A escrava Isaura

Part 1

Chapter 13,773 wordsPublic domain

A ESCRAVA ISAURA

ROMANCE

POR

BERNARDO GUIMARÃES

RIO DE JANEIRO B. L. GARNIER Livreiro-Editor do Instituto 65--Rua do Ouvidor--65 Antigo 69. Paris.--E. BELHATTE, Livreiro, 14 rua de l’Abbaye 1875

Ficam reservados os direitos de propriedade.

INDICE Capitulo I. Capitulo II. Capitulo III. Capitulo IV. Capitulo V. Capitulo VI. Capitulo VII. Capitulo VIII. Capitulo IX. Capitulo X. Capitulo XI. Capitulo XII. Capitulo XIII. Capitulo XIV. Capitulo XV. Capitulo XVI. Capitulo XVII. Capitulo XVIII. Capitulo XIX. Capitulo XX. Capitulo XXI. Capitulo XXII.

CAPITULO I.

Era nos primeiros annos do reinado do S^{r} D. Pedro 2º.

No fertil e opulento municipio de Campos de Goitacases, á margem do Parahyba, a pouca distancia da villa de Campos, havia uma linda e magnifica fazenda.

Era um edificio de harmoniosas proporções, vasto e luxuoso, situado em aprazivel vargedo ao sopé de elevadas collinas cobertas de mata em parte devastada pelo machado do lavrador. Longe em derredor a natureza ostentava-se ainda em toda a sua primitiva e selvatica rudeza; mas por perto, em torno da deliciosa vivenda, a mão do homem tinha convertido a bronca selva, que cobria o solo, em jardins e pomares deleitosos, em viçosos gramáes e pingues pastagens, sombreados aqui e acolá por gameleiras gigantescas, peróbas, cedros e copahybas, que attestavão o vigor da antiga floresta. Quasi não se via ahi muro, cerca, nem vallado; jardim, horta, pomar, pastagens, e plantios circumvisinhos erão divididos por viçosas e verdejantes sebes de bambús, piteiras, espinheiros e gravatás, que davão ao todo o aspecto do mais aprazivel e delicioso vergél.

A casa apresentava a frente ás collinas. Entrava-se nella por um lindo alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia-se por uma escada de cantaria de seis a sete degráos. Os fundos erão occupados por outros edificios accessorios, senzalas, pateos, curraes e celeiros, por trás dos quaes se estendia o jardim, a horta, e um immenso pomar, que ia perder-se na barranca do grande rio.

Era por uma linda e calmosa tarde de outubro. O sol não era ainda posto, e parecia boiar no horizonte suspenso sobre rolos de espuma de cores cambiantes orlados de fevras de ouro. A viração saturada de balsamicos effluvios se espreguiçava ao longo das ribanceiras accordando apenas frouxos rumores pela copa dos arvoredos, e fazendo farfalhar de leve o tope dos coqueiros, que miravão-se garbosos nas lucidas e tranquillas agoas da ribeira.

Corria um bello tempo; a vegetação reanimada por moderadas chuvas ostentava-se fresca, viçosa e luxuriante; a agoa do rio ainda não turvada pelas grandes inchentes, rolando com magestosa lentidão, reflectia em toda a pureza os esplendidos coloridos do horizonte, e o nitido verdor das selvosas ribanceiras. As aves, dando repouso ás azas fatigadas do continuo voejar pelos pomares, prados e balsedos visinhos, começavão a preludiar seos cantos vespertinos.

O clarão do sol poente por tal sorte abraseava as vidraças do edificio, que este parecia estar sendo devorado pelas chammas de um incendio interior. Entretanto quer no interior quer em derredor reinava fundo silencio, e perfeita tranquillidade. Bois truculentos, e nedias novilhas deitadas pelo gramal, ruminavão tranquillamente á sombra de altos troncos. As aves domesticas grasinavão em torno da casa, balavão as ovelhas, e mugião algumas vacas, que vinhão por si mesmas procurando os curraes; mas não se ouvia, nem se divisava voz nem figura humana. Parecia que ali não se achava morador algum. Sómente as vidraças arregaçadas de um grande salão da frente e os batentes da porta da entrada abertos de par em par denunciavão, que nem todos os habitantes daquella sumptuosa propriedade se achavão ausentes.

