A Intrusa

Part 9

Chapter 93,925 wordsPublic domain

Ah, se elle pudesse despir-se daquella pelle abominavel, mesmo que a fogo lento, ou a afiados gumes de navalha, correria a desfazer-se d'ella com alegria. Mas a abominação era irremediavel. O interminavel cilicio duraria até que no fundo da cova o verme puzesse a nú a sua ossada branca...

Branca! Era a mulher branca que elle preferia, desprezando com asco as da sua raça.

A superioridade d'aquella que ia toc-toc na sua frente, exasperava-o. O seu humor inalteravel, os seus habitos de asseio e de ordem não lhe tinham dado ensejo para a intriguinha facil e perturbadora. Chegara o dia de castigar a affronta d'aquella branca intromettida, que elle odiava, e ardia por esmagar com a divulgação de algum segredo que a compromettesse. Desprezava o ardil pela verdade; mas, se esta lhe escapasse, então recorria a tudo, até ao feitiço de algum velho parceiro africano...

Mas d'esse recurso extremo só lançaria mão quando não pudesse contar com os da sua intelligencia e malignidade.

Tinha ainda na memoria uma sentença materna: «quem faz feitiço morre de feitiço» e essa idéa affligia-o. A mãe era filha de mina. Devia saber... Aquella branca pobre e presumpçosa, que era mais do que elle na ordem das coisas, para o tratar assim por cima do hombro, com um arzinho superior de patrôa fidalga?

--Ella ha de me pagar!

O que elle queria agora era saber bem da sua vida, penetrar no mysterio d'aquella existencia fluctuante, sem raizes conhecidas; assenhorear-se de um segredo que a tornasse escrava da sua vontade poderosa.

Como aos de Adolpho Caldas, ella tambem representava aos seus olhos o encardido papel de especuladora.

Não era outra coisa; mas a intrusa teria o seu castigo, zurzido com mão de ferro, na hora marcada pela sua justiça.

O arrependimento entraria então no coração de Argemiro.

O bond tardava e Alice não diminuia o rythmo dos passos. Antes assim; elle gostava de ir andando a pé, atrás d'aquella figurinha nervosa e fugidia.

Quem tanto se apressa, corre para a felicidade, que para o aborrecimento o passo é tardo. Pensava o negro: ella vai para alguma entrevista de amor...

Isso contrariava-o... e crescia-lhe com essa idéa a raiva pela usurpadora dos seus regalados descanços e da sua autoridade de chefe!

Ella matara o seu prestigio. Viesse quem viesse depois d'ella, encontraria lançada na casa a semente da desconfiança. Fôra um dia o Feliciano, que lia jornaes nas cadeiras do amo, com deliciosos charutos entalados entre os beiços!

Um bond! E o bond parou a um gesto de Alice, que subiu para um dos bancos da frente, conchegando com um arrepio o casaco côr de mel ao corpo friorento.

Feliciano, em pé na platafórma, não a perdia de vista.

No largo do Machado ella desceu e passando pela frente da igreja tomou a direcção da rua Bento Lisboa.

O negro, a pequena distancia, ia atrás d'ella, dando graças ao vento que fazia ulular o arvoredo da praça, abafando outros rumores. Na rua Bento Lisboa, Alice accelerou a marcha. Parecia levada por um grande desejo. Feliciano espiava-a afflicto, numa anciedade!

A sua admiração era não vêr apparecer um homem, a quem ella désse o braço, que a compromettesse e o ajudasse na intriga... De resto, elle não queria crêr, queria denunciar!

--De repente estacou; a moça sumira-se na portinha negra de uma casa antiga, meio arruinada.

Feliciano passou, tornou a voltar, sondou com olhar atrevido o corredor escuro, procurou vêr se estaria alguem a quem pudesse fazer qualquer pergunta na vizinhança, encostou-se a um humbral fronteiro e esperou, indignado, contra aquellas paredes, que um murro de homem deitaria abaixo e que lhe escondiam o mysterio desejado!

O vento e o pó obrigavam os moradores do lugar á reclusão. As janellas fechadas entristeciam a rua, ordinariamente animada. Que se passaria lá dentro?

Feliciano esteve uma ou duas horas á espera, como um vigia cuidadoso, firme no seu posto. Nem uma restea, um tenue fio de luz vinha cortar a treva d'aquella fachada muda!

O negro tinha impetos de ir encostar o ouvido ás janellas ou penetrar no corredor, cançado de esperar, numa impaciência que o adoecia.

