A fallencia

Part 17

Chapter 173,952 wordsPublic domain

O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos manacás, que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce.

O aroma das plantas avivou-lhe tambem a sensação dos seus triumphos de outr'ora. Aquella essencia divina nascia da fertilidade das suas terras, trabalhadas por homens pagos por elle.

A criadagem! Como os seus creados, menos feliz do que elles, precisava tambem agora do salario de um patrão, com que matasse a fome á mulher e aos filhos...

--Como Job! repetiu elle furioso, arrancando as barbas e unhando as faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo physico, a maceração da carne, para completa punição da sua inepcia.

Não saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiril-a, é signal de loucura. Elle era um doido? Sim, elle era um doido. Tal qual o avô! Riu alto; elle era um doido!

Foi então que do fundo do jardim vieram os sons de um violino tocado em surdina.

Francisco Theodoro estremeceu, as pernas vergaram-se-lhe, olhou pasmado para o grande céo tranquillo, onde as estrellas palpitavam, Comprehendeu; Ruth não quizera perturbar a tristeza da familia e fugira com a sua musica para fóra! Aquella era uma forte, amava o seu idéal mais do que tudo, mais do que a vida! Que reservaria Deus áquella alma de extase e de sonho?

Os gemidos da musica vagavam na noite clara como queixas de anjos invisiveis. Não pareciam vibradas por mãos humanas aquellas notas suavissimas e repassadas de doçura. Tremulo, vencido pela commoção, Francisco Theodoro ajoelhou-se e chorou copiosamente. O ultimo beneficio era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento. Nem elle soube quanto tempo durou aquella crise de pranto que o suffocava. Quando Ruth acabou a sua musica e elle lhe sentiu os passos leves e apressados na areia, teve impetos de chamal-a e cobril-a de beijos.

Mais forte, porém, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de enfraquecer. Elle fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução.

Cada homem é creado para um fim. O d'elle tinha sido o de ganhar dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar, inutilisado para a acção, devia acabar de uma vez. Toda a energia da sua vida se concentraria num movimento unico e decisivo.

Ruth subia a escada. Elle foi collar o ouvido á porta para escutar-lhe os passos. Beijaria o logar em que ella punha os pés... Esteve assim longo tempo, depois voltou-se e foi sentar-se a um canto, esperando...

Pouco a pouco a casa adormecia, até que se encheu toda do pesado silencio do somno.

Á uma hora Francisco Theodoro levantou-se muito pallido, persignou-se e rezou, alli mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do cavalheiro de bronze. Finda a oração, caminhou resolutamente para a sua secretária. A bulha dos seus passos firmes abafou um sussurro leve de saias que deslisavam pela escada abaixo.

Francisco Theodoro tirou da gaveta o seu revólver, olhou-o um instante e encostava-o no ouvido quando a mulher appareceu na porta, muda de terror, extendendo-lhe as mãos. Elle cerrou logo os olhos á tentação da vida e apressou o tiro.

E toda a casa acordou aos gritos de Camilla, que, com os braços no ar, clamava por soccorro.

XXI

A morte de Francisco Theodoro fez sensação.

Amigos e conhecidos acudiram pressurosos á casa da familia.

Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a baroneza da Lage offereceu-se para educar as gemeas. Chamado de madrugada pelo jardineiro, Dr. Gervasio determinara tudo: o enterro seria conforme disposições do finado, a expensas da sua Irmandade.

Toda a familia soluçava á roda do cadaver. Camilla tinha no olhar uma fixidez de loucura. A scena da morte reproduzia-se deante d'ella, como se uma infinita successão de espelhos a reflectisse consecutivamente.

Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de duas horas, cuidosa, com medo que elle fizesse uma loucura, morta por encostar-lhe a cabeça aturdida ao seu peito de mulher enternecida, sentindo que o amava na sua dôr, mais do que o tinha amado na sua felicidade. Entretanto, porque só obedecera ao desejo de o ver e só viera procural-o no momento justo e inevitavel da morte? Se ella tivesse adivinhado! E a sua obrigação não era ter adivinhado? Por que não tinha ella obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita?

