A brazileira de Prazins: scenas do Minho.

Part 14

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_Os cabellos da sua cabeça são como o ouro mais puro e mais precioso, são como palmitos e pretos como o corvo. Se não entendeis, filhas de Jerusalém, nem eu vo'l'o saberei explicar; o que vos digo e que os seus cabellos são fortes laços que bastam para prender a todo o mundo, bastam para abrazar tudo de amor. Ai! amado do meu coração, se as admirações do que sois abrazam a alma, que vos vê por enigmas, que será quando vos vir claramente! Os seus olhos são como pombas sobre correntes de aguas, mansos, puros, suaves, benignos, amorosos. Que magestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces, que suaves! Oh dulcissimo amor, já que tanto fechais os olhos para não serem vistos, ao menos não os fecheis para me não verem! As suas faces são como canteiros de flores aromaticas, sempre bellas, sempre cheirosas; passam os dias, os mezes e os annos, e os seculos, e as faces do meu amor sempre são flores, nem o sol as murcha nem o frio as corta, nem a agua as corrompe, nem o vento as desfolha; são rosas, são assucenas, são brancas e encarnadas. Oh! quem me dera uma gota da agua que as rega, um grão do calor que as vivifica; quem me dera que o jardineiro que as compõe me quizera semear umas flores no meu jardim e tomar á sua conta compôl-as e regal-as, que o meu amado gosta muito de flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo, peixes do mar, viventes da terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro. Mas que digo, se este mesmo é o amado a quem busco e não mereço achar! Ó saudade ardente, ó sede matadora, ó setta penetrante, ó amor escondido! Que fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho é ser amado, por que a minha ventura está em vos ter amor, como escondeis o mesmo que me havia de enamorar? Os seus labios são lirios, que distillam myrra excellente, lirios de pureza d'onde sahem palavras que inflammam no amor da mortificação. Oh! se fôra tão ditosa minha alma que recebêra alguma parte da myrra que distillam teus lirios! Oh! se foram tão felizes meus olhos que viram a engraçada côr de taes labios! Aonde estaes escondido, amado do meu coração? Não sahem por esses labios as palavras com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da cidade: «Se algum é pequenino venha para mim?» Logo, como vos escondeis d'esta pequenina pobre e necessitada que com tanto empenho vos busca? Suas mãos são como de ouro feitas ao torno e cheias de jacintos, todas perfeitas, todas preciosas; mas reparai, filhas de Jerusalém, e por aqui vos será mais facil conhecêl-o, que, no meio do ouro e jacintos, tem em cada mão um precioso rubi que a passa de uma para a outra. O seu peito e entranhas são de marfim ornadas de safiras, dando a conhecer a côr celeste da safira, a branca do marfim e sua dureza, que os seus affectos são puros, candidos, castos, virginaes, fortes, celestiaes e divinos, sinceros, compostos, solidos e constantes. Ó peito de amor, entranhas de piedade, como assim vos fechaes para quem vos ama? Aqui deve de haver mysterio! Gostaes talvez de me vêr afflicta para provar se sou amante! Quereis que me custe muito o que muito vale, porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez pouco caso do que não tem preço. Mas aí, amado meu, que, se me não dizeis aonde passaes a sesta ao meio dia, temo que, andando vagabunda, venha a cahir nas mãos dos vossos contrarios! A sua apparencia é como a do Libano, a sua composição como a do cedro; em Judéa o monte mais formoso é o Libano, no Libano a arvore mais excellente é o cedro: assim é o meu amado entre os filhos dos homens. A sua garganta é suavissima, porque sahem por ella as vozes, as respirações do peito, que é archivo de amores e suavidades; em fim todo é formoso, todo perfeito, todo amavel. Tal é o meu amado, este é o meu amigo, filhas de Jerusalém, creaturas da terra; se o achardes, dizei-lhe que morro d'amor_...

