A flor secca: romance

Part 11

Chapter 113,980 wordsPublic domain

Alberto ficou mudo d’assombro. Eu nem lhe dei tempo a responder-me. Saí precipitadamente, e, ao abrir a porta, esbarrei n’um vulto.

Era a Maria do Rosario.

--Que estava aqui a fazer? perguntei eu com indignação.

--Nada, minha senhora, respondeu ella com toda a naturalidade; vinha apagar as luzes.

E entrou effectivamente para a sala.

Era possivel que fosse essa a verdade, e, se o não fosse, que me importava? Denunciasse-me embora; eu ia jogar a ultima carta, e estava disposta a confiar-me cegamente ao destino.

Comtudo, até para dar esse passo, que me devia salvar da vergonha, precisava de humilhar o meu orgulho aos pés de uma creada; é verdade que essa creada, antes amiga, era a boa Quiteria, a pobre velha, que tão desinteressadamente se dedicara a mim. Só d’ella me podia valer para conseguir que fosse entregue a Alberto a chave, que era indispensavel para a nossa ultima entrevista.

Portanto, no dia seguinte chamei-a ao meu quarto, e como ligava muito mais apreço á opinião da boa e pobre Quiteria do que á da altiva D. Antonia, e da virtuosa condessa, contei-lhe pela rama a historia das minhas relações com Alberto, não lhe fallei em subtilesas de coração, mas disse-lhe que, vendo-me calumniada por causa d’aquelle homem, queria ter uma conferencia com elle para lhe pedir que se retirasse e não me expuzesse mais, ainda que involuntariamente, aos juizos desfavoraveis das pessoas com quem estava condemnada a viver. Terminei rogando-lhe que se encarregasse da missão que eu desejava confiar-lhe.

--Minha boa menina, respondeu-me a Quiteria, tenho dado fé das intrigas, que a cercam, e sei perfeitamente que a senhora D. Margarida está innocentinha como um anjo do céu. Dá-me vontade ás vezes de esganar os seus perseguidores! Já não fallo no senhor Claudio, que esse no fundo é muito boa pessoa, assim elle soubesse ser dono da sua casa. Mas a senhora D. Antonia, Deus me perdôe, parece mesmo que tem o demonio ao lado que lhe está aconselhando a maldade. E a Maria do Rosario? Ai! que boa peça! Anda sempre, como o outro que diz, com o santo nome de Deus na boca, e o diabo no coração. Aquillo até chega a ser heresia. Por isso todos lhe teem raiva, e se não fosse por minha causa, o meu Simão já lhe tinha quebrado os ossos, quando a pilhava a espreital-a, e a ir metter no bico da senhora D. Antonia tudo quanto a menina faz! Mas eu que sou muito sua amiga, porque vejo que é boa com a gente pobre, e que não se contenta em lhes dar uma fatia de pão, com modos de quem dá uma facada, como fazem essas beatas fingidas; mas que é meiga, affavel com elles, que os trata bem, e não lhes faz sentir a sua humildade e a sua dependencia, que não ha coisa mais triste, santo nome de Jesus. Andar uma pessoa a comer as sopas d’outrem...

--Mas o que é que ia a dizer, tia Quiteria? interrompi eu, porque a via disposta a amontuar incidentes sobre incidentes, e a perder o fio da oração principal.

--Ah! é verdade, já me esquecia... Tenha paciencia, minha boa senhora, que isto de velhas gostam muito de dar á lingua, e, em ellas começando, não ha fazel-as parar. Misturam alhos com bugalhos, e nunca chegam ao fim, como succedeu na noite em que a menina chegou, que me enredei por tal fórma, que não acabei de contar a historia do fr. João. Que elle sempre viu a alma do pae...

--Mas vossemecê estava a dizer outra coisa, tornei eu, já impaciente.

--Ah! é verdade. Isso é o que importa agora, e não o saber-se que o pae de João lhe confessou que fôra a pouco e pouco mudando os marcos das terras dos visinhos, e que não teria a sua alma descanço e andaria penando por este mundo em quanto essa justiça não fosse reparada.

--Sim, sim, tia Quiteria, mas vossemecê dizia...

