A Intrusa

Part 10

Chapter 103,908 wordsPublic domain

--Vovósinha do meu coração! Como eu amo esta avó! Como eu adoro esta avó!

Então sentava-se e contava as historias lá de fóra:

O vovô ainda não percebera que as formigas estavam-lhe dando no pé de absintho... A mangueira grande do pasto estava com herva de passarinho. Ella já avisára o João... A gallinha pedrez apparecêra com dez pintinhos nascidos no matto e havia um ninho de pintasilgos na limeira da horta...

A avó sorria, ella incitava-a a sahir com ella pela avenida das mangueiras, até lá abaixo ao portão, para ver uma paineira da estrada toda coberta de flôres! Completamente rosada!

A avó, puxada pela neta, arrastava os passos pesados pela aléa deserta e só nesses curtos momentos o seu pensamento tinha repouso.

Segurando na mãozinha da neta, dizia comsigo:

--Deixa-me aproveitar bem a companhia d'ella, antes que ma levem!

Mas lá chegava o sabbado, em que a levavam, ou o avô, ou o padre Assumpção, que ia ás vezes cedo almoçar com os amigos e buscar a pequena. Sem ser annunciado, elle, bom andarilho, vinha a pé desde a estação, uns bons dois kilometros, até á chacara.

Quando ás vezes o percebiam, elle já estava dando os bons dias na sala da entrada; outras occasiões os olhos anciosos de Gloria descortinavam-lhe ao longe a batina negra, destacando-se no fundo luminoso do portão aberto.

A menina corria para elle; e a avó, encostada á janella, via-o approximar-se, com tristeza...

O padre parecia-lhe então um carrasco, connivente com os projectos criminosos da outra e os actos hypocritas do genro. Não o via sempre prompto a defender a _outra_ e a elogiar a moral severa de Argemiro?

Tambem elle esquecia essa pobre Maria, tambem elle trahia o cumprimento da sua ultima vontade! É bem verdade que os mortos vão depressa!...

Num sabbado, depois de ter visto Gloria entrar no carro com o avô, a caminho da cidade, a baroneza dirigiu-se para a sua saleta de costura, e tentou acabar um avental da neta; mas os dedos preguiçosos paravam no ar e o aventalzinho escarlate cahiu-lhe sobre os joelhos tão incompleto, depois de meia hora de manuseado, como estava antes.

Arguia em mente a sua fraqueza e indolencia.

Via irem as coisas por agua abaixo e não fazia nem sequer um aceno para prendel-as! Não era tempo de tomar uma resolução?

A culpabilidade dos outros atemorizava-a?

O dever das mães não é defender os filhos até á morte?

A sua passividade não era, portanto, um crime, e não seria tempo de pôr em acção o seu desejo, até agora suffocado pelas mãos dos outros, de rehaver para a sua Maria o coração de Argemiro e guardal-a lá dentro, como santa unica em devoto oratorio?!

Á força de pensar nisso, materializava as imagens, dava corpo e sangue ás suas idéas, prompta a bater-se por ellas até ao ultimo alento.

Recriminava-se agora da sua altivez, mandando calar-se o negro quando este lhe ia relatar o resultado da sua espionagem... Que tola generosidade fôra a sua, e de que desencontrados sentimentos são victimas as criaturas humanas... Repellira tambem o alvitre da cartomante, cançada de esperar pela carta annunciada...

Vinham-lhe agora tentações de voltar lá, a vêr se ao menos encontrava alguem a seu favor! Que falta lhe fazia um braço em que se apoiar!... Certamente que a cartomante não lhe devia merecer absoluta fé... mas não acertara ella em muitos pontos com a verdade? A _Inimiga_ e as suas machinações não lhe tinham saltado aos olhos logo no principio da consulta?

Dever-lhe-ia negar o poder da adivinhação? E em vez de negar, não seria prudente recomeçar?

Uma elucidação...

O aventalzinho escarlate cahira para o assoalho, e nos resedás da janella um beija-flôr destemido batia as azas delirantemente.

Eram tres horas da tarde quando a baroneza, muito afogueada, subiu a escadinha ingreme da D. Alexandrina. Como na primeira vez, teve de esperal-a longamente na sala de jantar, entre chromos pregados a gomma na parede e aniagens sujas de cortinas. Um cãozinho rateiro rosnava a um canto, de focinho desconfiado erguido para as sedas pretas da velha bem tratada. Depois de uns minutos que se afiguraram longuissimos á consultante, a portinha do quarto abriu-se e D. Alexandrina appareceu, com o queixinho sumido em um riso largo de boas-vindas.