A favor desse quasi silencio harmonioso da natureza ouvia-se distinctamente o harpejo de um piano casando-se a uma voz de mulher, voz melodiosa, suave, apaixonada, e do timbre o mais puro e fresco que se pode imaginar.

Posto que um tanto abafado, o canto tinha uma vibração sonora, ampla e volumosa, que revelava excellente e vigorosa organisação vocal. O tom velado e melancolico da cantiga, parecia gemido suffocado de uma alma solitaria e soffredora.

Era essa a unica voz, que quebrava o silencio da vasta e tranquilla vivenda. Por fora tudo parecia escutal-a em mistico e profundo recolhimento.

As coplas, que cantava, dizião assim?

Desd’o berço respirando Os ares da escravidão, Como semente lançada Em terra de maldição, A vida passo chorando Minha triste condição.

Os meos braços estão presos, A ninguem posso abraçar, Nem meos labios, nem meos olhos Não podem de amor fallar; Deo-me Deus um coração Sómente para penar.

Ao ar livre das campinas Seo perfume exhala a flor; Canta a aura em liberdade Do bosque o alado cantor; Só para a pobre captiva Não ha canções, nem amor.

Cala-te, pobre captiva; Teos queixumes crimes são; É uma affronta esse canto, Que exprime tua afflicção. A vida não te pertence, Não é teo teo coração.

As notas sentidas e maviosas daquelle cantar escapando pelas janellas abertas e echoando ao longe em derredor, dão vontade de conhecer a sereia, que tão lindamente canta. Se não é sereia, sómente um anjo pode cantar assim.

Subamos os degráos, que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado de viçosos festões e lindas flores, que serve de vestibulo ao edificio. Entremos sem cerimonia. Logo á direita do corredor encontramos aberta uma larga porta, que dá entrada á sala de recepção, vasta e luxuosamente mobiliada. Acha-se ali sósinha e sentada ao piano uma bella e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenhão-se distinctamente entre o ébano da caixa do piano, e as bastas madeixas ainda mais negras do que elle. São tão puras e suaves essas linhas, que fascinão os olhos, enlevão a mente, e paralisão toda analyse. A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não saberieis dizer se é leve palidez ou côr de rosa desmaiada. O collo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça ineffavel o busto maravilhoso. Os cabellos soltos e fortemente ondulados se despenhão caracolando pelos hombros em espessos e luzidios rolos, e como franjas negras escondião quasi completamente o dorso da cadeira, a que se achava recostada. Na fronte calma e lisa como marmore polido, a luz do occaso esbatia um roseo e suave reflexo; dil-a-hieis mysteriosa lampada de alabastro guardando no seio diaphano o fogo celeste da inspiração. Tinha a face voltada para as janellas, e o olhar vago pairava-lhe pelo espaço.

Os encantos da gentil cantora erão ainda realçados pela singeleza, e diremos quasi pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinaria azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade o porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda em amplas ondulações parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia a cantora como Venus nascendo da espuma do mar, ou como um anjo surgindo d’entre brumas vaporosas. Uma pequena cruz de azeviche presa ao pescoço por uma fita preta constituia o seu unico ornamento.

Apenas terminado o canto, a moça ficou um momento a cismar com os dedos sobre o teclado como escutando os derradeiros echos da sua canção.

Entretanto abre-se subtilmente a cortina de cassa de uma das portas interiores, e uma nova personagem penetra no salão. Era tambem uma formosa dama ainda no viço da mocidade, bonita, bem feita e elegante. A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e senhoril, certo balanceio affectado e languoroso dos movimentos davão-lhe esse ar pretencioso, que acompanha toda a moça bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua grande belleza deixava de ficar algum tanto eclypsada em presença das formas puras e correctas, da nobre singeleza, e dos tão naturaes e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda, encantadora mesmo, e posto que vaidosa de sua formosura e alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azues toda a nativa bondade de seo coração.

