A escrava Isaura

Part 2

Chapter 23,937 wordsPublic domain

Poucos dias depois do casamento de Leoncio, o commendador, com toda a familia, inclusive os dous novos desposados, transportou-se de novo para a sua fazenda de Campos. Foi então, que o commendador entregou a seo filho toda a administração e uso-fructo daquella propriedade, com toda a escravatura e mais acessorios nella existentes, declarando-lhe que achando-se já bastante velho, enfermo e cansado queria passar tranquilamente o resto de seos dias, livre de afazeres e preoccupações, para o que bastavão-lhe com sobegidão as rendas, que para si reservava. Feita em vida esta magnifica dotação a seo filho, retirou-se para a côrte. Sua esposa porém preferio ficar em companhia do filho, o que foi muito do gosto e approvação do marido.

Malvina, que apezar da sua vaidade aristocratica tinha alma candida e boa, e um coração bem formado, não pôde deixar de conceber logo desde o principio o mais vivo interesse e terna affeição pela captiva Isaura. Era esta com effeito de indole tão bondosa e fagueira, tão docil, modesta e submissa, que apezar de sua grande belleza e incontestaveis dotes de espirito, conquistava logo ao primeiro encontro a benevolencia de todos.

Isaura tornou-se immediatamente não direi a mucama favorita, mas a fiel companheira, a amiga de Malvina, que affeita aos prazeres e passatempos da côrte, muito folgou de encontrar tão boa e amavel companhia na solidão, que ia habitar.

--Por que razão não libertão esta menina?--dizia ella um dia á sua sogra.--Uma tão boa e interessante creatura não nasceo para ser escrava.

--Tem razão, minha filha,--respondeo bondosamente a velha;--mas que quer você?... não tenho animo de soltar este passarinho, que o céo me deo para me consolar e tornar mais supportaveis as pesadas e compridas horas da velhice.

E tambem libertal-a para que? Ella aqui é livre, mais livre do que eu mesma, coitada de mim, que já não tenho gostos na vida nem forças para gozar da liberdade. Quer que eu solte a minha patativa? e se ella transviar-se por ahi, e nunca mais acertar com a porta da gaiola?... Não, não, minha filha; emquanto eu for viva, quero têl-a sempre bem pertinho de mim, quero que seja minha, e minha só. Você ha-de estar dizendo lá comsigo--forte egoismo de velha!--mas tambem eu já poucos dias terei de vida; o sacrificio não será grande. Por minha morte ficará livre, e eu terei o cuidado de deixar-lhe um bom legado.

De feito a boa velha tentou por diversas vezes escrever seo testamento a fim de garantir o futuro de sua escravinha, de sua querida pupilla; mas o commendador, auxiliado por seo filho com delongas e futeis pretextos, conseguia ir sempre adiando a satisfação do louvavel e santo desejo de sua esposa, até o dia, em que fulminada por um ataque de paralysia geral, ella succumbio em poucas horas sem ter tido um só momento de lucidez e reanimação para expressar sua ultima vontade.

Malvina jurou sobre o cadaver de sua sogra continuar para com a infeliz escrava a mesma protecção e sollicitude, que a defunta lhe havia prodigalizado. Isaura pranteou por muito tempo a morte daquella, que havia sido para ella mãe desvelada e carinhosa; e continuou a ser escrava não já de uma boa e virtuosa senhora, mas de senhores caprichosos, devassos e crueis.

Capitulo III.

Falta-nos ainda conhecer mais de perto a Henrique, o cunhado de Leoncio. Era elle um elegante e bonito rapaz de vinte annos, frivolo, estouvado e vaidoso, como são quasi todos os jovens, mórmente quando lhes coube a ventura de terem nascido de um pae rico. Não obstante esses ligeiros senões, tinha bom coração e bastante dignidade e nobreza de alma. Era estudante de medicina, e como estava-se em ferias, Leoncio o convidara a vir visitar a irmã e passar alguns dias em sua fazenda.

Os dous mancebos chegavam de Campos, onde Leoncio desde a vespera tinha ido ao encontro do cunhado.

