o tino enganou-te.

--Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso fôr realmente o que eu imagino que é, resta-me preparal-o para o tornar mais digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso favorecerei; se não fôr, declaro-lhe já guerra e guerra de morte. A ti competia fazer isso tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade e boa fé e da tua experiencia. Olha, estou certa que o que mais te attrahiu em Henrique foi exactamente o que n'elle ha de peor. Certo verniz mentiroso, certo colorido, que é preciso ter visto muita vez, e em muitos individuos differentes, para se ter na conta devida. Illude, agrada a quem não está costumado, e pode causar graves enganos e desenganos mais graves ainda. Por emquanto o que elle nos mostra é mais da sociedade em que vive, do que d'elle proprio. É necessario deixar cair a primeira capa, para que o natural appareça.

--Não sabia que era assim facil enganar-se uma pessoa a respeito de outra--notou Christina, sorrindo.

--Se é! Lembras-te do que tantas vezes conta tua mãe? Que, quando ha annos foi a Lisboa, comprou lá por bom preço um cofrezinho que ella suppunha preciosissimo, e que chora hoje a sua tentação, desde que o verniz brilhante, que elle tinha, caiu e ficou á vista a realidade? pois o mesmo acontece muitas vezes em contractos de outra ordem e bem mais sérios do que este. Ha vernizes maravilhosos, que illudem os inexperientes.

Houve um instante de silencio, no fim do qual Christina perguntou, olhando pela primeira vez fita para Magdalena:

--Ora dize-me, Lena, qual será a razão pela qual eu não devo acreditar que esses pensamentos te occorreram, porque era o teu destino, e não o meu, que vias dependente do estudo que fazias?

A morgadinha fixou na prima um olhar triste e cheio de amargas recriminações.

--Por uma razão muito poderosa, Christe, porque ias abrir o coração a um sentimento mau, que macularia o teu caracter generoso e candido--a desconfiança. Porque me offenderias, duvidando da lealdade, com que te falo, quando te falo séria; e porque me farias mal sem necessidade e immerecidamente, pois que a consciencia me diz que t'o não merecia. Satisfaz-te esta razão?

A voz de Magdalena perdera o tom de ironia, que ás vezes tinha, e tomára quasi o da commoção.

Christina arrependeu-se logo do que dissera, e, tambem commovida, apertou as mãos da amiga.

--Não faças caso do que eu disse, Lena; perdôa-me. Quando eu duvidar de ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para sempre, envenenado o coração.

A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor.

--Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela! Saldemos antes as nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensação da pequena offensa que me fizeste, vaes-me fazer uma confissão formal, a qual até agora tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu coração? Dize.

Christina hesitou.

--Vamos,--insistiu a morgadinha--acredita que preciso de uma declaração para me guiar... E crê que é para bem teu.

--Que queres que te diga? Eu não me sinto apaixonada.

--Mas já te disse que me bastava um termo menos violento... um «agradada», por exemplo.

--Confesso que...

--Olha, se queres, podes até parar ahi. Esse «confesso que...» já diz muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que ha alli um excellente coração, mas que queres? Não é o typo que me agrada... o meu ideal como se costuma dizer.

--E então qual é o teu ideal?

--Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma especie de archanjo S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim; e não sei onde o procure.

N'este sentido se prolongou o dialogo entre as duas primas, até que D. Victoria, findando a sua sesta, veio ter com ellas á quinta. Segundo o costume, ralhava contra os criados, a quem, não sei por que processo, attribuia umas dôres de cabeça com que acordára.

No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao Mosteiro; redobrou de galanteio com Magdalena, a qual redobrou de ironia. Christina já mal podia disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era attendida, mas a sua timidez não a deixava luctar.

De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de Alvapenha, que se promptificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos da terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar á nova visita ás senhoras do Mosteiro, para gastar as expressões da sua admiração deante das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura de não sei que imagem de santo, a qual passava por um primor; de uma sala nua, com uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras á volta, que era a sala das sessões do corpo municipal; e de umas pyramides de ripa, que tinham servido, havia oito annos, em festejos officiaes.

Como é de suppôr, Henrique passou uma tarde deliciosa.