Martha dizia a oração em voz alta, em modulações cantadas, n'um arrobamento de _preghiera_. Aquelles dizeres, alinhavados pelo varatojano, são extractos e imitações das escandecencias erothicas do poema dramatico da _Sulamita_ no «Cantico dos Canticos»--os trêchos mais lyricamente sensuaes da antiguidade hebraica. Elles deram o tom de todas as exaltações nevroticas, desde os extasis hystericos de Thereza de Jesus até ás allucinações da beata Maria Alacoque e da portugueza madre Maria do Céo, a cantora dos passarinhos de Villar de Frades. D'esta peçonha doce, elanguecente, vibratil e enervante, cheia de meiguices epidermicas de um corpo nú em frouxeis de arminhos, é que se fizeram uns Manuaes modernos em França por onde as adolescentes principiam a conversar com Jesus e a comprehendêl-o em linhas correctas, sob plasticas macias, a esperal-o, a desejal-o, como lh'o figuram com todas as pulsações, redondezas e flexibilidades da carne.

Martha, entre o Deus incomprehensivel e o Christo-homem, via um ser tangivel, o seu unico termo de comparação--o José Dias, esposo da sua alma e dominador dos seus nervos reaccendidos e abraseados pela saudade. Nas apostrophes a Jesus, palpitavam-lhe nitidas as curvas do amante que a ouvia de entre as nuvens, n'uma clareira azul, com a sua lividez marmorea e os anneis dos cabellos louros esparsos como nas cabeças dos cherubins. Tinha aquelle namoro no céo quando abria a pagina do livro com que o confessor lhe dissera que havia de exorcisar as tentações voluptuosas da sua alma e do seu corpo.

XIX

Frei João não se entendia já com a sua confessada. Deviam ser grandemente disparatadas as revelações de Martha para que o varatojano desconfiasse que ella estava obsessa e que as suas visões deviam ser malfeitorias de demonio incubo. Feliciano discordava da opinião do inexoravel exorcista, quando elle o interrogava sobre miudezas de alcôva. O marido contava singelamente que sua mulher passava a maior parte do dia a rezar pelo livro no oratorio; que tinha dias de comer bem e outros dias de não comer nada; que não dava palavra ás creadas, nem se mettia no governo da casa; que com elle tambem fallava pouco, e não desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama com elle. Verdade era que ás vezes elle acordava e a via sentada com os olhos postos no tecto.

--Pois é isso...--atalhava o varatojano.

--É isso quê, snr. frei João?--perguntava o marido.

O confessor não podia explicar-se. O seu praxiste Brognolio, ampliado pelo padre-mestre arrabido frei José de Jesus Maria, admoestava-o a occultar de terceiras pessoas os signaes evidentes da obsessão de uma alma, sem estar devidamente apparelhado para o combate e na presença do inimigo. O apparelho, n'este caso, era a estola, a agua-benta, o latim--uma lingua familiar ao diabo. Além dos preceitos da arte, havia a inviolabilidade do segredo da confissão; e uma caridade decente aconselhava que Feliciano ignorasse as tentativas adulteras do demonio incubo, figurado na pessoa espectral do José Dias. Com o vigario de Caldellas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a brazileira de Prazins estava possessa, muito gravemente energumena. O padre Osorio abriu um sorriso importuno, d'estes que vem de dentro em golfos involuntarios como a nausea d'um embarcadiço enjoado. O egresso reparou no tregeito heretico da bocca do padre, e perguntou-lhe se tinha alguma duvida a pôr.

--Uma pequena duvida, snr. frei João, respondeu intemeratamente o vigario.--Não posso acceitar que o diabo, sendo filho de Deus, seja o ente perverso que faz soffrer a pobre Martha...

--_O diabo, filho de Deus_!--interrompeu o varatojano, levando as mãos inclavinhadas á testa. Padre Osorio, o snr. disse uma blasfemia enorme... Santo nome de Jesus! O _diabo filho de Deus_! Anathema!

--Anathema á logica, ao raciocinio, por tanto!--contraveio sereno e risonho o outro.

--A logica? a logica de Calvino, de Voltaire.

--Não, senhor, a logica do professor que m'a ensinou no seminario bracharense. Creador não é pai?