Malvina approximou-se de manso e sem ser presentida para junto da cantora, collocando-se por detrás della esperou que terminasse a ultima copla.

--Isaura!... disse ella pousando de leve a delicada mãosinha sobre o hombro da cantora.

--Ah! é a senhora?!--respondeo Isaura voltando-se sobressaltada.--Não sabia, que estava ahi me escutando.

--Pois que tem isso?... continúa a cantar;... tens a voz tão bonita!... mas eu antes quizéra que cantasses outra cousa; por que é, que você gosta tanto dessa cantiga tão triste, que você aprendeo não sei onde?...

--Gosto della, porque acho-a bonita, e porque ... ah! não devo fallar...

--Falla, Isaura. Já não te disse, que nada me deves esconder, e nada recear de mim?...

--Porque me faz lembrar de minha mãe, que eu não conheci, coitada!... Mas se a senhora não gosta dessa cantiga, não a cantarei mais.

--Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que és maltratada, que és uma escrava infeliz, victima de senhores barbaros e crueis. Entretanto passas aqui uma vida, que faria inveja a muita gente livre. Gozas da estima de teos senhores. Derão-te uma educação, como não tiverão muitas ricas e illustres damas, que eu conheço. És formosa, e tens uma côr tão linda, que ninguem dirá que gyra em tuas veias uma só gota de sangue africano. Bem sabes, quanto minha boa sogra antes de expirar te recommendava a mim e a meo marido. Hei-de respeitar sempre as recommendações daquella santa mulher, e tu bem vês, sou mais tua amiga, do que tua senhora. Oh! não; não cabe em tua boca essa cantiga lastimosa, que tanto gostas de cantar.--Não quero,--continuou em tom de branda reprehensão,--não quero que a cantes mais, ouviste, Isaura? ... senão, fecho-te o meo piano.

--Mas, senhora, apezar de tudo isso que sou eu mais do que uma simples escrava? Essa educação, que me derão, e essa belleza, que tanto me gabão, de que me servem? ... são trastes de luxo collocados na senzala do africano. A senzala nem por isso deixa de ser o que é; uma senzala.

--Queixas-te da tua sorte, Isaura?...

--Eu, não senhora; não tenho motivo;... o que quero dizer com isto é que apezar de todos esses dotes e vantagens, que me attribuem, sei conhecer o meo lugar.

--Anda lá; já sei o que te amofina; a tua cantiga bem o diz. Bonita como és, não podes deixar de ter algum namorado.

--Eu, senhora!... por quem é, não pense nisso.

--Tu mesma; pois que tem isso?... não te vexes; pois é alguma cousa do outro mundo? Vamos já, confessa; tens um amante, e é por isso, que lamentas não teres nascido livre para poder amar aquelle que te agradou, e a quem cahiste em graça, não é assim?...

--Perdôe-me, sinhá Malvina;--replicou a escrava com um candido sorriso.--Está muito enganada; estou tão longe de pensar nisso!

--Qual longe!... não me enganas, minha rapariguinha!... tu amas, e és mui linda e bem prendada para te inclinares a um escravo; só se fosse um escravo, como tu és, o que duvido que haja no mundo. Uma menina como tu, bem pode conquistar o amor de algum guapo mocetão, e eis ahi a causa da choradeira de tua canção. Mas não te afflijas, minha Isaura; eu te protesto, que ámanhã mesmo terás a tua liberdade; deixa Leoncio chegar; é uma vergonha, que uma rapariga como tu se veja ainda na condição de escrava.

--Deixe-se disso, senhora; eu não penso em amores e muito menos em liberdade; ás vezes fico triste á toa, sem motivo nenhum...

--Não importa. Sou eu, quem quero que sejas livre, e has-de sel-o.