Só depois de casado Leoncio, que antes disso poucas e breves estadas fizera na casa paterna, começou a restar attenção á extrema belleza e ás graças incomparaveis de Isaura. Posto que lhe coubesse em sorte uma linda e excellente mulher, elle não se havia casado por amor, sentimento esse, a que seo coração até ali parecia absolutamente estranho. Casára-se por especulação, e como sua mulher era moça e bonita, sentira apenas por ella essa paixão, que se ceva no gozo dos prazeres sensuaes, e com elles se extingue. Estava reservado á infeliz Isaura fazer vibrar profunda e violentamente naquelle coração libertino as fibras, que ainda não estavão de todo estragadas pelo attrito da devassidão. Concebeo por ella o mais cego e violento amor, que de dia em dia ia crescendo na razão directa dos serios e poderosos obstaculos, que encontrava, obstaculos, a que não estava affeito, e que em vão se esforçava para superar. Mas nem por isso desistia de sua tresloucada empreza, por que em fim de contas,--pensava elle,--Isaura era propriedade sua, e quando nenhum outro meio fosse efficaz, restava-lhe o emprego da violencia. Leoncio era um digno herdeiro de todos os máos instinctos e da brutal devassidão do commendador.

Pelo caminho, como sua mente andava sempre cheia da imagem de Isaura, Leoncio conversára longamente com seo cunhado a respeito della, exaltando-lhe a belleza, e deixando transluzir com revoltante cynismo as lascivas intenções, que abrigava no coração. Esta conversação não agradava muito a Henrique, que ás vezes córava de pejo e de indignação por sua irmã, mas não deixou de excitar-lhe viva curiosidade de conhecer uma escrava de tão extraordinaria belleza.

No dia seguinte ao da chegada dos mancebos ás oito horas da manhã, Isaura, que acabava de espanejar os moveis e arranjar o salão, achava-se sentada junto a uma janella e entretinha-se a bordar á espera, que seos senhores se levantassem para servir-lhes o café. Leoncio e Henrique não tardárão em apparecer, e parando á porta do salão puzerão-se a contemplar Isaura, que sem se aperceber da presença delles continuava a bordar distrahidamente.

--Então, que te parece? segredava Leoncio a seo cunhado.--Uma escrava desta ordem não é um thesouro inapreciavel? Quem não diria, que é uma andaluza de Cadix, ou uma napolitana?...

--Não é nada disso; mas é cousa melhor, respondeo Henrique maravilhado; é uma perfeita brazileira.

--Qual brazileira! é superior a tudo quanto ha. Aquelles encantos e aquellas dezesete primaveras em uma moça livre, terião feito virar o juizo a muita gente boa. Tua irmã pretende com instancia, que eu a liberte allegando que essa era a vontade de minha defunta mãe; mas nem tão tolo sou eu, que me desfaça assim sem mais nem menos de uma joia tão preciosa. Se minha mãe teve o capricho de creal-a com todo o mimo e de dar-lhe uma primorosa educação, não foi de certo para abandonal-a ao mundo, não achas?... Tambem meo pae parece, que cedeo ás instancias do pae della, que é um pobre gallego, que por ahi anda, e que pretende libertal-a; mas o velho pede por ella tão exorbitante somma, que julgo nada dever recear por esse lado. Vê lá, Henrique, se ha nada que pague uma escrava assim?...

--É com effeito encantadora; replicou o moço,--se estivesse no serralho do sultão, seria sua odalisca favorita. Mas devo notar-te, Leoncio,--continuou, cravando no cunhado um olhar cheio de maliciosa penetração,--como teo amigo e como irmão de tua mulher, que o teres em tua sala e ao lado de minha irmã uma escrava tão linda e tão bem tratada não deixa de ser inconveniente e talvez perigoso para a tranquillidade domestica...

--Bravo!--atalhou Leoncio galhofando, para a idade que tens, já estás um moralista de polpa!... mas não te dê isso cuidado, meo menino; tua irmã não tem dessas velleidades, e é ella mesma quem mais gosta de que Isaura seja vista e admirada por todos. E tem razão; Isaura é como um traste de luxo, que deve estar sempre exposto no salão. Querias, que eu mandasse para a cosinha os meos espelhos de Veneza?...

Malvina, que vinha do interior da casa, risonha, fresca e alegre como uma manhã de abril, veio interromper-lhes a conversação.

--Bom dia, senhores preguiçosos!--disse ella com voz argentina e festiva como o trino da andorinha.--Até que em fim sempre se levantárão!