A baroneza, em tom queixoso:

--Não recebi a tal carta annunciada pela senhora...

--Ha-de recebel-a .. as cartas não mentem! Ainda não é tarde... Entre...

Nessa segunda-feira o passeio fôra ao Instituto dos Cegos.

Gloria voltava cora a alma cheia de espanto. Divizando no banco do jardim o padre Assumpção, pontual na espera, correu para elle com enthusiasmo. Alice acompanhava-a a distancia, com ura sorriso placido.

--Adivinhe onde eu fui, padre Assumpção!

--A algum lugar muito bonito, porque os teus olhos reflectem maravilhas!

--Acertou. Fui ao Instituto dos Cegos!...

--Ah! mas... pareceste-me tão alegre!

--Pois então! eu imaginava que todos os ceguinhos vivessem amargurados... zangados... que no escuro em que vivem não se entretivessem com coisa nenhuma, nem pudessem lêr, nem tocar, nem nada... Quando D. Alice me disse: vamos ao Instituto dos Cegos... eu não respondi nada, por vergonha, mas fiquei com medo...

--Os cegos nunca fizeram mal a ninguem...

--Não sei... mas eu tive medo de ficar com pena!

Alice chegava nesse momento; o padre cuprimentou-a e recebendo a menina, despediu-se d'ella.

Gloria abraçou a moça com frenesi e partiu, em companhia do padre, para o escriptorio do pae.

No bond recomeçou a conversa:

--Então hoje gostaste do passeio...

--Muito! Quando chegamos eu estava aborrecida; mas logo que passei pela primeira sala fiquei interessada. D. Alice ia-me mostrando todas as coisas com tanta paciencia... tudo muito limpo e as cegas tão risonhas! Havia lá uma menina chamada Rosinha, da minha edade... e mais adeantada do que eu!

--Porque é estudiosa.

--Mas eu vejo!

--É que não basta vêr...

--D. Alice levou uns biscoitos para as crianças... Se o senhor visse a algazarra que ellas fizeram! São conhecidas de D. Alice... Uma tocou piano e um mocinho, violino... Fiquei admirada... nunca imaginei que os cegos pudessem ser felizes.

--São, alli, porque não tem tempo de pensar na sua desgraça, tão occupadas têm todas as horas. Assististe ás aulas?

--Assisti... leram... deram geographia...

--Foste ás officinas?

--Fui. Vi empalhar cadeiras, fazer escovas...

--Ahi está: lendo, tocando, enramando vassouras ou fazendo outro qualquer trabalho, elles estão sempre entretidos. É uma casa santa, aquella em que puzeste hoje os teus pés. Guarda na memoria a lembrança d'esse passeio, que te servirá de conforto quando ouvires mais tarde falar mal dos homens... Se não houvesse bondade, ninguem iria ao encontro da miseria, nem protegeria os fracos...

--Foram as palavras de D. Alice, quando sahimos de lá...

--Ah, ella disse isto mesmo?

--Tal e qual...

--É extraordinario!... que mais te disse?

--Que todos nós devemos conhecer as casas em que se pratica o bem na nossa terra, para as bemdizermos e conduzir até á sua porta os necessitados de seu soccorro... Disse que o Rio de Janeiro é uma cidade generosa e que nós todos devemos fortifical-a no empenho de agasalhar os infelizes.

--Ella tem razão!

--Quando eu lhe disse que os cegos já não me pareciam desgraçados, ella mostrou-me o mar... o ceu... os morros... os barquinhos de vela... e perguntou-me depois se eu não teria pena de não ver tudo aquillo.

É o exemplo vivo, a commoção aproveitada para o exemplo moral... pensou o padre. Quem teria inoculado naquella mulher esta delicadeza, este tacto de educadora, tão raro? Ella conhece as plantas dos jardins e ensina os nomes das nossas arvores; sabe de cór as casas de caridade e chama para ellas a sympathia das crianças, interessando-as ao mesmo tempo pela grande familia dos infelizes... sujeita-se a exercer um lugar suspeito, aceitando todas as condições que lhe impõem e revela uma sensibilidade rara em todos os actos em que a podemos apreciar...