Neste ponto a conversação foi cortada por um tropel de cavalleiros, que chegavão e apeavão-se á porta da fazenda.

Malvina e Isaura correrão á janella a ver quem erão.

Capitulo II.

Os cavalleiros, que acabavão de apear-se, erão dous bellos e elegantes mancebos, que chegavão da villa de Campos. Do modo familiar, por que forão entrando, logo se deprehendia que era gente de casa.

De feito um era Leoncio, marido de Malvina; e outro Henrique, irmão da mesma.

Antes de irmos adiante forçoso nos é travar conhecimento mais intimo com os dous jovens cavalheiros.

Leoncio era filho unico do rico e magnifico commendador Almeida, proprietario da bella e sumptuosa fazenda, em que nos achamos. O commendador já bastante idoso e cheio de enfermidades depois do casamento de seo filho, que tivera lugar um anno antes da época, em que começa esta historia, havia-lhe abandonado a administração e uso-fructo da fazenda, e vivia na côrte, onde procurava allivio ou distracção aos achaques, que o atormentavão.

Leoncio achára desde a infancia nas larguezas e facilidades de seos paes amplos meios de corromper o coração e extraviar a intelligencia. Máo alumno e creança incorrigivel, turbulento e insubordinado, andou de collegio em collegio, e passou como gato por brasas por cima de todos os preparatorios, cujos exames todavia sempre salvára á sombra do patronato. Os mestres não se atrevião a dar ao nobre e munifico commendador o desgosto de ver seo filho reprovado. Matriculado na escola de medicina logo no primeiro anno enjoou-se daquella disciplina, e como seos paes não sabião contrarial-o, foi-se para Olinda afim de frequentar o curso juridico. Ali depois de ter dissipado não pequena porção da fortuna paterna na satisfação de todos os seos vicios e loucas fantasias, tomou tedio tambem aos estudos juridicos, e ficou entendendo, que só na Europa poderia desenvolver dignamente a sua intelligencia, e saciar a sua sêde de saber, em puros e abundantes mananciaes. Assim escreveo ao pae, que deo-lhe credito e o enviou a Paris, donde esperava vel-o voltar feito um novo Humboldt. Installado naquelle vasto pandemonium do luxo e dos prazeres, Leoncio raras vezes, e só por desfastio, ia ouvir as eloquentes prelecções dos eximios professores da época, e nem tão pouco era visto nos museos, institutos e bibliothecas. Em compensação era assiduo frequentador do Jardim Mabile, assim como de todos os cafés e theatros mais em voga, e tornára-se um dos mais afamados e elegantes leões dos boulevards. No fim de alguns annos, ora de residencia em Paris, ora de gyros recreativos pelas agoas e pelas principaes capitaes da Europa, tinha elle tão copiosa e desapiedadamente sangrado a bolsa paterna, que o commendador, a despeito de toda a sua condescendencia e ternura para com seo unico e querido filho, vio-se na necessidade de revocal-o á sombra dos patrios lares a fim de evitar uma completa ruina. Mas mesmo assim para não magoal-o colhendo-lhe subita e rudemente as redeas na carreira dos desvarios e dissipações, assentou de attrahil-o suavemente acenando-lhe com a perspectiva de um rico e vantajosissimo casamento.

Leoncio pegou na isca e voltou á pátria um perfeito dandy, gentil e elegante como ninguem, trazendo de suas viagens em vez de conhecimentos e experiencia, enorme dose de fatuidade e petulancia, e um tão perfeito traquejo da alta sociedade, que o tomarieis por um principe. Mas o peor era, que se trazia o cerebro vazio, voltava com a alma corrompida e o coração estragado por habitos de devassidão e libertinagem. Alguns bons e generosos instinctos, de que o dotára a natureza, havião-se apagado em seo coração ao roçar de pessimas doutrinas confirmadas por exemplos ainda peores.

