Part 10
N’um momento cheguei a casa. Apeei-me, atirei as redeas para cima do pescoço do cavallo, e subi a escada impetuosamente. Ia lavada em lagrimas; que me importava que me vissem? Estava consummada a minha vergonha.
Abri a porta da sala e entrei. Não estava ermo o aposento. Ouvindo a bulha dos meus passos, alguem, que se encostava ao peitoril d’uma janella, voltou-se para a porta. Era Alberto.
Eu perdera completamente o imperio sobre mim mesma. Corri para elle, travei-lhe das mãos, e disse-lhe com a voz entre-cortada pelos soluços:
--Não é verdade? Não é verdade que a não ama? Aquella mulher mentiu?
--O que é isto, minha senhora? tornou Alberto, no auge da inquietação, o que quer isto dizer? Que inexplicavel infortunio...?
--Oh! mas diga-me, diga-me que a não ama, tornava eu chorosa e supplicante, diga-me que não ama Carolina.
--Oh! respondeu elle n’um impeto, e fazendo um gesto de energica repugnancia, oh! juro-lh’o.
--Obrigada! obrigada! murmurei eu; bem sei que sou uma doida, que me estou perdendo, que sou uma mulher vil, indigna da sua estima; porém não pude, soffri muito, quando ella me disse que se amavam:--a dôr foi... incomportavel.
--Soffreu! respondia Alberto com voz tremula, e apertando-me as mãos com impeto febril, soffreu, mas então... mas n’esse caso...
--Amo-o; não é isso que quer dizer? tornava eu como louca; sim, é a verdade, a verdade terrivel, fatal, ignominiosa.
--Ama-me! exclamou Alberto.
E, soltando as mãos, levou-as á fronte, como se temesse que lhe rebentasse ao impulso da lava, que lhe refervia lá dentro. E, voltando a travar-me das mãos, com os olhos incendidos n’um fulgor estranho, como se os houvesse abrazado a chamma de loucura que ardia nos meus:
--Ama-me! Oh! não me falle! não me falle! deixe-me ouvir os eccos innumeraveis que essa palavra magica me desperta no coração! Oh! não me acorde d’este sonho! peço-lh’o, deixe-me aqui morrer com os olhos enlevados n’esta visão beatifica...
--Sonhemos, dizia-lhe eu debulhada em lagrimas, oh! sonhemos depressa, porque o despertar vem cedo, e o despertar é o opprobrio.
E caí prostrada n’uma cadeira; elle ajoelhou aos meus pés, beijando-me convulso as mãos.
--Que importa? E cuidas que este momento de felicidade não paga de sobejo todas as amarguras d’uma longa vida? Julgas que esta auréola d’amor que nos circunda a fronte, não tenha luz bastante para derrotar a sombra do estygma que o mundo nos inflige?
--E a consciencia... tornava eu.
--Depois, depois, dizia-me elle, não pensemos n’isso agora. Apaguemos da nossa vida por um instante só esses longos annos que separaram o meu sonho d’adolescente d’esta ineffavel realidade. Por um instante só, Margarida... Margarida, Margarida, deixa-me saborear o prazer louco de te repetir mil vezes syllaba a syllaba, lettra a lettra, esse nome querido, que tantas vezes balbuciei sósinho no segredo do meu quarto. Deixa-me impregnar cada uma das suas melodias no amor immenso, que represei no coração, e que trasborda afinal. Filha, bem vês, peço-te um só instante para me pagar de tantos annos de angustias, de seculos de tormentos. Não é muito, não; concedes-m’o? Oh! meu Deus! mas eu tenho tanto que te dizer! não posso, não sei, adivinha, sim? Fita os teus olhos nos meus, lê n’elles, estrophe a estrophe, o louco poema, que uma voz ignota me canta no coração. E lembrar-me eu que pude suspeitar um instante que deixara de te amar, e uma palavra tua perturbava-me, e um sorriso teu enlouquecia-me, e uma attracção indizivel chamava-me para aqui. E pude fingir que fazia a côrte a Carolina, só para ter um pretexto de ficar junto de ti, o pretexto de te livrar das suspeitas calumniosas! E fingi corresponder ás suas impudentes provocações, para te ver sempre, sempre; porque és tu a minha vida, a minha mocidade, a estrella da minha noite, a flor do meu deserto, perola do meu sombrio occeano, a lampada do meu ermo sanctuario.
--Oh! tenha dó de mim, Alberto, salve-me d’esta vergonha, livre-me d’esta vertigem; não vê que as suas palavras augmentam cada vez mais a incrivel fascinação que me arrasta para o abysmo? E eu não quero aviltar-me; ame-me, já que a fatalidade assim o quer, mas com um amor de irmão.
--Sim, Margarida, sim, de irmão. Não vês como te adoro! Ordena o impossivel, e pratical-o-hei. Oh! mas estas louras tranças, que ondeiam por deante dos meus labios, deixa-me beijal-as, são estas mesmas as que o sol doirava, quando te vi, aéria fada, como que fluctuar entre as primeiras sombras do crepusculo. Beijo as minhas recordações.
E beijava-me os cabellos espargidos no collo; mas eu, repellindo-o, disse-lhe brandamente:
--Alberto!
Elle parou e fitou em mim um olhar submisso.
--Deixe-me, continuei eu; saia, que já ouço o tropear dos cavallos.
Alberto travou-me das mãos, contemplou-me um instante, beijou-as com fervor, e saiu, dizendo:
--Amo-te!
XIX
Fiquei longo espaço com o rosto escondido nas mãos; quando ergui a cabeça, estava D. Antonia deante de mim.
Fluctuava-lhe nos labios um sorriso de triumpho; lampejava-lhe nos olhos um fulgor infernal. Vencera, conseguira o seu fim, colhera o fructo dos seus longos esforços; e eu despenhara-me dos pincaros do meu orgulho no abysmo para onde me tinham impellido.
Sempre aquelle vulto me apparecia nas horas em que me sentia resvalar para a vergonha. Dir-se-hia a imagem de Satanaz, procurando occasião propria para me roubar a alma, e levar-m’a para o Barathro. E não era um sorriso diabolico o seu?
Senti correr-me um calafrio pelas veias. Mas depois reagi contra esta primeira fraqueza, e, colhendo na minha propria exaltação energia bastante para affrontar aquella mulher infernal, ergui-me e fitei n’ella os olhos scintillantes.
--Está tão agitada! exclamou D. Antonia com ironia. Já principia o remorso?
--Já! disse-lhe eu com intimativa. Está satisfeita? Reveja-se na sua obra.
--Na minha obra! tornou ella, pondo as mãos, e erguendo-as ao céu! Só isto me faltava! Diga antes que se realisa o que eu prophetisei sempre! Não querem ouvir as verdades, e aqui está o que succede! Não attendeu aos meus conselhos, deixou-se antes levar pelas suggestões do demonio, e o resultado foi perder-se sem remissão. Lavo d’ahi as minhas mãos; eu avisei-os a todos.
Injuriaram-me, criminaram-me, e a final voltam-se contra mim. Já estou costumada a isto. Deus m’o levará em conta.
--Mas o que succede? tornei eu indignada. Que supposição está formando?
--Oh! tornou ella rindo; não é difficil adivinhal-o. Se já o não tivesse sabido por outro lado, a sua agitação tudo me diria. Compete-me agora avisar meu sobrinho do perigo em que a sua honra está.
--Avise-o, tornei eu; mas diga-lhe tambem que está mais em segurança confiada a mim do que se estivesse nas mãos d’uma d’essas hypocritas beatas, que tão impudentemente infringem a moral que professam.
--Como quer que eu lhe diga semelhante coisa? respondeu ella; quer que o illuda ainda, quer que lhe aperte bem a venda que a minha sobrinha com tanta habilidade lhe poz nos olhos? Engana-se; não sou para esse papel. Julgar-me-hia sua cumplice se assim procedesse. A desculpa do vicio é um ultrage á virtude. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pelle. Deseja ver-me protectora d’essa vergonhosa ligação, que me confessou tão descaradamente? Engana-se, minha Philis. Procure outras para esse cargo. Ora não ha, hei-de-lhe arrancar a mascara.
--Não a tenho, bem vê; mas fite bem os seus olhos no meu rosto, e verá que não córo.
--Porque não tem vergonha.