--É sim, e d'ahi?

--Deus é pai de todas as suas creaturas; ora o diabo é creatura de Deus; logo: Deus é pai do diabo.

--_Distinguo_!--contrariou o varatojano.

E o vigario, sem attender á interrupção escolastica:

--Se Deus é bom, as suas creaturas não podem ser más; ora, o demonio é máo: logo, o demonio não póde ser creatura de Deus; mas, se o diabo não é creatura de Deus, pergunto eu o mesmo que um negro da Africa perguntava ao missionario: Quem é o pai do diabo?

--_Distinguo_!--insistiu o varatojano apoiado nas velhas formulas da dialectica esmagadora--Deus creou os anjos; d'estes houve alguns que se rebellaram contra o seu creador, e foram precipitados do céo: são os espiritos infernaes. Alguns d'esses anjos não desceram ás trevas inferiores, e permanecem para flagello do genero humano no ar caliginoso. _Aer caliginosus est quasi carcer dœmonibus usque in diem judicii_, diz S. Agostinho. Deus permitte que os demonios vexem as creaturas, pelo bem que póde resultar ás creaturas d'esse vexame. É o que se colhe do Evangelho de S. João: _Omnia per ipsum facta sunt_. Por tanto, Deus permitte o mal? logo: este mal é bom, por que Deus é o Summo Bem. Verdade é que os males não são bens...

--Ia eu dizer...--atalhou o padre Osorio; ao que o missionario acudiu prestes e victoriosamente:

--Mas Deus tira os bens d'esses mesmos males, como diz S. Thomaz: _Bonum invenire potest sine malo, sed malum non potest invenire sine bono_. Logo: Deus permitte o mal como causa do bem; _id est_, permitte o demonio como exercitação saudavel do genero humano. _Melius judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere_, diz D. Agostinho: e S. Thomaz ainda é mais claro e persuasivo: «A divina sabedoria permitte que os demonios façam mal pelo bem que d'ahi resulta.» _Divina sapientia pennittit aliqua mala tieri per malos Angelos propler bona quæ ex eis elicit_. São doze as causas por que Deus permitte que os demonios atormentem as creaturas humanas. Primeira: para que o homem obstinado na culpa seja n'este mundo e no outro atormentado; segunda...

--Estou convencido, snr. frei João--atalhou o vigario,--vossa reverencia já esclareceu a minha duvida. É o caso que Deus permitte demonios flagellantes para depurar com elles os peccadores,--uns e outros creaturas da sua divina justiça.

--É isso mesmo.

--O espirito do máo homem--do peccador que é em si um demonio interno, depura-se pela acção de outro demonio externo, ambos creaturas do seu divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus é como um pai que azorraga o seu filho querido a vêr se elle recebe as mortificações como caricias. Rico pai!--E accrescentou com amargura:--Ah! meu frei João, receio muito que as superstições venham a desabar o catholicismo que deve a sua existencia á victoria que alcançou sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade. _Ego sum veritas_.

Frei João ia fulminar segunda vez a argumentação do padre Osorio, quando os outros missionarios chegavam, para assistirem ao jantar de despedida em casa da brazileira.

Fechára-se a missão; os padres iam d'ali para Barcellos; mas frei João, empenhado em desendemoninhar a pobre Martha, hospedou-se na quinta da Revolta, em cuja capella celebrava missa e confessava as suas filhas espirituaes insaciaveis do pão dos anjos, que digeriam n'uma vadiagem dorminhoca, amesendadas nos adros das egrejas e nos soalheiros, catando as proprias pulgas e as vidas alheias.

Frei João andava apercebido com todos os utensilios infestos ao diabo. Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energumena das mais provadas armas nos seus triumphos sobre o inferno. Lançou-lhe ao pescoço um santo lenho, um breve da Marca, a veronica do S. Bento, o Symbolo de Santo Athanasio, cruzinhas de Jerusalém, veronica com a cabeça de Santo Anastacio, reliquias de varios santos, umas esquirolas de ossos grudadas em farrapinhos, orações manuscriptas da lavra do varatojano, mettidas em saquinhos surrados da transpiração d'outras obsessas.

Martha devia jejuar, como preparatorio. Parece que o demonio se compraz de habitar estomagos confortados na quentura do bôlo alimenticio. O exorcista jejuava tambem conforme o preceito dos praxistas, e aconselhava ao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus que dissera pela bocca de S. Matheus que «taes diabos, sem jejum nem oração, não sahiam do corpo:» _Hoc genus demoniorum in nullo potest exire nisi oratione et jejuino_. O Feliciano dizia que sim, que jejuava; mas, ás escondidas do frade, comia bifes de presunto com ovos; começava a revelar idéas egoistas, um cuidado da sua alimentação e do seu repouso, certo desprezo cynico pela parte que o diabo tomára na sua familia.

Frei João de Borba da Montanha expendeu ao vigario de Caldellas os fortes symptomas que Martha apresentava de estar possessa. Eram muitos, e bastava-lhe citar os seguintes:

Ouvir a voz de José Dias que a chamava, no sonho e na vigilia. E mostrava o texto: _quando patiens audit quasdam voces se vocantes_. Por que aborrecia a carne e o pão, e tinha grande fastio. O Osorio lembrava-lhe que seriam enôjos peculiares da gravidez; mas o varatojano confundia-o com o latim. _Quando quis non potuit gustare panem aut carnem_. Ella digeria com muita difficuldade os alimentos. Era obra do diabo, por que o livro dizia,--bem vê--mostrava frei João ao padre Osorio: _Quando quis sanus cibum digerere non potest in stomacho_. Chorava e não dizia por que chorava. Diabrura com toda a certeza:--_Quando lacrymas plorat et nescit quid ploret_. Havia um artigo que accentuava as mais fortes presumpções da obsessão incuba de Martha. Parece que ella no confissionario se accusava de repugnancias, de concessões violentadas, de resistencias ás caricias do esposo: e talvez revelasse que a imagem de José Dias intervinha n'essas luctas da alcova. É o que se deprehende do _Signal_ decimo terceiro que frei João mostrava com o dêdo no seu _Brognolo_, e vai em latim, como lá está, para que poucas pessoas possam alegar intelligencia:--_Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non potest, quia videt aliud corpus intermedium, aut sibi videtur esse_.--Aqui é onde bate o ponto!--dizia frei João martellando com o dedo indicador na pagina indecente.

--Mas não será essa visão o introito de uma alienação mental?--perguntava o de Caldellas.--Não vê, padre João, que esta rapariga está abatida por uma grande amargura que prende com actos da sua vida passada? Não a vê tão cahida, tão melancolica...

--Os melancolicos são os mais vexados pelo demonio--replicou o egresso. Veja Galeno e Avicena, que aqui vem citados.--E folheou o Brognolo, até encontrar o texto triumphal.

--Aqui tem; leia, verá que a demencia póde ser obra do demonio.

O padre Osorio leu com uma grande ignorancia curiosa: _Os demonios acommettem mais os melancolicos. Primeiro, porque o humor melancolico com difficuldade se tira e é de sua natureza inobediente e rebelde. Segundo, porque o humor melancolico é mais apto para gerar diversas enfermidades incuraveis, porque, se é muito enxuto, offende as membranas do cerebro e faz ao homem doudo; se offende os ventriculos causa apoplexia, e gera raivas, frenesis e odios; e estes effeitos de melancolia muitas vezes os costuma causar o demonio_, etc.

--O padre Osorio está-se a rir?!--invectivou fr. João abespinhado. Sabe o snr. que mais? Eu já tinha ouvido dizer ao abbade de S. Thiago d'Antas que o snr. padre vigario de Caldellas não era muito seguro em materia de fé; que tinha um bocado de fedor heretico nas suas predicas, e que dava mais importancia á quina do que aos santos milagrosos na cura das maleitas.

--Se isso fede a heresia, então, snr. frei João, estou de todo pôdre--obtemperou Osorio, e continuou deixando impar de espantada indignação o missionario.--A respeito da enfermidade de Martha, sou a dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem banhos de chuva, calmantes, distracções; e, baldados estes recursos, que a internassem n'um hospital de alienadas, porque esta mulher é filha de uma douda, é neta de outros doudos, e pouco ha-de viver quem a não vir de todo mentecapta. Além de herege sou propheta, meu caro senhor frei João. A sua energumena tem infelizmente o demonio que raras vezes a sciencia vence--o demonio da demencia hereditaria que a não se curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a agua benta. Seria bom que vossa reverencia, antes de pôr á prova os exorcismos, ouvisse a opinião dos medicos.

--Eu sei o que dizem os medicos--e sorria com menospreço da pobre medicina. Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com este remedio que não inventei, mas que a egreja de nosso Senhor Jesus Christo me deixou, e que elle mesmo, o divino Mestre usou, como o senhor padre Osorio deve ter lido nos seus Evangelhos ... ou nega a auctoridade dos Evangelhos? Nega que Jesus Christo expulsava demonios?

--Não senhor, eu sei a historia da legião que se metteu nos porcos...

--E outras; os livros sagrados estão cheios d'esses _factos_ a que o padre Osorio chama _historias_; não são historias, são factos.

--Ah! snr. frei João! Jesus Christo, a sua vida e os seus milagres não são historia? não pertencem á historia? Máo é isso então!

A polemica prolongou-se um tanto azeda; Osorio escandalisava os pios ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no céo, exclamava com S. Paulo que era necessario que houvesse escandalos. Interrompera-os o brazileiro dizendo que a sua sobrinha estava com um ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na alcôva para onde a tinham levado em braços, e o padre Osorio ficou ouvindo a revelação da governanta, que lhe dizia:

--A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no tanque a passar uns lenços por agua quando ella entrou no pomar sem fazer caso de mim, como se ali não estivesse viva alma. E vae depois poz-se a cortar rosas e a dizer que eram para o seu amado José Alves, para o seu esposo José Alves. V. S.ª não me dirá quem diacho, Deus me perdôe, é este José Alves?

--E depois?

--Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das rosas muito chegado á cara e d'ahi a pouco cahiu para o lado a dar aos braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e levamol-a para o quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto a mim, acho que foi derriço que ella teve em solteira. Já ouvi dizer que a casaram com o arenque do tio contra vontade... É o que tem estes casamentos...

O padre Osorio não illucidou a governante. Assim que o Feliciano lhe disse que se iam lêr os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres parochiaes, e observou-lhe:

--Não deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos, snr. Prazins. O demonio que ella tem é a doença. Faça o que lhe disse o padre mestre Roque que é um velho illustrado e virtuoso. Vá dar um giro com ella. Leve-a á capital; demore-se por lá; e, quando a vir distrahida, contente e com bom appetite, volte para sua casa.

O brazileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram chérinolas; mas que o frade se lhe mettera em casa, e dizia que não se ia embora sem curar ella. Accrescentou que não podia agora sahir do Minho porque estava á espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na batota do Porto a sua parte de alguns contos de réis, que acharam por morte do pai;--que lhe convinha muito comprar a quinta da Ermida que partia com a d'elle, e havia outro brazileiro que a trazia d'olho. Que a respeito da sobrinha tencionava leval-a a banhos do mar, e havia de comprar o Manual do Raspail, a vêr o que elle dizia da molestia, porque em Pernambuco toda a casta de doença se curava pelo Raspail, e que levasse o diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos.

--Que sim, que comprasse o Manual do Raspail--concordou o padre Osorio, e sahiu muito cançado--dizia elle á irmã--de lidar com as duas cavalgaduras.