De volta da Europa, Leoncio contava vinte e cinco annos. O pae advertio-lhe com palavras insinuantes e geitosas, que já era tempo de empregar-se em alguma cousa, de abraçar alguma carreira; que já se tinha aproveitado da bolsa paterna mais do que era preciso para sua educação, e que era mister ir aprendendo senão a augmentar, ao menos a conservar uma fortuna, á testa da qual teria de achar-se mais tarde ou mais cedo. Depois de muita hesitação, Leoncio optou emfim pela carreira do commercio, que lhe pareceo ser a mais independente e segura de todas; mas as suas idéas largas e audaciosas a este respeito aterrárão o bom do commendador. O commercio de importação e exportação de generos, mesmo em larga escala, o proprio trafego de africanos, lhe parecião especulações degradantes e improprias de sua alta posição e esmerada educação. O negocio de balcão e a retalho, esse inspirava-lhe asco e compaixão. Só lhe convinhão as altas especulações cambiaes, as operações bancarias, e transacções, em que jogasse com avultados capitaes. Só assim poderia duplicar, triplicar em pouco tempo a fortuna paterna. Com o que tinha observado na Bolsa de Paris e em outras praças europeas, presumia-se com habilitação bastante para dirigir as operações do mais importante estabelecimento bancario, ou as mais grandiosas emprezas industriaes.

O pae porém não se animou a confiar sua fortuna aos azares especulativos daquelle financeiro em botão, e que até ali só tinha dado provas de grande talento para consumir, em pouco tempo e em pura perda, sommas consideraveis. Resolveo portanto a não tocar-lhe mais naquelle assumpto, esperando que o mancebo creasse mais algum juizo.

Vendo que seo pae esquecia-se completamente dos planos de crear-lhe um peculio proprio, Leoncio olhou para o casamento como o meio suave e natural de adquirir fortuna, como a unica carreira, que se lhe offerecia para ter dinheiro a esbanjar a seo bel-prazer.

Malvina, a formosa filha de um riquissimo negociante da côrte, amigo do commendador, já estava destinada a Leoncio por commum accordo e acquiescencia dos paes de ambos. A familia do commendador foi á côrte; os moços virão-se amárão-se e casárão; foi cousa de poucos dias. Pouco tempo depois de seo casamento Leoncio passou pelo desgosto de perder sua mãe por um golpe inesperado. Esta boa e respeitavel senhora não tinha sido muito feliz nas relações da vida intima com seo marido, que como homem de coração arido e frio, desconhecia as santas e puras delicias da affeição conjugal, e com suas libertinagens e devassidões dilacerava quotidianamente o coração de sua esposa. Para cumulo de males tinha ella perdido ainda na infancia todos os seos filhos, ficando-lhe só Leoncio. Lastimava-se principalmente por não ter-lhe deixado o céo ao menos uma filha, que lhe servisse de companhia e consolação em sua desolada velhice. Quiz entretanto a sorte deparar-lhe em sua propria casa uma tal ou qual compensação a seos infortunios em uma fragil creatura, que veio de alguma sorte encher o vacuo, que sentia em seo bondoso e terno coração, e tornar menos triste e solitario o lar, em que passava os dias tão monotonos e enfadonhos.

Havia nascido em casa uma escravinha, que desde o berço attrahio por sua graça, gentileza e vivacidade toda a attenção e sollicitude da boa velha.

Isaura era filha de uma linda mulata, que fora por muito tempo a mucama favorita e a creada fiel da esposa do commendador. Este, que como homem libidinoso e sem escrupulos olhava as escravas como um serralho á sua disposição, lançou olhos cobiçosos e ardentes de lascivia sobre a gentil mucama. Por muito tempo resistio ella ás suas brutaes sollicitações; mas por fim teve de ceder ás ameaças e violencias. Tão torpe e barbaro procedimento não pôde por muito tempo ficar occulto aos olhos de sua virtuosa esposa, que com isso concebeo mortal desgosto.