--Porque não tenho de que me envergonhar, logo que as accusações que me são dirigidas tomam esse caracter offensivo. Se uma fatalidade inexoravel despertou no meu peito um sentimento que não pude dominar, póde estar certa que nunca lhe sacrificarei o meu dever. Combatel-o-hei com energia, e hei de arrancar do meu coração essa planta funesta, que tanto a meu pesar viçou e cresceu n’este jardim, que se obstinavam em conservar deserto. O calice de amargura bebel-o-hei até ás fezes, sem que os outros o cheguem sequer aos labios. Soffrerei em silencio, e com dignidade. Que mais podem exigir de mim?
--Isso é muito poetico effectivamente, respondeu D. Antonia com ironia, estou que outros mais justos a adorariam como uma santa, mas duvido que o meu sobrinho esteja disposto a admirar e a apreciar estas subtilesas com que se disfarça um adulterio parecido com todos os adulterios. Eu de mim confesso que não percebo essas bonitas phrases. Uma mulher casada não deve pensar senão em seu marido, e tratar da sua casa. Foi isto o que toda a vida me ensinaram. Essas frandulagens de romance são boas para enganar os parvos. Era melhor que tratasse de cumprir fielmente as suas obrigações de esposa e de christã.
--Oh! isso é de mais, respondi eu altiva. Exigem de mim o cumprimento de um dever, esse dever tenho-o eu cumprido, e hei de cumpril-o sempre com inabalavel intrepidez. Sacrificar-lhe-hei a minha vida inteira, deixarei fenecer n’essa atmosphera gelada a flor da minha juventude. Mas o sanctuario recondito da minha alma não consentirei que m’o invadam. N’esse domino eu só, n’esse abrigo os affectos intimos, a que presto culto no segredo da minha consciencia. D’essa região sagrada defenderei até a morte a inviolabilidade. É o ninho dos meus sonhos, a urna do balsamo, que me allivia um pouco as dores lancinantes do meu viver atroz. Não lhe toquem, não a profanem. Tudo o mais lhes cedo, tudo o mais sujeito á sua despiedosa fiscalisação.
Persigam-me, atormentem-me, analysem cada um dos meus actos, interpretem-n’os favoravel ou desfavoravelmente; estou a isso resignada. Mas quando a final, depois de haverem saciado o seu odio implacavel, me deixarem tranquilla por um instante, não queiram violar o meu asylo, não queiram perturbar a paz do meu espirito, não queiram envenenar com o seu halito impuro essa atmosphera serena, onde fluctua, não queiram macular com a sua baba asquerosa as rosas, em cujo calice se baloiçam as minhas brancas borboletas. Esse direito sagrado, essa liberdade inalienavel do pensamento serão defendidas por mim ate á morte. Só o amor conhece as palavras mysteriosas que descerram as portas d’esse tabernaculo; o dever, gélido, frio, insensivel, não póde ultrapassar os limites da vida exterior, que está unicamente debaixo da sua alçada. Diga isto mesmo a Claudio, já que meu marido prefere relacionar-se comigo por via de emissarios a appellar para a minha franqueza. A minha vida, as minhas acções pertencem-lhe; não lhe pertencem nem o meu coração nem os meus pensamentos. Estampe na minha fronte o ferrete da infamia, se alguma vez eu lhe der direito a que suspeite que trahi a fé conjugal, e puz em perigo a honra do seu nome. Mas se ainda assim tentar arrogar-se sobre mim um direito, que nem os mais despoticos tyrannos têem podido reivindicar; se intentar algum acto escandaloso, que me deshonre aos olhos do mundo, lembre-se que toda a vergonha e toda a responsabilidade cairão sobre a sua cabeça, e que os mais severos moralistas não ousarão justificar o procedimento de um homem, que, deixando sua esposa entregue a todas as tentações da mocidade e a todos os vituperios da calumnia, se acha com direito de exigir mais do que o escrupuloso respeito dos deveres do matrimonio, e persegue no mais intimo arcano de um coração feminil os timidos devaneios de um amor que elle nunca se deu ao trabalho de requestar.
E, deixando ficar D. Antonia estupefacta com a vehemencia do meu discurso, saí da sala precipitadamente, e fui-me refugiar no meu quarto.
XX
Comtudo era impossivel que esta situação falsissima se prolongasse por muito tempo. Estavamos todos embaraçados e constrangidos. Alberto, passado o primeiro momento de extasi, caira n’um abatimento visivel. Acudia-lhe o rubor ás faces sempre que apertava a mão a Claudio; e este, inquieto e sombrio, estendia-lhe a mão com repugnancia, e mostrava-lhe uma frieza quasi insultante. A partida de Alberto era a unica solução possivel; sentia-o elle e não tinha animo para se apartar de mim; sentia-o eu tambem e não tinha forças para lhe pedir que o fizesse.
Certa da victoria, D. Antonia excitava Claudio a dar um golpe decisivo; Carolina, furiosa por se ver burlada quando imaginara burlar-me, juntara-se francamente aos meus inimigos, e, fazendo côro com sua madrinha e seu marido, bradava que um tal escandalo, se continuasse, era capaz de corromper a atmosphera de Bellas por tal fórma, que nenhuma senhora honesta se resignaria a habitar n’aquelles arredores, com medo de aspirar, nos haustos de um ar até ahi tão puro, pensamentos adulteros e criminosas tentações.
O padre prior, que não percebia nada do que lhe diziam, apoiava tudo, confirmando os appoiados com estrepitosas pitadas, disfarçando tambem d’essa fórma os remorsos que sentia por abandonar assim a causa de Alberto, com quem sympathisava desde que este, com generosa abnegação, se prestara a substituir uma ou outra vez o proscripto Theodoro Leite na mesa do voltarete.
Comtudo, eu e Alberto andavamos sempre arredios um do outro, e não davamos o minimo pretexto para que este mysterioso drama tivesse o desenlace que os nossos inimigos desejavam. Esta obstinação em não favorecermos os seus planos irritava D. Antonia, e fazia-a commetter erros de toda a especie. Mostrava-se umas vezes indignada com a hypocrisia das pessoas, que sabem disfarçar aos olhos do mundo o crime que descaradamente confessam em particular; outras vezes, pelo contrario, mostrava-se amabilissima comigo e com Alberto, e por tal fórma nos incitava a que passeassemos juntos, que esta insistencia chegava a dar-lhe ares de desempenhar um papel pouco em harmonia com a dignidade _meticulosa_ de que tanto blasonava. Só emmudecia quando o sobr’olho fransido de Claudio, o meio sorriso de Alberto, e os multiplicados signaes de Carolina lhe faziam perceber que a sua impaciencia a fizera entrar n’um mau caminho.
Principiou então a adoptar um melhor systema; fingiu que se havia esquecido de todo das suas suspeitas, e das minhas revelações; fingiu confiar plenamente no que lhe eu dissera, e não querer por forma alguma intervir no desenlace de tão penosa situação. Cuidou talvez que, desassombrada da sua continua vigilancia, e do constante «álerta» com que as suas provocações espertavam as minhas suspeitas e me tinham sempre preparada para o combate, cederia á fascinação e me deixaria indolentemente resvalar para o abysmo.
Enganava-se julgando que a lucta em mim era apenas filha do capricho e da necessidade de disfarçar aos olhos de meu marido as minhas criminosas relações. Não podia ella comprehender que o amor e a honra se combatessem lealmente no meu peito, e que o meu espirito encontrasse sempre novas forças no sentimento da propria dignidade para reter as perfidas suggestões do coração.
Mas esse pelejar incessante prostrava-me e desfallecia-me. Minguava-me não o valor, mas o alento physico para supportar as consequencias da victoria. Eram terriveis para mim essas formosas e breves noites de estio, passadas a velar na minha alcova solitaria, a ver a lua espraiar-se no chão do jardim, e a voluptuosa penumbra a aninhar-se nos recantos. Surprehendia-me a alvorada immovel na minha janella, assistindo ao esvair da minha mocidade, fada cada vez mais pallida, entre os primeiros clarões do horisonte matinal. E esses fugitivos poemas, que me tinham consumido as horas nocturnas, murchavam-me a flôr da juventude, que toda se desfazia em fragrancias, com que se perfumavam essas vagas estrophes, que me voavam nem eu sei para onde, nas azas da viração.
Assim passou uma semana.
Jantaram um dia em nossa casa Carolina e Jeronymo. Quando acabamos de jantar, fomos tomar café para a sala. Começava a cair o crepusculo, um d’esses crepusculos de estio, serenos e harmoniosos. As janellas abertas deixavam entrar os longiquos murmurios do campo, o melancholico mugido do boi, que volta para o curral, o grito prolongado do pastor, o som grave e religioso do sino das Ave-Marias, e d’envolta com estas campestres melodias vinham tambem os vagos aromas que as flores das noites rescendem n’essa hora mysteriosa.
Entrou Alberto, quando eu me fôra sentar ao piano, a pedido de Carolina, que instava comigo para que tocasse um trecho da _Luiza Miller_, muito da sua predilecção. Era uma das mais suaves e mais melancholicas romanzas de tenor, uma das mais mimosas perolas d’esse collar de melodias, que, n’uma hora de inspiração, Verdi desfiou sobre o publico dilettante. O crepusculo já déra logar ás sombras da noite; não havia ainda luar, mas estava tão estrellado o céu, e era tão suave aquella penumbra que ninguem se lembrou de pedir luz. Agruparam-se todos em torno do piano, e estava eu preludiando, quando entrou Alberto, como já disse.
Interrompi-me á sua chegada, mas elle, apenas fallou ás pessoas presentes, disse logo:
--Oh! minha senhora, teria eu remorso eterno, se por minha causa ficassem os rouxinoes do seu jardim privados d’uma nota só d’esse cantico delicioso, que lhes ha de ensinar a celebrarem ainda melhor do que celebram os encantos d’uma noite estrellada. Continue vossa excellencia.
--Chegou muito a proposito, senhor Alberto Mascarenhas, acudiu Carolina; ia-se tocar a romanza do tenor; commettiamos um sacrilegio confiando a um piano, ainda que tocado admiravelmente, o cantico sublime, digno só de ser entoado pela voz humana. Valha-nos pois, cante-nos a romanza.
--Por Deus, senhora D. Carolina, o que diriam os rouxinoes? Excommungavam-me de certo, e encarregavam os mochos e as corujas de executarem a sentença, poisando todas as noites no tecto da minha hospedaria. Posso affiançar a vossa excellencia, que nas pontas dos dedos da senhora D. Margarida está escondido um Mongini, que lhe vae cantar admiravelmente a aria que me pede.
--Não, não, respondi eu rindo, engana-se. Mongini rasgou a escriptura, de fórma que os meus dedos declaram positivamente que só estão disponiveis para acompanhamentos.
--Bem, por minha causa não quero que se feche o theatro. Estou prompto a obedecer ás ordens de vossas excellencias.
Alberto possuia uma bonita voz de tenor, pequena sim, mas dramatica, se me permittem o termo. Reproduzia admiravelmente cada inflexão da melodia, cada intenção do maestro. Identificava-se com a musica, e perfumava-se de suave tristeza, ou irrompia em gritos de paixão, ou tomava o tom elegante do galanteio frivolo, conforme cantava, ou o _Ah! perché non posso odiar-ti_ da _Somnambula_, ou o _Mentré contemplo_ das _Vesperas Sicilianas_, ou o _Questa o quella_ do _Rigoletto_.
Corri os dedos pelo teclado, e preludiei depois, fazendo brotar das teclas as notas graves da introducção.
A extrema luz crepuscular illuminava escassamente o pallido azul do céo, onde palpitavam as estrellas. A placidez da noite proxima, a serenidade da atmosphera, o profundo silencio que reinava no aposento, silencio quebrado apenas pelos frouxos e derradeiros murmurios do dia, predispunham a alma para esse embevecimento mudo e extatico, melancholico e religioso, que esse canto grave, simples, e vago como uma melodia exhalada espontaneamente da harpa gigante da natureza, é tão proprio para inspirar. A voz de Alberto ergueu-se pura, limpida, mas levemente commovida. Creio que todos sentimos um inexprimivel encanto ao ouvirmos as primeiras notas suaves e serenas, que tão bem se casavam pelo tom e pela letra com o espectaculo que nos rodeava:
_Quando le sere, al placido Chiarore d’un ciel stellato_
O canto espraiava-se pela planicie, ia expirar ao longe em languido murmurio, e acordava milhares de eccos mysteriosos. Os campos, adormecidos no voluptuoso regaço d’essa hora magica, despertavam ao ouvirem essa harmonia, synthese admiravel das suas vozes confusas. Eu estava profundamente commovida, sentia que Alberto cantava para mim só, que era para mim que elle deixava expandir-se a sua alma em cada uma das notas d’esse cantico. A sua voz era apenas um frémito, quando, n’essa doce lingua italiana, recordava as meigas horas em que, de mãos enlaçadas, fitavamos o céu onde esmoreciam os ultimos raios do sol. Porque eu chegara a convencer-me que tudo aquillo era verdade e não ficção, que era eu a heroina da opera, elle o meu apaixonado, e quando, todo embevecido n’essas recordações, Alberto, como que esquecendo-se do presente, concentrou toda a sua alma, toda a sua paixão n’aquelle grito immenso de amor e de jubilo:
_Allor parea l’Empireo Aprir-se all’alma mia_
não pude conter mais os sentimentos, que me trasbordavam do peito, e deixando cair os braços e interrompendo o acompanhamento, contive a custo os soluços e deixei as lagrimas silenciosas golpharem-me dos olhos e inundarem-me as faces.