Eram quasi dez horas quando ouviu rumor de vozes e reconheceu a de Alice. Depois a moça reappareceu, puxando a porta sobre si.

A casa, impenetravel, guardava o seu segredo. Alice deslisava na sombra com o mesmo passo apressado. Dir-se-ia que igual desejo a levava ao ponto de onde partira tres horas antes!

Desnorteado, Feliciano hesitava se deveria acompanhar Alice, cujo destino conhecia, se ficar mais alguns instantes esperando alguem que por ventura sahisse d'aquella casa. Alice nunca entrava nas suas quartas-feiras depois das dez horas; logo, ella marchava para o Cosme Velho. Interessava-o agora quem ficava alli. Começaram a cahir grossos pingos de chuva e a escuridão era apenas dissimulada pelos lampeões de gaz. Já sem receio de ser surprehendido, Feliciano verificou o numero da porta por onde Alice sahira, mas só se afastou quando ouviu que a ferrolhavam de dentro.

«Quem estava, fica... logo, vou-me embora». E elle voltou, intrigado, aborrecido, com maior odio ainda por aquella mulher que se lhe escapava de entre os dedos fracos quando julgava prendel-a para toda a vida!

Emfim já sabia alguma coisa: aprendera o caminho da tóca, onde ella vinha furtivamente todas as semanas, em horas e dias determinados...

Quem se fia em mulheres está bem servido!... pensava comsigo o negro, desandando no seu caminho. Esta inda é peor do que as outras, porque é fingida. Fingida como Judas!

--Ella ha de me pagar...

Alice deu volta á casa pelo jardim e entrou por uma porta do fundo, evitando um encontro provavel com Argemiro, que falava alto no escriptorio, junto á saleta da frente.

Cançada, sentou-se um momento na sala de jantar, antes de subir para o seu quarto, vigiando a porta do escriptorio, prompta a fugir num relance, caso elle apparecesse. Com as mãos abandonadas nos joelhos, sorria com amargura ás palavras de Argemiro, que lhe chegavam nitidamente aos ouvidos. Elle arengava contra as mulheres. Os outros davam-lhe razão, citavam exemplos destacados de escandalos, riam-se alto, declarando o casamento uma instituição prejudicada.

A uma phrase atrevida de Argemiro, respondeu Adolpho Caldas maliciosamente:

--Emquanto pelo annuncio do _Jornal_ acudirem governantes moças para as casas de viuvos sós... Mas é que nem todos são viuvos, meu caro!

Telles riu alto; a voz de Assumpção disse qualquer coisa que a palestra dos outros suffocou.

Poderiam gritar. Alice tapara os ouvidos com os dedos e subiu correndo para o seu quarto, onde se fechou por dentro.

Quem falava agora na sala era o padre Assumpção:

--Ainda ha mulheres tão puras como as mais puras de todos os tempos. Tenho ouvido muitas Ruths no confessionario, e conhecido almas adoraveis de innocencia e de bondade. Vocês conhecem-nas pelas exterioridades, eu pelos sacrificios,--que são ordinariamente as sacrificadas que nos vêm pedir conselho e consolação. Tenho encontrado em meu caminho sublimes abnegações, sempre por parte das mulheres...

--Porque os homens não se confessam!...

--Confessam-se alguns, mas não dizem tudo, ou, quando o dizem, fazem tremer! Tenho muito respeito pela mulher e sobretudo pela mulher pobre, porque nunca a pobreza deixou de ser affrontada, nem a mulher deprimida...

--Meu evangelico Assumpção, parece-me que a tua psychologia está errada! Nós sacrificamo-nos muito mais...

--Nós sacrificamo-nos pelas idéas; ellas sacrificam-se por nós, que somos menos compensadores e mais ingratos...

--Bonitas coisas você deve ter ouvido, padre! A mim o que me espanta e revolta, é que ainda haja paes e maridos que consintam nessa abominação do confessionario. A religião não poderia ter inventado coisa mais vil nem mais repugnante. Vamo-nos embora.

--Vamo-nos embora, que a noite está negra que nem uma alma peccadora, disse Telles, ao mesmo tempo que Adolpho continuava:

--A minha confissão é que tu não ouves, padre! que me mandarias pelo telegrapho para o inferno. Basta que eu te confesse isto: amanhã darei um assalto á tua bibliotheca. Preciso de Rodrigues Lobo... D'aquelle--_Pastor Peregrino_.