IX

Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle que se destinára para o passeio á ermida, Christina foi mais madrugadora do que as aves. Á hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear, já a prima de Magdalena abandonava o leito, receiosa de se fazer esperar pelos companheiros da projectada excursão matinal. Quasi não dormira toda a noite aquella rapariga, com tal preoccupação.

As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem d'ella, antes de se esconderem discretas ante o apparecimento do dia.

Christina vestiu-se á pressa e dirigiu-se ao quarto de Magdalena. Esta dormia ainda. O projecto de passeio á ermida não a alvoroçára tanto. Christina foi acordal-a ao leito.

A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima.

--Que queres tu, Christina? Que lembrança foi essa hoje de andares estremunhando a casa esta noite?

--Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia eu hontem? Então são estas as madrugadas em que falavas?

--De certo que não são madrugadas; isto é noite é o que é.

--Dentro em pouco é dia. Queres vêr?

E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas das janellas e correu as cortinas.

A estrella da manhã, Venus, aquella brilhante e ao mesmo tempo suave estrella, que umas vezes assiste no crepusculo ás melancolias da natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus jubilos, scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.

--Vês?--disse Christina.

--Muito pouco. É esse o teu sol? Como vae alto! É pena que não alumie melhor do que esta lamparina.

Christina sentia redobrar com estas delongas a sua impaciencia, quasi de creança.

--Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a vêr do alto da ermida o romper do sol.

--Pois queres vêr isso de lá?! Que crueldade! Em uma manhã de dezembro!

--Está tão bonita, que parece de primavera.

--Triste lembrança a nossa hontem de combinarmos este passeio. Isto é lá coisa que se faça? Vale por uma viagem aos pólos.

Christina não fazia senão ir do leito de Magdalena para a janella e voltar da janella para o leito, em virtude d'aquella irresistivel necessidade de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos quando nos deixamos apossar da impaciencia.

--Não fazes ideia como está bonito cá fóra; n'alguns pontos ainda se vê neve.

--Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda se vê neve!... Parece-me que já estou gelada... Com essa palavra tiraste-me o alento que ia ganhando. Vês?

--Mas não está frio; até parece que aqueceu o tempo. Então, Lena!... Elles... não tardam por ahi. Cuidas que te vae custar muito, e é um engano; aqui estou eu, que não sinto frio nenhum.

--Ora, mas tu estás em condições muito particulares. Quem tem uma fogueira no coração, não precisa...

--Ahi principias com as tuas coisas!

--Eu não sei; o que é certo é que esse teu enthusiasmo pelos passeios matutinos não é natural. Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando eu t'os propunha? Ora, se me dás licença, eu explico isso.

--Não quero saber de explicações; veste-te, anda.

--Seja! Infeliz lembrança a d'este passeio. E foi d'aquella tia Victoria, que nem por isso nos quiz acompanhar. Não, que já tem juizo; dorme a estas horas o somno da madrugada, que é uma consolação. Que sorte de invejar!

E a morgadinha, continuando assim a exaggerar o sacrificio d'aquella madrugada e a alludir aos motivos secretos a que attribuia o ardor e heroicidade da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto de proposito para a vêr impaciente, principiou a vestir-se.

Christina ficára á janella, espiando os progressos do amanhecer e transmittindo á prima as observações que fazia.

--Olha, eu que digo?... já o Manoel vae abrir o portão... Não ouves os pardaes?... É dia claro já... Havemos de chegar com sol á ermida, o que não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Has de ser a ultima a estar prompta... Ahi vae já o Luiz com o almoço. É que não chegamos lá senão ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.

--Elle! Quem é esse elle que vem ahi?

--Pois quem ha de ser? Então não é o primo Henrique que nos acompanha?

--É o primo Henrique, é o sr. Augusto e é o Luiz, que tua mãe teimou em mandar com o almoço. Não sabia qual dos tres te merecia as honras de um «elle».

--Eu dizia o primo Henrique, que já ahi está no pateo--disse Christina, que n'esta occasião correspondia ao cumprimento, que o recem-chegado lhe fazia de baixo.

--Então, com effeito já chegou?--perguntou a morgadinha, admirada.--Bravo! Nunca o esperei. Ai, Christe, que me parece que elle tambem tem alguma coisa no coração!

--Tambem o julgo--respondeu Christina, despeitada;--é vêr como hontem te falou.

--Socega. Quando o coração tem alguma coisa, não se fala assim com a pessoa que causou esse mal.

