Part 4
Tudo isto soubera-o elle naturalmente, sem indagações; vinha na enxurrada dos desabafos, no desafogo da amisade.
Com o amor, elle tinha tambem sabido conquistar a estima. Toda a gente em casa o ouvia com attenção.
Um pouco d'essas coisas vagou pelo espirito de Camilla, quando, de olhar alongado, seguia ainda a sombra de Gervasio.
Dias depois ella dava os últimos retoques á sua _toilette_, em frente ao espelho, quando o marido entrou.
Camilla viu-o no crystal e perguntou-lhe, mesmo sem se voltar:
--Por que é que você veio tão cedo?
--Por duas razões...
E, como elle interrompesse a phrase, ella, sobresaltada, acercou-se, indagando com interesse:
--Você está doente? Diga!
--Não tenho nada filha, descança.
Camilla sorriu e voltou tranquilla para defronte do espelho.
--Então que motivos são esses?
--O primeiro, para pedir ao Gervasio que vá ver o Motta, que quebrou hoje uma perna.
--O velho?
--Sim.
--Coitado! como foi?
--Foi no serviço da casa; descendo de um bond. Já está medicado, mas quero que o Gervasio lhe examine o apparelho. O segundo motivo é mais serio.
Sem afastar do rosto o _pompon_ do pó de arroz, Camilla interrogou com certa indifferença:
--Que é?
--Trata-se do senhor seu filho.
--Meu só?! tem graça...
--Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra, o tal senhor!
--Aposto, meu velho, em como você vem por ahi com recriminações?!
--Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das patifarias do rapaz és tu.
Camilla voltou-se indignada, com os olhos chammejantes de colera:
--Hein?!
--Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu filho!
--Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camilla, olhando para o marido de alto.
Elle continuou:
--É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não póde continuar assim! Elle mantem agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e com toda a impudencia faz contas em meu nome! Já se viu coisa egual?!
--É a mocidade...
--Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe.
--Trabalhar! Mario tem só dezenove annos!
--Faze mãos de velludo para o acariciar; é o costume!
--Mas por que não lhe falla você?
--Por que?! Ora essa! porque lhe vou á cara, se elle me retruca com um desafôro!... Esperarei mais alguns dias ... falla-lhe tu primeiro. Não lhe mettas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o meu exemplo, e que se deixe de fazer dividas. Isto competiria a mim, bem sei, se não me tirasses toda a força moral.
--Eu?!
--Sim. Acodes com pannos quentes sempre que o reprehendo, e ahi está o resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha...
--Ora! tambem você exaggera. Mario tem boa indole. É incapaz de uma acção má. Descançe; eu fallarei com elle. Quer então que eu o aconselhe a deixar a tal mulher?...
--Por força! Uma perua velha, que o ha de comer por uma perna. Não posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mario que, ou elle toma caminho, ou o mando para a Marinha.
--Já não está em edade disso, nem eu me separo de meu filho!
--Temos outra. Faze o que quizeres; hoje falla-lhe tú, e se elle não seguir outro caminho, terá de se haver commigo. Diabo, tenho outros filhos!
--Coitado do Mario! tú nunca o amaste muito...
--Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores ... está bom, está bom, fallemos noutras coisas... Acalma-te ... e veste-te á vontade. As Gomes já estão ahi: vi-as no jardim com a Ruth.
--Que me importam a mim as Gomes!
Francisco Theodoro chegou-se á janella, afastou a cortina e olhando por entre os vidros, informou com voz amavel:
--Lá está tambem o capitão Rino... Ahi estava um bom casamento para a Nina, hein? Gosto d'elle, parece um excellente rapaz ... apezar da procedencia.
--Que procedencia?
--Homem! a mãe morreu ás mãos do marido, por crime de adulterio... Emfim, isso já foi ha tantos annos, que ninguem se lembrará do caso...
--Você lembrou-se.
--Ora, porque ainda hontem me fallaram nisso... Bom casamento para a Nina ... bom casamento!...
Camilla sorriu com desdem e tratou de abotoar melhor o seu broche de perolas, sobre a escomilha côr de rosa do peitilho. Coitada da Nina ... pois sim!