Assumpção, procurando o chapeu, exclamou:

«Cabellos que na côr formosa e pura Estaes ao mesmo sol fazendo inveja, Que confiança em vós será segura...»

Mas o Telles interrompeu:

--Olhem que o Argemiro está com somno e eu morto por me ver na pensão!...

Desceram, e, já na rua, o padre relembrou ainda uma phrase do classico:

--_Deixai-me enganosas alegrias, que eu não busco, na ventura senão, o que a meu desterro sem esperança e á minha vida desesperada convém._

--Sinto cheiro a bafio quando ouço classicos, commentou o deputado.

Adolpho accendia um charuto. Assumpção adiantou-se para mandar parar o bond.

XIV

A baroneza não recebera ainda a carta annunciada pela cartomante e andava inquieta, doente. Gloria voltava radiante todas as segundas-feiras das visitas paternas e não tinha na boca senão o nome de D. Alice.

Aquillo fazia recrudescer o desespero da pobre senhora.

--D. Alice! D. Alice! não falas senão da tal D. Alice! que personagem!

--Eu gosto d'ella...

Prendendo as mãos da neta, puxando-a para si, a avó perguntava entre supplicante e imperativa:

--Mas que te faz essa mulher para lhe quereres assim?

--Nada... passeia commigo... conversa...

--Tenho medo d'essas conversas... É a tal historia dos sapatinhos de ferro!

--Da vaquinha Victoria?

--Sim... Que te diz ella?

--Tantas coisas... Hontem fomos ao Jardim Zoologico. Vovó ha-de crer? Ella contou-me a vida d'aquelles bichos todos!

--Mentiras... Que póde ella saber!

--Eu contei a papae e elle affirmou que era verdade!

--Ah! tu contas a teu pae tudo que ella te diz? Bem disse eu! é a tal historia dos sapatinhos de ferro... Um dia ha-de enterrar-te coma a madrasta fez á outra.

--Mas se ella não é minha madrasta! Nem diz nada de mal... Vovó pergunte só ao padre Assumpção. Elle tambem gosta de conversar com ella. Hontem estavam muito tristes...

--Ambos?!

--Ambos.

A baroneza riu-se.

--De que se ri, vovó?

--De nada... achei graça! Ia bem vestida a tua D. Alice?

--Assim... assim... ella anda quasi sempre com o mesmo vestido, quando sae. É pobre...

--Ella usa anneis?... tem alguma joia?...

A neta admirou-se de ver a avó tão córada de repente; e, antes de responder á pergunta, exclamou:

--Nunca vi vovó tão vermelha! E depois, naturalmente:--Não usa anneis... tambem não usa joias.

--Nunca te falou da familia?...

--Nunca... Papae me recommendou que eu nunca lhe perguntasse por isso!

--Ah! teu pae recommendou!...

--Por que seria, vovó?

--Por que geralmente mulheres assim não têm familia.

--Coitadas! Mas assim como? D. Alice é como as outras!

--Talvez mais bonita...

--Não... Hontem então ella estava com os olhos tão pisados!

--Pobre infeliz!

--Eu queria que vovó gostasse d'ella!

--Para quê? Estamos muito bem assim... Cada um no seu lugar!

--Já tenho aprendido muita coisa com ella...

--Deus queira que não aprendas tudo!

--Papae gosta que ella me ensine!

--Ah...

--Padre Assumpção tambem... Elle hontem assistiu á minha primeira lição de desenho. Uma lição só por semana é pouco... Vovó deixa D. Alice vir cá de vez em quando dar-me outra lição?

--Nunca!

Gloria recuou espantada; a velha conteve-se, e depois:

--Os retratos de tua mãe ainda estão nos mesmos logares?

--Estão... um em cima do piano... outro no escriptorio... outro no quarto de papae...

--Já tiraram o do quarto de _toilette_?!

--Ah! é verdade! e outro no quarto de _toilette_! Como vovó se lembra!

--Minha pobre filha!

--O do quarto de papae está ficando branco...

--Até desapparecer! É que a imagem de Maria está-se sumindo ao mesmo tempo da memoria e do papel! disse a Baroneza abafando um suspiro.

--Da memoria de quem?

--Vai brincar, minha Gloria; corre, faze das tuas brutalidades antigas... quero ouvir os teus gritos, as tuas risadas .. Onde está a tua cabrinha? Já nem fazes caso d'ella!

--Como não?! D. Alice até me prometteu uma colleira para ella!

