Part 5
A curiosidade instigava-o a andar para deante; por bom humor talvez, sabia-lhe bem aquella caminhada. Tinha um olhar curioso para cada fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janella de vidros quebrados um vaso de cravos brancos.
As flores trouxeram-lhe á idéa as mulheres.
Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou embarcadiços de pelle queimada, ou mulatos chinellando nas calçadas, mostrando os calcanhares sem meias, num bate-pés barulhento.
Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia tambem o do assucar ensaccado, o das mantas nauseabundas da carne-secca, o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazens, e o de sabão das fabricas, numa mistura enjoativa e asphyxiante.
Veiu-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade, abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da doidice--e olhou para si, receioso de encontrar nodoas e immundicie por toda a sua pessoa.
E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já esquecido do velho Motta. Ao pé das Docas parou.
No chão, perto da porta, saccas de milho sobrepostas exhalavam cheiro de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do canhamo, passeava ao sol.
Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma bahiana de hombros roliços e dentes sãos, vendia gergelim, mendobi, batata doce e tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem pelos trilhos para o caes, e as galerias em cima, por cujas rampas as saccas, apenas impellidas, desciam vertiginosamente.
Dr. Gervasio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranquillo mas amarfanhado, atando com mãos ligeiramente tremulas a gravata suja.
--O senhor já passou a rua Funda!
--Nesse caso voltaremos.
E voltaram, sem que o medico diminuisse de attenção, achando curioso um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada de rotulas, com janellas baixas, de caixilhos meúdos, muito velhinhas, suggerindo lembranças, provocando divagações... Então elle parava, erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquillo. O Ribas não comprehendia, e ficava á espera, com ar estupido e os braços pendurados.
Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo, disse com orgulho:
--Esta loja é de minha irmã ... ella está alli ... o senhor dá licença?...
--Pode ir.
Dr. Gervasio olhou. Em um balcão tôsco e estreito almoçavam um homem macilento e uma mulher moça, gravida, vestida de chita preta, sentada em um banco, com creanças núas agarradas á saia. O almoço parecia parco,--não havia toalha nem vinho; o medico surprehendeu de relance dous copos d'agua e qualquer coisa pallida dentro de um prato. Para não errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a meia duzia de objectos expostos, na vidraça modestissima da porta: linhas de rede de _crochet_ e de costura, anzóes e agulhas, cigarros, objectas de pescaria e cartas de A B C.
O Ribas não se fez esperar; pareceu ao medico que o não tinham recebido bem...
Seguiram d'alli por deante silenciosos, até que o Ribas avisou:
--Ahi está a rua Funda.
Dr. Gervasio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscencias de um quadro lhe suggeriam.
Aquella rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da Conceição, ladeada de casas de altura desegual, de onde em varaes espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viella de Napoles velha, onde o pittoresco não é por certo maior, e de que elle tinha uma aquarella em casa.
--É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.
O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita.
--Quem procura?
Dr. Gervasio explicou-se.
--Faça o favor de entrar...
A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de cadeira.
O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer.
Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão.
A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista, depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos homens um interesse mediocre.
Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos. Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande movimento no armazem...
A filha trouxe café em chicaras de pó de pedra; Dr. Gervasio bebeu uns goles por gentileza e o velho sorriu, approvando-lhe a amabilidade.
O Motta pedia desculpas da casa ... não morava alli por gosto. Oh, se o Dr. Gervasio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha vivia! Com a morte d'ella tudo desandara...
O medico abreviou as lamurias, prognosticando cura rapida, e despediu-se, sem notar que a moça reapparecera na salinha, com outro casaco enfeitado a _crochet_.
Embaixo respirou de allivio e começou a descer a rua, por entre o palavreado guttural de papagaios suspensos ás janellas.
Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir d'aquelles abominaveis bichos; e elle apressou-se; mas logo na esquina pensou em andar por alli e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha e desejou saber que mundo haveria lá era cima. Subiu.