O descuido do presentimento é uma falta que a consciencia não perdoa. Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido uma hora antes! Um minuto antes!

E agora, como caminharia na vida sem aquelle companheiro de tantos annos? Que fariam todos alli, sem elle?

Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar.

No meio de tanta gente, só o Dr. Gervasio a comprehendia. Os outros mal acreditavam na sua sinceridade.

As maiores condolencias voltavam-se para os filhos, e só por etiqueta e dever de apparencia cumprimentavam a viuva.

As Bragas tinham sido as primeiras, como visinhas, a invadir a casa, e tomaram conta d'ella, affectando grandes intimidades, dispondo, ordenando, mostrando aos extranhos a sua interferencia.

D. Ignacia Gomes foi tambem, muito chorosa, pelo braço do seu velho. Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha tambem tivera uma syncope. Eram muito amigas... Pudera não!

Era só gente e mais gente a entrar e a sahir, pessoas curiosas da visinhança, que aproveitavam o ensejo para varar os jardins d'aquella casa de luxo, onde nunca tinham entrado; ondas negras de povo, cruzando-se nas portas, escoando-se pelos corredores, num sussurro de passos e de vozes abafadas...

D. Joanna conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a encommendação do suicida. Com o rosario nas mãos tremulas, os olhos inundados, ella não sahia de ao pé do cadaver, defendendo-o do inferno na fé ardente e pura da sua prece.

Quem lhe diria! um homem tão temente a Deus ... tão digno do Paraizo!

E toda se debulhava em prantos por aquella alma perdida.

Por seu lado, sentada num canto, com as grandes mãos pousadas na seda russa do seu vestido preto, D. Itelvina considerava na fragilidade humana. Porque morrera aquelle homem? Por não ter sabido guardar.

O instincto da vida é o egoismo. Julgara-o mais precavido e mais forte; afinal era um bôbo. Se tivesse o seu dinheiro aferrolhado, acontecer-lhe-ia aquillo? não. Morreria de velho, deixando testamento.

Sempre pensara que elle havia de deixar testamento; seria então uma cerimonia completa e bonita, bem certo é que o dinheiro dá prestigio a tudo.

Empobrecer ... suicidar-se, quem diria? Um portuguez, um homem conservador e acostumado ao trabalho! Ainda o maior crime não estava em suicidar-se, estava em empobrecer, em deixar a familia na miseria.

Na sociedade ha só uma coisa ridicula: a pobreza. Vejam se os jornaes inscrevem o nome dos miseraveis que vão para a valla.

Pois sim! Dizem que o dinheiro não vale nada, mas só dão noticia dos mendigos que deixam moedas de ouro entre as palhas podres do colchão...

D. Itelvina relanceou os olhos pela sala e considerou-lhe o luxo, com asco. A seu lado cahiam as dobras fartas de um reposteiro de velludo lavrado; ella apalpou-o, sentindo com um arrepio o pello do setim do forro agarrar-se-lhe á pelle aspera dos dedos.

--Foi por estas e por outras! murmurou ella de si para si.

Que fará agora esta gente toda? Talvez conte commigo...

Ah, mas eu não posso ... eu não posso. Que trabalhem! para isso Deus lhes deu cinco dedos em cada mão.

No meio d'essas considerações acudia-lhe de vez em quando á lembrança o que estaria fazendo em casa a criada ... não fosse ella dar entrada a alguem!

Ruth soluçou alto; D. Itelvina não se mexeu, mas disse comsigo:

--Coitadinha...

E comsigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos soluços, que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela violencia da commoção. O cheiro da cêra, a chamma tremula das tochas, faziam-lhe mal á cabeça. Desculpou-se com isso, de não ajudar ninguem; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia chegar, e emfim chegou.

Paravam carros á porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o Negreiros choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso fechar o caixão. Ruth desmaiou; as gemeas bradaram pelo pae, Nina acudiu a todos, com os olhos em sangue, e Camilla, tirando o lenço da face do morto, beijou-o tres vezes.

