Part 13
Mesmo assim ainda era bella a misera captiva. A magreza fazendo sobresahirem os contornos e angulos faciaes, realçava a pureza ideal e a severa energia daquelle typo antigo.
Os grandes olhos pretos cobertos de luz baça e melancolica, erão como cirios funereos sob a arcada sombria de uma capella tumular. Os cabellos entornados em desordem em volta do collo, fazião ondular por elle leves sombras de maravilhoso effeito, como festões de hera a se debruçarem pelo marmore vetusto de estatua empallidecida pelo tempo. Naquella miseranda situação, Isaura offerecia ao esculptor um formoso modelo da Niobe antiga.
--Aquella é Isaura!... oh! meo Deos! coitada!--murmurou Malvina ao vel-a, e foi-lhe mister enxugar duas lagrimas, que a seo pezar humedecerão-lhe as palpebras. Esteve a ponto de ir implorar clemencia a seo esposo em favor da pobresinha, mas lembrou-se das perversas inclinações e máo comportamento, que Leoncio aleivosamente attribuira a Isaura, e assentou de revestir-se de toda a impassibilidade, que lhe fosse possivel.
--Então, Isaura,--disse Malvina com brandura,--já tomaste a tua resolução?... estás decidida a casar com o marido que te queremos dar?
Isaura por unica resposta abaixou a cabeça e fitou os olhos no chão.
--Sim, senhora,--respondeo Miguel por ella;--Isaura está resolvida a se conformar com a vontade de V^{as}. S^{as}.
--Faz muito bem. Não é possivel, que ella esteja a soffrer por mais tempo esse cruel tratamento, em que não posso consentir emquanto estiver nesta casa. Não foi para esse fim, que sua defunta senhora creou-a com tanto mimo, e deo-lhe tão boa educação.
Isaura, apezar de tua descahida, quero-te bem ainda, e não tolerarei mais semelhante escandalo. Vamos dar-te ao mesmo tempo a liberdade e um excellente marido.
--Excellente!... meo Deos! Que escarneo!--reflectio Isaura.
--Belchior é muito bom moço, inoffensivo, pacifico e trabalhador; creio que has-de dar-te optimamente com elle. Demais para obter a liberdade nenhum sacrificio é grande, não é assim, Isaura?
--Sem duvida, minha senhora; já que assim o quer, sujeito-me humildemente ao meo destino. Arrancão-me da marmorra--(continuou Isaura em seo pensamento)--para levarem-me ao supplicio.
--Muito bem, Isaura; mostras que és uma rapariga docil e de juizo. André, vae chamar aqui o senhor Belchior. Quero eu mesma ter o gosto de annunciar-lhe, que vae emfim realizar-se o seo sonho querido de tantos annos.
Creio que o senhor Miguel tambem não ficará mal satisfeito com o arranjo que damos a sua filha; sempre é alguma cousa sahir do captiveiro e casar-se com um homem branco e livre. Antes assim do que fugir, e andar foragida por esse mundo. Isaura, para prova de quanto desejo o teo bem, quero ser madrinha neste casamento, que vae pôr termo a teos soffrimentos, e restabelecer nesta casa a paz e o contentamento, que ha muito tempo della andavão arredados.
Ditas estas palavras, Malvina abrio um cofre de joias, que estava sobre uma mesa, e delle tirou um rico collar de ouro, que foi collocar no pescoço de Isaura.
--Acceita isto Isaura,--disse ella,--é o meo presente de noivado.
--Agradecida, minha boa senhora,--disse Isaura, e acrescentou em seo coração;--é a corda, que o carrasco vem lançar ao pescoço da victima.
Neste momento vem entrando Belchior acompanhado por André.
--Eis-me aqui, senhora minha,--diz elle,--o que deseja deste seo menor creado?
--Dar-lhe os parabens, senhor Belchior,--respondeo Malvina.
--Parabens!... mas eu não sei por que!...
--Pois eu lhe digo; fique sabendo que Isaura vae ser livre, e ... adivinhe o resto.
--E vae-se embora de certo ... oh!... é uma desgraça!
--Já vejo, que não é bom adivinhador. Isaura está resolvida a casar-se com o senhor.
--Que me diz, patrôa!... perdão, não posso acreditar. Vm.^{ce} está zombando commigo.