--Já me tardava...

As mãos da avó affrouxaram. Gloria fugiu para o quintal.

--Está tudo acabado! venceu e domina todos. Gloria, a filha da minha filha, talvez já ame a outra mais do que a mim!... Tem trabalhado, a maldita... e não ha quem defenda a minha pobre Maria! Nem o Assumpção... ninguem!...

A Baroneza revia a scena, que não lhe sahia deante dos olhos: Maria, recostada nos almofadões da cama, muito diaphana, com os cabellos loiros espalhados sobre os hombros magros e os olhos engrandecidos, circulados de violeta... Á sua cabeceira, em pé, o padre Assumpção, livido, com os olhos velados por uma expressão de agonia dominada. Argemiro, de joelhos ao lado da moribunda; ella aos pés da cama, de mãos postas, olhando, na insensata esperança do milagre!

Na sua alma echoava ainda a vózinha da filha:

--Jura, Argemiro, que não te tornarás a casar...

--Juro!

--Jura que viverei sempre no teu coração!

--Juro!

A voz d'ella era como um sopro; a d'elle, formidavel!

Maria morreu sorrindo, com os dedos embaraçados nos cabellos do esposo... Não falara na filha... não olhara para a mãe. Fôra toda d'elle... e elle repellia aquella imagem angelical, para substituil-a pela de uma mercenaria!

Aquella amaldiçoada.

Como expulsal-a d'alli?! Não estaria perdendo muito tempo?...

Uma tarde, o Feliciano procurou-a; e ao relatar-lhe a sua espionagem ella mandou-o calar-se. Não queria saber de nada por esse modo. Que se fosse embora!

O negro não pôde reprimir um movimento de espanto. Não fôra ella que o impellira áquillo?

Fôra, mas em um momento de desanimo e de fraqueza. Envergonhara-se. Readquiria a calma; estava feito o seu plano. O negro foi despedido sem explicações e com a prohibição de acompanhar a moça.

Feliciano sahiu murcho, maldizendo as mulheres.

A baroneza dirigiu os seus passos pesados de mulher gorda para o escriptorio do marido, que se entretinha na collecção do seu herbario.

--325... murmurava o barão, olhando para as suas listas; e depois:

--Que temos? perguntou elle, sem levantar a cabeça, mas percebendo no ar qualquer novidade.

--Que tomei uma deliberação.

--Qual?...

--Ir morar com Argemiro.

--Hein?

--Ir morar com Argemiro.

--Ora essa!

O barão tirou os oculos e olhava agora de face para a mulher.

--Que idéa!

--Como outra qualquer... meu velho...

--Qual! nós lá podemos viver na cidade!

--Por que não?

--Por que?... por tudo! Tu gostas d'esta liberdade... ha trinta annos que te enterraste aqui e que d'aqui não tens querido sahir para nada... Eu, ao principio, confesso, fazia sacrificio; hoje não. Olha para esta mesa: Vês? estou catalogando as minhas plantas... plantadas aqui na minha chacara e tratadas só por mim!...

--Virás á chacara de vez em quando.

--Estás doida!

--Nunca o estive menos!

--No tempo em que Maria era viva nunca pensaste nisso, e então agora.... Ora adeus!

--No tempo de Maria eu não era lá precisa para nada; e agora sou.

--Precisa? Em casa do Argemiro?! Para que? Estás sonhando...

--Bem acordada. Vocês é que estão dormindo...

--Hum... já sei... deixa lá a rapariga em paz, minha velha ciumenta; exclamou o barão, rindo e cavalgando de novo a luneta no nariz.

--Tambem tu!...

--Tambem eu...

Que diabo! tu imaginas um mundo ao teu feitio e queres governal-o a teu bel-prazer? Guerrear a moça? por que? Porque é limpa, economica, dirige bem a casa do teu genro e ainda por cima dá lições uteis á tua neta? mas isso é uma insensatez!

--Para que te servem os olhos? para que te serve o entendimento e a moral? Já te esqueceste das ultimas palavras da nossa Maria? Não as ouviste tão de perto e tão bem como eu?

--A nossa Maria... morreu...

--Para ti e para os ingratos; não para mim, sua mãe, que a adoro e a vejo sempre deante dos meus olhos! Como é triste a morte, que até faz esquecidas as filhas aos proprios paes!

O barão retirou de novo os oculos, collocou um peso sobre os papeis em que catalogava as suas plantas e contemplou a mulher demoradamente, com tristeza. Ella estava abatida, com os olhos empapuçados, as faces emaciadas, o pescoço mais molle e pellancoso.