--Estás hoje muito alegre, minha querida,--retorquio-lhe sorrindo o marido;--viste algum passarinho verde de bico dourado?...

--Não vi, mas hei-de ver; estou alegre mesmo, e quero que hoje aqui em casa seja um dia de festa para todos. Isto depende de ti, Leoncio, e estava afflicta por te ver de pé; quero dizer-te uma cousa; já devia tel-a dito hontem, mas o prazer de ver este ingrato de irmão, que ha tanto tempo não vejo, me fez esquecer...

--Mas o que é?... falla, Malvina.

--Não te lembras de uma promessa, que sempre me fazes, promessa sagrada, que ha muito tempo devia ter sido cumprida?... hoje quero absolutamente, exijo, o seo cumprimento.

--Devéras!?... mas que promessa?... não me lembro.

--Ah! como te fazes de esquecido!... não te lembras, que me prometteste dar liberdade a....

--Ah! já sei, já sei;--atalhou Leoncio com impaciencia.--Mas tratar disso aqui agora? em presença della?... que necessidade ha de que nos ouça?--

--E que mal faz isso? mas seja como quizeres,--replicou a moça tomando a mão de Leoncio e levando-o para o interior da casa;--vamos cá para dentro. Henrique, espera ahi um momento, emquanto eu vou mandar preparar-nos o café.

Só depois da chegada de Malvina Isaura deo pela presença dos dous mancebos, que a certa distancia a contemplavão cochichando a respeito della. Tambem pouco ouvio ella e nada comprehendeo do rapido dialogo, que tivera lugar entre Malvina e seo marido. Apenas estes se retirárão, ella tambem se levantou e ia sahir, mas Henrique, que ficara só, a deteve com um gesto.

--Que me quer, senhor?--disse ella baixando os olhos com humildade.

--Espera ahi, menina; tenho alguma cousa a dizer-te,--replicou o moço, e sem dizer mais nada collocou-se diante della devorando-a com os olhos, e como estatico contemplando-lhe a maravilhosa belleza. Henrique sentia-se acanhado diante daquella nobre figura radiante de belleza, e de angelica serenidade. Por seo lado Isaura tambem olhava para o moço, atonita e tolhida, esperando em vão, que lhe dissesse o que queria. Por fim Henrique, affouto, e estouvado como era, lembrando-se que Isaura, a despeito de toda a sua formosura, não passava de uma escrava, entendeo que fazia um ridiculo papel, deixando-se ali ficar diante della em muda e estatica contemplação, e chegando-se a ella com todo o desembaraço e petulancia travou-lhe da mão, e.

--Mulatinha, disse,--tu não fazes idéa de quanto és feiticeira. Minha irmã tem razão; é pena que uma menina assim tão linda não seja mais que uma escrava. Se tivesses nascido livre, serias incontestavelmente a rainha dos salões.

--Está bem, senhor, está bem! replicou Isaura soltando-se da mão de Henrique; se é só isso o que tinha a dizer-me, deixe-me ir embora.

--Espera ainda um pouco; não sejas assim má; eu não te quero fazer mal algum. Oh! quanto eu daria para obter a tua liberdade, se com ella pudesse obter tambem o teo amor!... És muito mimosa e muito linda para ficares por muito tempo no captiveiro; alguem impreterivelmente virá arrancar-te delle, e se has-de cahir nas mãos de algum desconhecido, que não saberá dar-te o devido apreço, seja eu, minha Isaura, seja o irmã de tua senhora, que de escrava te haja de fazer uma princeza...

--Ah! senhor Henrique! retorquio a menina com enfado;--o senhor não se peja de dirigir esses galanteios a uma escrava de sua irmã? isso não lhe fica bem; há por ahi tanta moça bonita, a quem o senhor pode fazer a côrte...

--Não; ainda não vi nenhuma, que te iguale, Isaura, eu te juro. Olha, Isaura; ninguem mais do que eu está nas circumstancias de conseguir a tua liberdade; sou capaz de obrigar Leoncio a te libertar, por que, se me não engano, já lhe adivinhei os planos e as intenções, e protesto-te que hei-de burlal-os todos; é uma infamia, em que não posso consentir. Além da liberdade terás tudo o que desejares, sedas, joias, carros, escravos para te servirem, e acharás em mim um amante extremoso, que sempre te ha-de querer, e nunca te trocará por quanta moça ha por esse mundo, por bonita e rica que seja, porque tu só vales mais que todas ellas juntas.