--Digo-lhe a verdade; ahi está ella, que não me deixará mentir. Aprompte-se, senhor Belchior, e quanto antes, que ámanhã mesmo ha-de-se fazer o casamento aqui mesmo em casa.
--Oh! senhora minha! divindade da terra!--exclamou Belchior indo-se atirar aos pés de Malvina e procurando beijal-os,--deixe-me beijar esses péis....
--Levante-se dahi, senhor Belchior; não é a mim, é a Isaura que deve agradecer.
Belchior levanta-se e corre a prostrar-se aos pés de Isaura.
--Oh! princeza de meo coração!--exclamou elle atracando-se ás pernas da pobre escrava, que fraca como estava, quasi foi a terra com a força daquella furiosa e enthusiastica atracação. Era para fazer rebentar de riso, a quem não soubesse quanto havia de tragico e doloroso no fundo daquella impia e ignobil farça.
--Isaura!... não olhas para mim? aqui tens a teos péis este teo menor captivo Belchior!... olha para elle, para este teo adorador, que hoje é mais do que um principe ... dá cá essa mãosinha, deixa-me comel-a de beijos...
--Meo Deos! que farça hedionda obrigão-me a representar!--murmurou Isaura comsigo, e voltando a face abandonou a mão a Belchior, que collando a ella a boca no transporte do enthusiasmo, desatou a chorar como uma creança.
--Olha que palerma!--disse André para Rosa, que observavão de parte aquella scena tragi-comica.--E venhão cá dizer-me, que não é o mel para a boca do asno!
--Eu antes queria que me casassem com um jacaré.
--Este meo sinhô moço tem idéas do diabo! quem havia de lembrar-se de casar uma sereia com um bôto.
--Invejoso!... você é que queria ser o bôto, por isso está ahi a torcer o nariz. Toma!... bem feito!... agora o que faltava era que o nhonhô te désse de dote á Isaura.
--Isso queria eu!... aposto que Isaura não vae casar de livre vontade! e depois ... nós cá nos arranjariamos ... havia de enfiar o bôto pelo fundo de uma agulha.
--Sahe dahi, tolo!... pensa que Isaura faz caso de você?...
--Não te arrebites, minha Rosa; já agora não ha remedio senão contentar-me comtigo, que em fim de contas tambem és bem bonitinha, e ... tudo que cahe no jequy, é peixe.
--É baixo!... aguente a sua taboa, e vá consolar-se com quem quizer, menos commigo.
Capitulo XXI.
--Então, Leoncio,--dizia Malvina a seo esposo no outro dia pela manhã,--déste as providencias necessarias para arranjar-se esse negocio hoje mesmo?
--Creio que é a centesima vez que me fazes essa pergunta, Malvina,--respondeo Leoncio sorrindo-se;--todavia pela centesima vez te responderei tambem, que as providencias que estão da minha parte, já forão todas dadas. Hontem mesmo mandei um proprio a Campos, e não tardarão a chegar por ahi o tabellião para passar escriptura de liberdade a Isaura com toda a solemnidade, e tambem o padre para celebrar o casamento. Bem vês que de nada me esqueci. Tratem de estar todos promptos; e tu, Malvina, manda já preparar a capella para se effectuar esse casamento, que pareces desejar com mais ardor,--accrescentou sorrindo,--do que desejaste o teo proprio.
Malvina sahio do salão, deixando Leoncio em companhia de um terceiro personagem, que tambem ali se achava, por nome Jorge, a quem o leitor ainda não conhece. Dizendo que era um parasita, ainda não temos dito tudo.
Este genero contém muitas variedades, e mesmo cada individuo tem sua côr e feição particular. Era um homem bem apessoado, espirituoso, serviçal, cheio de cortezia e amabilidade, condições indispensaveis a um bom parasita. Jorge não vivia da seiva e da sombra de uma só arvore; saltava de uma a outra, e assim peregrinava por longas distancias, o que era da sua parte um excellente calculo, pois proporcionava-lhe uma vida mais variada e recreativa, ao mesmo tempo que tornava sua companhia menos incommoda e fatigante aos seos numerosos amigos. Conhecia e entretinha relações de amizade com todos os fazendeiros das margens do Parahyba desde S. João da Barra até S. Fidelis. A crer no que dizia, andava sempre cheio de afazeres e dando andamento a mil negocios importantes, mas estava sempre prompto a prescindir delles a convite de qualquer desses amigos para passar uns oito ou quinze dias em sua companhia.