--Minha pobre velha! tem paciencia e resigna-te. Comprehendo a tua magoa, mas é preciso esforçares-te por comprehender tambem o mundo tal como elle é. Imagina que a tua neta é ella, a nossa Maria, e concentra nella todo o teu carinho e todo o teu amor... já não peço nada para mim... bem vês! Gloria é a filha da tua filha, vive para ella aqui, no meio das tuas arvores e não penses no que vae lá por baixo, pela casa dos outros.

--Casa de minha filha.

--De teu genro. Tua filha já não existe.

--Para mim existe! E depois, tu não vês que já me vão tambem roubando a neta? D'aqui a pouco estaremos sós!

--Não... não é tanto assim!

--Desde que o Argemiro tem aquella peste em casa...

--Que está satisfeito e tem o seu lar em ordem. Se em vez de ser sogra fosses mãe d'elle, tu bemdirias essa pobre rapariga... Tem juizo, minha filha, não vivas com os olhos fixos num fantasma e pensa na realidade das coisas.

--Seria bom... se o Argemiro não violasse o juramento que fez... ao _fantasma_... como tu lhe chamas!

--Escuta; quando elle jurou fez bem em jurar. Acreditava então poder cumprir tal juramento, e caso mesmo não acreditasse juraria do mesmo modo, porque essa era a vontade de uma moribunda. Nossa filha morreu sorrindo, graças a essa promessa. Não me interrompas! O Argemiro foi um marido raro, amoroso, serio e deu á mulher a mais ampla e perfeita felicidade. Ella acabou. Elle foi (se ainda o não é) fiel á sua memoria por muitos annos. Se agora tivesse alguma paixão, nada terias que dizer. Elle ainda é moço, e essa circumstancia basta para explicar tudo. Somos-lhe muito obrigados.

--Achas então muito natural e muito bonito que elle ponha a filha em contacto com a...

--Não acabes!

--Tambem tu a defendes!

--Tambem eu!

--Mas não a conheces!

--Conheço o Argemiro. Basta-me. Elle já nos expoz mais de uma vez em que condições tinha essa moça em casa. Se elle lhe entrega a filha é porque a julga digna de a receber--e não pódes negar a influencia moral que ella tem exercido sobre tua neta! Gloria repete palavras e pratica acções que reflectem um grande senso moral. É ou não é verdade isso?

--Quem nos diz que não seja essa uma obra de hypocrisia?

--Ora, adeus!

--Vocês estão cegos!

--Só tu vês!

--Só eu.

--Pois antes fosses cega, que a tua clarividencia só te faz mal. De que te serve perceber ao longe tanta coisa que ninguem mais vê?

--Serve-me para defender quem não tem mais ninguem por si!

--Se tua filha do ceu te escutasse, choraria!

--Fazes bem em dizer: _tua filha_. Ella é só minha, agora!

--Bom... acalma-te...

--Estou calma.

--Nesse caso dir-te-ei ainda que o Argemiro é senhor do seu nariz e que nós não temos autoridade, absolutamente, para mettermos o bedelho na sua vida. Fará o que muito bem quizer. De mais, que jurou elle a Maria? Não se tornar a casar. Casou? Não. Logo...

--Mas vive como tal...

--Sabes que mais?! Deixa-me trabalhar... lamento-te muito, mas não posso argumentar comtigo. 325... parece-me que era este o numero...

--Como és frio...

--Sou velho; e tenho juizo.

--Tambem eu sou velha...

--Mas és mulher, e vives mais do sentimento que da razão... Alimentas a idéa de que tua filha sente, soffre, existe, e exiges que ella occupe um lugar que infelizmente está bem vasio... Deleitas-te em revolver saudades; fixas-te em pensamentos de que devêras fugir; a morte assusta-te; a idéa do _nada_ apavora-te e crêas então um mundo á parte para tua filha, que, se continúa a viver, é só no teu cerebro, mais ainda do que no teu coração! Reage contra essa tortura...

--É a minha consolação...

--É o teu desespero!

--Não é... talvez deva ser como dizes... mas eu agarro-me a esta illusão, para poder supportar a saudade...

--Não chores...

--Sinto-me tão sózinha!

--E eu?

--Fugiste-me...