--Meu Deos!--exclamou Isaura com um ligeiro tom de mofa;--tanta grandeza me attérra; isso faria virar-me o juizo. Nada, meo senhor; guarde suas grandezas para quem melhor as merecer; eu por ora estou contente com a minha sorte.

--Isaura!... para que tanta crueldade!... escuta,--disse o moço lançando o braço ao pescoço de Isaura.

--Senhor Henrique!--gritou ella esquivando-se ao abraço,--por quem é, deixe-me em paz!

--Por piedade, Isaura!--insistio o rapaz continuando a querer abraçal-a;--oh!... não falles tão alto!... um beijo ... um beijo só, e já te deixo...

--Se o senhor continúa, eu grito mais alto. Não posso aqui trabalhar um momento, que não me venhão perturbar com declarações, que não devo escutar...

--Oh! como está altaneira!--exclamou Henrique, já um tanto agastado com tanta resistencia.--Não lhe falta nada!... tem até os ares desdenhosos de uma grande senhora!... não te arrufes assim, minha princeza...

--Arre lá, senhor!--bradou a escrava já no auge da impaciencia.--Já não bastava o senhor Leoncio!... agora vem o senhor tambem....

--Como?... que estás dizendo?... tambem Leoncio?... oh!... oh! bem o coração me estava adivinhando!... que infamia!... mas de certo tu o escutas com menos impaciencia, não é assim?

--Tanto, como escuto ao senhor.

--Não duvido, Isaura; a lealdade, que deves á tua senhora, que tanto te estima, não te permitte que dês ouvidos áquelle perverso. Mas commigo o caso é differente; que motivo ha para seres cruel assim.

--Eu cruel para com meos senhores!!! Ora, senhor, pelo amor de Deos!... Não esteja assim a escarnecer de uma pobre captiva.

--Não! não escarneço;... Isaura!... escuta,--exclamava Henrique forcejando para abraçal-a e furtar-lhe um beijo.

--Bravo!... bravissimo!--retumbou pelo salão uma voz acompanhada de sardonica e estrepitosa gargalhada.

Henrique voltou-se sobressaltado. Toda a sua amorosa exaltação tinha-se-lhe gelado de subito no amago do coração.

Leoncio estava em pé no meio da porta, de braços cruzados e olhando para elle com sorriso do mais insultante escarneo.

--Bravo! muito bem, senhor meo cunhado!--continuou Leoncio no mesmo tom de mofa.--Está pondo em pratica bellissimamente as suas lições de moral!... requestando-me as escravas!... está galante!... sabe respeitar divinamente a casa de sua irmã!...

--Ah! maldito importuno! murmurou Henrique, trincando os dentes de cólera, e seo primeiro impulso foi investir de punho fechado, e responder com cachações aos insolentes sarcasmos do cunhado. Reflectindo porém um momento, sentio que lhe seria mais vantajoso empregar contra o seo aggressor a mesma arma, de que se servira contra elle, o sarcasmo, que as circumstancias lhe permittião vibrar de modo victorioso e decisivo. Acalmou-se pois, e com sorriso de soberano desdem:

--Ah! perdão, meo cunhado!--disse elle--não sabia que a peregrina joia do seo salão lhe merecesse tanto cuidado, que o levasse a ponto de andal-a espionando; creio, que tem mais zelo por ella, do que mesmo pelo respeito, que se deve á sua casa e a sua mulher. Pobre de minha irmã!... é bem simples, e admira, que ha mais tempo não tenha conhecido o bello marido, que possue!...

--O que estás dizendo, rapaz?--bradou Leoncio com gesto ameaçador;--repete; que estás dizendo?

--O mesmo, que o senhor acaba de ouvir,--redarguio Henrique com firmeza,--e fique certo, que o seo indigno procedimento não ha-de ficar por muito tempo occulto a minha irmã.

--Qual procedimento!? tu deliras, Henrique?...

--Faça-se de esquerdo!... pensa que não sei tudo?... emfim, adeos, senhor Leoncio; eu me retiro, por que seria altamente inconveniente, indigno e ridiculo da minha parte estar a disputar com o senhor por amor de uma escrava.