--Não sei o que elle me está a dizer--disse Christina, olhando para o pateo.--Posso abrir a janella, Lena?

--Eu já estou preparada para soffrer todas as crueldades esta manhã. Abre lá a janella, abre. Fala-lhe.

Christina correu a vidraça.

A voz de Henrique chegou distinctamente aos ouvidos de Magdalena.

--Então aquella grande madrugadora da nossa prima, onde está?--perguntou elle a Christina.

Christina respondeu, sorrindo:

--Está a fazer a diligencia que pode para ficar prompta antes do meio dia.

--Oh, que vingança a minha! Ella que tanto falou da minha indolencia!--disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre de Magdalena, e elevando a voz ás vezes para se dirigir directamente a ella, mas sempre sem receber resposta.

Esta insistencia impacientou Christina, para quem elle nem um galanteio tivera ainda.

--De maneira que nós, priminha--continuou Henrique--damos uma lição de mestre áquella arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella nos appareça; quero vêr a coragem, com que ousa apresentar-se.

--Eu vou chamal-a--disse sêccamente Christina, e veio dizer a Magdalena, com certo modo, que não podia escapar a esta:--Olha se appareces alli ao sr. Henrique de Souzellas, que não descança emquanto te não vê.

A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as tranças, dando ao penteado a mais singela e graciosa disposição, voltou-se para a priminha e disse-lhe sorrindo:

--Isso são já ciumes? Mal sabes quanto gósto de te vêr assim! Ao menos ha já vida n'esse teu coração, minha pobre pequena. O que te peço é que não me odeies, só porque esse rapaz se lembrou de perguntar por quem não via.

--Estás a imaginar ciumes, como hontem imanavas...

--Amores? justo; e com a mesma felicidade em acertar; podes ir accrescentando. Mas, parece-me que ahi está mais alguem no pateo. Ouço falar. Vae vêr. Será Augusto? N'esse caso, espera-se só por mim para completar a caravana. E eu estou prompta. Marchemos.

Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.

Henrique trocára com elle alguns cumprimentos, e principiaram depois ambos a passeiar, um ao lado do outro, á espera das que deviam ser-lhes companheiras na romagem.

A conversa manteve-se pouco animada. Augusto não era expansivo com as pessoas, a quem o não prendiam habitos de longa intimidade; Henrique, talvez por não conhecer a extensão e natureza dos conhecimentos de Augusto, abstinha-se de falar dos assumptos, em que entraria de mais vontade. Falaram pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi frivolas; no frio, na chuva, no inverno e no verão, nos prós e contras da vida do campo e de varios outros assumptos sêccos de si e já além d'isso muito esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios constrangidos e insupportaveis, que o leitor ha de conhecer por experiencia.

Digamos nós a verdade; estes dois homens não sentiam um pelo outro aquella subita e inexplicavel sympathia, que abre os corações e dá margens a confidencias.

Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestára-se entre elles certa frieza mais que ceremoniatica, uma quasi desconfiança instinctiva.

Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos. Ainda quando não fôssem senhoras o seriam; a chegada de um terceiro, quando dois indifferentes estão na presença um do outro, em entrevista forçada e fatigadora, é sempre saudada interiormente como uma redempção.

Magdalena e Christina vinham ambas formosas, com a especie de mantilhas ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manhã de dezembro.

Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando proximo do quarto de D. Victoria, pé ante pé, para não a acordarem, esta presentiu-as, e mesmo do leito perguntou-lhes:

--Então já vão, meninas?

--Vamos, tia; vamos, mamã--responderam as duas a um tempo.

--O Luiz já partiu com o almoço?

--Já partiu, já, minha senhora.

--E ides agasalhadas?

--Como se fôssemos para a Siberia--respondeu Magdalena.

--Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa Senhora.

--Cá os levamos. Adeus, tia; adeus, mamã.

--Adeus, filhas; até logo, se Deus quizer. Olhae lá, não vos estafeis.

Ora os taes guarda-chuvas é que não iam. Para quê? Com uma manhã d'aquellas, que nem de inverno parecia, pois que até o frio abrandára com o vento! Por isso é que vinham ainda a rir.

Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois companheiros. Henrique, depois de formular um galanteio a Magdalena, offereceu-lhe attenciosamente o braço, que Magdalena recusou com alguma impaciencia, porque se lembrou de Christina.