XX

Martha estava no quarto, onde tinha o seu oratorio de pau preto com frizos dourados, e dentro uma antiga esculptura em marfim d'um Christo dignamente representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia uma vela de cêra benzida. Frei João entrára de sobrepeliz e estola: seguiam-no o Feliciano com uma vela de arratel acceza, e o Simeão com a caldeirinha da agua-benta. Martha, com um pavor na vista, tremia, de pé, encostada á commoda. O exorcista sentou-se, e chamou a energumena com um gesto imperativo de cabeça. Ella aproximou-se hesitante e ajoelhou. Fr. João compoz o semblante e deu á voz uma toada lugubre em conformidade com a rubrica de Brognolo--_com grave aspecto e voz horrivel_, diz o demonómano. Começou por exercitar o _Preceito provativo_, a vêr se havia effectivamente demonio. E então bradou, fazendo estremecer Martha: _In nomine Jesu Christi. Ego Joannes est minister Christi_... Vinha a dizer, em vulgar, ao demonio ou aos espiritos immundos, _vet vobis spiritis immundis_, que, se estavam no corpo d'aquella creatura, dessem logo um signal evidente, ou vexando-a, ou movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus lhe fosse permittido _eo modo quod a Deo juerit permissum_. Martha estava retranzida d'um sagrado horror, posto que não percebesse do latim do padre senão _demonio_ e _espiritos immundos_. Nunca lhe tinham dito que ella estava endemoninhada, e á sua mentalidade faltava-lhe n'este alance a força convincente e a energia da palavra para combater o engano do seu confessor. Não tinha vigor de caracter nem rudimentos de intelligencia para reagir. Educada em melhores condições, succumbiria com a mesma vontade inerte sob a violencia do confessor. Ha condescendentes humildades mais vergonhosas sem o diagnostico da demencia que as desculpe. Ella estava de joelhos; mas, não podendo suster-se, sentou-se n'um arfar de suspiros, anciada, até que as lagrimas lhe explodiram n'uma torrente.

Frei João fez um tregeito de satisfação, um agouro de victoria, e poz-lhe o _Preceito lenitivo_: «Que a vexação cessasse immediatamente--impunha elle aos demonios malditos--e toda a afflicção causada por elles» _et omnia afflictio a vobis causata_. E atacou logo os demonios com o _Preceito instructivo_ «que immediatamente a prostrassem na presença d'elle, se ella estava possessa» _et statim coram me illam prosternatis_. Martha, com effeito, estava prostrada, com a face no pavimento, estirando os braços no paroxismo epileptico, e o collo e o tronco hirtos n'uma inflexibilidade tetanica.

--Não ha que duvidar--disse o exorcista ao marido e ao pai da possessa.--Levem-na d'aqui e depois continuaremos.

Martha, passado o lethargo, disse ao tio que mal se lembrava do que passára no oratorio com o snr. frei João; mas que lhe tinha mêdo, que não queria mais confessar-se com elle.

--Cada vez mais provado que está obsessa. Já não é ella quem falla; é o demonio que me teme!--exclamou o exorcista com uma santa basofia, refutando as vacillações um pouco scepticas do brazileiro; ao passo que o Simeão asseverava que a filha tinha o demonio; porque a sua defunta mulher tambem o tinha, e se deitára ao rio porque nunca quizera que lhe fizessem as rezas.

Ao outro dia, vencidas as repugnancias de Martha, continuou o exorcista, carranqueando cada vez mais e pondo vibrações horrorosas na larynge. Deu-lhe a ella o seu Brognolo para que lêsse em voz alta os _Preceitos que a creatura vexada pôde pôr ao demonio_. Martha, de joelhos, diante do oratorio, leu: _Demonio maldito, eu como racional creatura de Deus, redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar se humanou, cheia de fé, te mando em virtude do santissimo nome de Jesus, que logo me obedeças e me atormentes levemente, ou fazendo tremer o meu corpo ou lançando-o em terra, deixando me em meu juizo_.

O corpo de Martha visivelmente tremia; ella deu o livro ao exorcista com um arremesso impaciente, e murmurou soluçante:

--Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Christo!

Frei João sorriu-se, e resmuneou á orelha do Feliciano--o maldito serve-se do nome de Christo para me afastar! Eu vou escangalhar-te, Satanaz!