Na solidão em que Leoncio se achou depois de seo rompimento com Malvina, Jorge foi para elle um excellente recurso quando se achava na fazenda. Servia-lhe de companheiro não só á mesa, como ao jogo e á caça; entretinha-o a contar-lhe anecdotas divertidas e escandalosas, applaudia-lhe os desvarios e extravagancias, e lisonjeava-lhe as ruins paixões, emquanto Leoncio, que o acreditava realmente um amigo, fazia delle o seo confidente, e communicava-lhe os seos mais intimos pensamentos, os seos planos de perversidade, e os mais secretos negocios de familia.
Para melhor entrarmos no mysterio dos planos atrozes e ignobeis, das satanicas maquinações de Leoncio, ouçamos a conversação intima, que vão travar estes dous entes dignos um do outro.
--Até que por fim, Jorge, achei um meio engenhoso e seguro de aplanar todas as difficuldades. Desta maneira espero que tudo se vae arranjar ás mil maravilhas.
--Seguramente, e já de antemão te dou os parabens pelos teos triumphos, e applaudo-te pela feliz combinação de teos planos.
--Mas escuta ainda para melhor poderes comprehendel-os. Com este casamento ficão satisfeitos os desejos de minha mulher, sem que Isaura escape de todo ao meo poder. Como o pae della está debaixo de minha restricta dependencia, eu saberei reter junto de mim esse estupido jardineiro com quem caso-a, e depois ... tu bem sabes, o tempo e a perseverança amansão as feras mais bravias. Entretanto a atrevida escrava receberá o castigo, que merece sua inqualificavel rebeldia. Era-me absolutamente necessario dar este passo, por que minha mulher recusa-se obstinadamente a reconciliar-se commigo, emquanto eu conservar Isaura captiva em meo poder, capricho de mulher, com que bem pouco me importaria, se não fosse...--isto aqui entre nós, meo amigo; confio em tua discrição.
--Pode fallar sem susto, que meo coração é como um tumulo para o segredo da amisade.
--Bem; dizia-te eu, que bem pouco me importaria com os arrufos e caprichos de minha mulher, se não fosse o completo desarranjo em que desgraçadamente vão os meos negocios. Em consequencia de uma infinidade de circunstancias, que é escusado agora explicar-te, a minha fortuna está ameaçada de levar um baque horrendo, do qual não sei se me será possivel levantal-a sem auxilio estranho. Ora meo sogro é o unico, que com o auxilio de seo dinheiro ou de seo credito pode ainda escórar o edificio de minha fortuna prestes a desabar.
--Em verdade procedes com tino e prudencia consummada. Oh! teo sogro!... conheço-o muito; é uma fortuna solida, e uma das casas mais fortes do Rio de Janeiro; teo sogro não te deixará ficar mal. Quer extremosamente á filha, e não quererá ver arruinado o marido della.
--Disso estou eu certo. Mas isto ainda não é tudo; escuta ainda, Jorge. O meo rival, esse tal senhor Alvaro, que tanto cobiçou a minha Isaura para sua amasia, que não teve pejo de seduzil-a, acoutal-a e protegel-a publica e escandalosamente no Recife, esse grotesco campeão da liberdade das escravas alheias, que protestou me disputar Isaura a todo o risco, ficará de uma vez para sempre desenganado de sua estulta pretensão. Vê pois, Jorge, quantos interesses e vantagens se concilião no simples facto desse casamento.
--Plano admiravel na verdade, Leoncio!--exclamou Jorge emphaticamente.--Tens um tino superior, e uma inteligencia subtil e fertil em recursos!... se te desses á politica, asseguro-te que farias um papel eminente; serias um estadista consummado. Esse D. Quixote de nova especie, amparo da liberdade das escravas alheias, quando são bonitas, não achará senão moinhos de vento a combater. Muito havemos de nos rir de seo desapontamento, se lhe der na cabeça continuar sua burlesca aventura.
--Creio que nessa não cahirá elle; mas se por cá apparecesse, muito tinhamos que debical-o.
--Meo senhor,--disse André entrando na sala,--ahi estão na porta uns cavalheiros, que pedem licença para apear e entrar.
--Ah! já sei,--disse Leoncio,--são elles, são as pessoas que mandei chamar; o vigario, o tabellião e mais outros ... bom! já não nos falta tudo. Vierão mais depressa do que eu esperava. Manda-os apear e entrar, André.
André sahe, Leoncio toca uma campainha, e apparece Rosa.
--Rosa,--diz-lhe elle,--vae já chamar sinhá Malvina, e Isaura, e o senhor Miguel e Belchior. Já devem estar promptos; precisa-se aqui já da presença de todos elles.
--Estou afflicto por ver o fim a esta farça,--disse Leoncio a seo amigo,--mas quero que ella se represente com certo apparato e solemnidade, para inculcar que tenho grande prazer em satisfazer o capricho de Malvina e melhor illudir a sua credulidade; mas,--fique isto aqui entre nós,--este casamento não passa de uma burla. Tenho toda a certeza, de que Isaura despreza do fundo d’alma esse miseravel idiota, que só em nome será seo marido. Entretanto ficarei me aguardando para melhores tempos, e espero que o meo plano surtirá o desejado effeito.
--Cá por mim não tenho a menor duvida a respeito do resultado de um plano tão maravilhosamente combinado.
Mal Jorge acabava de pronunciar estas palavras, appareceo á porta do salão um bello e joven cavalheiro, em elegantes trajos de viagem, acompanhado de mais tres ou quatro pessoas. Leoncio, que já ia pressuroso recebel-os e comprimental-os, estacou de repente.
--Oh!... não são quem eu esperava!... murmurou comsigo.--Se me não engano... é Alvaro!....
--Senhor Leoncio!--disse o cavalheiro comprimentando-o.
--Senhor Alvaro,--respondeo Leoncio,--pois creio que é a esse senhor, que tenho a honra de receber em minha casa.
--É elle mesmo, senhor; um seo criado.
--Ah! muito estimo ... não o esperava ... queira sentar-se ... quiz então vir dar um passeio cá pelas nossas provincias do sul?...
Estas e outras phrases banaes dizia Leoncio, procurando refazer-se da perturbação em que o lançára a subita e inesperada apparição de Alvaro naquelle momento critico e solemne.
No mesmo momento entravão no salão por uma porta interior Malvina, Isaura, Miguel e Belchior. Vinhão já preparados com os competentes trajos para a ceremonia do casamento.
--Meo Deos!... o que estou vendo!...--murmurou Isaura, sacudindo vivamente o braço de Miguel;--estarei enganada?... não;... é elle.
--É elle mesmo. Deos!... como é possivel.
--Oh!--exclamou Isaura; e nesta simples interjeição, que exhalou como um suspiro, expressava o desafogo de um pégo de angustias, que lhe pesava sobre o coração. Quem de perto a olhasse com attenção veria um leve rubor naquelle rosto, que a dor e os soffrimentos parecião ter condenado a uma eterna e marmorea palidez; era a aurora da esperança, cujo primeiro e timido arrebol assomava nas faces daquella, cuja existencia naquelle momento ia sepultar-se nas sombras de um lugubre occaso.
--Não esperava pela honra de recebel-o hoje nesta sua casa,--continuou Leoncio recobrando gradualmente o seo sangue frio e seo ar arrogante.--Entretanto ha-de permittir que me felicite a mim e ao senhor por tão opportuna visita. A chegada de Vª. Sª. hoje nesta casa parece um acontecimento auspicioso, e até providencial.
--Sim!?... muito folgo com isso ... mas não terá Vª. Sª. a bondade de dizer por que?...
--Com muito gosto. Saiba que aquella sua protegida, aquella escrava, por quem fez tantos extremos em Pernambuco, vae ser hoje mesmo libertada e casada com um homem de bem. Chegou Vª. Sª. mesmo a ponto de presenciar com os seos proprios olhos a realização dos philantropicos desejos, que tinha a respeito da dita escrava, e eu da minha parte muito folgarei, se Vª. Sª. quizer assistir a esse acto, que ainda mais solemne se tornará com a sua presença.
--E quem a liberta?--perguntou Alvaro sorrindo-se sardonicamente.
--Quem mais senão eu, que sou seo legitimo senhor,--respondeo Leoncio com altiva seguridade.