--Ah! é verdade, voltando cá á boa alma de Maria do Rosario, que me parece que já está a arder no inferno pelas mexeriquices que tem feito, e as desgraças que póde crusar, sempre lhe direi, minha menina, que o demonio da mulher ouviu-a hontem dizer ao senhor Alberto que fosse ao jardim, e, segundo o seu costume, foi logo dizer tudo á senhora D. Antonia. Ouvi-a eu com estes ouvidos, que eu não sou surda, graças a Deus, a vista é que se me vae debilitando alguma coisa, e os dentes esses viste’-los? Nem eu. Pois ouvi-a estar a contar tudo isso, e ouvi tambem a senhora D. Antonia dizer assim: «Ora graças a Deus! vejâmos agora se meu sobrinho ainda acha algum pretexto para se esquivar a fazer o que deve, e se, depois de ter visto com os seus proprios olhos, ainda estiver pouco disposto para isso, nós arranjaremos as coisas de maneira que elle não tenha outra saída. O caso é não se ter vossemecê enganado nas horas.»--«Não enganei, não, minha senhora, respondia a voz de falsete da Maria do Rosario, ás duas horas no jardim.» Mais nada ouvi porque senti passos aproximarem-se da porta, e não tive tempo senão de me safar. Ora agora veja a menina se não será melhor adiar a entrevista para outra occasião. Olhe que ellas estão prevenidas, e fazem-lhe alguma.

Reflecti alguns momentos antes de dar uma resposta. Os sentimentos do meu coração, vencidos pela idéa do dever, não tinham ficado completamente domados, e protestavam ainda contra a oppressão, a que os votara. Fugia d’esse vedado paraiso do amor, mas, fugindo, relanceava para elle os olhos, como a chorosa Eva ao sair do Eden, se voltava a contemplal-o, com o peito a arquejar de saudades. Sorria-me tentadora a idéa fatal de esquecer nos braços de Alberto a vida e as suas obrigações, o mundo e as suas amarguras, de fugir com elle para algum eremiterio arredado do bulicio social, ufanando-me do estygma, aceitando o escandalo para conquistar o amor, como se aceita o martyrio para se conquistar a palma. Bem sei que seria de pouca dura essa felicidade criminosa, que o remorso seria o meu algoz, e o enfado, que algumas vezes me entreluzisse nos olhos do meu amante, pugentissimo castigo; mas o que era tudo isso em comparação da longa vida de estiolamento que eu ia passar n’esse carcere domestico? Lembrei-me dos amores de D. Branca e de Aben-Afan. Horas breves de felicidade compradas por uma vida inteira de horrido desgosto; e o que destruira esses amores tão violentos? Um gesto de fastio do moiro wali, saudoso das suas pelejas e do seu poder. Teria eu maior condão que D. Branca, Alberto mais desprendimento do mundo, do que Aben-Afan? Não lhe leria nunca nos olhos o desgosto de se ter prendido em laços, não authorisados pela sociedade, e de se ver privado dos gosos mundanos?

Mas isso que importava? Se a gentil abbadessa, depois de ter visto e amado o arabe formoso, se houvesse sepultado logo no gélido mosteiro, não seria ainda maior a sua tristeza? Não seria a sua vida uma longa noite, em que nem sequer luziria um raio do sol extincto sim, mas que por instantes brilhara no horisonte? Longa noite sem o luar d’uma recordação? Não seria então que o poeta podia deveras exclamar:

.... Mas é vida Esse viver que se alimenta em lagrimas?

Agitada por estes encontrados pensamentos, persisti na idéa de deixar ir o batel do nosso destino ao som da agua, para onde o impellisse a corrente do acaso, ou antes, o que era mais christão na forma, senão no fundo, entreguei á Providencia o cuidado de reger o leme, e confiei-me cegamente ás ordens do Divino Piloto. Cumpriria o que resolvera, iria pedir a Alberto que se affastasse de mim, porém, se a fatalidade interviesse de novo, se a mão implacavel dos que me tinham collocado á beira do abysmo me despenhasse n’elle, não opporia a minima resistencia, e deixar-me-hia cair nos braços que me recebessem.

Era esta a ultima prova e a mais fatal das indecisões do meu caracter, tão pouco proprio para as luctas da existencia.

Por isso respondi á boa mulher:

--Embora, tia Quiteria; cumpra-se o meu destino: o que resolvi está resolvido. São puras as minhas intenções, mas já não tenho forças para luctar com as minhas perseguidoras. Quanto mais depressa isto acabar, melhor. Estou anciosa pelo descanço, ainda que seja o repouso do tumulo, ou o do opprobrio.

