A escrava Isaura

Part 10

Chapter 103,901 wordsPublic domain

Pouco durou aquella primeira e desagradavel impressão. Bem depressa a compaixão, a curiosidade, o interesse, que inspira o infortunio em uma pessoa daquella ordem, e talvez tambem o amor, que nem com aquelle estrondoso escandalo pudéra extinguir-se em meo coração, fizerão-me esquecer tudo, e resolvi-me a proteger francamente e a todo o transe a formosa captiva. Apenas consegui que Isaura recobrasse os sentidos, e a vi fora de perigo, corri á casa do chefe de policia, e expondo-lhe o caso, graças ás relações de amisade, que com elle tenho, obtive permissão, para que Isaura e seo pae,--fica sabendo que é realmente seo pae,--podessem recolher-se livremente á sua casa, ficando eu por garante de que não desapparecerião; e assim se effectuou, a despeito dos bramidos do Martinho, que teimava em não querer largar a presa. Todavia no dia seguinte pela manhã, o mesmo chefe, pesando a gravidade e importancia do negocio, quiz que ella fosse conduzida á sua presença para interrogal-a e verificar a identidade de pessoa. Encarreguei-me de conduzil-a. Oh! se a visses então!... atravéz das lagrimas, que lhe arrancava sua cruel situação, transparecia em todo o seo brilho, a dignidade humana. Nada havia nella, que denunciasse a abjecção do escravo, ou que não revelasse a candura e nobreza de sua alma. Era o anjo da dor exilado do céo e arrastado perante os tribunaes humanos. Cheguei a duvidar ainda da cruel realidade. O chefe de policia possuido de respeito e admiração diante de tão gentil e nobre figura, tratou-a com toda a amabilidade, e interrogou-a com brandura e polidez. Coberta de rubor e pejo confessou tudo com a ingenuidade de uma alma pura. Fugira em companhia de seo pae, para escapar ao amor de um senhor devasso, libidinoso e cruel, que a poder de violencias e tormentos tentava forçal-a a satisfazer seos brutaes desejos. Mas Isaura, a quem uma natureza privilegiada secundada pela mais fina e esmerada educação, inspirára desde a infancia o sentimento da dignidade e do pudor, repellio com energia heroica todas as seducções e ameaças de seo indigno senhor. Emfim ameaçada dos mais aviltantes e barbaros tratamentos, que já começavão a traduzir-se em vias de facto, tomou o partido extremo de fugir, o unico que lhe restava.

--O motivo da fuga, Alvaro, a ser verdadeiro é o mais honroso possivel para ella, e a torna uma heroina; mas ... emfim de contas ella não deixa de ser uma escrava fugida.

--E por isso mesmo mais digna de interesse e compaixão. Isaura tem-me contado toda a sua vida, e segundo creio, pode allegar, e talvez provar direito á liberdade. Sua senhora velha, mãe do actual senhor, a qual creou-a com todo o mimo, e a quem ella deve a excellente educação que tem, tinha declarado por vezes diante de testemunhas, que por sua morte a deixaria livre; a morte subita e inesperada desta senhora, que falleceo sem testamento, é a causa de Isaura achar-se ainda entre as garras do mais devasso e infame dos senhores.

--E agora o que pretendes fazer?...

--Pretendo requerer, que Isaura seja mantida em liberdade, e que lhe seja nomeado um curador a fim de tratar do seo direito.

--E onde esperas encontrar provas ou documentos para provar as allegações que fazes?

--Não sei, Geraldo; desejava consultar-te, e esperava-te com impaciencia precisamente para esse fim. Quero que com a tua sciencia juridica me esclareças e inspires neste negocio. Já lancei mão do primeiro e mais obvio expediente que se me offerecia, e logo no dia seguinte ao do baile escrevi ao senhor de Isaura com as palavras as mais comedidas e suasivas, de que pude usar, convidando-o a abrir preço para a liberdade della. Foi peor; o libidinoso e ciumento Rajáh enfureceo-se e mandou-me em resposta esta carta insolente, que acabo de receber, em que me trata de seductor e acoutador de escravas alheias, e protesta lançar mão dos meios legaes para que lhe seja entregue a escrava.

--É bem parvo e descortêz o tal sultanete,--disse Geraldo depois de ter percorrido rapidamente a carta, que Alvaro lhe apresentou;--mas o certo é que, pondo de parte a insolencia...

--Pela qual ha-de me dar completa e solemne satisfação, eu o protesto.

--Pondo de parte a insolencia, se nada tens de valioso a apresentar em favor da liberdade da tua protegida, elle tem o incontestavel direito de reclamar e apprehender a sua escrava onde quer que se ache.

--Infame e cruel direito é esse, meo caro Geraldo. É já um escarneo dar-se o nome de direito a uma instituição barbara, contra a qual protestão altamente a civilisação, a moral e a religião. Porém tolerar a sociedade que um senhor tyrano e brutal, levado por motivos infames e vergonhosos, tenha o direito de torturar uma fragil e innocente creatura, só por que teve a desdita de nascer escrava, é o requinte da sceleratez e da abominação.

--Não é tanto assim, meo caro Alvaro; esses excessos e abusos devem ser cohibidos; mas como poderá a justiça ou o poder publico devassar o interior do lar domestico, e ingerir-se no governo da casa do cidadão? que abominaveis e hediondos mysterios, a que a escravidão dá lugar, não se passão por esses engenhos e fazendas, sem que, já não digo a justiça, mas nem mesmo os visinhos, delles tenhão conhecimento?... Em quanto houver escravidão, hão-de se dar esses exemplos. Uma instituição má produz uma infinidade de abusos, que só poderão ser extinctos cortando-se o mal pela raiz.

--É desgraçadamente assim; mas se a sociedade abandona deshumanamente essas victimas ao furor de seos algozes, ainda ha no mundo almas generosas, que se incumbem de protegel-as ou vingal-as. Quanto a mim protesto, Geraldo, emquanto no meo peito pulsar um coração, hei-de disputar Isaura á escravidão com todas as minhas forças, e espero que Deos me favorecerá em tão justa e santa causa.

--Pelo que vejo, meo Alvaro, não procedes assim só por espirito de philantropia, e ainda amas muito a essa escrava.

--Tu o disseste, Geraldo; amo-a muito, e hei-de amal-a sempre; nem disso faço mysterio algum. E será cousa estranha ou vergonhosa amar-se uma escrava? O patriarcha Abraham amou sua escrava Agar, e por ella abandonou Sara, sua mulher. A humildade de sua condição não póde despojar Isaura da candida e brilhante aureola, de que a via e até hoje a vejo circumdada. A belleza e a innocencia são astros que mais refulgem quando engolphados na profunda escuridão do infortunio.

--É bella a tua philosophia, e digna de teo nobre coração; mas que queres? as leis civis, as convenções sociaes, são obras do homem, imperfeitas, injustas, e muitas vezes crueis. O anjo padece e geme sob o jugo da escravidão, e o demonio exalça-se ao fastigio da fortuna e do poder.

--E assim pois,--reflectio Alvaro com desanimo,--nessas desastradas leis nenhum meio encontras de disputar ao algôz essa innocente victima?

--Nenhum, Alvaro, em quanto nenhuma prova puderes adduzir em pro do direito de tua protegida. A lei no escravo só vê a propriedade, e quasi que prescinde nelle inteiramente da natureza humana. O senhor tem direito absoluto de propriedade sobre o escravo, e só pode perdel-o manumittindo-o ou albreando-o por qualquer maneira, ou por litigio provando-se a liberdade, mas não por sevicias que commetta ou outro qualquer motivo analogo.

--Miseravel e estupida papelada que são essas vossas leis. Para illaquear a boa fé, proteger a fraude, illudir a ignorancia, defraudar o pobre e favorecer a usura e rapacidade dos ricos, são ellas fecundas em recursos e estratagemas de toda a especie. Mas quando se tem em vista um fim humanitario, quando se trata de proteger a innocencia desvalida contra a prepotencia, de amparar o infortunio contra uma injusta perseguição, então ou são mudas, ou são crueis.

Mas não obstante ellas hei-de empregar todos os esforços ao meo alcance para libertar a infeliz do affrontoso jugo que a opprime. Para tal empreza alenta-me não já sómente um impulso de generosidade, como tambem o mais puro e ardente amor, sem pejo o confesso.

O amigo de Alvaro arripiou-se com esta deliberação tão franca e enthusiasticamente proclamada com essa linguagem tão exaltada, que lhe pareceo um deploravel desvario da imaginação.

--Nunca pensei,--replicou com gravidade,--que a tal ponto chegasse a exaltação desse teo excentrico e malfadado amor. Que por um impulso de humanidade procures proteger uma escrava desvalida, nada mais digno e mais natural. O mais não passa de delirio de uma imaginação exaltada e romanesca. Será airoso e digno da posição que occupas na sociedade, deixares-te dominar de uma paixão violenta por uma escrava?...

--Escrava!--exclamou Alvaro cada vez mais exaltado,--isso não passa de um nome vão, que nada exprime, ou exprime uma mentira. Pureza de anjo, formosura de fada, eis a realidade! Pode um homem ou a sociedade inteira contrariar as vistas do creador, e transformar em uma vil escrava o anjo que sobre a terra cahio das mãos de Deos?...

--Mas por uma triste fatalidade o anjo cahio do céo no lodaçal da escravidão, e ninguem aos olhos do mundo o poderá purificar dessa nodoa, que lhe mancha as azas. Alvaro, a vida social está toda juncada de forcas caudinas, por debaixo das quaes nos é forçoso curvar-nos, sob pena de abalroarmos a fronte em algum obstaculo, que nos faça cahir. Quem não respeita as conveniencias e até os preconceitos sociaes, arrisca-se a cahir no descredito ou no ridiculo.

--A escravidão em si mesma já é uma indignidade, uma ulcera hedionda na face da nação, que a tolera e protege. Por minha parte, nenhum motivo enxergo para levar a esse ponto o respeito por um preconceito absurdo, resultante de um abuso, que nos deshonra aos olhos do mundo civilisado. Seja eu embora o primeiro a dar esse nobre exemplo, que talvez será imitado. Sirva elle ao menos de um protesto energico e solemne contra uma barbara e vergonhosa instituição.

--És rico, Alvaro, e a riqueza te dá bastante independencia, para poderes satisfazer os teos sonhos philantropicos e os caprichos de tua imaginação romanesca. Mas tua riqueza, por maior que seja, nunca poderia reformar os prejuizos do mundo, nem fazer com que essa escrava, a quem segundo todas as apparencias quererias ligar o teo destino, fosse considerada, e nem mesmo admittida nos circulos da alta sociedade...

--E que me importão os circulos da alta sociedade, uma vez que sejamos bem acolhidos no meio das pessoas de bom senso, e coração bem formado? Demais enganas-te completamente, meo Geraldo. O mundo corteja sempre o dinheiro, onde quer que elle se ache. O ouro tem um brilho, que deslumbra, e apaga completamente essas pretendidas nodoas de nascimento. Não nos faltarão nunca, eu te affianço, o respeito, nem a consideração social, em quanto nos não faltar o dinheiro.

--Mas, Alvaro, esqueces-te de uma cousa muito essencial; e se te não fôr possivel obter a liberdade de tua protegida?...

A esta pergunta Alvaro empalideceo, e opprimido pela idéa de tão cruel como possivel alternativa, sem responder palavra olhava tristemente para o horizonte, quando o boleeiro de Alvaro, que se achava postado com sua caleça junto á porta do jardim, veio anunciar-lhe que algumas pessoas o procuravão e desejavão fallar-lhe, ou ao dono da casa.

--A mim!--resmungou Alvaro; por ventura estou eu em minha casa?... mas como tambem procurão o dono desta ... faça-os entrar.

--Alvaro, disse Geraldo espreitando por uma janella,--se me não engano, é gente da policia; parece-me que lá vejo um official de justiça. Teremos outra scena igual á do baile?...

--Impossivel!... com que direito virião tocar-me no deposito sagrado, que a mesma policia me confiou?...

--Não te fies nisso. A justiça é uma deosa muito voluvel e fertil em patranhas. Hoje desmanchará o que fez hontem...

Capitulo XVI.

O primeiro cuidado de Martinho logo ao sahir do baile, em que vio mallograda a sua tentativa de apprehender Isaura, foi escrever ao senhor della uma longa e minuciosa carta, communicando-lhe que tinha tido a fortuna de descobrir a escrava, que tanto procurava.

Contava por miudo as diligencias que fizera para esse fim, até descobril-a em um baile publico, e encarecia o seo proprio merito e perspicacia para esbirro, dizendo que a não ser elle, ninguem seria capaz de farejar uma escrava na pessoa de uma moça tão bonita e tão prendada. Alterando os factos e as circumstancias do modo o mais atroz e calumnioso, dizia-lhe em phrases de taverneiro, que Miguel se estabelecera no Recife com Isaura a fim de especular com a formosura da filha, a qual, a poder de armar laços á rapaziada vadia e opulenta, tinha por fim conseguido apanhar um patinho bem gordo e facil de depennar. Era este um pernambucano por nome Alvaro, moço duas vezes millionario, e mil vezes desmiolado, que tinha por ella uma paixão louca. Este moço, a quem ella trazia illudido e engodado ao ponto de elle querer desposal-a, cahio na tolice de leval-a a um baile, onde elle Martinho teve a fortuna de descobril-a, e a teria apprehendido, e estaria ella já de marcha para o poder de seo senhor, se não fosse a opposição do tal senhor Alvaro, que apezar de ficar sabendo de que ralé era a sua heroina, teve a pouca vergonha de protegel-a escandalosamente. Prevalecendo-se das valiosas relações, e da influencia de que gozava no paiz em razão de sua riqueza, conseguio impedir a sua apprehensão, e tornando-se fiador della a conservava em seo poder contra toda a razão e justiça, protestando não entregal-a senão ao seo proprio senhor. Julga que a intenção de Alvaro é tentar meios de libertal-a, a fim de fazel-a sua mulher ou sua amasia. Julgava de seo dever communicar-lhe tudo isso para seo governo.

Era este em summa o conteúdo da carta de Martinho, a qual seguio para o Rio de Janeiro no mesmo paquete que levava a carta de Alvaro, fazendo proposições para a liberdade de Isaura. Leoncio contente com a descoberta, mas cheio de ciume e inquietação em vista das informações de Martinho, apressou-se em responder a ambos, e o mesmo paquete que trouxe a resposta insolente e insultuosa que dirigio a Alvaro, foi portador da que se destinava a Martinho, na qual o autorisava a apprehender a escrava em qualquer parte que a encontrasse, e para maior segurança remettia-lhe tambem procuração especial para esse fim, e mais algumas cartas de recommendação de pessoas importantes para o chefe de policia, para que o auxiliasse naquella diligencia.

Martinho mais que depressa dirigio-se á casa da policia, e apresentando ao chefe todos esses papeis, requereo-lhe que mandasse entregar-lhe a escrava. O chefe em vista dos documentos de que Martinho se achava munido, entendeo que não lhe era possivel denegar-lhe o que pedia, e expedio ordem por escripto, para que lhe fosse entregue a escrava em questão, e deo-lhe um official de justiça e dous guardas para effectuarem a diligencia.

Foi portanto o Martinho, que munido de todos os poderes e competentemente autorisado pela policia apresentou-se com sua escolta á porta da casa de Isaura, para arrebatar a Alvaro a cubiçada presa.

--Ainda este infame!--murmurou Alvaro entre os dentes ao ver entrar o Martinho.--Era um rugido de cólera impotente, que o angustiado mancebo arrancára do intimo da alma.

--Que deseja de mim o senhor?--perguntou Alvaro em tom secco e altivo.

--Vª. Sª., que bem me conhece,--respondeo Martinho,--já pode presumir pouco mais ou menos o motivo, que aqui me traz.

--Nem por sombras posso adivinhal-o, antes me causa estranheza esse apparato policial, de que vem acompanhado.

--Sua estranheza cessará, sabendo que venho reclamar uma escrava fugida, por nome Isaura, que não ha muito tempo foi por mim apprehendida no meio de um baile, no qual se achava Vª. Sª., e devendo eu envial-a a seo senhor no Rio de Janeiro, Vª. Sª. a isso se oppôz sem motivo algum justificavel, conservando-a até hoje em seo poder contra todo o direito.

--Alto lá, senhor Martinho! penso que não é pessoa competente para dar ou tirar direito a quem lhe parecer. O senhor bem sabe, que eu sou depositario dessa escrava, e que com todo o direito e consentimento da autoridade a tenho debaixo de minha protecção.

--Esse direito, se é que se pode chamar direito a uma arbitrariedade, cessou, desde que Vª. Sª. nada tem allegado em favor da mesma escrava. E demais,--continuou apresentando um papel,--aqui está ordem expressa e terminante do chefe de policia, mandando que me seja entregue a dita escrava. A isto nada se póde oppôr legalmente.

--Pelo que vejo, senhor Martinho,--disse Alvaro depois de examinar rapidamente o papel que Martinho lhe entregára,--ainda não desistio de seo indigno procedimento, tornando-se por um pouco de dinheiro o vil instrumento do algôz de uma infeliz mulher? Reflicta, e verá que essa infame acção só pode inspirar asco e horror a todo o mundo.

Martinho achando-se acostado pela policia, julgou-se com direito de mostrar-se aspero e arrogante, e portanto com imperturbavel sangue frio:

--Senhor Alvaro,--respondeo,--eu vim a esta casa sómente com o fim de exigir em nome da autoridade a entrega de uma escrava fugida, que aqui se acha acoutada, e não para ouvir reprehensões, que o senhor não tem direito de dar-me. Trate de fazer o que a lei ordena e a prudencia aconselha, se não quer que use de meo direito...

--Qual direito?!...

--De varejar esta casa e levar á força a escrava.

--Retira-te, miseravel esbirro!--bradou Alvaro com força, não podendo mais sopear a cólera.--Desapparece de minha presença, se não queres pagar caro o teo atrevimento!...

--Senhor Alvaro!... veja o que faz!

O D^{r}. Geraldo não achando muita razão em seo amigo, por prudencia até ali se tinha conservado silencioso, mas vendo que a cólera e imprudencia de Alvaro ia excedendo os limites, julgou de seo dever intervir na questão, e approximando-se de Alvaro, e punchado-lhe o braço:

--Que fazes, Alvaro?--disse-lhe em voz baixa,--Não vês que com esses arrebatamentos não consegues senão comprometter-te, e aggravar a sorte de Isaura? mais prudencia, meo amigo.

--Mas... que devo eu fazer?... não me dirás?

--Entregal-a.

--Isso nunca!...--replicou Alvaro terminantemente.

Conservárão-se todos silenciosos por alguns momentos. Alvaro parecia reflectir.

--Occorre-me um expediente,--disse elle ao ouvido de Geraldo,--vou tental-o.

E sem esperar resposta approximou-se de Martinho.

--Senhor Martinho,--disse-lhe elle,--desejo dizer-lhe duas palavras em particular, com permissão aqui do doutor.

--Estou ás suas ordens,--replicou Martinho.

--Estou persuadido, senhor Martinho,--disse-lhe Alvaro em voz baixa, tomando-o de parte,--que a gratificação de cinco contos é o motivo principal que o leva a proceder desta maneira contra uma infeliz mulher, que nunca o offendeo. Está em seo direito, eu reconheço, e a somma não é para desprezar. Mas se quizer desistir completamente desse negocio, e deixar em paz essa escrava, dou-lhe o dobro dessa quantia.

--O dobro!... dez contos de réis! exclamou Martinho arregalando os olhos.

--Justamente; dez contos de réis e hoje mesmo.

--Mas, senhor Alvaro, já empenhei minha palavra para com o senhor da escrava, dei passos para esse fim, e...

--Que importa!... diga que ella evadio-se de novo, ou dê outra qualquer desculpa...

--Como, se é tão publico que ella se acha em poder de Vª. Sª.?...

--Ora!... isso é sua vontade, senhor Martinho; pois um homem vivo e atilado como o senhor embaraça-se com tão pouca cousa!...

--Vá feito,--disse Martinho depois de reflectir um instante.--Já que Vª. Sª. tanto se interessa por essa escrava, não quero mais affligil-o com semelhante negocio, que a dizer-lhe a verdade bem me repugna. Acceito a proposta.

--Obrigado; é um importante serviço que vae me prestar.

--Mas que volta darei eu ao negocio para sahir-me bem delle.

--Veja lá; sua imaginação é fertil em recursos, e ha-de inspirar-lhe algum meio de safar-se de difficuldades com a maior limpeza.

Martinho ficou por alguns momentos a roer as unhas, pensativo e com os olhos pregados no chão. Por fim levantando a cabeça e levando á testa o dedo indice:

--Atinei!--exclamou.--Dizer que a escrava desappareceo de novo, não é conveniente, e iria comprometter a Vª. Sª., que se responsabilizou por ella. Direi sómente, que bem averiguado o caso, reconheci que a moça, que Vª. Sª. tem em seo poder, não é a escrava em questão, e está tudo acabado.

--Essa não é mal achada ... mas foi um negocio tão publico...

--Que importa!... não se lembra Vª. Sª. de um signal em forma de queimadura em cima do seio esquerdo, que vem consignado no annuncio? direi, que não se achou semelhante signal, que é muito caracteristico, e está destruida a identidade de pessoa. Accrescentarei mais que a moça, por quem Vª. Sª. se interessa, vista de noite é uma cousa, e de dia é outra; que em nada se parece com a linda escrava que se acha descripta no annuncio, e que em vez de ter vinte annos mostra ter seos trinta e muitos para quarenta, e que toda aquella mocidade e formosura era effeito dos arrebiques, e da luz vacillante dos lustres e candelabros.

--O senhor é bem engenhoso,--observou Alvaro sorrindo-se;--mas os que a virão, nenhum credito darão a tudo isso. Resta porém ainda uma difficuldade, senhor Martinho; é a confissão que ella fez em publico?... isto ha-de ser custoso de embaçar-se.

--Qual custoso!... allega-se que ella é sujeita a accessos de hysterismo, e é sujeita a hallucinações.

--Bravo, senhor Martinho; confio absolutamente em sua pericia e habilidade. E depois?

--E depois communico tudo isso ao chefe de policia, declaro-lhe que nada mais tenho com esse negocio, passo a procuração a qualquer meirinho, ou capitão do mato, que se queira encarregar dessa diligencia, e em acto continuo escrevo ao senhor da escrava communicando-lhe o meo engano, com o que elle por certo desistirá de procural-a mais por aqui, e levará a outras partes as suas pesquizas. Que tal acha o meo plano?...

--Admiravel, e cumpre não perdermos tempo, senhor Martinho.

--Vou já neste andar, e em menos de duas horas estou aqui de volta, a dar parte do desempenho de minha commissão.

--Aqui não, que não poderei demorar-me muito. Espero-o em minha casa, e lá receberá a somma convencionada.

--Podem-se retirar,--disse Martinho ao official de justiça e aos guardas, que se achavão postados do lado de fora da porta.--Sua presença não é mais necessaria aqui. Não ha duvida!--continuou elle comsigo mesmo;--isto vae a dobrar como no lansquenet. Esta escrava é uma mina, que me parece não estar ainda esgotada.

E retirou-se esfregando as mãos de contentamento.

--Então, que arranjo fizeste com o homem, meo Alvaro?--perguntou Geraldo, apenas Martinho voltou as costas.

--Excellente,--respondeo Alvaro;--a minha lembrança surtio o desejado effeito, e ainda mais do que eu esperava.

Alvaro em poucas palavras deo conta ao seo amigo do mercado que fizera com o Martinho.

--Que caracter desprezivel e abjecto o deste Martinho!--exclamou Geraldo.--De um tal instrumento não se pode esperar obra que preste. E julgas ter conseguido muita cousa, Alvaro, com o passo que acabas de dar?...

--Não muito, porém alguma cousa sempre posso conseguir. Pelo menos consigo deter o golpe por algum tempo, e como diz lá o rifão popular, meo Geraldo, em quanto o páo vae e vem, folgão as costas. Emquanto Leoncio, persuadido que a sua escrava não se acha aqui no Recife, a procura por todo esse mundo, ella aqui fica tranquillamente á minha sombra, livre das perseguições e dos máos tratos de um barbaro senhor; e eu terei tempo para activar os meios de arranjar provas e documentos, que justifiquem o seo direito á liberdade. É quanto me basta por agora; quanto ao resto, já que pareces julgar a minha causa irremissivelmente perdida, a justiça divina me inspirará o modo por que devo proceder.