--Pois declaro-lhe, que o não pode fazer, senhor;--disse Alvaro com firmeza.--Essa escrava não lhe pertence mais.
--Não me pertence!...--bradou Leoncio levantando-se de um salto,--o senhor delira ou está escarnecendo?...
--Nem uma, nem outra cousa,--respondeo Alvaro com toda a calma;--repito-lhe; essa escrava não lhe pertence mais.
--E quem se atreve a esbulhar-me do direito que tenho sobre ella?
--Os seos credores, senhor,--replicou Alvaro, sempre com a mesma firmeza e sangue frio.--Esta fazenda com todos os escravos; esta casa com seos ricos moveis, e sua baixella, nada disto lhe pertence mais; de hoje em diante o senhor não pode dispor aqui nem do mais insignificante objecto. Veja,--continuou mostrando-lhe um maço de papeis,--aqui tenho em minhas mãos toda a sua fortuna. O seo passivo excede extraordinariamente a todos os seos haveres; sua ruina é completa e irremediavel, e a execução de todos os seos bens vae lhe ser immediatamente intimada.
A um aceno de Alvaro, o escrivão que o acompanhava, apresentou a Leoncio o mandado de sequestro e execução de seos bens. Leoncio arrebatando o papel com mão trémula, passeou rapidamente por elle os olhos faiscantes de cólera.
--Pois que!--exclamou elle,--é assim violenta e atropelladamente, que se fazem estas cousas! por ventura não posso obter alguma moratoria, e salvar minha honra e meos bens por outro qualquer meio?...
--Seos credores já usárão para com o senhor de todas as condescendencias e contemporisações possiveis. Saiba ainda demais, que hoje sou eu o principal, se não o unico credor seo; pertencem-me, e estão em minhas mãos quasi todos os seos titulos de divida, e eu não estou de animo a admittir transacções nem protelações de natureza alguma. Dar seos bens a inventario eis o que lhe cumpre fazer; toda e qualquer evasiva que tentar será inutil.
--Maldição!--bradou Leoncio, batendo com o pé no chão e arrancando os cabellos.
--Meo Deos!... meo Deos!... que desgraça!... e que ... vergonha!... exclamou Malvina soluçando.
Capitulo XXII.
Deixemos por um momento suspensa a scena do capitulo antecedente, e interrompido o dialogo entre os dous mancebos. Elles ahi ficão em face um do outro, como o leão altivo e magnanimo tendo subjugado o tigre daninho e traiçoeiro, que rosna em vão debaixo das possantes garras de seo antagonista. É-nos preciso explicar, por que serie de circumstancias Alvaro veio apparecer em casa do senhor de Isaura, a ponto de vir burlar os seos planos atrozes, mesmo no momento em que ião ter final execução.
Depois que Isaura lhe fôra arrebatada, Alvaro cahio na mais acerba prostração de animo.
Ferido em seo orgulho, esbulhado do objecto de seo amor, escarnecido e vilipendiado pela arrogancia de um insolente escravocrata, entregou-se ao mais sombrio desespero. Mal soube o seo revez, o D^{r}. Geraldo correo em soccorro daquella nobre alma tão cruelmente golpeada pelo destino. Graças aos cuidados e conselhos daquelle tão sollicito quão intelligente amigo, a dor de Alvaro foi-se tornando mais calma e resignada. Por suas exhortações Alvaro chegou mesmo a convencer-se, que o melhor partido que lhe ficava a tomar nas difficeis conjuncturas em que se achava, era procurar esquecer-se de Isaura.
--Todo o esforço que fizeres,--dizia-lhe o amigo,--em favor da liberdade de Isaura, será rematada loucura, que não terá outro resultado senão envolver-te em novas difficuldades, cobrindo-te de ridiculo e de humilhação. Já passaste por duas decepções bem crueis, a do baile, e esta ultima ainda mais triste e humilhante. Quasi te fizeste reo de policia, querendo disputar uma escrava a seo legitimo senhor. Pois bem; as seguintes serão ainda piores, eu te asseguro, e te farão ir rolando de abysmo em abysmo até á tua completa perdição.
Attendendo a estas e mil outras considerações de Geraldo, Alvaro procurou firmar o espirito e a vontade no proposito de renunciar ao seo amor, e a todas as suas pretensões philantropicas sobre Isaura. Foi debalde. Depois de um mez de lucta comsigo mesmo, de sempre frustradas velleidades de revolta contra os impulsos do coração, Alvaro sentio-se fraco, e comprehendeo que semelhante tentativa era uma lucta insensata contra a força omnipotente do destino. Embalde procurou, já nas graves occupações do espirito, já nas distracções frivolas da sociedade, um meio de apagar da lembrança a imagem da gentil captiva. Ella lhe estava sempre presente em todos os sonhos d’alma, ora resplendente de belleza e graça, donosa e seductora como na noite do baile, ora palida e abatida, vergada ao peso de seo infortunio, com os pulsos algemados, cravando nelle os olhos supplicantes como que a dizer-lhe:
--Vem, não me abandones; só tu podes quebrar estes ferros, que me opprimem.
O espirito de Alvaro firmou-se por fim na intima e inabalavel convicção de que o céo, pondo em contacto o seo destino com o daquella encantadora e infeliz escrava, tivera um designio providencial, e o escolhera para instrumento da nobre e generosa missão de arrebatal-a á escravidão, e dar-lhe na sociedade o elevado lugar que por sua belleza, virtudes e talentos, lhe competia.
Resolveo-se portanto, fosse qual fosse o resultado, a proseguir nessa generosa tentativa, com a cegueira do fanatismo, senão com o arrastamento de uma inspiração providencial.
Alvaro partio para o Rio de Janeiro. Já ao acaso, sem plano nenhum formado, sem bem saber o que devia fazer para chegar aos seos fins; mas tinha como uma intuição vaga de que o céo lhe depararia occasião e meios de levar a cabo a sua empreza. O que queria em primeiro lugar era collocar-se nas visinhanças de Leoncio, a fim de poder colher informações e investigar se por ventura algum recurso haveria, para obrigar o senhor de Isaura a manumittil-a.
Desembarcou na côrte com o fim de dirigir-se brevemente para Campos. Antes porém de partir para seo destino, procurou colher entre as pessoas do commercio algumas informações a respeito de Leoncio.
--Oh! conheço muito esse sujeito,--disse logo o primeiro negociante, a quem Alvaro se dirigio.--Esse moço está fallido, e em completa ruina. Se Vª. Sª. tambem é credor delle, pode pôr as suas barbas de molho, por que as dos visinhos estão a arder. Essa casa bem liquida, mal dará para um rateio, em que toque cincoenta por cento a cada credor.
Esta revelação foi para Alvaro como um relampago que se abre aos olhos do viandante extraviado em noite tormentosa, mostrando-lhe de repente e bem ao perto o albergue hospitaleiro que demanda.
--E Vª. Sª. por ventura é tambem credor desse fazendeiro?--perguntou Alvaro.
--Infelizmente, e um dos principaes...
--E a quanto montará a fortuna do tal Leoncio?
--A menos de nada presentemente, pois como já lhe disse, o seo passivo excede talvez em mais do dobro a todos os seus bens.
--Mas esse passivo mesmo, em que somma é calculado pouco mais ou menos?
--Calcula-se approximadamente em quatrocentos e tantos a quinhentos contos, em quanto que a fazenda de Campos, com escravos e todos os mais accessorios, não excederá talvez a duzentos. Já temos tido com esse fazendeiro todas as attenções possiveis, e lhe temos dado mais moratorias do que a lei concede; não somos obrigados a mais, e agora estamos resolvidos a cahir-lhe em cima com a execução.
--E quaes são os outros credores? Vª. Sª. quererá indicar-m’os.
--E por que não?--respondeo o negociante, e passou a indicar a Alvaro os nomes e moradas dos demais credores.
De feito a casa de Leoncio já desde os ultimos annos da vida de seo pae, ia em continuo regresso e desmantelamento. O velho commendador, entregando-se no ultimo quartel da vida a excessos e devassidões, que nem na mocidade são desculpaveis, vivendo quasi sempre na côrte, e deixando quasi em completo abandono a administração da fazenda, havia já esbanjado não pequena porção de sua fortuna. Por effeito da má administração não só as safras começárão a escassear consideravelmente, como tambem o numero de escravos foi-se reduzindo, pela morte e pelas frequentes fugas, sem que tanto o commendador como seo filho deixassem de substituil-os por outros novos, que ião comprando a prazo, tornando cada vez mais pesado o onus das dividas.