--Não, minha velha, estou e estarei comtigo até á morte. O que te fiz soffrer na mocidade, quero redimir na velhice... Tua mãe, sim, teria razão de queixa contra mim; tu não a tens contra o Argemiro! Nossa filha, repara o que eu digo--_nossa filha_--gosou emquanto viveu; já foi uma felicidade! Tu esperaste por mim algumas vezes até alta noite... lembra-te! Ella nunca esperou... Fiz-te chorar, do que me arrependo; o Argemiro só a fez sorrir.. Foi por causa do teu ciume de esposa, muito justificado, que escolheste este ermo para viver... Sujeitei-me. Venceste. Hoje, arrependido, vivo cosido ao agasalho das tuas saias e acredita que, se morreres antes de mim... creio que me fecharei vivo no teu caixão...

O Barão dizia estas coisas rindo, mas com os olhos afogados em pranto; a mulher, chorando francamente, approximou-se e uniu os seus labios tremulos aos labios murchos do marido.

--Vai descançar! disse-lhe elle, afagando-a.

Ella sahiu; elle limpou os olhos, esteve algum tempo a pensar em coisas distantes; depois, com um suspiro, voltou ao seu catalogo:

--325...

Os dias passavam lentamente para os dois velhos.

A baroneza não dormia; tinha ao levantar-se o rosto pallido e os olhos vermelhos.

O barão entristecia-se por não lhe saber dar remedio. Que fazer? Deixal-a finar-se... e penar com ella. Á proporção que as visitas da filha se prolongavam nas Laranjeiras, Argemiro, occupadissimo em novas causas, deixava de apparecer na chacara.

Esse afastamento era tambem motivo de censura e tristeza.

O tempo leva tudo comsigo, menos a saudade das mães pelos filhos mortos; pensava a baroneza em silencio, junto á janella, olhando vagamente para o campo pallido, cortado pelas linhas negras das altas e ramalhudas mangueiras, sob cuja sombra Maria correra em menina, entre a polvilhação d'oiro da cabelleira desatada, ou scismara, em mulher, aquellas doces scismas que a idealisavam tanto.

Parecia-lhe que, se procurasse bem, encontraria na terra as pegadas mimosas da filha e que seria ingratidão abandonar aquelle lugar em que ella vivera a doce vida da criança e da moça... Em vão o materialismo do marido lhe affirmava que o corpo branco da pobrezinha apodrecêra como um lirio cortado, no fundo negro da cova, e que já d'elle não existia senão um feixe de ossos, tão pequeno, que caberiam todos no seu cofre de lembranças!

Em vão o padre Assumpção lhe dizia que a alma bondosa da sua santa estava no ceu, longe de tudo e de todos, voltada como uma açucena para os pés do Senhor! O que ella sentia é que sob a roupagem fluidica, a sua Maria estava a seu lado, ora sentada sobre os seus joelhos, como quando tinha dez annos, ora seguindo com o olhar ciumento o Argemiro, como nos tempos de casada; e que existia, que tinha o seu lugar na terra!

O sol desmaiava; as mangueiras com a tarde faziam-se mais negras. Um sabiá cantava, outro mais longe respondia, e a baroneza, dorida, persuadia-se de que a melancolia mais amarga é a dos velhos, porque não tem a suavisal-a nem o mais tenue raio de esperança!

Ás vezes Gloria, entrando bruscamente na sala, quebrava-lhe o devaneio. Morena, forte, com os cabellos pretos cobrindo-lhe as orelhas em ondas accentuadas, ella afastava a imagem loira e fidalga da mãe para o fundo esfumado do sonho; e, palpitante de vida e de força, vinha lembrar á velha que só se devia consumir por ella.

--De onde vens? Como te sujaste... trazes palhas no cabello... Olha o vestido rasgado!

--Quando pulei a cerca...

--Pulaste a cerca! muito bonito! Então uma menina pula cercas?!

--Foi para entrar na horta...

--Vem cá... deixa-me abotoar-te... ora... ora ..

Os dedos da baroneza prolongavam de proposito a operação, só pelo prazer de estarem em contacto com o corpo adorado da neta.

A menina debatia-se por fim, morta por correr para o pomar ou para o jardim.

--Fica quieta...

--Vovó! ande depressa...

--Para que?

--Ainda não dei couve aos coelhos e quero engordal-os para levar um a D. Alice. Ella disse que...

--Bom. Vae-te embora!

A neta, percebendo tudo, cahia-lhe aos beijos nas faces e nos cabellos, rindo, apertando-a nos braços vigorosos.