De volta do cemiterio, Dr. Gervasio entrou no palacete Theodoro. O gaz da sala de jantar estava em lamparina, elle mal distinguiu uns vultos a um canto; approximou-se. Era Camilla sentada no divan, entre as gemeas adormecidas. Ella, muito pallida, com uma brancura que sahia do negror das roupas, num polimento de marmore, interrogou-o com o olhar.

Calado, o medico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contacto das mãos: ella encolheu-se, elle recuou e foi sentar-se ao pé da mesa.

Era a primeira vez que se repelliam. Milla sentia na palma da mão a friagem d'aquella chave pequenina e pesada, sem saber onde guardal-a, com medo de a pôr no seio, achando irreverente guardal-a no bolso.

Gervasio considerava na dolorosa delicadeza d'aquella situação, que o obrigara a elle a trazer do cemiterio a chave da prisão perpetua do outro. Apoquentou-o a ideia de o terem escolhido por ironia, e, olhando para a Milla, pareceu-lhe que nunca mais poderia beijar sem arrepios aquella bocca, que tão repetidos beijos dera num cadaver...

A unica voz na sala era a do relogio; mal se ouvia a respiração das creanças bem accommodadas.

Gervasio quiz fallar, dar alguns conselhos a Camilla; sabia-a muito inexperiente, mas conteve-se, sem atinar como tractal-a. A lingua negava-lhe o tu, a que o seu amor o acostumara. Ella suspirava baixinho, de queixo cahido para o peito.

Uns passos e um roçar de saias pela escada fizeram-a voltar a cabeça. Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos braços.

--Como está Ruth? perguntou Milla.

--Tá com febre... D. Nina ficou perto d'ella... Camilla voltou-se para o medico:

--Vá vel-a ... sim?

Elle fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata.

XXII

Só no fim de um mez foi que a familia Theodoro tractou de mudar-se.

Nina despediu os criados, montou a casa nova com mobilias baratas, leitos de ferro, louças brancas, sem douraduras. Pensava em tudo, traçava planos, sacudia o torpor e a apathia dos que a rodeavam, indagava preços e discutia o valor dos objectos que adquiria.

--Você dá á propria dor uma fórma de felicidade, disse-lhe um dia o medico; é a mulher mais compenetrada dos seus deveres de mulher que eu tenho conhecido.

--De que serve?!...

--Para fazer os outros felizes. A sua influencia e a sua actividade teem realizado prodigios. E eu que já não acreditava em prodigios!

--Bem vê que fazia mal...

--Bem vejo. Nina sorriu; e depois continuou:

--Fallando serio: tenho medo da responsabilidade que vou assumindo, sem saber como.

Tia Milla não está era edade de acceitar habitos novos sem grande sacrificio; Ruth só ha de querer saber do seu violino; para tudo mais foi sempre...

--Preguiçosa.

--Sim... As outras são tão pequenas!

--Eu estarei a seu lado.

Nina corou, e não respondeu.

Dias depois Noca foi ao quarto da ama avisal-a de que iriam almoçar já na outra casa.

Milla apertou as palpebras.

--A senhora torna a adormecer! Eu vou abrir a janella ... abro?

Camilla não respondeu; sentiu o corpo pesar-lhe na cama e espalmou as mãos no seu largo colchão de clina. Como era bom!

O ocio tinha-lhe infiltrado no sangue a voluptuosidade, que embellezava a sua carne de pecego maduro, colhido ao sol de outomno. O seu corpo redondo e roseo tinha o aroma expansivo da flor aberta, e a maciez da fructa polpuda e delicada que não pode soffrer nem grandes baques, nem grandes ventanias.

Noca insistiu:

--Abro a janella?

Camilla calou-se ainda, procurando gosar mais um minuto o conforto do seu quarto cheiroso. Tinha creado fundas raizes no luxo, não se podia desprender por si, seria preciso que a arrancassem.

A culpa não fôra sua... Seria a ultima vez, essa, que se extendia sob um docel assim de rendas e de setins? Só agora comprehendia o valor das minimas coisas na harmonia do conjuncto.

Alli tudo era bom. A ideia da necessidade, do tacão acalcanhado, do chapéu feito em casa, do vestido forrado de algodão, irritavam-n'a até á doença. A pobreza tem morrinha; é suja.

Quiz lembrar-se do seu quarto de solteira, buscando na humilhação do passado a resignação do futuro; dormira na mesma alcova que a irmã Sophia. Mal pôde reconstruir na memoria o mobiliario barato d'esse aposento, em que havia roupas pelas paredes...

Noca andava pelo quarto; Camilla olhou:

Era em frente áquelles grandes espelhos que o marido a encontrava quando voltava do trabalho, satisfeito dos seus negocios, pisando e fallando alto, com as mãos carregadas de embrulhos de guloseimas e de jornaes da tarde.

E não era para elle que ella picava nos seus vestidos claros uma flor, ou uma joia discreta. Era para o Gervasio que adoçava a sua belleza e se agarrava tanto á mocidade. A mocidade!

Vendo-a abstracta, com os olhos humidos, cheios de tristeza, Noca avisou, já impaciente:

--Olhe, _nhá_ Milla, a gente não deve ir tarde; o carro d'aqui a pouco está ahi.

--Ajuda-me a vestir...

--E as meninas, lá embaixo? Lia e Rachel agora é que vão tomar banho...

--Você tem razão ... eu estou mal acostumada... Vá, eu me arranjarei sozinha. Tambem, para este vestuario... Que saudade, Noca!

--Que se ha de fazer?! Agora é ter coragem!

Duas horas depois Nina passava a ultima revista á casa, abria as gavetas verificando se todos os moveis estavam vazios e limpos, e percorria tudo, do salão á cozinha, da cozinha ao fundo do quintal; Noca ajudava-a na inquirição, remexendo as prateleiras e fechando as janellas e as portas.

No escriptorio, por mais que tivessem lavado, lá ficava indelevel, em uma sombra, no assoalho, a mancha do sangue de Francisco Theodoro. Nina ia passar por cima d'ella, quando Noca deu um grito. A moça recuou, olhando atterrorisada para o chão:

--Pisei?!

--Quasi...

--Meu Deus!

Contemplaram-se as duas por entre lagrimas.

--Foi uma grande desgraça, Noca!

--Se foi! Ainda me parece mentira...

--A mim tambem. Ás vezes julgo mesmo que elle vem da cidade e que vou vêl-o abrir o portão... Pobre tio Francisco!

Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquella mobilia impassivel lhes extendia os braços numa supplica.

Na secretaria, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata já vazio e em que a canneta sem penna pesava num abandono de corpo morto, havia scintillações frias.

Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura atrevida do cavalheiro de bronze, de chapéo emplumado na mão, em um aceno arrogante de adeus.

Disseram-lhe o ultimo, e fecharam a porta.

Na limpeza da casa, Nina encontrara em um caixote, no porão, entre um sem numero de objectos mutilados e antiquissimos, o chicotinho com que Mario a zurzia nos dias de colera, quando, pequena e magra, ella fazia reboar pelos corredores a sua tosse de cão, que elle abafava gritando-lhe:

--Cala a bocca! cala a bocca!

Calar a bocca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste sorriso desbotado, Nina separou de todos os objectos destinados para a fogueira, aquelle chicotinho revelador e prophetico, e guardou-o como reliquia.

Para que nascera ella, senão para ser batida?

Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camilla e as duas gemeas esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atraz d'ellas, muito magrinha e pallida, Ruth mal sustentava a caixa do seu violino, pasmando para as arvores amadas um olhar dolorido e longo.

Um minuto depois accommodavam-se no carro. Noca fechava o portão do jardim, entregava as chaves ao criado do Dr. Gervasio, que esperava alli, na rua, para ir leval-as ao patrão. Subiu por ultimo para a caleça. Ao primeiro arranco do carro, de todos os peitos sahiu um suspiro e todos os olhares se voltaram para a casa.

Ruth chorou; parecia-lhe que deixava alli o pae, o seu querido papae... Só Lia e Rachel gorgearam uma risadinha.--Emfim, iam para a casa nova!

Durante a viagem ninguem mais fallou.

Para que? Diriam todas a mesma coisa. Abafavam gemidos, disfarçavam lagrimas, e iam assim, de negro, começar vida nova.

Eram dez horas quando o carro parou em frente á casa de Nina.

Na visinhança, tocavam exercicios num piano desafinado. O sol irradiava com força no cascalho branco do chão.

A casa era pequena, em um trecho socegado da rua de D. Luiza, disfarçada por um jardinzinho mal cultivado. Dentro sentiram-se todos oppressos; habituados á largueza de um palacio, parecia-lhes que aquelles tectos e que aquellas paredes se apertariam de repente, esmagando-os a todos.

O melhor quarto fôra arranjado para Milla e as gemeas; Ruth e Nina dormiriam na mesma alcova, Noca num quarto ao fundo.

A sala de jantar, forrada de novo com ventarolas e japonezes no papel, abria para uma nesga de quintal por um patamarzinho de ladrilho que a desafogava. Tinham-n'a alegrado com um par de cortinas de cretone claro e uns vasos de flores na janella.

Nina explicava á tia como determinara as coisas, sujeitando-se a mudal-as, se lhe não agradasse a posição d'ellas.

Suppuzera melhor supprimir a sala de visitas, e fazer d'ella, que era ampla e clara, a sala de trabalho. Em vez do sofá, do dunkerke inutil, de uma ou outra cadeira preguiçosa, estavam alli a machina de costura, cadeiras fortes, uma estante para musicas, um armario, uma mesa e uma taboa de engommar.

--Aquella taboa faz tão máu effeito aqui ... murmurou Milla numa censura leve, sentando-se, muito abatida.

A sobrinha explicou:

--A saleta lá dentro é muito pequenina, ficou vazia, para as creanças brincarem nos dias de chuva. Se a senhora quer, põe-se lá a taboa.

--Depois...

Quando acabaram de percorrer tudo, Lia e Rachel pediram para ver o resto.

Onde estava a sala do piano? e o escriptorio? Onde guardariam as suas _bicyclettes_? A cosinha então era aquelle cochicholo?

A mãe anediava-lhes os cabellos, sem responder, com os olhos parados.

Tinham arranjado para cosinheira uma preta velha, de trinta mil réis mensaes. Milla achou-a repugnante e disse a Nina que lhe puzesse ao menos um avental. E á hora do almoço não comeu; olhava para as gemeas que iam devorando os bifes e o arroz da cosinheira nova.

Nina offereceu Collares á tia, que bebeu pouco, sem nem ao menos indagar a proveniencia d'aquelle vinho, tambem, soube-lhe mal, bebido por um copo de vidro, e lembrou-se com pena das suas garrafas de crystal lapidado que atiravam sobre a toalha _bouquets_ iriados e tremeluzentes. Eram como violetas e botões de ouro que nascessem da luz e se espalhassem sobre o adamascado do linho.

O vinho viera da adega do Dr. Gervasio; ninguem mais o bebeu. Lia pediu repetição do bife, Rachel exigiu batatas, e Nina, diminuindo a sua ração, encheu os pratos das primas.

O sol entrava pela janella numa larga toalha de ouro, rebrilhando no verniz novo dos moveis e nas roupas vermelhas dos japonezes retorcidos do papel.

A preta velha trouxe o café numa bandeijinha, mal arrumada, que pousou brutalmente em um canto da mesa.

Camilla fechou os olhos para não ver; quando os abriu, a sobrinha extendia-lhe uma canequinha delicada, do ultimo apparelho do palacete.

Mexendo o café, vagarosamente, a tia perguntou-lhe:

--Só veio esta canequinha?

--E uma chicara de chá; nós bebemos bem nas outras. Veio tambem um copo de crystal. Esqueci-me de o pôr na mesa... Quer mais assucar?

--Não quero differenças para mim.

Depois:--Realmente, custa muito a beber num vidro grosso!...

--Eu não acho...

--Ah, você!

Nina sorriu e foi abrir a porta ao criado do Dr. Gervasio, que entrou trazendo a correspondencia, jornaes e uma carta para Francisco Theodoro, que o carteiro levara ainda á rua dos Voluntarios da Patria.

--Você esteve lá em casa outra vez?! perguntou Milla admirada.

--Sim, senhora. Fui lá com seu doutor, um homem gordo, seu Serra e mais o leiloeiro.

--Já! Andaram depressa!... Olhe, é bom avisar o carteiro.

--Seu doutor já avisou.

--Bem; póde ir...

A carta era de Sergipe. O pae de Camilla queixava-se de doenças e de atrazos; estava muito velho, pedia recursos ao genro. D. Emilia andava ameaçada de congestão; o Joca internara-se com a familia para o interior, por mingua de empregos, a Sophia fôra pedir-lhe agazalho por ter brigado com o marido e as outras duas filhas iam indo.

Desde a primeira até a ultima palavra arrastava-se um suspiro lamentoso de pobreza e de inercia.

Quando Camilla acabou de lêr a carta, deixou-a cahir aberta sobre os joelhos e calou-se muito pallida. Ruth soluçava com a cabeça deitada na mesa. Ouvira as supplicas, mas o que a alterava não eram os cuidados do avô, era o destino d'aquelle sobrescripto que ella tinha deante dos olhos, com o nome do pae, que, na illusão da vida, viera de longe, impellido por varias mãos desconhecidas e que, chegando ao final, não encontrava ninguem!

Releram a carta; vinha atrazada. Já por lá deviam estar fartos de saber a verdade. Como teriam recebido a noticia? Camilla cerrou as palpebras; viu a mãe, tal qual era na primeira visita de Theodoro ao Castello: falladora, animada, com aquelles grandes olhos trefegos sempre reluzindo de esperança ... deveriam estar bem amortecidos agora, aquelles olhos, bem cançados de chorar... E, como nunca, Milla sentiu saudades do carinho e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que ventura, se pudesse voltar a ser pequenina, innocente e adormecer no collo da mãe! Seria tão dôce... tão dôce...

Os rigores do lucto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o bom senso de Nina não reagissem contra as praxes. Depois, não bastava a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida.

Conheceram-se, pela primeira vez na familia, as agruras do calculo, o dever das restricções.

Mario escreveu lamentando ter de demorar-se em Paris, retido por uma doença de Paquita, cujo nome repetia em todos os periodos. A verdade é que na familia ninguem contava com elle, e que todos dissimulavam resentimentos, fugindo de aggravar tristezas.

Noca, prompta em expedientes, arranjou depressa freguezia para engommados.

Aquillo aborrecia Camilla, que não gostava de vêr trouxas de roupa atravancando a casa. O ferro, a fumaça, os peitilhos das camisas alvejando ao sol augmentavam-lhe o tedio e o mal estar. A vida pesava-lhe.

Uma tarde a mulata entrou com uma novidade: tinha encontrado uma discipula de violino para Ruth, a filha de um empregado publico da visinhança.

Camilla oppôz-se. Vêr a sua pobre filha andar na rua angariando dinheiro alheio? nunca. Não tinham ainda chegado a tal extremo...

--Mas tia Milla, a não ser que Mario lhe dê uma mezada, com que devemos contar? perguntou Nina, estupefacta d'aquella affirmativa e accrescentou: o que nós trouxemos, mesmo com economia, não dará para mais de dois mezes...

Camilla arregalou os olhos, como se só então tivesse a percepção da sua desgraça...

Aproveitando a perplexidade da mãe, Ruth convenceu-a de que as lições seriam um meio de a distrahir; já não aguentava aquelles dias sem fim.

Só a Nina não sobravam horas para trabalhos de interesse; precisava dividir-se em todos os misteres domesticos; as cosinheiras não paravam, umas porque bebiam, outras porque achavam o ordenado mesquinho... Era um vae-vem cançativo, e ella sujeitava-se a tudo, pondo o encanto da sua paciencia nos trabalhos mais rudes e pesados. Cumpria a sua missão de mulher, adoçando soffrimentos, serenando tempestades e conservando-se na meia sombra de um papel secundario.

Corriam assim os mezes. Os amigos escasseavam, mais pelo retrahimento da familia que pela sua mudança de fortuna. Os infelizes julgam os homens peiores do que elles são, e nunca vêem em si a causa justificada de certos abandonos. Camilla queixava-se ás vezes das relações antigas, sem cogitar que quem mais fugia era ella, envergonhada da sua nova situação.