--Ah! a minha menina que se deita a perder! tornou a Quiteria com modos supplicantes. Pois quer dar essa gloria ás suas inimigas? Não faça tal. E demais, continuou ella, desatando a chorar, isso é tentar a Deus, é, como quem diz, dar cabo de si com as proprias mãos.

Travei, commovida, das mãos de Quiteria, e disse-lhe:

--Obrigada, minha boa amiga, obrigada por essas lagrimas. Ah! se as pessoas que a desprezam do alto da sua soberba, tivessem o seu coração!... Mas, tia Quiteria, bem vê que uma vida assim não pode continuar. Estou cançada, estou prostrada por esta lucta sem treguas nem fim. Acarinhada, mimosa em casa de meus paes, vim para esta casa, nunca mais tive nem socego nem alegria. As pessoas do meu trato quotidiano só tinham para mim rostos severos ou frios. Não tive affeições, não tive familia. E, não contentes com isso, isolaram-me do mundo, e cercaram-me com uma gélida barreira de desconfianças, de suspeitas, e de calumnias. Esforcei-me, luctei por sair d’este circulo de ferro; não pude. Já me sinto sem forças nem alento. No tumulo talvez me deixem tranquilla, ou, se me expulsarem d’esta casa, talvez encontre descanço ahi no fundo de alguma choça abandonada. Não é melhor assim?

E as minhas lagrimas confundiram-se com o pranto da minha humilde amiga.

--Pobre senhora! pobre senhora! dizia ella, soluçando; pobre pombinha sem ninho! antes Deus a tivesse feito nascer n’uma choupana! viveria socegada, e todos a haviam de estimar, como merece.

--Antes, antes, Quiteria, respondi eu melancholica, bastantes vezes, no silencio da noite, lancei a Deus esse grito de revolta contra o martyrio sem causa.

--Mas, minha menina, continuou a velhinha limpando as lagrimas, que ainda lhe banhavam as faces, se por força quer fallar esta noite ao senhor Alberto, ao menos faça-me uma coisa.

--Qual é?

--Mude a hora da entrevista; mande dizer ao senhor Alberto que venha á meia noite.

--Á meia-noite, tia Quiteria! Quasi a essa hora se vão as visitas.

--Então o que tem? O senhor Alberto que espere. Olhe, a senhora D. Antonia, o que deseja é ver se a apanha lá, e por conseguinte esteja a minha menina certa que lhe não ha de pôr obstaculos.

--Oh! isso sei eu.

--Então está combinado?

--Pois sim! tornei eu com a indifferença do fatalismo.

--Ora bem! disse a Quiteria muito satisfeita. Assim talvez ainda as possamos lograr! Deus está por nós. Elle nos ajudará. Fique a menina descançada que d’aqui a duas horas está o senhor Alberto avisado.

E, despedindo-se de mim, dirigiu-se para a porta; mas, quando ia a levantar o fecho, parou, como se lhe houvesse esquecido alguma coisa, e disse:

--Ah! já me não lembrava!...

--O que é, tia Quiteria? perguntei eu com interesse.

--O João...

--Qual João? tornei a perguntar, porque já nem pensava na historia do frade.

--Ora, qual João! o que viu a alma do pae...

--Ah! é verdade, interrompi eu rindo, então o que lhe succedeu?

--No dia seguinte restituiu as terras furtadas aos seus donos, as outras vendeu-as, e foi-se metter n’um convento. E aqui está como fr. João vestiu o habito de frade, e foi sempre um homem exemplar.

E muito satisfeita por ter afinal contado a sua historia toda, a tia Quiteria abriu a porta e saíu.

XXI

Pareceram-me seculos as horas, que decorreram até o cair da noite, e comtudo, quando as primeiras sombras do crepusculo principiaram a invadir o céu, desejei que retrocedesse o tempo, e tremi de ver tão proximo o instante em que se ia decidir a minha sorte.

Chegaram, segundo o costume, as visitas; D. Antonia mostrara-se todo o dia affabilissima comigo, tambem a condessa houve por bem mimosear-me com alguns dos seus mais amaveis sorrisos, e Carolina abraçou-me e beijou-me com extraordinaria affeição.