Alberto calou-se de subito, os ouvintes levantaram-se dizendo: «O que é isto?» Meu marido approximou-se logo de mim, relanceando para Alberto um olhar cheio de odio, e perguntando-me rudemente: «O que tem?»
--Nada, nada, respondi eu com voz bastante firme; uma dor violenta que me surprehendeu, mas que já me passou.
--No coração? perguntou D. Antonia com fingida ingenuidade.
--Sim, no coração, respondi eu com altivez; mas comprimi-a já.
--Essas dores são muito más, tornou ella, vem quando menos se esperam.
--Mas não vencem apesar d’isso, continuei eu.
Claudio ouvia este dialogo com modo sombrio.
--A senhora D. Margarida, acudiu Carolina, é muito nervosa, e as pessoas nervosas facilmente se deixam impressionar pela musica. Demais a mais o senhor Alberto Mascarenhas cantou com tanto ardor, tanto de coração, que não admira que produzisse este effeito.
--Engana-se, minha senhora, respondi eu; nada tem com este incommodo passageiro o canto e a musica; vou-me deitar em cima da minha cama um instante, e voltarei restabelecida.
--Vá, vá, tornou D. Carolina cariciosamente. Desabafe que lhe ha de fazer bem.
Não lhe repliquei, e saí. Quando cheguei ao meu quarto, foram-me allivio as lagrimas. Entre a minha afflicção, comtudo, avultava uma idéa fixa. «Não, dizia eu comigo mesma, isto não póde durar. Vejo dois caminhos abertos deante de mim, o do amor e da perdição, e o da salvação e do martyrio. Ou entregar-me á paixão fatal, que me domina, fazer a vontade a esta gente e procurar no amor de Alberto consolações, que me abafem os remorsos, ou fazer cessar esta lucta perigosa, dizendo a Alberto que parta, encerrando as lagrimas no peito, e engolphando-me brutalmente n’esta existencia mesquinha, que me ha de assegurar a consideração da condessa, a estima de D. Antonia e a tranquillidade talvez. A tranquillidade? Palavra d’ora em deante sem sentido para mim! Se conquisto a paz exterior, as tempestades nem por isso deixarão de me bramir no coração. Mas que importa? O cumprimento de um dever nunca deixa de ser acompanhado por intima satisfação, e será esse o magico talisman que abrandará o soffrimento, a que a minha vida vae ser condemnada. É preciso, é indispensavel que Alberto se ausente. Ausentae-vos com elle, sonhos tentadores, perigosos devaneios, frémitos da juventude, que se revolta contra o cilicio, aspirações do meu espirito para o mundo luminoso, d’onde o dever o repelle.»
Armando-me de coragem, desci á sala, decidida a pedir a Alberto uma entrevista, para lhe explicar francamente a minha situação, e rogar-lhe que me facilitasse o sair d’ella.
Já lá estavam a condessa, o padre prior e a baroneza.
Como a tactica de D. Antonia consistia em me deixar a maior liberdade, julguei que poderia facilmente fallar de relance a Alberto. Mas o ciume de Carolina parece que fôra excitado pela scena do piano, de forma que não fez senão interpor-se constantemente a nós ambos, e não nos deixou sós nem um instante.
Já perdera as esperanças de lhe fallar, e até já me despedira d’elle e das outras visitas que se retiravam, quando, ao atravessar a saleta para subir para o meu quarto, encontrei Alberto, que subia de novo para buscar alguma coisa, que lhe esquecera.
Travei-lhe da mão, e disse-lhe apressadamente:
--Preciso muito de lhe fallar: ámanhã, ás duas horas da noite, venha ter comigo ao jardim. Enviar-lhe-hei a chave.