Será ella na verdade a mulher perigosa, não pelo que calcula e inventa, mas pelo que merece? Não será prudente encobrir, tanto quanto possivel, essa feição singular do seu caracter ao Argemiro?... Gloria não repetirá ao pae as palavras que me disse, fica-lhe no coração o sentido, mas a memoria não as guardará com a mesma fidelidade... Eu serei mudo... Convém ser mudo. Elle quer guardar a sua independencia... e nem percebe que já está captivo! Diz que não. É sincero quando o diz... pensa que não. Nunca a vê... Mal lhe ouviu a voz um dia... Entretanto, só se alegra quando entra em casa... já não olha com o mesmo olhar saudoso para o retrato de Maria. Se a governante sae, estando elle em casa, logo se aborrece.

É exquisito. Não a ouve... não a vê, mas sente-a! Como acabará tudo, se ella não fôr o que parece?... Ha almas tão complicadas, tão indecifraveis! A d'esta mulher assusta-me... preciso defender o Argemiro... sou o unico amigo em contacto com ambos...

Ella é difficil... eu desageitado. Se eu fosse mais corajoso e ella mais franca... Mentirosa?... não me parece... mas é possivel. Minha mãe gostou d'ella. Mas o coração de minha mãe é propenso á sympathia. O melhor coração da Terra!... Argemiro mudou. Está illuminado... Ella envolve-o com um cuidado excessivo... é isso que me faz scismar... Emfim, seja como fôr, a verdade é que a minha Gloria tem aproveitado. Cá em baixo parece outra. Deixa a casca selvagem com a avó, e fica de setim! Teremos isso de lucro! Porque, afinal, para tudo o mais o remedio é a inercia.

Gloria era esperada pelo avô no escriptorio do pae e, como o velho tivesse pressa, as despedidas foram precipitadas. Só depois d'elles sahirem Assumpção reparou na expressão aborrecida do amigo.

--Que novidades temos? Estás com uma cara!

--Imagina: minha sogra vem morar commigo!

--Felicito-te. Terás assim tua filha sempre a teu lado. Parece-me que já lhe pediste isso mesmo ha tempos.

--Quando enviuvei. Então não quiz. E agora...

--Quer. É natural.

--Mentes; não achas natural. Tu percebes tudo tão bem como eu.

--Direi mais: acho que faz bem.

--Em espionar-me?!

--Defender-te.

--Quem me ameaça?

--A tua imaginação.

--Vocês são todos uns imbecis!

--Talvez...

--Metteu-se-lhes uma asneira em cabeça e é alli! Eu sempre quero saber que mal fez a pobre moça á minha sogra! E a vocês todos, que a guerream... mas guerream porque? porque traz a minha casa alegre, cheirosa, bonita, limpa; porque economisa o meu dinheiro, fazendo-me passar bem como nunca, e ainda corrige a minha filha de feios vicios de educação! A eterna malicia faz d'isto um enredo e mette-se-me no caminho para me perturbar. Tu sabes que eu quero muito á minha sogra; depois da morte de Maria redobrou por ella o meu affecto e a minha consideração... Sabes que tenho um grande prazer em vel-a, em estar a seu lado, em chamal-a mamãe... como uma criança... como minha mulher fazia... Sabes que sou fiel ao passado e ao juramento que fiz; sabes tudo isso e sabes tambem que sou profundamente egoista, que amo a ordem, o silencio, o socego, o conforto e a liberdade! A liberdade, sobretudo! Aquella creatura que tenho em casa não é uma mulher; é uma alma, que me não constrange absolutamente em nada. Levanto-me, deito-me, saio, entro, janto, converso, ralho ou rio, sem ter que dar por isso a minima satisfação a ninguem. Vaes vêr agora! Minha sogra e ella são incompativeis...

--Talvez não...

--Sim, com certeza! Abre-se a guerra. A moça sae. O Feliciano readquire o perdido prestigio. Começa o desbarato dos charutos, das camisas engommadas e das gravatas. A mobilia ficará com pó; a comida será atirada para os pratos como para os cães. Minha sogra, velha e pesada, não poderá subir e descer as escadas na fiscalização dos quartos. Os retratos de Maria apparecerão rodeados de perpetuas e sempre-vivas, flôres da minha especial embirração; aquelle perfume suave que me entrou em casa com esta rapariga, desapparecerá com ella; abrirão a porta do gallinheiro para o jardim e seccarão roupas no gradil do terraço do fundo... Verás! Á noite não poderei passear no meu quarto, como costumo fazer, com receio de incommodar a mamãe, que tem somno leve e soffre de enxaquecas; e terei mesmo, para socegal-a, de apagar a vela muito antes de adormecer, porque tem medo de incendios!...