A tudo correspondi com sereno e melancholico aspecto: causava-me asco esse corrilho de Judas.

Ás dez e meia retiraram-se todos; D. Antonia disse estar incommodada, e foi-se metter no seu quarto; Claudio apparecera na sala e demorara-se instantes apenas, mostrando-se visivelmente inquieto; depois saira.

Á meia noite em ponto, desci do quarto; pulsava-me o coração com extraordinaria vehemencia; ia dando um grito, e deixando cair o castiçal, que levava na mão, ao deparar-se-me um vulto immovel no fundo da escada.

Felizmente logo o conheci: era Quiteria.

--Começa o enredo, disse-me ella em voz baixa; a condessa e a D. Carolina entraram agora mesmo.

--Estão cá? perguntei eu.

--Estão; fingiram que se iam embora; mas foram passear, voltaram, e metteram-se no quarto de D. Antonia. Lá está tambem a Maria do Rosario.

--O que farão ellas?

--Não sei, mas não tema. Aproveite este momento, que é favoravel. Deus a proteja, filha.

Abri a porta do jardim, e saí. Ainda não campeava no horisonte a lua, mas aproximava-se a hora em que havia de surgir o meigo astro. A folhagem das arvores meneava-se brandamente ao sopro suave da brisa, e por entre a ramaria scintillavam as estrellas.

Atravessei ligeiramente a rua principal do jardim, dirigindo-me á porta que deitava para a estrada. Quando cheguei a uma espessa moita de buxo não tosquiado, que se erguia a grande altura, ouvi uma voz que murmurava muito de manso:

--Margarida!

Voltei-me, e vi Alberto.

Parei, e comprimi com a mão o violento arfar do peito. Alberto pegou-me na outra mão, e levou-a respeitosamente aos labios.

--O que pensou de mim, senhor Mascarenhas, disse-lhe eu, ao receber o estranho recado que lhe enviei?

--Pensei que vossa excellencia tinha que me dar uma ordem, que eu tinha a ventura de poder executar um mandado seu, e vim.

--Disposto a obedecer-me?

--Em tudo.

Calei-me embaraçada; não sabia como havia de dar o primeiro passo n’esse terreno escorregadio. Tinha os olhos baixos, mas como que sentia o olhar de Alberto fito no meu rosto com inexprimivel anciedade. As nossas respirações oppressas confundiam-se n’um murmurio, que se casava com o sussurrar da brisa languida nas folhas do arvoredo.

Formava o buxo uma espessa parede, que nos abrigava do lado de casa; corria-lhe fronteiro o muro do jardim, mas a porta ficava-nos distante. Um pecegueiro, ainda em flor, estendia por cima de nós a copa como um docel perfumado. Uma estatua pagã, meio escondida no buxo, espreitava-nos maliciosamente da sua verde alcova.

--Senhor Alberto Mascarenhas, disse-lhe eu com voz profundamente commovida, poz-nos o acaso n’uma situação falsissima. N’um momento de exaltação passageira trocámos palavras fataes, que ainda hoje me soam aos ouvidos como um remorso. Justificámos a calumnia, demos rasão aos calumniadores. Esse crime só se resgata com a separação. É o allivio para os nossos espiritos, a tranquilidade para as nossas consciencias. Não podemos viver assim com a recordação d’essa tarde a interpor-se constantemente a nós ambos, a pungir-nos sempre como espinho de rosa, que nasceu amaldiçoada. Chamei-o aqui para implorar da sua honra, do seu cavalheirismo, da sua amisade, do seu amor emfim, se me é permittido proferir tal palavra, a esmola de um pouco de socego. Parta, rogo-lh’o, ausente-se d’esta casa, d’este sitio, rompa completamente as suas relações com a minha familia; só assim poderei recuperar a paz, por que almejo tanto, que a acceito, ainda que seja o repouso do tumulo, ou a atonia do desespero.

--Minha senhora, respondeu Alberto com mal fingida firmesa, obedeço a esta ordem de vossa excellencia, como a todas obedeceria. E demais vejo, percebo tambem, que é intoleravel a nossa situação. Amigo de seu marido, estou representando um papel em que a minha lealdade soffre. Não sei se esta consideração bastaria para me arrancar d’aqui; as leis da honra ás vezes são frageis diques contra as torrentes de alguns affectos. Mas não devo pensar em mim, devo pensar no anjo puro, cuja etherea serenidade perturbei, no anjo, em cujo céu immaculado tive a audacia de fazer reboar um echo das paixões vis da terra. Possa o meu sacrificio restituir-lhe o repouso.

