A escrava Isaura

Part 11

Chapter 113,957 wordsPublic domain

--Como te enganas, meo pobre Alvaro!... cuidas, que arredando o Martinho ficas por emquanto livre de perseguições e pesquizas contra a tua protegida? que cegueira!... não faltarão malsins igualmente esganados por dinheiro, que pelos cinco contos de réis, que para esses miseraveis é uma somma fabulosa, se ponhão á cata de tão preciosa presa. Agora principalmente, que o Martinho deo a alarma, e que esse negocio tem attingido a um certo gráo de celebridade, em vez de um, apparecerão cem Martinhos no encalce da bella fugitiva, e não terão mais que fazer senão seguir a trilha batida pelo primeiro.

--És muito meticuloso, Geraldo, e encaras as cousas sempre pelo lado peor. É bem provavel que peguem as patranhas inventadas pelo Martinho, e que ninguem mais se lembre de descobrir a captiva Isaura nessa moça, por quem me interesso, e embora mil malsins a procurem por todos os cantos do mundo, pouco me importará. Sempre obtenho uma dilação, que poderá me ser muito vantajosa.

--Pois bem, Alvaro; vamos que assim aconteça; mas tu não vês que semelhante procedimento não é digno de ti?... que assim incorres realmente nos epithetos affrontosos, com que obsequiou-te o tal Leoncio, e que te tornas verdadeiramente um seductor e acoutador de escravos alheios?...

--Desculpa-me, meo caro Geraldo; não posso acceitar a tua reprimanda. Ella só pode ter applicação aos casos vulgares, e não ás circumstancias especialissimas em que eu e Isaura nos achamos collocados. Eu não dou couto, nem capeio a uma escrava; protejo um anjo, e amparo uma victima innocente contra a sanha de um algôz. Os motivos que me impellem, e as qualidades da pessoa por quem dou estes passos, nobilitão o meo procedimento, e são bastantes para justificar-me aos olhos de minha consciencia.

--Pois bem, Alvaro; faze o que quizeres; não sei que mais possa dizer-te para demover-te de um procedimento, que julgo não só imprudente, como, a fallar-te com sinceridade, ridiculo, e indigno da tua pessoa.

Geraldo não podia dissimular o descontentamento que lhe causava aquella cega paixão, que levava o seo amigo a actos que qualificava de burlesco desatino, e loucura inqualificavel. Por isso longe de auxilial-o com seos conselhos, e indicar-lhe os meios de promover a libertação de Isaura, procurava com todo o empenho demovel-o daquelle proposito, pintando o negocio ainda mais difficil do que realmente o era. De bom grado, se lhe fosse possivel, teria entregado Isaura a seo senhor sómente para livrar Alvaro daquella terrivel tentação, que o ia precipitando na senda das mais ridiculas extravagancias.

Capitulo XVII.

Achando-se só, Alvaro sentou-se junto a uma mesa, e apoiando nella os cotovelos com a fronte entre as mãos, ficou a cismar profundamente.

Isaura porém, presentindo pelo silencio que reinava na sala, que já ali não havião pessoas estranhas, foi ter com elle.

--Senhor Alvaro,--disse ella chegando-se de manso e timidamente;--desculpe-me ... eu venho de certo lhe aborrecer ... queria talvez estar só...

--Não, minha Isaura; tu nunca me aborreces; pelo contrario és sempre bem vinda junto de mim...

--Mas vejo-o tão triste!... parece-me que aqui entrou mais gente, e alteravão-se vozes. Derão-lhe algum desgosto, meo senhor?...

--Nada houve de extraordinario, Isaura; forão algumas pessoas, que viérão procurar o doutor Geraldo.

--Mas então por que está assim triste e abatido?

--Não estou triste nem abatido. Estava meditando nos meios de arrancar-te do abysmo da escravidão, meo anjo, e elevar-te á posição para que o céo te creou.

--Ah! senhor, não se mortifique assim por amor de uma infeliz, que não merece taes extremos. É inutil luctar contra o destino irremediavel, que me persegue.

--Não falles assim, Isaura. Tens em bem pouca conta a minha protecção e o meo amor!...

--Não sou digna de ouvir de sua boca essa doce palavra. Empregue seo amor em outra mulher que delle seja merecedora, e esqueça-se da pobre captiva, que tornou-se indigna até de sua compaixão occultando-lhe a sua condição, e fazendo-o passar pelo vergonhoso desar de...