Creanças nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam sosinhas, ladeando precipicios.
No alto o Dr. Gervasio passou a outra rua, de grandes pedras engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas fallavam alto e gatos magros se esgueiravam rente ás paredes.
Pareceu ao medico que a atmosphera alli era mais fria, de uma humidade penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia que se pudesse dormir e amar naquelle canto sinistro da cidade, mais propicio ás minhocas do que á natureza humana, quando reparou para uma mulher moça, que, com uma lata de kerosene, aparava agua em uma bica. Era pallida e linda. Tambem ella olhava para elle com um olhar de velludo, sombrio e fixo, varado de tristeza.
Esses encontros fortuitos traziam ás vezes ao medico comparações singulares. Aquella mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma consciencia forte, a sua pelle, cor de luar, uma saudade infinita. Era a Agar da Biblia; uma açucena num canteiro de lodo...
Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas, corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o mysterio e o crime. Assaltou-o a idéa de andar por alli á noite, disfarçado de qualquer maneira. É quando o sol se esconde que o homem se mostra bem. Elle beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e penetraria em um d'aquelles albergues.
Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca.
Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes.
--Bonito!
D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma unica dobradiça perfeita.
Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada, resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos brutos, entre ratazanas e aguas servidas.
O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito, D. Joanna sahir de uma casa.
Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado.
Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e em nickeis.
Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho.
Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada. Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce tom de devoção.
Depois, alli mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha. Camilla fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a egreja. Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos d'aquella alma as coisas do céu!
Que reparasse para os nomes judaicos que ella puzera nas filhas; Ruth, Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no kalendario!
As creanças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o que a maguava.
Precisava salvar as creanças.
Francisco Theodoro, sim, esse era bom catholico; gostava de o ver na Candelaria, com a sua opa de irmão. Um santo homem!
--Mas D. Milla vae á missa todos os domingos...
--Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um preceito de religião. Camilla só vae á egreja para se mostrar. Basta ver como ella se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve algum tempo no collegio das Irmãs: pois mal sabe o catechismo e ainda não cuidou da primeira communhão! Eu peço a Deus por elles, mas...
--Faz bem.
--O senhor é dos taes, que não querem crer.
--Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa.
--Acceito; rezarei nella pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o senhor está empurrando Camilla para o inferno...
--Eu?!
--Quem mais!
--Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrario...
--Sim, vá fallando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que eu não sei de tudo? O unico cego alli é o pobre do marido, que não merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu pedir a Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha ... mas os peccados vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes, sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para que isso acabasse em bem... Elle é um sacerdote, deve ser attendido ... emquanto que eu, pobre peccadora...
--Mas a senhora está louca, D. Joanna? balbuciou o medico, mal disfarçando a sua ira; não a entendo!
Com medo de uma descarga de censuras, D. Joanna despediu-se. Ia ainda dar uma volta pela Pedra do Sal.
O Dr. Gervasio mal a cumprimentou; sentia-se collado de espanto áquelle chão poeirento. Os seus amores, que elle julgava bem occultos, tinham varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do Castello e da Conceição! Quiz desmentir a velha; mas os seus olhos claros, de um castanho louro, não o deixaram fallar, cortando-lhe pela raiz qualquer protesto. Ella não fallara só pela bocca, que a tinha sincera; mas tambem pelos olhos, em cuja limpidez apparecera toda a verdade.
O medico viu-a, com odio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé, as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que ainda os franzidos da saia exaggeravam.
Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ella tornasse, para lhe dizer ainda alguma coisa do peccado.
O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre. Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus sentimentos eram de especie confusa e tristonha.
Em outros tempos, de mais verdes annos, a divulgação de taes amores não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ella, sim, devia ter cuidados e mysterio; mas esse mesmo dever de discreção absoluta não seria abafado pela voz do egoismo, sempre a mais imperiosa nos homens, e pela da vaidade, se outras circumstancias não lhe exigissem segredo? As almas fortes dos homens têm d'essas pequenices, e a d'elle, sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem proposito, de causar inveja aos menos afortunados...