Acabrunhado por ella das mais violentas e amargas exprobrações, o commendador não ousou mais empregar a violencia contra a pobre escrava, e nem tão pouco conseguio jámais por outro qualquer meio superar a invencivel repugnancia, que lhe inspirava. Enfureceo-se com tanta resistencia, e deliberou em seo coração perverso vingar-se da maneira a mais barbara e ignobil, acabrunhando-a de trabalhos e castigos. Exilou-a da sala, onde apenas desempenhava levianos e delicados serviços, para a senzala e os fragueiros trabalhos da roça, recommendando bem ao feitor, que não lhe poupasse serviço nem castigo. O feitor porém, que era um bom portuguez ainda no vigor dos annos, e que não tinha as entranhas tão empedernidas como o seo patrão, seduzido pelos encantos da mulata, em vez de trabalho e surras, só lhe dava caricias e presentes, de maneira que dahi a algum tempo a mulata deo á luz da vida a gentil escravinha, de que fallámos. Este facto veio exacerbar ainda mais a sanha do commendador contra a misera escrava. Expellio com improperios e ameaças o bom e fiel feitor, e sujeitou a mulata a tão rudes trabalhos e tão cruel tratamento, que em breve a precipitou no tumulo, antes que pudesse acabar de crear sua tenra e mimosa filhinha.

Eis ahi debaixo de que tristes auspicios nasceo a linda e infeliz Isaura. Todavia como para indemnisal-a de tamanha desventura, uma santa mulher, um anjo de bondade, curvou-se sobre o berço da pobre creança e veio amparal-a á sombra de suas azas caridosas. A mulher do commendador considerou aquella tenra e formosa cria como um mimo, que o céo lhe enviava para consolal-a das angustias e dissabores, que tragava em consequencia dos torpes desmandos de seo devasso marido. Levantou ao céo os olhos banhados em lagrimas, e jurou pela alma da infeliz mulata encarregar-se do futuro de Isaura, creal-a e educal-a, como se fosse uma filha.

Assim o cumprio com o mais religioso escrupulo. Á medida, que a menina foi crescendo e entrando em idade de aprender, foi-lhe ella mesma ensinando a ler e escrever, a coser e a rezar. Mais tarde procurou-lhe tambem mestres de musica, de dança, de italiano, de francez, de desenho, comprou-lhe livros, e empenhou-se emfim em dar á menina a mais esmerada e fina educação, como o faria para com uma filha querida. Isaura por sua parte, não só pelo desenvolvimento de suas graças e attractivos corporaes, como pelos rapidos progressos de sua viva e robusta intelligencia, foi muito além das mais exageradas esperanças da excellente velha, a qual em vista de tão felizes e brilhantes resultados, cada vez mais se comprazia em lapidar e polir aquella joia, que ella dizia ser a pérola entrançada em seos cabellos brancos.--O céo não quiz dar-me uma filha de minhas entranhas,--costumava ella dizer,--mas em compensação deo-me uma filha de minha alma.

O que porém mais era de admirar na interessante menina, é que aquella predilecção e extremosa sollicitude de que era objecto, não a tornava impertinente, vaidosa ou arrogante nem mesmo para com seos parceiros de captiveiro. O mimo, com que era tratada, em nada lhe alterava a natural bondade e candura do coração. Era sempre alegre e boa com os escravos, docil e submissa com os senhores.

O commendador não gostava nada do singular capricho de sua esposa para com a mulatinha, capricho, que qualificava de caduquice.

--Forte loucura!--costumava exclamar com accento de commiseração.--Está ahi se esmerando em crear uma formidavel tafulona, que lá pelo tempo adiante ha-de-lhe dar agoa pela barba. As velhas umas dão para rezar, outras para ralhar desde a manhã até á noite, outras para lavar cachorrinhos ou para crear pintos; esta deo para criar mulatinhas princezas. É um divertimento um pouco mais dispendioso na verdade; mas ... que lhe faça bom proveito; ao menos emquanto se entretêm por lá com o seo embelego, poupa-me uma boa duzia de impertinentes e rabugentos sermões... Lá se avenha!...