--Cala-te, Isaura ... até quando pretendes lembrar-te desse maldito incidente?... eu sómente fui o culpado forçando-te a ir a esse baile, e tinhas razão de sobra para não revelar-me a tua desgraça. Esquece-te disso; eu te peço pelo nosso amor, Isaura.

--Não posso esquecer-me, porque os remorsos me avivão sempre n’alma a lembrança dessa fraqueza. A desgraça é má conselheira, e nos perturba e anuvia o espirito. Eu o amava, assim como o amo ainda, e cada vez mais ... perdoe-me esta declaração, que é sem duvida uma ousadia na boca de uma escrava.

--Falla, Isaura, falla sempre, que me amas. Pudesse eu ouvir de teos labios essa palavra por toda a eternidade.

--Era um triste amor na verdade, um amor de escrava, um amor sem sorriso nem esperanças. Mas a ventura de ser amada pelo senhor era uma idéa tão consoladora para mim! amando-me o senhor me nobilitava a meos proprios olhos, e quasi me fazia esquecer a realidade de minha humilde condição. Eu tremia ao pensar que descobrindo-lhe a verdade, ia perder para sempre essa doce e unica consolação que me restava na vida. Perdoe, meo senhor, perdoe á escrava infeliz, que teve a louca ousadia de amal-o.

--Isaura, deixa-te de vãos escrupulos, e dessas phrases humildes, que de modo nenhum podem caber em teos labios angelicos. Se me amas, eu tambem te amo, por que em tudo te julgo digna do meo amor; que mais queres tu?... Se antes de conhecer a condição em que nasceste, eu te amei subjugado por teos raros encantos, hoje que sei que a tantos attractivos reunes o prestigio do infortunio e do martyrio, eu te adoro, eu te idolatro mais que nunca.

--Ama-me, e é essa idéa, que ainda mais me mortifica!... de que nos serve esse amor, se nem ao menos posso ter a fortuna de ser sua escrava, e devo sem remedio morrer entre as mãos de meo algôz...

--Nunca, Isaura!--exclamou Alvaro com exaltação;--minha fortuna, minha tranquillidade, minha vida, tudo sacrificarei para libertar-te do jugo desse vil tyrano. Se a justiça da terra não me auxilia nesta nobre e generosa empreza, a justiça do céo se fará cumprir por minhas mãos.

--Oh! senhor Alvaro!... não vá sacrificar-se por uma pobre escrava, que não merece taes excessos. Abandone-me á minha sina fatal; já não é pouca felicidade para mim ter merecido o amor de um cavalheiro tão nobre e tão amavel, como o senhor; esta lembrança me servirá de alento e consolação em minha desgraça. Não posso porém consentir, que o senhor avilte o seo nome e a sua reputação, amando com tal extremo a uma escrava.

--Por piedade, Isaura, não me martyrizes mais com essa maldita palavra, que constantemente tens nos labios. Escrava tu!... não o és, nunca o foste, e nunca o serás. Pode acaso a tyrania de um homem ou da sociedade inteira transformar em um ente vil, e votar á escravidão aquella que das mãos de Deos sahio um anjo digno do respeito e adoração de todos? Não, Isaura; eu saberei erguer-te ao nobre e honroso lugar a que o céo te destinou, e conto com a protecção de um Deos justo, por que protejo um dos seos anjos.

Alvaro não obstante ficar sabendo depois da noite do baile, que Isaura era uma simples escrava, nem por isso deixou de tratal-a dahi em diante com o mesmo respeito, defferencia e delicadeza, como a uma donzella da mais distincta jerarquia social. Procedia assim de accordo com os elevados principios que professava, e com os nobres e delicados sentimentos do seo coração. O pudor, a innocencia, o talento, a virtude e o infortunio, erão sempre para elle cousas respeitaveis e sagradas, quer se achassem na pessoa de uma princeza, quer na de uma escrava. Sua affeição era tão casta e pura como a pessoa que della era objecto, e nunca nem de leve lhe passára pelo pensamento abusar da precaria e humilde posição de sua amante, para profanar-lhe a candura immaculada. Nunca de sua parte um gesto mais ousado, ou uma palavra menos casta havião feito assomar ao rosto da captiva o rubor do pejo, e nem tão pouco os labios de Alvaro lhe havião roçado o mais leve beijo pelas virginaes e pudicas faces. Apenas depois de instantes e repetidas supplicas de Isaura, havia tomado a liberdade de tratal-a por tu, e isso mesmo quando se achavão a sós.

Sómente agora pela primeira vez, Alvaro, dominado pela mais suave e vehemente emoção, ao proferir as ultimas palavras, enlaçando o braço em torno ao collo de Isaura a cingia brandamente contra o coração.

Estavão ambos enlevados na doçura deste primeiro amplexo de amor, quando o ruido de um carro, que parou á porta do jardim, e logo após um forte e estrondoso--ó de casa!--os fizérão separar-se.

No mesmo momento entrava na sala o boleeiro de Alvaro, e annunciava-lhe que novas pessoas o procuravão.

--Oh, meo Deos!... que será isto hoje!... serão ainda os malditos esbirros?...--refletio Alvaro, e depois dirigindo-se a Isaura:

--É prudente que te retires, minha amiga,--disse-lhe; ninguem sabe o que será e não convem que te vejão.

--Ah! que eu não sirva senão para perturbar-lhe o socego!--murmurou Isaura retirando-se.

Um momento depois Alvaro vio entrar na sala um elegante e bello mancebo, trajado com todo o primor, e affectando as mais polidas e aristocraticas maneiras; mas apezar de sua belleza, tinha elle na physionomia, como Luzbel, um não sei quê de torvo e sinistro, e um olhar sombrio, que incutia pavor e repulsão.

--Este por certo não é um esbirro,--pensou Alvaro, e indicando uma cadeira ao recemchegado:--Queira sentar-se,--disse-lhe,--e tenha a bondade de dizer o que pretende deste seo criado.

--Desculpe-me,--respondeo-lhe o cavalheiro, passeando um olhar escrutador em roda da sala;--não é a Vª. Sª. que eu desejava fallar, mas sim ao morador desta casa ou a sua filha.

Alvaro estremeceo. Estava claro que aquelle mancebo, se bem que nenhuma apparencia tivesse de um esbirro, andava á pista de Isaura. Todavia no intuito de verificar, se era fundada a sua apprehensão, antes de chamar os donos da casa, quiz sondar as intenções do visitante.

--Não obstante,--respondeo elle,--como estou autorisado pelos donos da casa a tratar de todos os seos negocios, pode Vª. Sª. dirigir-se a mim, e dizer o que delles pretende.

--Sim, senhor; não ponho a menor duvida, pois o que pretendo não é nenhum mysterio. Constando-me com certeza, que aqui se acha acoutada uma escrava fugida por nome Isaura, venho apprehendel-a....

--Nesse caso deve entender-se commigo, que sou o depositario dessa escrava.

--Ah!... pelo que vejo, Vª. Sª. é o senhor Alvaro!...

--Um criado de Vª. Sª.

--Bem; muito estimo encontral-o por aqui; pois saiba tambem que eu sou Leoncio, o legitimo senhor dessa escrava.

Leoncio!... o senhor de Isaura!... Alvaro ficou como esmagado sob o peso desta fulminante e tremenda revelação. Mudo e attonito, contemplou por alguns instantes aquelle homem de sombria catadura, que se lhe apresentava aos olhos, implacavel e sinistro como Lucifer, prestes a empolgar a victima, que deseja arrastar aos infernos. Suor frio porejou-lhe pela testa, e a mais pungente angustia apertou-lhe o coração.

--É elle!... é o proprio algôz!... ai pobre Isaura!...--foi este o écho lugubre, que remurmurou-lhe dentro d’alma enregelada pelo desalento.

Capitulo XVIII.

O leitor provavelmente não terá ficado menos attonito, do que ficou Alvaro, com o imprevisto apparecimento de Leoncio no Recife, e indo bater certo na casa em que se achava refugiada a sua escrava.

É preciso portanto explicar-lhe como isso aconteceo, para que não pense que foi por algum milagre.

Leoncio depois de ter escripto e entregado no correio as duas cartas que conhecemos, uma dirigida a Alvaro, outra a Martinho, nem por isso ficou mais tranquillo. Devorava-lhe a alma uma inquietação mortal, um ciume desesperador. A noticia de que Isaura se achava em poder de um bello e rico mancebo, que a amava loucamente, era para elle um supplicio insupportavel, um cancro, que lhe corroía as entranhas, e o fazia estrebuchar em ancias de desespero, avivando-lhe cada vez mais a paixão furiosa que concebera por sua escrava. Achava-se elle na côrte, para onde, logo que teve noticias de Isaura, se dirigia immediatamente, a fim de se achar em um centro, donde pudesse tomar medidas promptas e energicas para a captura da mesma. Tendo escripto e entregue as cartas na vespera da partida do vapor pela manhã, levou o resto do dia a cismar. A terrivel anciedade em que se achava, não lhe permittia esperar a resposta e o resultado daquellas cartas, sendo muito mais morosas e espaçadas do que hoje as viagens dos paquetes naquella época, em que apenas se havia inaugurado a navegação a vapor pelas costas do Brazil. Demais ocorria-lhe frequentemente ao espirito o anexim popular--quem quer vae, quem não quer manda.--Não podia fiar-se na diligencia e boa vontade de pessoas desconhecidas, que talvez não pudessem luctar vantajosamente contra a influencia de Alvaro, o qual, segundo lho pintavão, era um potentado em sua terra. O ciume e a vingança não gostão de confiar a olhos e mãos alheias a execução de seos designios.

--É indispensavel que eu mesmo vá,--pensou Leoncio, e firme nesta resolução foi ter com o ministro da justiça, com quem cultivava relações de amizade, e pedio-lhe uma carta de recommendação,--o que equivale a uma ordem,--ao chefe de policia de Pernambuco, para que o auxiliasse afficazmente para o descobrimento e captura de uma escrava. Já de antemão Leoncio tambem se havia munido de uma precatoria e mandado de prisão contra Miguel, a quem havia feito processar e pronunciar como ladrão e acoutador de sua escrava. O sanhudo bachá de nada se esquecia para tornar completa a sua vingança.

No outro dia Leoncio seguia para o norte no mesmo vapor que conduzia suas cartas.

Estas porém chegárão ao seo destino algumas horas antes que o seo autor desembarcasse no Recife.

Leoncio apenas pôz pé em terra, dirigio-se ao chefe de policia, e entregando-lhe a carta do ministro inteirou-o de sua pretensão.

--Tenho a informar-lhe, senhor Leoncio,--respondeo-lhe o chefe,--que haverá talvez pouco mais de duas horas que daqui sahio uma pessoa autorisada por Vª. Sª. para o mesmo fim de apprehender essa escrava, e ainda ha pouco aqui chegou de volta declarando que tinha-se enganado, e que acabava de reconhecer que a pessoa, de quem desconfiava, não é e nem pode ser a escrava que fugio a Vª. Sª.

--Um certo Martinho, não, senhor doutor?...--

--Justamente.

--Devéras!... que me diz, senhor doutor?...--

--A verdade; ainda ahi estão á porta o official de justiça e os guardas, que o acompanhárão.

--De maneira, que terei perdido o meo tempo e a minha viagem!... oh! não, não; isto não é possivel. Creia-me, Sr. doutor, aqui ha patranha ... o tal senhor Alvaro dizem que é muito rico...

--E o tal Martinho um valdevino capaz de todas as infamias. Tudo pode ser; mas a Vª. Sª. como interessado, compete averiguar essas cousas.

--E é o que venho disposto a fazer. Irei lá eu mesmo verificar o negocio por meos proprios olhos, e já, se fôr possivel.

--Quando quizer. Ahi estão o official de justiça e os guardas, que ainda agora de lá vierão, e ninguem melhor do que elles pode guiar a Vª. Sª. e effectuar a captura, caso reconheça ser a sua propria escrava.

--Tambem me é preciso que Vª. Sª. ponha o--_cumpra-se_--nesta precatoria--disse Leoncio apresentando a precatoria contra Miguel--é necessario punir o patife, que teve a audacia de desencaminhar e roubar-me a escrava.

O chefe satisfez sem hesitar ao pedido de Leoncio, que acompanhado da pequena escolta, que fez subir ao seo carro, no mesmo momento se dirigio a casa de Isaura, onde o deixámos em face de Alvaro.

A situação deste não era só critica; era desesperada. O seo antagonista ali estava armado de seo incontestavel direito para humilhal-o, esmagal-o, e o que mais é, despedaçar-lhe a alma, roubando-lhe a amante adorada, o idolo de seo coração, que ia-lhe ser arrancada dos braços para ser prostituida ao amor brutal de um senhor devasso, senão sacrificada ao seo furor. Não tinha remedio senão curvar-se sem murmurar, ao golpe do destino, e ver de braços cruzados mettida em ferros, e entregue ao azorrague do algôz a nobre e angelica creatura, que unica entre tantas bellezas, lhe fizera palpitar o coração em emoções do mais extremoso e puro amor.

Deploravel contingencia, a que somos arrastados em consequencia de uma instituição absurda e deshumana!

O devasso, o libertino, o algôz, apresenta-se altivo e arrogante, tendo a seo favor a lei e a autoridade, o direito e a força, lança a garra sobre a presa, que é objecto de sua cobiça ou de seo odio, e pode fruil-a ou esmagal-a a seo talante, emquanto o homem de nobre coração, de impulsos generosos, inerme perante a lei, ahi fica supplantado, tolhido, manietado sem poder estender o braço em soccorro da innocente e nobre victima, que deseja proteger. Assim, por uma estranha aberração, vemos a lei armando o vicio, e decepando os braços á virtude.

Estava pois Alvaro em presença de Leoncio como o condenado em presença do algôz. A mão da fatalidade o socalcava com todo o seo peso esmagador, sem lhe deixar livre o minimo movimento.

Vinha Leoncio ardendo em furias de raiva e de ciume, e prevalecendo-se de sua vantajosa posição, aproveitou a occasião para vingar-se de seo rival, não com a nobreza de cavalheiro, mas procurando humilhal-o á força de improperios.

--Sei que ha muito tempo,--disse Leoncio, continuando o dialogo que deixámos interrompido no capitulo antecedente,--Vª. Sª. retem essa escrava em seo poder contra toda a justiça, illudindo as autoridades com falsas allegações, que nunca poderá provar. Porém agora venho eu mesmo reclamal-a e burlar os seos planos, e artificios.

--Artificios não, senhor. Protegi e protejo francamente uma escrava contra as violencias de um senhor, que quer tornar-se seo algôz; eis ahi tudo.

--Ah!... agora é que sei que qualquer ahi pode subtrahir um escravo ao dominio de seo senhor a pretexto de protegel-o, e que cada qual tem o direito de velar sobre o modo por que são tratados os escravos alheios.

--Vª. Sª. está de disposição a escarnecer, e eu declaro-lhe que nenhuma vontade tenho de escarnecer, nem de ser escarnecido. Confesso-lhe que desejo muito a liberdade dessa escrava, tanto quanto desejo a minha felicidade, e estou disposto a fazer todos os sacrificios possiveis para conseguil-a. Já lhe offereci dinheiro, e ainda offereço. Dou-lhe o que pedir ... dou-lhe uma fortuna por essa escrava. Abra preço...

--Não ha dinheiro que a pague; nem todo o ouro do mundo, porque não quero vendel-a.

--Mas isso é um capricho barbaro, uma perversidade...

--Seja capricho da qualidade que Vª. Sª. quizer; por ventura não posso ter eu os meos caprichos, comtanto que não offenda direitos de ninguem?... por ventura Vª. Sª. não tem tambem o seo capricho de querel-a para si?... mas o seo capricho offende os meos direitos, e eis ahi o que não posso tolerar.

--Mas o meo capricho é nobre e bemfazejo, e o seo é uma tyrannia, para não dizer uma vilania. Vª. Sª. mancha a sua vida com uma nodoa indelevel conservando na escravidão essa mulher; cospe o desrespeito e a injuria sobre o tumulo de sua santa mãe, que creou com tanta delicadeza, educou com tanto esmero essa escrava, para tornal-a digna da liberdade que pretendia dar-lhe, e não para satisfazer aos caprichos de Vª. Sª. Ella por certo lá do céo, onde está, o amaldiçoará, e o mundo inteiro a acompanhará na maldição ao homem, que retem no mais infamante captiveiro uma creatura cheia de virtudes, prendas e belleza...

--Basta senhor!... agora fico tambem sabendo, que uma escrava, só pelo facto de ser bonita e prendada, tem direitos á liberdade. Fique tambem Vª. Sª. sabendo, que se minha mãe não creou essa rapariga para satisfazer aos meos caprichos, muito menos para satisfazer aos de Vª. Sª., a quem nunca conheceo nesta vida. Senhor Alvaro, se deseja ter alguma linda escrava para sua amasia, procure outra, compre-a, que a respeito desta, pode perder toda a esperança.

--Senhor Leoncio, Vª. Sª. de certo esquece-se do lugar onde está, e da pessoa com quem falla, e julga que se acha em sua fazenda fallando aos seos feitores ou a seos escravos. Advirto-lhe, para que mude de linguagem.

--Basta, senhor; deixemo-nos de vãs disputas, e nem eu vim aqui para ser catechisado por Vª. Sª. O que quero é a entrega da escrava e nada mais. Não me obrigue a usar do meo direito levando-a á força.

Alvaro desvairado por tão grosseiras e ferinas provocações, perdeo de todo a prudencia e sangue frio.

Entendeo que para sahir-se bem na terrivel conjunctura em que se achava, só havia um caminho,--matar o seo antagonista ou morrer-lhe ás mãos,--e cedendo a essas suggestões da cólera e do desespero, saltou da cadeira em que estava, agarrou Leoncio pela góla e sacudindo-o com força:

--Algôz!--bradou espumando de raiva,--ahi tens a tua escrava! Mas antes de leval-a, has-de responder pelos insultos que me tens dirigido, ouviste?... ou acaso pensas que eu tambem sou teo escravo?...

--Está louco, homem!--disse Leoncio amedrontado.--As leis do nosso paiz não permittem o duello.

--Que me importão as leis!... para o homem de brio a honra é superior ás leis, e se não és um covarde, como penso....

--Soccorro, que querem assassinar-me,--bradou Leoncio desembaraçando-se das mãos de Alvaro, e correndo para a porta.

--Infame!--rugio Alvaro, cruzando os braços e rangendo os dentes n’um sorrir de cólera e desdem...

No mesmo momento, attrahidos pelo barulho, entravam na sala de um lado Isaura e Miguel, do outro o official de justiça e os guardas.

Isaura estava com o ouvido aguçado, e do interior da casa ouvira e comprehendera tudo.

Vio que tudo estava perdido, e correo a atalhar o desatino, que por amor della Alvaro ia commetter.

--Aqui estou, senhor!--forão as unicas palavras que pronunciou apresentando-se de braços cruzados diante de seo senhor.

--Eil-os ahi; são estes!--exclamou Leoncio indicando aos guardas Isaura e Miguel. Prendão-os!... prendão-os!...

--Vae-te, Isaura, vae-te.--murmurou Alvaro com voz trémula e sumida, achegando-se da captiva.--Não desanimes; eu não te abandonarei. Confia em Deos e em meo amor.

* * * * *

Uma hora depois Alvaro recebia em casa a visita de Martinho. Vinha este mui ancho e lampeiro dar conta de sua commissão, e sofrego por embolsar a somma convencionada.

--Dez contos!... oh!--vinha elle pensando.--É uma fortuna! agora sim, posso eu viver independente!... Adeos, surrados bancos de Academia!. adeos, livros sebosos, que tanto tempo andei folheando á toa!... vou atirar-vos pela janella a fóra; não preciso mais de vós; meo futuro está feito. Em breve serei capitalista, banqueiro, commendador, barão, e verão para quanto presto!...

E á força de multiplicar calculos de usura e agiotagem, já Martinho havia centuplicado aquella somma em sua imaginação.

--Meo caro senhor Alvaro,--veio logo dizendo sem mais preambulos,--está tudo arranjado á medida de nossos desejos. Pode Vª. Sª. viver tranquillo em companhia da gentil fugitiva, que daqui em diante ninguem mais o importunará. De feito o procedimento de Vª. Sª. nesta questão tem sido muito bello e digno de elogios; é proprio de um coração grande e generoso como o de Vª. Sª. Não se dá maior desaforo! no captiveiro uma menina tão mimosa e tão prendada!... Agora aqui está a carta, que escrevo ao lorpa do sultãosinho. Prego-lhe meia duzia de carapetões, que o hão-de desorientar completamente.

Assim fallando Martinho desdobrou a carta, e já começava a lel-a, quando Alvaro impacientado o interrompeo.

--Basta, senhor Martinho,--disse-lhe com máo humor;--o negocio está arranjado; não preciso mais de seos serviços.

--Arranjado!... como?...

--A escrava está em poder de seo senhor.

--De Leoncio!... impossivel!

--Entretanto, é a pura verdade; se quizer saber mais vá á policia, e indague.

--E os meos dez contos?...

--Creio que não lh’os devo mais.

Martinho soltou um urro de desespero, e sahio da casa de Alvaro com tal precipitação, que parecia ir rolando pelas escadas abaixo.