--Muito obrigada, primo,--disse ella com vivacidade.--Mas é preciso que o advirta de que não vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos trepar montes, atravessar ribeiras, costear precipicios, e para tudo isso é necessaria a completa liberdade de movimentos. Ha occasiões, em que melhor nos servem os nossos dois braços, do que o braço de outro, embora seja o de um heroe.

--Mas de certo que não é á borda dos precipicios que esse auxilio se escusa--replicou Henrique.

--É, muitas vezes é. Ha bordas tão estreitas, que mal cabe n'ellas uma pessoa só; felizmente que a natureza nos dá um braço então... um braço de giestas, por exemplo.

--Vê lá, Lena,--disse Christina ao ouvido da prima.--Talvez seja melhor que acceites. Resta-me, a mim, o braço de Augusto.

--Se continuas com essas loucuras, Christina, obrigas-me a odiar-te. Sr. Augusto--continuou voltando-se para este--espero que tome a direcção do nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais bellos pontos de vista; leve-nos por lá, embora tenhamos de comprar as bellezas á custa de perigos e de fadigas. Partamos!

O monte onde se erigira a capella da Senhora da Saude, afamada por seus milagres e pela sua romaria n'um circulo de muitas leguas de raio, era uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias ruraes de mais de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos pés as alcatifas da mais rica vegetação; banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas e torrentes, arterias fertilisadoras de extensas veigas e pomares; mas elle, o gigante orgulhoso e selvagem, recebia aquelles preitos, olhava sobranceiro aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em vez de cobrir os hombros com o manto real, que lhe estendiam aos pés, permanecia aspero, severo e nú, como nas épocas primitivas, em que uma convulsão tremenda o evocára do seio da terra, para o consolidar em colosso.

Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda, que, havia perto de um seculo, a piedade christã plantára em volta da ermida, para refrigerio e conforto dos devotos christãos que alli iam. Era custosa a ascenção por o lado, por onde os nossos romeiros, contra os conselhos de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair de uma longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou de subito deante de si a mole immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia além do Rocio os seus passeios, com medo das ingremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um absurdo.

Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que d'elle o separava.

O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos dias anteriores, levantava um bramido atordoador ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rapido pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja enorme roda movia.

Áquella hora, ainda pouco clara da madrugada, este sitio da raiz do monte tinha não sei que aspecto selvagem e melancolico, que quasi infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes negras, os troncos flexuosos e despidos das vides; mais longe, o cannavial, ondulando ligeiramente ao perpassar através d'elle a briza da madrugada, e, aqui e além, um d'esses degenerados aloes dos nossos climas, debeis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua verdadeira patria, eram accessorios que concorriam para o effeito geral do quadro.

A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique, deu-lhe alento com lançar-lhe em rosto a sua pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e atravessou, com não menor denodo do que os outros, o riacho, por o passadiço de altas pedras, collocadas a pequena distancia umas das outras, e que as aguas a cada momento ameaçavam cobrir.

Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se indispensavel caminhar em continuados zigue-zagues, aproveitando os córtes que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella massa granitica e os toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurára facilitar, por aquelle lado, o accesso da ermida á piedade dos devotos.

As difficuldades para Henrique eram continuas.

A cada momento os embaraços d'este forneciam motivo para risos da parte de Magdalena. Christina não lhe podia levar a bem que se risse d'aquillo.

Para compensar as fadigas de tão trabalhosa ascensão, havia porém, a paizagem, que, a cada passo andado, a cada angulo que se dobrava, apparecia mais surprehendente e maravilhosa.

Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um brado de admiração.

As nevoas d'aquella manhã de dezembro não eram bastantes para velarem a belleza do quadro.

Á medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava-se-lhes mais e mais o horizonte; avelludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apparencia dos canteiros de um jardim.

Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle espectaculo lhe causava.

--É magnifico! é admiravel! é soberbo!--dizia elle, a cada momento e quando não era inquietadoramente preoccupado com os perigos do caminho.

O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo! Dir-se-ia que eram os montes a sua patria, e que a melancolia nostalgica, que o opprimia na planicie, se ia dissipando á medida que subia a encosta.

Magdalena e Christina tambem não estavam menos impressionadas por o que viam. Esta, porém, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer, que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.

Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manhã.