Cançado, nervoso, picado pelo sol, o Dr. Gervasio seguiu atôa, desceu o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos comprimentos dos conhecidos, que ia encontrando á proporção que se approximava do seu centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquelle gyro, se lhe esboçava na lembrança. Aquellas riquezas, aquelle movimento, aquellas casas, aquelle rumor de população atarefada, baixa e mesclada, aquellas altas ruas despenhadas em escadarias immundas e barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de lixo, de onde surgia a voz melada, unctuosa da tia Joanna, offerecendo promessas, confidenciando com extranhos sobre os seus amores e os seus adorados segredos.
Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou á rua do Ouvidor.
Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, á venda na esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e um vestido bem feito, distrahiram-n'o um pouco...
V
Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar.
--Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço.
--Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda foi outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia!
--Vae pregar a outra freguezia.
--Verdade, verdade, seu pae tem razão...
--Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse Mario com ironia, dando o ultimo retoque á _toilette_. Nisso abriram a porta, elle voltou-se; era a mãe.
Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto.
--Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.
--Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos.
--Como quizer. Sente-se, mamãe.
Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:
--Então?
--Estás nos dando serios desgostos, Mario.
--Eu?
--Sim; bem sabes de que se trata.
--Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço...
--As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas!
--As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar.
--Enganas-te.
Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio.
--Então não comprehendo.
--Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ... dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna...
--Oh! mamãe...
--Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando a encontro na rua nem sei onde ponho os pés.
Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu.
--Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem...
Mario mordia os beiços, brancos de raiva.
--Mamãe...
--Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo, ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas e mais dividas!
Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos, nervosamente, as costas de uma cadeira.
--Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo.
Mario sorriu com desdem.
--Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade.
--Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um animal.
--Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e outras aspirações. Meu pae não me comprehende.
--Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?!
--Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse elle com redobrado escarneo.
--Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela ironia do filho.
--Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante d'ella, com raiva.
--Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua saude, que é fraca, e da tua reputação.
--Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso!
Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra aquelle filho, até então poupado.
Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou, destacando as palavras, que sahiam pesadas:
--A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não teve coragem para tanto; mas em seu nome, não!
--Mario!
--Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os gostos que eu tenho?
--O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso agora que desespera teu pae...
--Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á familia que...
--Basta!
--Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:--odeio o Dr. Gervasio, e dou-lhe a escolher entre mim e elle.
Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois elle repetiu, martellando as palavras:
--Ou elle ou eu.
A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção. Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando, grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se tentasse esmagar o coração offendido.
Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma subita misericordia se apoderou d'elle.
Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de desapparecer.
--Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?!
Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi imperceptivelmente:
--Nada...
Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,--ah, antes ella fosse cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças... Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido!
Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a bocca do filho a dizer-lhe amarguras...
Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do quarto.
Mario aconselhou:
--Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia...
--Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla levantando-se.
Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea.
Mario respondeu com impaciencia e sem abrir:
--Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a para si, beijou-a na testa e, com carinho:
--Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella...
Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas, que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo:
--Venha ver, mamãe!
--Que coisa linda, mamãe!
--O homem disse que foi papae que mandou!
--Adivinhe o que é!
--Diga; sabe o que é, mamãe?
A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo, em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da casa saberiam tambem?
--Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a côres, um menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol azul.
Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a menina Maria.
--Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia.
--Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria!
--É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria?
Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus bibes brancos, e os cabellos soltos.
--Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente, puxando-as para si.
--Eu gosto muito!
--Eu gosto mais!
--Mentira! quem gosta mais sou eu!
--Eu acho mamãe muito bonita!
--Eu tambem acho.
--E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda assim vocês gostariam de mim?
--Muito, muito!
--Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com medo ... que fariam vocês?
--Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias...
--E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe...
--Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe!
Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas defendel-a-iam dos maus tratos do mundo.