--Muito bem! lá chegam o Lelio e o Gervasio... Sou muito amigo do Gervasio, mas olha que elle tambem é um exquisitão. Não diz nada á gente da sua vida, lá dos seus principios... Com a intimidade que lhe damos era natural que soubessemos mais d'elle que toda a gente; e afinal sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não sympatisam geralmente com elle por ahi; dizem que elle nunca escreveu uma linha e que vive a criticar livros e auctores... Realmente, elle não perdôa a ninguem. Pois vou fallar-lhe. Até já.
Antes de sahir, Theodoro contemplou a mulher, ageitou-lhe os caracóes da nuca e, attrahindo-a, quiz beijal-a; ella porém esquivou-se com um movimento rapido. Francisco Theodoro riu-se e sahiu pensando comsigo:
--Todas as mães são assim! Só porque lhe fallei do filho...
Em baixo, Ruth colhia flôres para as visitas, que se aggrupavam sob as ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças, eram indefectiveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse máo ou bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e escrupulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinaes como culinarias, que ella offerecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance da voz. As filhas eram expertas, cantavam ao piano e ao violão e vestiam-se com graça, fazendo valer pannos baratos.
O capitão Rino examinava as palmeiras com a attenção de um botanico, emquanto o maestro e o Dr. Gervasio cumprimentavam as senhoras.
Francisco Theodoro appareceu risonho, com as duas mãos extendidas para a querida Sra. D. Ignacia Gomes, que se levantou remexendo as sedas farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excellente seda aquella! já passara por tres feitios differentes, e ainda era aquillo que se via!
--Cara senhora, então, o amigo Gomes?
--Vem logo; ah! elle tem muito trabalho, não imagina.
--Sei, sei ... a vida foi feita para as mulheres. E ainda ellas se queixam! Só se falla por ahi em emancipação e outras patranhas... A mulher nasceu para mãe de familia. O lar é o seu altar; deslocada d'elle não vale nada!
Todos concordaram; e Francisco Theodoro passou adeante, puxando o Dr. Gervasio para uma alléa mais solitaria do jardim:
--Vou pedir-lhe um obsequio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de guarda-livros, o Motta, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bond. O homem foi tratado na pharmacia do Souto, mas ... sabe que esses apparelhos feitos assim á pressa não inspiram confiança; peço agora ao amigo que amanhã vá lá vêl-o.
--Perfeitamente. Onde mora?
--Na rua Funda, tenho aqui o numero...
Francisco Theodoro sacou de um bilhete escripto a lapis.
--Rua Funda? Onde é isso?
--É no outro mundo, lá para os lados da Saúde.
Emquanto Francisco Theodoro conversava com o medico, Camilla desceu a escada exterior do palacete, olhando de relance para todos.
As Gomes acharam-n'a muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não verem nella nem o menor signal de decadencia. Aquella pelle alva e macia, aquelles cabellos negros sem um fio branco, aquelles dentes perfeitos e brilhantes, sem um toque siquer de ouro que attestasse a passagem dos annos e das mãos dos dentistas, faziam-n'a parecer sempre a mesma Camilla dos tempos da Lapa, em que D. Ignacia a conhecera.
Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até á raiz dos cabellos e foi elle o ultimo que se approximou, tocando-lhe de leve nos dedos estrellados de anneis.
Nina, que espreitava de cima, achou a occasião opportuna para mandar pelo criado a bandeja de prata com o vermouth.
--Por que não subiram?
--Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ella está crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos...
--Não diga isso ao pé d'ella; apezar de que estou certa de que não toleraria as caudas; é muito creança e tem modos de rapaz. Não imagina, D. Ignacia, que phantasia a d'esta menina!
Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas arvores com o seu violino; e faz gosto ouvil-a tocar lá em cima. Diz que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso pôr de vestidos compridos. Que horror!
--Ah! mas é preciso perder este costume; ella já tem os seus treze annos...
--Quatorze ... quasi quinze! mas não parece.
--Isso de trepar nas arvores é para rapazes; uma menina de educação tem deveres...
Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito perfumada.
--Não falle mal de mim, D. Ignacia; aqui tem a senhora uma fructa colhida por mim lá nos cocurutos da arvore. Se eu não tivesse ido buscal-a, a senhora não a teria agora...
--Ahi está...
D. Ignacia cheirou a fructa, com força, cerrando os olhos papudos; e depois, voltando-se:
--Camilla, você já comeu geleia de manga?
--Não me lembra...
--Pois é gostosa e facil de fazer; olhe...
