A escrava Isaura

Part 14

Chapter 141,142 wordsPublic domain

Depois da morte do commendador, as cousas forão de mal a peor. Leoncio, com a educação e a indole que lhe conhecemos, era o homem menos proprio possivel para dirigir e explorar um grande estabelecimento agricola.

Seos desvarios e extravagancias, e por ultimo sua nefasta e insensata paixão por Isaura, fizerão-no perder de todo a cabeça, arrojando-o em um plano inclinado de despezas ruinosas, sem calculo nem previsão alguma. Com os enormes dispendios que teve de fazer em consequencia da fuga de Isaura, mandando procural-a por todos os cantos do imperio, acabou de cavar o abysmo de sua ruina. Em pouco tempo o joven fazendeiro estava de todo insolvavel, sem um real em caixa, e com uma multidão de letras protestadas na carteira de seos credores. Quando estes acordárão, e se lembrárão de lhe abrir fallencia e executar os seos bens, comprehendêrão que mal poderião embolsar-se da metade do que lhes era devido, e portanto tratárão com soffreguidão de promover os meios executivos, antes que o mal fosse a mais.

Depois de conferenciar com os credores de Leoncio, propoz-lhes a compra de todos os seos creditos pela metade do seo valor. Para evitar qualquer odiosidade, que semelhante procedimento pudesse acarretar sobre sua pessoa, declarou-lhes que nenhuma intenção tinha de vexar nem opprimir o infeliz fazendeiro, que pelo contrario era seo intuito protegel-o e livral-o do vexame de uma rigorosa execução judicial, e deixal-o ao abrigo da miseria. E realmente, a despeito da aversão e desprezo que Leoncio lhe merecia, Alvaro não pretendia levar ao ultimo extremo os meios de vingança, que por um acaso as circumstancias tinhão posto em suas mãos. Era elle dez vezes mais rico do que o seo adversario, e de muito bom grado, se não houvesse outro recurso, por um contracto amigavel daria uma somma igual a toda a fortuna deste, pela liberdade de Isaura.

Agora, que o destino vinha pôr em suas mãos toda a fortuna desse adversario caprichoso, arrogante e desalmado, Alvaro, sempre generoso, nem por isso desejava vel-o reduzido á miseria.

Os credores não hesitárão um momento em acceitar a proposta. Com razão preferirão saldar suas contas por um modo facil e expedito, em dinheiro de contado, recebendo a metade, do que sujeitando-se ás despezas, delongas e difficuldades de uma execução em escravos e bens de raiz, quando nenhuma probabilidade havia, de que no rateio pudessem obter mais de metade.

Senhor de todos os titulos de divida de Leoncio, isto é, de toda a sua fortuna, Alvaro partio para Campos a fim de promover por sua conta a execução dos bens do mesmo, e munido de todos os papeis e documentos, acompanhado de um escrivão e dous officiaes de justiça, apresentou-se em pessoa em casa de Leoncio para intimar-lhe em pessoa a sentença de sua perdição.

--Oh! maldição!--exclamára Leoncio, arrancando os cabellos em desespero, depois que ouvira dos labios de Alvaro aquelle arrésto esmagador. Atordoado e quasi louco com a violencia do golpe, ia sahir correndo pela porta a fora.

--Espere ainda, senhor,--disse Alvaro detendo-o pelo braço.--Agora quanto á escrava de que ha pouco se fallava, o que pretendia fazer della?

--Libertal-a, já lhe disse,--respondeo Leoncio com rudeza.

--E mais alguma cousa; creio que tambem me disse que ia casal-a: e, desculpe-me a pergunta, haveria para isso consentimento da parte della?

--Oh! não! não!... eu era arrastada, senhor!--exclamou Isaura resolutamente.

--É verdade, senhor Alvaro, atalhou Miguel, ella ia casar-se por assim dizer forçada. O senhor Leoncio, como condição da liberdade della obrigava-a a casar-se com aquelle pobre homem que Vª. Sª. ali vê.

--Com aquelle homem?!--exclamou Alvaro cheio de pasmo e indignação, olhando para o homunculo que Miguel lhe indicava com o dedo.

--Sim, senhor,--continuou Miguel,--e se ella não se sujeitasse a esse casamento, teria de passar o resto da vida presa em um quarto escuro, incommunicavel, com o pé enfiado em uma grossa corrente, como tem vivido desde que veio do Recife até o dia de hoje...

--Verdugo!--bradou Alvaro, não podendo mais sopear sua indignação.--A mão da justiça divina pesa enfim sobre ti para punir tuas monstruosas atrocidades!

--Ó que vergonha!... que opprobrio, meo Deos!--exclamou Malvina, debruçando-se a uma mesa, e escondendo o rosto entre as mãos.

--Pobre Isaura!--disse Leoncio com voz commovida, estendendo os braços á captiva.--Chega-te a mim... Eu protestei no fundo de minha alma e por minha honra desaffrontar-te do jugo opressor e aviltante, que te esmagava, por que via em ti a pureza de um anjo, e a nobre e altiva resignação da martyr. Foi uma missão santa, que julgo ter recebido do céo, e que hoje vejo coroada do mais feliz e completo resultado. Deos em fim, por minhas mãos vinga a innocencia e a virtude opprimida, e esmaga o algôz.

--Deixe-se de blasonar, senhor!--gritou Leoncio agitando-se em gesticulações de furor;--isto não passa de uma infamia, uma traição, e ladroeira....

--Isaura!--continuou Alvaro com voz sempre firme e grave;--se esse algôz ainda ha pouco tinha em suas mãos a tua liberdade e a tua vida, e não t’as cedia senão com a condição de desposares um ente disforme e desprezivel, agora tens nas tuas a sua propriedade; sim, que as tenho nas minhas, e as passo para as tuas. Isaura, tu és hoje a senhora, e elle o escravo; se não quizer mendigar o pão, ha-de recorrer á nossa generosidade.

--Senhor!--exclamou Isaura correndo a lançar-se aos pés de Alvaro;--oh! quanto sois bom e generoso para com esta infeliz escrava!... mas em nome dessa mesma generosidade, de joelhos eu vos peço, perdão! perdão para elles...

--Levanta-te, mulher generosa e sublime!--disse Alvaro estendo-lhe as mãos para levantar-se.--Levanta-te, Isaura; não é a meos pés, mas sim em meos braços, aqui bem perto do meo coração, que te deves lançar, pois a despeito de todos os preconceitos do mundo, eu me julgo o mais feliz dos mortaes em poder offerecer-te a mão de esposo!...

--Senhor,--bradou Leoncio com os labios espumantes e os olhos desvairados,--ahi tendes tudo quanto possuo; pode saciar sua vingança, mas eu lhe juro, nunca ha-de ter o prazer de ver-me implorar a sua generosidade.

E dizendo isto entrou arrebatadamente em uma alcova contigua á sala.

--Leoncio! Leoncio!... onde vaes! exclamou Malvina precipitando-se para elle; mal porém havia ella chegado á porta, ouvio-se a explosão atroadora de um tiro.

--Ai!...--gritou Malvina, e cahio redondamente em terra.

Leoncio tinha-se rebentado o craneo com um tiro de pistola.

FIM

=NOTAS DE TRANSCRIÇÃO=

Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos. Erros tipográficos evidentes foram corrigidos.

Na falta de uma consistência na grafia e acentuação de determinadas palavras, foi adotada a que apresentava maior ocorrência no texto.

Nesta versão, o carácter "caret" (acento circumflexo) foi utilizado com chaves para representar letras sobrescritas.

O símbolo "=" não representa o texto em negrito e, por isso, foi mantido conforme a versão original.