Assumpção sorriu.

--Que pretexto dá para essa resolução?

--Doença. Está doente e precisa de vir morar ao pé dos medicos!...

--Effectivamente, achei-a abatida outro dia...

--A doença d'ella, sabes qual é? ciumes!

Vem vigiar-me... pôr obstaculos... fazer scenas... Como se eu me sujeitasse!

--Não...

--Não?! És innocente! Mas eu fujo, invento uma viagem. Parto!

--Para onde?

--Não sei... para o inferno.

--Pobre senhora...

--Eu adoro-a, Assumpção! adoro-a, lá, á sombra das suas mangueiras, afundada na sua cadeira de balanço, cheirando a alecrim e dizendo as coisas maternaes que sabe dizer. Mas em minha casa atrapalha-me... desarranja-me a vida... altera-me o socego. Pensa commigo: minha sogra pôde viver em companhia da Alice?

--Pôde...

--Como?!

--Pedindo-lhe para não se immiscuir em nada na direcção da casa...

--Seria bom se ella não viesse já com o proposito de supprimir a outra. Engole-a. Verás que a engole logo na primeira entrevista.

--Exaggeras...

--Estás convencido d'isto, tão bem como eu. Não a defendas, nem disfarces!

--Quem te deu essa noticia, o barão?

--Sim. Quando vocês entraram elle acabava justamente de pedir-me que lhe dispensasse um quarto em minha casa. Outra coisa: o meu quarto eu não o dou; e a não ser o meu, o unico quarto nas condições de servir-lhes é o que dei á governante... terei de a desalojar... é desagradavel isso não te parece? Será necessaria a tua intervenção. Agora levo em capricho, não quero vêr nem falar com aquella moça. Uma sacrificada á brutalidade dos outros.

--De que me incumbes?

--De ir communicar isso mesmo á coitada e combinar com ella os arranjos do quarto...

--Tua sogra descerá?...

--Amanhã. Ella entra por uma porta e a Alice sahirá pela outra; é o que vae acontecer.

--Talvez não...

--Vê se com o teu prestigio de padre e a tua diplomacia consegues conciliar as coisas...

--A baroneza desconfia de mim...

--Ah, já notaste!

--Todavia, procurarei ellucidal-a. Ninguem acredita, a não serem os amigos intimos, que mantenhas no segredo da casa a situação que fazes transparecer cá fóra... Não censures tua sogra, pela mesma persuasão, que...

--Persuada-se do que quizer; mas não lhe assiste o direito de impedir a minha vontade e a minha liberdade de homem, de fazer o que eu muito bem entender. Nem minha mãe seria capaz d'isso, nesta situação...

--Não te exaltes...

--Meu sogro notou com certeza o meu sorriso amarello...

--Pobres velhos!

--Só os lamentas a elles! E a mim?...

Assumpção. não quiz dizer a quem mais lamentava, mas a figura pallida de Alice atravessou-lhe o espirito numa aureola de piedade. A sua commissão era muito delicada, e nem sabia por onde começar.

Argemiro passeava agitado pelo escriptorio, falando entrecortadamente:

--Exactamente agora, que tenho tanto trabalho... aquelle doce socego... ainda hontem escrevi até ás duas horas...

Qual!... E aquella mania da comida sem sal?!... E eu que aprecio os salgados... Outra coisa que eu abomino... o cheiro do tal matte queimado! E o senhor meu sogro não dispensa o matte!... Logo de manhã cedo é cada chicara!

O Feliciano vae rejubilar-se! Se me apparecer com a cara alegre, mato-o!... Se não fossem certas considerações... Ah! os meus livros, tão bem arrumadinhos... Has de crêr? Depois que ella está lá em casa nunca achei uma falta e nem uma traça na minha bibliotheca! Antes, era um desespero! O Feliciano tinha aquillo em uma desordem... Eu estava agora tão bem... tão bem!... Que castigo!

--Tranquillisa-te... tudo se ha de arranjar.

Por quanto tempo vêm os teus velhos?

--Tempo indeterminado. Quer dizer: toda a vida!

--Se elles soubessem d'este acolhimento...

--Sabem. Presumem! Minha sogra com que fim vem cá para baixo? Com o fim de escangalhar a minha felicidade. Pensa que eu amo, que sou correspondido e vem pôr-se entre os meus beijos e os da pobre rapariga... O que conseguem com isso tudo? Despertar-me a curiosidade e obrigarem-me talvez a apaixonar-me de verdade. E ainda se hão de queixar... de mim, quando eu confessar isso! Verás.

Assumpção sorriu, dando razão ao amigo, sem se entretanto manifestar.

--Envergonho-me antecipadamente do que se vae passar lá em casa...

--Tua sogra é delicadissima...

--É ciumenta! e os ciumentos chegam a praticar desatinos! Lembras-te de Maria? Um anjo; mas quando lhe dava para ter zelos... perdia a cabeça!

--Tal qual a mãe... Decididamente, eu vou-me embora!...

--Parece-me prudente conversares hoje com D. Alice.

--Nunca... já agora, não quero! Tem paciencia, meu velho, fala-lhe tu... és tão bom, tens-te interessado tanto pela minha vida, que não sei já dar um passo sem ti... e quando o dou não sou feliz.

Estou a falar-te e a reparar numa coisa: vocês nunca alludem ao nome da minha governante sem o acompanharem do _dom_... vejo que ella inspira respeito a toda a gente... deve effectivamente ser uma mulher fina e educada... D. Alice!... pois a D. Alice vae soffrer vexames.

--Não sejas tolo.

--Verás.

--Espera-me hoje para o jantar. Conversarei depois com a... D. Alice. Ella é cordata e conhece o seu logar. Dás-lhe demasiada importancia. Afinal, ella é uma empregada... uma subalterna. Não exaggeres os melindres e tranquillisa-te. Que mais ordena meu principe ao seu _mordomo_?

--Que me abrace e me perdôe.

Assumpção sentiu no abraço do amigo uma ternura intensa.

Ama-a... pensou elle comsigo tristemente. Elle ainda o não sabe... mas a verdade é que ella já lá está dentro...

XV

Intoleravel, o Feliciano, ao servir nessa tarde á mesa. Sem pronunciar uma unica palavra e mais impertigado ainda que de costume nuns collarinhos que lhe roçavam as orelhas, percebia-se que no seu mutismo e seriedade elle suffocava de contentamento. Quando o olhar de Argemiro o lobrigava espigado aos cantos, esperando ordens, desviava-se com uma impressão exquisita e que não podia definir. Durante todo o jantar desgostou-o a figura limpa e correcta do negro, approximando-so e afastando-se maciamente, conforme as exigencias do serviço.

Em frente de Argemiro o padre Assumpção, encostando os hombros quadrados no alto espaldar da cadeira de couro, dilatava as narinas ao aroma das frescas rosas que alegravam a mesa.

Para tornar uma hora agradavel basta ás vezes bem pouca coisa... pensava elle comsigo.

Uma toalha bem limpa... umas flôres orvalhadas... esmaltes de loiças reluzindo... e já os olhos e o olfacto tem um repasto regalador... Ámanhã, as coisas estarão de outra maneira, que é vezo de inimigos contradizerem-se em tudo. E então Argemiro confessará o que ainda pensa ignorar...

--Acredita, meu velho, estás hoje com a fisionomia differente! Salvaste com certeza alguma alma do purgatorio...

--Talvez... mas talvez sejam tambem effeitos de um sonho que tive esta madrugada.

Imagina: eu estava sentado a um orgam de uma cathedral enorme, e de tão peregrina belleza, que nenhuma haverá assim sobre a terra... Por toda a vastidão do templo estendia-se uma luz pallida, de alvorecer ou de luar, desenhando nas naves os rendilhados das rosaceas e as figuras dos vitraes... Eu tocava musicas solemnes e de tão concentrado, tão profundo sentimento, que as lagrimas me cahiam dos olhos aos pares, quando acordei, e tenho andado todo o dia com a alma cheia de harmonias. Se eu fosse moço, teria corrido ao Instituto de Musica a vêr se tornaria um dia possivel tal ventura...

Por que hão de vir tão tarde semelhantes sonhos?!

--Para que se não realizem.

--É isso. Minha mãe, lembras-te? adorava a musica, e o piano poucos segredos teria para ella. Foi pena que não me tivesse transmittido essa prenda... A arte da musica é perfeitamente compativel com o sacerdócio e eu teria uma valvula para as minhas febres...

--Escreve...

--A palavra é indiscreta e arrastaria o meu temperamento, que eu trago fechado á chave...

--Nunca pensei que elle se submettesse a isso! És um forte, Assumpção!

--Nunca pensaste, porque?!

--Por que te conheço desde pequeno.

No collegio ou em casa, foste sempre um rebelde. Não posso esquecer-me do dia em que minha mulher, nesta mesma sala, alli, naquelle canto, me disse que tu ias tomar ordens.

--Effectivamente, foi ella a primeira pessoa a quem confiei essa resolução!

--Como eu protestasse, indignado contra a idéa (que sempre me foi muito desagradavel), ella observou: Tu te zangas! pois eu estimo... Elle será o meu confessor!--Tudo isso vae longe...

--Para mim não. Parece-me que tudo se passou hontem... No meu sonho, esta madrugada, reviveram essas commoções... As imagens da cathedral, todas de marmore branco, tinham, na opacidade da pedra, a expressão humana das creaturas que amei na minha adolescencia e na minha mocidade... As melodias gloriosas que eu derramava pela vastidão do templo eram formadas pelas vozes d'ellas, resuscitadas miraculosamente naquellas endeixas sacras... Não eram só vozes humanas que eu reconhecia nas sonoridades da minha musica, eram tambem outros sons que tenho sempre guardados no ouvido: o ranger da porta do seminario... o badalar do sino para a minha primeira missa... e o rugido das sedas de tua mulher no dia em que me foi fazer a sua primeira confissão... Nunca me esqueci... foi como um ruflar de azas... Pois a minha alma transportava essas impressões em largos canticos, vendo as imagens extaticas todas voltadas para a chuva do meu pranto e sentindo a minha alma encher o mundo! Um sonho de artista genial, e em que eu gosei as alegrias fecundas da creação. Não te parece que sejam os artistas os homens mais felizes da terra?

--Tenho convivido pouco com elles, e como não me basta imaginar... Quem sabe? Olha, toma vinho. Creio que não te basta o da missa...

--Pouco mais. Que é isso?!

--Nada...

Argemiro tivera um pequeno sobresalto involuntario, vendo a mão negra do Feliciano pegar na porcellana côr de leite do seu prato.

--Nunca te aconteceu, ao ter qualquer impressão, sentir mau ou bom gosto na boca?

--Nunca, respondeu o padre.

--Pois agora foi como se eu tivesse tomado uma colher de sumo de limão!

O olhar de Argemiro acompanhou o vulto do negro, que se dirigia para a copa. Assumpção argumentou:

--Está nas tuas mãos o remedio.

--Despedil-o?

--Pois então?

--Acabo por fazer isso mesmo. Realmente não ha nada como a ignorancia para certa gente. Meu sogro fez de um moleque humilde, um homem ruim... Se em vez de o mandar para a escola, com bolsa a tiracolo e sapatinhos de botões, o deixassem na modestia da cozinha ou da estrebaria, elle não teria agora nem a revolta da sua côr nem a da sua posição... O que o torna mau é a inveja e a sua ignorancia mal desbastada.

--Elle não é tão mau assim!

--Defende-o agora!

O Feliciano voltou com a sobremesa, um doce novo, desconhecido de ambos e que o copeiro não teve remedio senão confessar ter sido preparado por D. Alice, receoso de que ella o ouvisse por detrás das portas.

--Depois do café, ao entrarem os dois sózinhos para a bibliotheca, Argemiro notou:

--Foi o meu ultimo dia de bem-estar. Reparaste? nada faltou. É uma alegria, uma casa assim! E rara, eu sei, nas minhas condições, rarissima! Perfeita, a minha governante! se tem defeitos, nunca os deixa transparecer... nem é possivel que os tenha...

--Estás doido! Ella é uma mulher como muitas; sómente cuidadosa de não perder um emprego bem remunerado; mais nada.

--A esta accusas!

--Não. Esclareço-te. Jogaste uma cartada, foste feliz, dá-te por bem pago por estes largos mezes de tranquillidade. Suppondo que tua sogra se incompatibilise com a D. Alice, acharás depois outra governante nas mesmas condições. Esta é tão perfeita como será a outra, desde que tenhas com ella as mesmas exigencias que tiveste com esta...

--Pensas então que seja só movida pelo interesse pecuniario que ella tão bem se desempenha de tudo?

--Penso... que isso concorrerá!