Emquanto a D. Ignacia desfiava a receita do doce, Camilla olhava para ella, ouvindo o murmurio de outras vozes, querendo distinguir as palavras do medico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao _Neptuno_, da esquerda, ou um--_expreme-se_ e põe-se na peneira--da direita.
Nesse dia Mario não appareceu ao jantar e Francisco Theodoro queixou-se d'elle ao Dr. Gervasio, em um vão de janella, num desabafo de sentimento.
Gervasio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer comtudo uma unica palavra. Theodoro assegurava:
--A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal. A bondade excessiva leva aos desatinos ... aquelle filho é o mais velho e ella encontrou nelle toda a sua ternura ... não lhe levo a mal,--é mãe. Repare que para com as meninas ella é mais severa!
O Dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite elle aconselhou Camilla a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Elle conhecia a amante de Mario: era uma franceza gananciosa, podre de rica, de cabellos pintados e carne molle. Não valia nada e arruinara muita gente boa.
Camilla prometteu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se na conversação geral, fugindo d'aquelle assumpto irritante.
Á noite foram outras visitas, dous negociantes solteiros e duas moças da visinhança, as Bragas.
Francisco Theodoro acoroçoava os jogos e as musicas, acolhendo entre os joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se atiravam para elle estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos, interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E foi no meio d'aquelle barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da rua das Violas, se lembrou de fallar das operações commerciaes do Gama Torres, com elogio e assombro.
Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras.
O capitão refugiou-se em uma janella. Ruth foi ter com elle: o moço ao principio não lhe prestou attenção; seguia, atravéz das cortinas, os olhares trocados entre Camilla e Gervasio.
Seriam todos cegos, só a elle caberia descortinar aquelle amor, tão evidente?
Ruth, derreando a cabeça para traz, olhava para o céo tranquillo. Houve um largo espaço de silencio entre ambos. Ruth disse por fim, sem abaixar os olhos:
--Que parecerá a terra, vista de lá...?
--Uma gotta de luz...
--Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrella. E como ellas hoje estão bonitas! Se Deus me désse a escolher uma, eu ficaria embaraçada. Olhe, repare para aquella, como é grande e suave!
--É Vesper...
--Linda, linda, linda!
--Levante mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está limpido hoje! Maravilhosa noite!
--Sim ... estou vendo ... cinco estrellas brilhantes em um lago negro. Porque é tão escuro aquelle pedaço do céo ao lado do Cruzeiro?
--Porque não tem astros.
--Deveria ter sido por alli que Lucifer cahiu.
--Por que?
--Fez um rasgão no filó doirado. Por isso Deus poz alli a cruz, para que o diabo não tornasse a passar pelo buraco.
O capitão sorriu.
--Se eu fosse passaro, continuou ella, gostaria de voar á noite...
--Como as corujas.
--Não. As corujas são feias, mettem medo, e eu só gosto do que é bonito. Quereria ser uma ave branca e com azas tão fortes que me levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar para o céo e que me desespero por não poder voar... Ás vezes sonho que estou voando ... e é tão bom!
O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatorio do Castello, o que lhe seria facil, visto ter lá familia na visinhança. Assim veria bem a lua e a côr das estrellas.
Interessado por aquella imaginação ardente, o capitão Rino explicava á menina os nomes das estrellas, sentindo roçar-lhe pelo hombro o cabello d'ella, vendo-lhe na transparencia luminosa do olhar a chamma de uma curiosidade insatisfeita.
Elle tinha uma linguagem clara, mas interrompia as phrases de vez em quando, com sobresalto, voltando-se para a sala attrahido pela voz de Camilla.
Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naquelles movimentos e continuava a interrogal-o, com o olhar acceso para o grande céo illuminado.
Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para uma valsa.
--Quem toca?
Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal.
Apezar do barulho, Francisco Theodoro discutia com o Negreiros o arrojo do Gama Torres, attribuindo ao acaso o exito da famosa empreza, o que o amigo negava, affirmando o tino especial do outro.
Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das moças. Carlotinha não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros, atirou-se aos braços da Therezinha, a mais moça das Bragas. E as duas rodopiaram pela sala.
Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão. D. Ignacia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito falladoras, prometteram á Carlotinha e á Judith moldes de casaquinhas modernas, como as que traziam vestidas. Camilla acompanhava-as tambem, retardando o passo, entre o Dr. Gervasio e o capitão Rino, que não dizia nada, recebendo em cheio o effluvio d'aquella noite sem par! Um bond passou e as Gomes partiram. Nina ficara em cima, accommodando a casa, vendo fechar as janellas da sala.
O medico chegou-se então para Francisco Theodoro, perto do gradil, á espera de outro bond para o Jardim. Camilla sentou-se em baixo da mangueira e o capitão imitou-a, olhando-lhe para o perfil doce, ensaiando uma confissão que não lhe sahia nunca dos labios tremulos. Camilla abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se não bastassem á sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido.
Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto d'ella. A mão de Camilla pousara no banco, e elle então, com o mesmo gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ella levantou-se, com modo brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da arvore. O olhar do Gervasio indagou logo de tudo, emquanto o marido fallava em coisas indifferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma sonata harmoniosa e larga.
Em baixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquella musica e naquella noite.
Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o vulto claro de Camilla, que lhe fugia e se chegava para o seu amor feliz, toda embebida na poesia d'aquelles sons. Fechou os olhos para não ver...
A doçura da musica enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado... Uma estrella cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso. Camilla apontou-a com o dedo.
A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente Theodoro gritou para cima:
--Não são horas de musica. Para a cama!
Depois, em um murmurio satisfeito:
--O diabo da pequena tem sentimento, hein?
--Tem mais do que isso, affirmou Gervasio: tem talento, tem inspiração!
--Tanto esta é applicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bond doutor!
O medico, despediu-se á pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo a sua commoção e sahiu tambem, descendo a pé pela rua a baixo, apezar dos pedidos de Theodoro, que esperasse alli mesmo outro bond para a cidade.
Camilla entrou em casa antes do marido e procurou immediatamente a Noca, que vigiava o somno de Rachel e de Lia.
--Mario já entrou, Noca?
--Não senhora. Dionysio já veio ha que tempos e disse que seu Mario ficava lá...
--Lá?... Em casa da tal Luiza?!
--É...
--Se meu marido sabe! Olhe ... se elle perguntar, você responda que Mario entrou com enxaqueca, e que por isso não foi á sala. Ouviu? Diga que elle está dormindo.
--E se elle amanhã perguntar a Dionysio?
--Você previna primeiro o rapaz.
--Tambem não sei p'ra que _seu_ Mario faz assim; só p'ra metter a gente em embrulhos...
--Tem paciencia, Noca ... elle é creança... Amanhã eu lhe darei conselhos...
--Hum... Lia entornou o oleo da lamparina no chão, e eu já fico esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa!
--Cala a bocca; lá vem seu Theodoro. Boa noite, Noca!
Francisco Theodoro gyrou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado e fez á mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a caminho do dormitorio, voltou-se e foi dizer-lhe:
--Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mario augmentar, sempre será bom dar-lhe uma pastilha de antipyrina...
--Sim, senhor, eu vou vêr...
Francisco Theodoro sahiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a cabeça.
IV
Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus pés bem calçados para a rua dos Benedictinos.
Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes, saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.
Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle pouco afeita a penetrar naquelle ambiente.
Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino de todas aquellas coisas.
Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do _veston_, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos carregadores boçaes.
Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens, aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço...
O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles biceps de athletas.
Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo.
--Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade, olhe que é mais extrangeiro do que eu!
O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes, e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho.
E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha, modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um cigarrinho.
O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade.
Deu-lhe cigarros.
Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia calor. Ribas lembrou:
--Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom.
--Não tenho sêde.
--É que lá para deante não ha nenhum que preste...
«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade ao rapaz.»
Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente, sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se dependurava uma larga alça de cadarço vermelho.
Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá dentro como um leve zumbir de abelhas...
O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo da sala e arrebatou a viola para dentro.
«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis para a mesa.
Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu conjuncto de velharias e sobejidões.
A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos, marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada bestialmente pelo pão.
Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr. Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um vapor do Lloyd.
Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço limpido. Em terra vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portuguezes levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche.
Foi logo adeante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da vespera. Eram quatro: um caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino loiro, que os outros denominavam o _Bota_--por trazer uma bota velha suspensa de um barbante a tiracollo--, e um italianinho sardento, sem pestanas.
--Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo hontem no jogo ... reclamavam.
E o Ribas defendia-se, hypocritamente:
--Que jogo? Eu?!
--Sim, senhor, não se faça de engraçado!
O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: elle era o caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas.
Dr. Gervasio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de provocações.
Que se arranjasse.