Calou-se um instante, e depois, emquanto eu, sem forças para lhe responder, e mal podendo suster-me em pé, me encostava ao pedestal da estatua, continuou com voz triste, ainda que serena:

--Adeus, Margarida.

E estendeu-me a mão, que eu apertei.

--Adeus, Alberto, disse com egual simplicidade e tristeza.

E ficamos assim, com as mãos enlaçadas, e os olhos de um cravados nos olhos do outro. A brisa sussurrava no arvoredo, e o primeiro raio da lua nascente coava-se a furto por entre os ramos do pecegueiro.

--Que sonho tão breve, Margarida! murmurou elle.

--Como todos os sonhos, Alberto! respondi eu.

--Sim, como todos os sonhos, que descem das regiões da phantasia para o mundo da realidade. Dizem as lendas allemãs que os espiritos do ar e das aguas podem, pela magia do amor, tomar humana forma e alma tambem humana, mas qualquer desgosto os fina, e perdem então de todo a immortalidade. Quer-me parecer que os sonhos são como os sylphos e as ondinas.

--Louco de quem lhes magôa as azas candidas com os attritos da vida!

--Bem louco!... Que irresistivel tentação, que absurdo escrupulo me impelliu a revelar-lhe n’aquella noite fatal a historia dos meus amores! Soltei as avesinhas captivas, julgando que as poderia fazer voltar ao ninho...

--E ellas foram despertar com os seus cantos as irmãs adormecidas na minha alma. Era natural, bem vê.

--Como virem os gelos, e matarem-nas. Embora, continuou Alberto um tanto exaltado, gosei um instante de suprema ventura. Oh! antes de nos separarmos para sempre, diga, Margarida, diga-me que esse momento, em que se vae absorver e resumir todo o meu passado, ha de brilhar tambem como um ponto luminoso na sua vida.

--Sim, digo, tornei eu palpitante de commoção, e não me pejo de o dizer, porque vou expiar longamente esse prazer tão rapido. Entrevi de relance as doçuras de um vedado paraiso. Bebi com delicia criminosa o feiticeiro philtro das suas palavras. Não tardaram as amarguras. Estado tão inebriante era como esse mundo de crystal, que a phantasia de não sei que romancista povoou de ignotos encantamentos, de esplendidos prodigios; mas um bafo annuviava o ridente quadro, qualquer attrito o partia. Vivemos instantes no crystal, Alberto; o nosso mundo despedaçou-se, e os fragmentos ahi jazem dispersos. Mas crêa: sempre que os espinhos da realidade me ferirem em demasia, hei de volver os olhos enlevados para a região das fadas, onde enlaçados poisámos.

--Oh! não murmure ao meu ouvido, tornou Alberto, essas magicas palavras! Quer que nos separemos, e está entrançando de ouro e seda o laço, que me ha de reter captivo? A melodia da sua voz é canto de sereia, que me arrasta para o abysmo. Sinto que a minha alma se prende n’essa ineffavel seducção. Separarmo-nos! separarmo-nos agora, repetia elle exaltado, bem vê que é impossivel! Essa palavra destôa dos murmurios amorosos d’este jardim, das meigas notas da sua voz. Não a profira, não me quebre o encanto, deixe-me viver no crystal, como dizia, no crystal onde sinto repercutir-se em eccos deliciosos cada uma das estrophes do meu encantador poema. Não, não, não posso.

--Alberto, exclamei eu, o que intenta fazer? Lembre-se do que me prometteu, lembre-se das desgraças, de que póde ser causa este infausto amor.

--Sim, Margarida, respondeu elle apertando-me convulso as mãos, lembro-me de tudo, e tudo cumprirei. Mas hoje é a ultima noite que me resta para te ver. Lembra-te que vou, navegador infeliz, vaguear de novo pelo oceano sombrio da existencia, sósinho, sem uma esperança, sem uma estrella no céu tenebroso, ludibrio das vagas e das tempestades. E quando o vendaval agudo me açoitar alta noite, quando não bruxulear para mim no horisonte outro fanal que não seja a triste lampada do tumulo, não queres que eu conserve ao menos uma lembrança do radiante porto, da afortunada ilha onde pude repoisar por instantes a fronte queimada pelo sopro das procellas? Não queres que se me aclarem um momento as sombras, e que entre os fulgores da aurora me surja o teu vulto angelico, meigo e saudoso como na hora em que para sempre nos apartámos?

E a lua, alta no céu, illuminava-lhe o rosto pallido, e incendia-lhe vivissimos lampejos nos olhos marejados de lagrimas. A aragem meneava a copa do pecegueiro, e desprendia-lhe as flores, que caíam em torno de nós em chuva de perfumes. Esse murmurio vago das noites de estio expirava ao nosso ouvido em voluptuosa melodia.

Lancei a cabeça para traz, para fugir á magnetica seducção do olhar de Alberto. Soltou-se-me então uma trança, que a brisa trouxe logo a beijar-me o collo, como essas _boucles folles_ em que os francezes fallam.

--Mas o que quer? o que exige de mim? disse eu com voz tremula. Oh! Alberto, porque se não ausentou já?

--Nada quero nada, senão que se deixe estar assim, formosa incarnação do meu sonho mais bello! Oh! se um esculptor grego a visse, tomal-a-hia pela deusa da caça, nas horas em que desce ao seio dos bosques a procurar Endymião. Ha na sua attitude um mixto indizivel de languidez e de pudor, um não sei que de casta voluptuosidade, que lhe namoraria os olhos, como a mim m’os namora, captivando-me o espirito. És linda, Margarida!

--Alberto! interrompi eu, escondendo a fronte ruborisada nas mãos trementes.

Elle cingiu-me com um braço, e puxando-me para si, e obrigando-me ao mesmo tempo com dôce violencia a reclinar o rosto, de fórma que a lua m’o illuminava em cheio, continuou:

--És linda! és linda! quero gravar bem no coração a tua imagem, as linhas do teu semblante, a luz do teu olhar! Quereria até poder captivar e reter na urna do meu peito esse perfume inebriante e impalpavel, que se exhala dos teus cabellos! E vou perder-te para sempre... para sempre... não ver-te mais, senão em sonhos. E hei de assim abandonar a ventura, quando a tenho nos meus braços, hei de eu mesmo precipitar-me das alturas do céu nas profundesas do inferno? Que tortura, não é?

--E a minha, Alberto?

--A tua ha de ser o desgosto que sentimos ao ver desfazer-se o devaneio de um instante, o desgosto da creança, quando desapparece o globo de agua de sabão, todo iriado e matisado de brilhantes côres pelos raios de sol, globo que um sopro creou e um sopro mata. Mas eu!... Este sonho formava parte integrante da minha existencia. Ainda que o julgasse irrealisavel, sempre uma vaga esperança me vinha segredar ao ouvido ineffaveis consolações. Mas agora, filha, agora nem isso me é permittido! morreu para sempre, morreu o pobre sonho, o meu constante companheiro, o meigo irmão da minha alma!

E apertava-me convulso ao peito, e embebia nos meus os seus olhos desvairados. Afastava-me os cabellos da fronte com os dedos tremulos, e o seu bafo acariciava-me os labios, dôce e casto como o beijo de um anjo.

--E podia comtudo ser feliz, Margarida! Se calcasse aos pés as leis do mundo e as da honra, se te pedisse que fugissemos d’aqui para um recanto ignorado do mundo, onde houvesse luar, canticos e aromas! Para a Italia, para Napoles, á beira d’esse formoso golpho, por baixo d’esse céu azul, n’esse solo ardente, requeimado pela lava do Vesuvio, como o meu peito pela fervente lava d’este amor. Alli de todos nos esqueceriamos; alli podiamos prolongar infinitamente estes rapidos instantes. Margarida! tu não podes viver n’esta atmosphera de gelo, n’esta casa maldita; o teu destino é o meu, são eguaes os nossos fados. Vem, vem comigo, arrojemo-nos cégamente para este pelago de paixões, unico elemento onde póde viver o nosso espirito férvido. Vem, devoremos em Napoles em alguns annos uma existencia de seculos, até que morrâmos juntos sobre o tumulo do poeta de Dido, ou na praia sonora, onde nasceu o vate de Armida.

E arrastava-me com impeto febril. E eu dizia-lhe: