A fallencia

Part 16

Chapter 163,858 wordsPublic domain

Sahiu do escriptorio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um ou outro amigo. Logo no primeiro quarteirão teve um sobresalto; á porta da casa Torres estava um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou o corpanzil mettido em alvejantes brins, com um frak preto fugindo para trás e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o abdomen arredondado. Francisco Theodoro corou, teve desejos de ser engulido pela terra; e tocando com os dedos tremulos na aba do chapéo, esboçou um sorriso e foi andando.

Já mal podia caminhar: um peso horrivel nas pernas fazia-o retardar os passos, exactamente quando os queria accelerar; arrimava-se com força ao seu chapéo de chuva e remexia os beiços como se fosse a fallar sózinho; era a seccura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe ter engolido todo o pó das ruas.

Já não via ninguem, pouco se importava que o cumprimentassem; ia pensando em tomar o bond na esquina; mas como não o visse alli em toda a extensão da rua, subiu pela calçada, rente aos trilhos. Tinha andado alguns metros quando esbarrou com o Negreiros.

--Então? Todos bons? perguntou-lhe o outro com o ar constrangido de quem já fôra informado do desastre e não quizesse alludir a elle.

--Todos bons ... estou á espera do _bond_.

--Isso ás vezes demora... Eu não tenho paciencia!

--Han ... é aborrecido.

Pararam ambos, e chegando-se para a parede olharam para um _coupé_ particular que roçou na calçada; dentro ia o Innocencio, que os viu e os cumprimentou com um adeuzinho de mão.

Francisco Theodoro nem tocou no chapéo, e murmurou com odio:

--Cão!

--Vae para a Europa ... segue directamente para Londres, num paquete da Nova Zelandia, amanhã.

--Com o meu dinheiro...

Negreiros enguliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando um pouco, approximou-se mais de Theodoro e murmurou:

--Se precisar de mim ... os amigos são para as occasiões...

Francisco Theodoro estremeceu e apertou-lhe a mão com força; houve nos olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloquente de uma lagrima. Vinha um bond; o negociante tornou a sacudir em silencio a mão de Negreiros e partiu.

No largo da Carioca, ao esperar outro bond que o levasse á casa, Francisco Theodoro topou com a baroneza da Lage, farfalhante nas suas sedas e vidrilhos; quiz evital-a, não pôde; a moça extendia-lhe a mão enluvada, sorrindo-lhe através do véosinho.

--Sabe? Papae escreveu-me. Paquita parece outra, tem engordado muito. Mario está deslumbrado; comprou bellos cavallos de raça em Londres; se não fosse a mulher, diz papae que elle poria em poucos dias todo o dinheiro fóra...

--Ah...

--Eu tenciono tambem partir em breve; vou ter com elles a Paris... Irei abraçar a nossa Camilla qualquer dia d'estes. Mario escreveu-lhes?

--Não...

--É noivo ... tem desculpa ... lá está o seu _bond_.

--E a senhora?

--Eu vou de carro. Saudades a todos.

Ella afastou-se ligeira, no _frou-frou_ das saias de seda, e o negociante tomou logar no bond, repetindo mentalmente a phrase da Lage, acerca de Mario: «_Se não fosse mulher, elle poria em poucos dias todo o dinheiro fóra._»

Nunca a viagem da cidade á rua dos Voluntarios lhe parecera tão curta.

Francisco Theodoro tinha medo de chegar a casa, medo dos beijos das suas gemeas, á espera d'elle no jardim, ambas de branco, risonhas e saltitantes, e de Ruth, no patamar, com os seus olhos de esmeralda, que lhe faziam lembrar os olhos da mãe em uma vaga reminiscencia saudosa; e, em cima, de Camilla, em frente ao espelho, nos ultimos retoques da _toilette_ da tarde, com os braços arqueados e os dedos carregados de anneis, unidos nas ondas negras do penteado...

Que lhes diria elle? que lhes diria?!

Lembrou-se então do Dr. Gervasio: seria esse amigo quem se encarregasse de dizer tudo a Milla, no dia seguinte, á hora em que elle estivesse com os credores no armazem ... no fim, absolutamente no fim!

Essa ideia animou-o.

Iria á noite procurar o medico á sua residencia e confessar-lhe-ia tudo. Ao abrir o portão da chacara, viu as suas gemeas voando nas bicycletas pelas ruas do jardim e ouviu os sons do violino de Ruth em uma sonatina fresca.

Nina fazia um ramo e Camilla, já prompta, formosa no seu vestido cor de milho maduro, lia no terraço, com o cotovello pousado no jarrão das gardenias.

XIX

Com um avental atado sobre as rendas do _peignoir_, Camilla executava, com a Noca, uma receita de doce dada por D. Ignacia.

Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectivel nos jantares de anniversario das Gomes.

A mulata pisava as nozes no almofariz. Milla acabava de observar a calda e voltava a consultar o papel, em que a calligraphia desleixada da Judith confundia os _a a_ com os _o o_, quando a Nina appareceu dizendo:

--Dr. Gervasio está ahi. Entrou para a saleta. Quer fallar com a senhora.

--A estas horas!... Elle não disse porque não veio almoçar?... perguntou ella alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho, despeja-lhe dentro as nozes ... depois d'estas bem cosidas retira o tacho do fogo e mistura ao doce doze gemmas de ovo ... torna a pôr tudo ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez!

--Deu nó; tia Milla! Tenha paciencia...

--Depois? inquiriu, Noca, emquanto Milla, para não perder tempo, lavava os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha.

--Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar bem cozida, põe-se no forno, em uma fôrma untada com manteiga. Manteiga fresca, ouviu? lembre-se que o Dr. Gervasio não gosta de manteiga salgada... Prompto este avental? Até que emfim! Fica em meu logar, Nina.

Nina ficou, e Camilla, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da golla, que as mãos ageis ageitavam mesmo sem espelho.

Sentindo-lhe os passos, Gervasio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão grave e desusado que ella logo o extranhou.

--Está doente?!

--Eu, não ... porque?

--Você está differente. Que modo!

--É que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer.

--A mim?!

--Sim.

--Que é?

Elle não respondeu immediatamente; contemplava-a em silencio, segurando-lhe nas mãos como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir o golpe em cheio. Milla impacientou-se.

--Que será, meu Deus! E logo lhe occorreu a ideia de que succedera algum desastre ao filho, um naufragio. Atterrorisada por aquelle pensamento, balbuciou apenas:--Mario?

--Não se trata do Mario. É isto: vocês estão pobres... Theodoro falliu.

Camilla tornou-se livida. Houve um longo silencio cortado só pelo zumbir de uma vespa no rezedá da janella. Ella não ouvia a vespa, não ouvia nada.

O seu rosto, que havia pouco reflectia o fulgor das brasas, estava tão desbotado agora, que o medico, inquieto, com receio de uma syncope, amparou-a, dizendo:

--Comprehendo a estupefacção, mas agora, que a verdade está sabida, é preciso coragem... Camilla!

Como ella continuasse immovel, elle abalou-a brandamente, repetindo-lhe o nome: Camilla ... Camilla!... julgava-te mais forte, muito mais forte! Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras--fallir não é morrer. Teu marido não morreu,--falliu.

--É impossivel! murmurou ella por fim, com uma voz de somnambula.

--Impossivel porque? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês mulheres não entendem d'estas coisas. Só conhecem a vida pela superficie, por isso é que teem surprezas com factos naturalissimos. Hoje a fallencia é de Theodoro, amanhã será de outro e depois de outro... A série ha de ser longa.

--Que me importam os outros!

--Importa como explicação: é uma consequencia do tempo. Mas senta-te, estás muito fria ... queres uma capa?

--Não quero nada. E, como elle quizesse retel-a, ella desprendeu-se-lhe bruscamente dos braços.

--Descança...

--Não posso.

Gervasio calou-se, á espera; ella começou a andar com passadas irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma ideia. A vida, ha pouco suspensa, voltava agora com impeto. A reacção escaldava-lhe o corpo. Ella ia fallando, estraçalhando phrases:

--Que horror! como havemos de apparecer deante de toda esta gente... Que insensatez, naquella edade! deixar-se fallir! não comprehendo! Que vergonha, que vergonha! E as creanças?!... Não póde ser! não póde ser.

Subitamente parou, com um relampago de esperança.

--Se fosse mentira?!

--Eu seria um miseravel.

--Podiam ter-te enganado. Quem te disse?

--Elle.

--Burro!

Camilla deu um puxão á golla, como se o vestido a suffocasse e recomeçou logo no seu gyro tonto.

O medico tentou acalmal-a:

--Escuta, Milla, tenho hoje, como direi ... pudor em alludir á nossa felicidade; comtudo é em nome d'ella que te peço que não faças a teu marido recriminações insensatas. Lembra-te que elle é o mais desgraçado.

Camilla sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda:

--A culpa é d'elle...

--A culpa é de todos.

--Isto não podia ter acontecido de repente, e elle não me disse nada! Os homens pensam que nós não nos interessamos pela sua vida. Teem-nos só para o seu prazer! Só, só, só!

--Theodoro está muito acabrunhado...

--Quando foi que elle te disse?

--Hontem á noite, em minha casa. Chorou.

--Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar!

--A dôr é forte.

--Já perdeu uma filha...

--Uma creança apenas nascida... Agora perde a sua honra de negociante, que elle préza acima de tudo.

--A sua honra! mas Theodoro não roubou nada!

--Não, mas empregou capitaes em emprezas de azar. A lei tem severidades. É preciso estar preparada para tudo.

--Quer dizer que elle póde ser preso?

--Quem sabe, não é provavel, mas...

Os olhos de Camilla, até então enxutos, encheram-se de lagrimas e ella disse, com os beiços tremulos:

--Não! elle não sahirá de ao pé de mim. Vá buscal-o.

--Tu o amas, Camilla!

Ella fez que sim com a cabeça e foi sentar-se juncto ao medico, olhando-o de face.

Por algum tempo foi só o zumbir da abelha no rezedá o unico rumor que se ouviu na sala. Gervasio desviou os olhos.

Camilla vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto escondido nas mãos.

A crise foi longa. Através da porta fechada sentiam-se passinhos indiscretos pelo corredor.

Gervasio consultou o relogio. Eram quatro horas. Que se teria passado em S. Bento? Desejava apressar a situação, acabar com aquillo; sentia-se oppresso, levantou-se, foi á janella olhar para o azul macio do céo chamalotado de nuvenzinhas brancas.

Um bello dia perdido!

Camilla soluçava. Elle voltou-se sem saber como cortar aquella agonia. Nunca o coração d'aquella mulher lhe parecera tão impenetravel, nunca a sua psychologia tão obscura. Esperava vel-a raivosa, assustada pela perspectiva da ruina, reagindo com furia contra aquella decepção tremenda. Era evidente que ella se tinha casado por interesse não seria extraordinario que se julgasse agora roubada... Entretanto, só nos primeiros instantes Camilla tinha pensado em si, no egoismo a que a vida a acostumara; mas a dôr da compaixão viera depressa e manifestava-se mais abundante.

Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ciume, Dr. Gervasio perguntou baixo a Camilla, fixando-lhe o rosto inundado:

--Mas sempre o amaste assim?!

--Não ... eu comecei a amal-o depois que o enganei... É amisade, é uma amisade muito grande!

O medico não respondeu; olhava para ella pensativo, e depois de um largo silencio:

--Enxuga os olhos. É tempo de chamar o resto da familia.

Ruth e as creanças entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que o Dr. Gervasio quiz associar á familia. E sobre todos elles a porta foi fechada com precauções, para que os creados não percebessem do que se tractava.

Dr. Gervasio expoz o facto em poucas palavras, ferindo o assumpto sem rodeios. Lia e Rachel não o entendiam, embasbacadas para a mãe. As palavras para ellas só tinham som, mas não sentido.

Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a mãe, e disse:

--Não chore, que isso augmentará a afflicção de papae.

O medico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para Nina:

--E você, que diz?

--Nada; espero.

--E sei que ha de esperar com firmeza. Muito bem.

Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Theodoro expunha com voz tremula os negocios da casa aos credores, reunidos no seu escriptorio.

Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe em longe, a uma ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava timida. O proprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada.

Em baixo, o armazem parecia outro. _Seu_ Joaquim permanecia sentado ao pé da mesa, emquanto os caixeiros pasmavam, inactivos, para as rumas das saccas e para as aranhas negras do tecto, que se suspendiam de viga para viga em grandes bambinellas de fumo luctuoso. No chão nem um grão de café; tudo varrido como se fôra um dia santificado. Só na rua havia ainda a bulha das ultimas carroças e o ronco de alguns armazens que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos.

Do seu ponto, _seu_ Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres, agora a mais afortunada da rua.

Logo que recebeu o ultimo aperto de mão dos seus credores, Francisco Theodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas as lagrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração absorvia-lh'as todas. Envelhecido, exhausto, encostou-se á sua velha secretária, companheira de tantos annos de trabalho, e alli ficou, como um viuvo ao pé da eça em que a amada dorme o ultimo somno.

Já os credores estavam longe quando elle, tomando vagarosamente o chapéo, entrou outra vez no escriptorio.

O Motta chorava, com os cotovellos fincados na escrivaninha. O guarda-livros levantou-se e disse:

--Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o Norte. Vou tentar outra vida...

--Faz mal, não devia cortar a sua carreira ... seja feliz! abraçaram-se.

Motta approximou-se.

--E o senhor? perguntou-lhe Theodoro.

O velho fez um gesto de ignorancia; depois suspirou.

--Fico p'ra ahi, atôa...

--Recommendal-o-ei ao Negreiros.

--Será favor...

Os outros empregados não estavam; Francisco Theodoro agradeceu áquelles o seu concurso e desceu, olhando para os degráos carcomidos com saudade infinita de todas as vezes que por elles pisara, num longo periodo de trinta annos...

No armazem, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais infimo, e deteve-se a fallar com o Joaquim.

--O senhor que tenciona fazer agora?

--Sr. Theodoro, eu fui já ha dias convidado para a casa Gama Torres... Devo entrar para lá amanhã...

--Muito bem ... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E, relanceando o olhar triste pelo armazem, em um ultimo adeus saudosissimo, sahiu para a rua.

Na porta visinha a velha Terencia, com a carapinha occulta no lenço branco, e os bracinhos delgados extendidos para deante, sacudia os ultimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego. Já a sombra se extendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol encarapuçava de ouro as platibandas dos predios.

XX

Á hora em que Francisco Theodoro entrou em casa, já havia estrellas no céo. O Dr. Gervasio e as meninas esperavam-n'o no portão. Logo no jardim elle sentiu-se abraçado pelas filhas e a Nina com demorada ternura. Desprendendo-se de todos, olhou á roda, procurando alguem.

--D. Camilla adormeceu ha pouco, acudiu o medico--Noca está ao pé d'ella.

Francisco Theodoro não respondeu; sentou-se em um banco, com ar de extenuado, com a cabeça pendida para o peito; e, depois de uma longa pausa:

--Está desesperada, muito contra mim?

--Não; respondeu o medico, está resignada. São todos fortes, acredite.

--Coitadas...

--Não diga assim, papae! exclamou Ruth, não se afflija! Neste mundo então só ha logar para os ricos?

--Bom, só...

--Qual! havemos de ser muito felizes, descance.

--Como recebeu ella a noticia? tornou o negociante, voltando-se para o medico.

--Naturalmente, teve um abalo ... não esperava semelhante coisa, mas venceu-se com admiravel coragem. Em todo caso, dei-lhe um calmante para obrigal-a a dormir e repousar os nervos...

--Fez bem; obrigado.

--Tio Francisco, o senhor deve estar muito fraco; venha tomar sopa, ao menos...

--Estou cançado...

--Por isso mesmo, tome um caldo e vá-se deitar.

Entraram. Na grande sala de jantar havia um certo ar de abandono. Nina esquecera-se de enfeitar a mesa com as flores do costume, e a gaiola vazia do cacatuá punha a um canto uma nota de tristeza e de morte. Francisco Theodoro acceitou a sopa, tomou-a em silencio, e logo depois, deixando todos á mesa, pediu licença para subir. O medico, receioso, acompanhou-o com a vista. Que se iria passar lá em cima? como receberia Camilla o marido?

Parecera-lhe ter sentido passos; deveriam ser d'ella, que já estivesse acordada e andasse nervosamente pela casa...

Lia e Rachel, tão turbulentas, encolhiam-se uma na outra, observando tudo pasmadamente.

Imperturbavel, Nina servia a todos.

--Que edade teem mesmo estas meninas? perguntou o medico de repente, apontando para as gemeas.

--Seis annos, respondeu Ruth.

--É cedo para entrarem para o collegio, balbuciou elle, completando alto um pensamento qualquer.

Tinham acabado de jantar, quando Francisco Theodoro desceu.

--D. Camilla?

--Quando eu subi dormia ainda; mas soluçava de vez em quando. Depois acordou e fez-se de forte para tranquillisar-me. Talvez que ella não tivesse comprehendido todo o alcance da desgraça...

--Comprehendeu, mas resignou-se.

--Obrigado por todos os seus cuidados, doutor; tenho ainda um favor a pedir-lhe: venha cá amanhã, cedo, ás sete horas da manhã. Será possivel?

--Virei.

--Obrigado.

O medico sahiu, recommendando á Noca mil cuidados com Milla. Duas horas depois, a casa estava em silencio; as creanças dormiam, e Nina, não vendo Ruth nas salas, julgou-a recolhida e desceu devagar ao escriptorio do tio, que achou escrevendo na sua larga secretária.

--Dá licença, tio Francisco?

O negociante encobriu depressa com o braço o papel em que escrevia, e respondeu:

--Póde entrar.

E Nina entrou, embaraçada, percebendo o movimento do tio.

--Que quer você?

--Quero pedir-lhe um favor...

--Eu ainda os poderei prestar?!

--Oh! tio Francisco!

--Diga lá.

--Tenho vergonha ... eu...

--Diga, diga.

Nina sentiu impaciencia na voz do tio, e resolveu-se:

--Quero pôr em nome de suas filhas a casa que o senhor me deu. Ella é pequena, mas caberemos todos lá, se...

Nina corou; o tio contemplou-a em silencio, depois, sentindo que as lagrimas lhe corriam em fio pelo rosto, disse:

--Fez você muito bem em dizer-me isso; eu precisava de chorar. Bem vejo que não ha só ingratos no mundo; você é um anjo. Acceito o seu agasalho; olhe por minhas filhas.

As gemeas são muito pequenas, não teem educação ... é o que mais me pesa! Ruth, essa tem talento e um recurso. Tenha tambem paciencia com sua tia, é quem vae soffrer mais...

--O senhor ha de lhe dar o exemplo de resignação.

--Sim. Você que entende d'isso? Vá dormir.

--Mas...

--Vá dormir.

Nina murmurou, muito embaraçada:

--Boa noite.

--Adeus, minha filha. Que Deus a faça feliz.

Ella sahiu sem comprehender bem os gestos desencontrados nem o sentido das palavras do tio.

Elle queria estar só. A dôr fazia-o desconfiado, temia que o amor da familia não subsistisse á catastrophe.

Em que fizera elle até então consistir a felicidade e o seu merecimento aos olhos d'ella? No dinheiro, só no dinheiro. Elle era bom porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de conforto. Elle era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara a tudo, visto que o dinheiro é o dominador do mundo e elle tinha dinheiro.