--Espera, Henrique ... escuta...

--Não, não; não tenho negocio nenhum com o senhor. Adeos!--disse e retirou-se precipitadamente.

Leoncio sentio-se esmagado, e arrependeo-se mil e uma vezes de ter provocado tão imprudentemente aquelle leviano e estouvado rapaz. Ignorava, que seo cunhado estivesse ao facto da paixão, que sentia por Isaura, e dos esforços, que empregava para vencer-lhe a isenção e lograr seos favores. É verdade que lhe havia fallado sem muito rebuço a esse respeito; mas algumas palavras ditas entre rapazes, em tom de mera chocarrice, não constituião base sufficiente, para que sobre ella Henrique podesse articular uma accusação séria contra elle em face de sua mulher. De certo a rapariga lhe havia revelado alguma cousa, e isto o fazia espumar de despeito e raiva contra um e outra. Bem pouco lhe importava a perturbação da paz domestica, o que o enfurecia era o perigo, em que se collocára de ver desconcertados os seos perversos designios sobre a gentil escrava.

--Maldição!--rugia elle lá comsigo.--Aquelle maluco é bem capaz de desconcertar todos os meos planos. Se sabe alguma cousa, como parece, não porá duvida em levar tudo aos ouvidos de Malvina...

Leoncio ficou por alguns momentos em pé, immovel, sombrio, carrancudo, com o espirito entregue á cruel inquietação, que o fustigava. Depois, pairando as vistas em derredor, deo com os olhos em Isaura, a qual, desde que Leoncio se apresentára, corrida, trémula e anhelante, fôra sumir-se em um canto da sala; dali presenciára em silenciosa anciedade a altercação dos dous moços, como corsa mal ferida escutando o rugir de dous tigres, que disputão entre si o direito de devoral-a. Por seo lado tambem se arrependia do intimo d’alma, e raivava contra si mesma pela indiscreta e louca revelação, que em um assomo de impaciencia deixára escapar de seos labios. Sua imprudencia ia ser causa da mais deploravel discordia no seio daquella familia, discordia, de que por fim de contas ella viria a ser a principal victima. A desavença entre os dous mancebos era como o choque de duas nuvens, que se encontrão e continuão a pairar tranquillamente no céo; mas o raio desprendido de seo seio teria de vir cahir certeiro sobre a fronte da infeliz captiva.

Capitulo IV.

--Ah! estás ainda ahi?... fizeste bem,--disse Leoncio mal avistou Isaura, que trémula e confusa não ousára sahir do cantinho, a que se abrigára, e onde fazia mil votos ao céo, para que seo senhor não a visse, nem se lembrasse della naquelle momento.--Isaura, continuou elle,--pelo que vejo, andas bem adiantada em amores!... estavas a ouvir finezas daquelle rapazóla...

--Tanto como ouço as suas, meo senhor; por não ter outro remedio. Uma escrava, que ousasse olhar com amor para seos senhores, merecia ser severamente castigada.

--Mas tu disseste alguma cousa áquelle estouvado, Isaura?...

--Eu!?--respondeo a escrava perturbando-se;--eu nada, que possa offender nem ao senhor, nem a elle...

--Pesa bem as tuas palavras, Isaura; olha não procures enganar-me. Nada lhe disseste a meo respeito?

--Nada.

--Juras?

--Juro,--balbuciou Isaura.

--Ah! Isaura, Isaura!... tem cuidado. Se até aqui tenho soffrido com paciencia as tuas repulsas e desdens, não estou disposto a supportar, que em minha casa, e quasi em minha presença, estejas a escutar galanteios, de quem quer que seja, e muito menos revelar o que aqui se passa. Se não queres o meo amor, evita ao menos de incorrer no meo odio.

--Perdão, senhor, que culpa tenho eu de andarem a perseguir-me?

--Tens alguma razão; estou vendo, que me verei forçado a desterrar-te desta casa, e a esconder-te em algum canto, onde não sejas tão vista e cobiçada...

--Para que, senhor....

--Basta; não te posso ouvir agora, Isaura. Não convem que nos encontrem aqui conversando a sós. Em outra occasião te escutarei.--É preciso estorvar, que aquelle estonteado vá intrigar-me com Malvina,--murmurava Leoncio retirando-se.--Ah! cão! maldita a hora, em que te trouxe a minha casa!

--Permitta Deos que tal occasião nunca chegue--exclamou tristemente dentro da alma a rapariga, vendo seo senhor retirar-se. Ella via com angustia e mortal desassocego as continuas e cada vez mais encarniçadas sollicitações de Leoncio, e não atinava com um meio de oppor-lhes um paradeiro. Resolvida a resistir até á morte, lembrava-se da sorte de sua infeliz mãe, cuja triste historia bem conhecia, pois a tinha ouvido, segredada a medo e mysteriosamente, da boca de alguns velhos escravos da casa, e o futuro se lhe antolhava carregado das mais negras e sinistras cores.

Revelar tudo a Malvina era o unico meio, que se lhe apresentava ao espirito para pôr termo ás ousadias do seo marido, e atalhar futuras desgraças. Mas Isaura amava muito sua jovem senhora para ousar dar semelhante passo, que iria derramar-lhe no seio um pégo de desgostos e amarguras, quebrando-lhe para sempre a risonha e doce illusão, em que vivia?

Preferia antes morrer como sua mãe, victima das mais crueis sevicias, do que ir por suas mãos lançar uma nuvem sinistra no céo até ali tão sereno e bonançoso de sua querida senhora.

O pae de Isaura, o unico ente no mundo, que á excepção de Malvina se interessava por ella, pobre e simples jornaleiro não se achava em estado de poder protegel-a contra as perseguições e violencias, de que se achava ameaçada. Em tão cruel situação Isaura não sabia senão chorar em segredo a sua desventura, e implorar o céo, do qual sómente podia esperar remedio a seos males.

Bem se comprehende pois agora aquelle accento tão dorido, tão repassado de angustia, com que cantava a sua canção favorita. Malvina enganava-se attribuindo sua tristeza a alguma paixão amorosa. Isaura conservava ainda o coração no mais puro estado de isenção. Com quanto mais dó não a teria lastimado sua boa e sensivel senhora, se podesse adivinhar a verdadeira causa dos pezares, que a ralavão.

Capitulo V.

Isaura despertando de suas pungentes e amargas preoccupações, tomou seo balainho de costura e ia deixar o salão, resolvida a sumir-se no mais escondido recanto da casa, ou amoitar-se em algum escondrijo do pomar. Esperava assim esquivar-se á repetição de scenas indecentes e vergonhosas, como essas por que acabava de passar. Apenas déra os primeiros passos foi detida por uma extravagante e grotesca figura, que penetrando no salão veio postar-se diante de seos olhos.

Era um monstrengo affectando formas humanas, um homunculo em tudo mal construido, de cabeça enorme, tronco rachitico, pernas curtas e arqueadas para fora, cabelludo como um urso, e feio como um mono. Era como um desses truões disformes, que formavão parte indispensavel do sequito de um grande rei da media idade, para divertimento delle e de seos cortezãos. A natureza esquecera de lhe formar o pescoço, e a cabeça disforme nascia-lhe de dentro de uma formidavel corcova, que a resguardava quasi como um capuz. Bem reparado todavia o rosto não era muito irregular, nem repugnante, e exprimia muita cordura, submissão e bonhomia.

Isaura teria soltado um grito de pavor, se ha muito não estivesse familiarizada com aquella estranha figura, pois era elle, sem mais nem menos, o senhor Belchior, fiel e excellente ilhéo, que ha muitos annos exercia naquella fazenda mui digna e conscienciosamente, apezar de sua deformidade e idiotismo, o cargo de jardineiro. Parece que as flores, que são o symbolo natural de tudo quanto é bello, puro e delicado, devião ter um cultor menos disforme e repulsivo. Mas quiz a sorte ou o capricho do dono da casa estabelecer aquelle contraste, talvez para fazer sobresahir a belleza de umas á custa da fealdade do outro.

Belchior tinha em uma das mãos o vasto chapéo de palha, que arrastava pelo chão, e com a outra empunhava, não um ramalhete, mas um enorme feixe de flores de todas as qualidades, á sombra das quaes procurava eclipsar sua disgraciosa e extravagante figura. Parecia um desses vasos de louça, de formas phantasticas e grotescas, que se enchem de flores para enfeitar bufetes e aparadores.