Ainda não comprehendia como tendo trabalhado tanto, junctado com tão tremendo esforço em tão largo periodo de sacrificios, deixara agora ir tudo por agua abaixo, em tão curtos dias. Desfazer é facil!

Revoltado contra si, Francisco Theodoro cravou as unhas na calva, chamando-se de leviano e de miseravel. Como toda a gente se riria da sua falta de senso. A culpa era d'elle. Deixar-se levar por cantigas com a sua edade e a sua experiencia! Sentia ferver-lhe o odio por todos os amigos que o tinham inebriado com palavras perigosas e futeis. Então todos chamavam o Innocencio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora, depois de tudo feito e perdido, é que o diziam um especulador sem consciencia. Mas agora era tarde; estava tudo perdido.

Recomeçar a vida? como? Já nem o proprio exemplo da coragem antiga lhe valia de nada.

A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o espirito resistiriam á lucta tremenda de recomeçar.

Pela primeira vez Francisco Theodoro percebeu que ha na vida uma coisa melhor do que o dinheiro--a mocidade. Com o corpo vergado, o espirito amortecido, elle era o homem extincto, o phantasma do outro, que ficava boiando no passado, desconhecido por todos, só amado pela sua lembrança.

«Velho ... estou velho! pensava elle, já não sirvo para nada. E agora? Para onde ha de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas? Para o sobradinho da rua da Candelaria? Nem isso... Camilla naquelle tempo contentava-se ... agora já se afez a outra coisa. Camilla! Camilla sem sedas? não, não se pode comprehender Camilla sem sedas. Onde tinha eu a cabeça? Miseravel! Eu sou um ladrão, roubei a meus filhos. Eu sou um ladrão!»

Como se quizesse fugir das proprias ideias, começou a andar pelo escriptorio, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo agonisava com elle.

A especulação, a fraude, a ganancia, a traição e a mentira, iriam roendo e corrompendo fortunas e caracteres. Enganados e enganadores seriam todos engulidos conjunctamente pela outra fallencia, de que a sua era uma das precursoras.

No fim, havia de apparecer a justiça punindo as ambições e as vaidades d'estes tempos e d'estes homens doidos, quando, depois de tudo consummado não houvesse nada a refazer, mas tudo a crear.

A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção phantastica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorancia de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela politica amaldiçoada.

Já não culpava o patricio, o Innocencio Braga, como causa directa da sua ruina. A responsabilidade da sua perda cahia em cheio sobre a Republica, que elle invectivava de criminosa, na allucinação do desespero.

Toda a sua vida de trabalho rotineiro, material, sem ideaes, mas cançativa na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio caudaloso que tivesse vencido a nado e de que, só depois de transposto, percebesse o volume e os perigos.

Entretanto, talvez não tivesse sido difficil percorrer aquillo de outra maneira e melhor... Não fosse elle um ignorante e não se teria deixado enfeitiçar por palavras!

Era pois tambem certo que a intelligencia e a instrucção valiam alguma coisa...

Resumindo os seus pensamentos de vencido, Francisco Theodoro disse alto, num suspiro:

--Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Job!

Mas o som da sua propria voz assustou-o. Espreitou a vêr se o viam. Foi á porta; não havia ninguem. Lembrou-se depois dos seus projectos de viagem: idas á Europa, regalados descanços.

Era de justiça, diziam todos, e a justiça fizera-a elle por suas mãos; o homem nasceu para o trabalho, elle devia voltar para o trabalho.

E as forças? Onde estavam ellas, que as não sentia? Ah! corpo miseravel! corpo miseravel.

Affogueado, como se tivesse brasas na cabeça, Theodoro procurou a frescura do ar livre e foi encostar-se ao humbral da janella.

Fôra numa noite assim, de lua clara, que o avô se enforcara numa amendoeira, fugindo, no seu delirio de perseguição, a um inimigo que lhe ia no encalço. Era um camponez rude, o avô; havia muitos mezes antes d'esse acto que elle andava taciturno, agitado; depois, que tranquillidade!

Francisco Theodoro olhou para a noite: