A brazileira de Prazins: scenas do Minho.

Part 13

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Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:

--Emfim, você ganha a casa, compadre, porque mátava Zéférino, se os outros não matam elle, hein?

XVII

Celebrou-se o casamento na capella da quinta da Retorta. Foi o vigario de Caldellas o ministro do sacramento, D. Thereza madrinha, e o padrinho veio do Porto, o barão do Rabaçal, um gordo, casado com as brancas carnes velludosas da filha do Eusebio Macario. O padrinho, muito faceiro, dizia ao Feliciano:--Mi pérdoe, amigo Prázins, você si casa com minina mágrita, muito sêcca di encontros. A mi mi dá na tineta para gostar das redondinhas, hein? É a minha philosophia. A mulher si quer roliça, de manêras que a gente ache nos braços ella.

O devasso fazia córar o casto noivo. A Martha, á sobremesa, não lhe percebia umas graçolas obrigatorias em bodas canalhas, que faziam nauseas á aristocratica D. Thereza, muito pontilhosa em não admittir equivocos. O vigario achava no barão a salôbra brutalidade que faz nos intelligentes a cocega do riso que o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o portuguez snr. Luiz d'Araujo nem sempre conseguem quando querem.

A Martha, n'uma tristeza inalteravel, desde que sahiu da egreja. Ao fim da tarde, fechou-se com D. Thereza no seu quarto, abriu o bahu, e tirou do fundo o pacotinho das cartas do José Dias, e disse-lhe:--A senhora ha-de guardal-as; e, quando eu morrer, queime-as, sim?

--E se eu morrer adiante de ti?--perguntou D. Thereza risonha.

--Diga então ao snr. padre Osorio que as queime: porque olhe--e abraçou-se n'ella a chorar, a soluçar--eu ... eu morro, ou endoudeço. Cheguei a esta desgraça; estou casada para fazer a vontade a meu pai, cuidando que elle morria; não sei como hei-de sahir d'isto senão acabando de vez ou perdendo o juizo como a minha mãe ... bem sabe como ella acabou.

D. Thereza Osorio banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas que se dizem ao commum das meninas casadas com maridos repugnantes e ricos.--Que se havia de affazer, que tudo esquecia com o tempo. Ella, um pouco aristocrata por bastardia, não acreditava em melindres de sentimentalidade na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida airada. O apaixonar-se pelo Dias, um bonito rapaz d'aldeia, parecia-lhe trivial; tentar suicidar-se quando elle morreu, para uma senhora lida em novellas romanticas, era um caso ordinario e pouco significativo; porém, condescender com a vontade do pai, casando com o tio, pareceu-lhe um acto de condição plebea, a natureza reles da filha do Simeão que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestações de uma indole artificialmente delicada.

O padre comprehendia mais humanamente Martha, dizendo á irmã:--Ella quando consentiu em casar com o tio já estava doente da molestia nervosa que a ha-de levar ao suicidio. D. Thereza, com o seu criterio um pouco adulterado pelas excentricas heroinas de Sue e Dumas, não podia entroncar aquella rapariga d'uma aldeia minhota na genealogia d'essas parisienses naufragadas em romanescas tempestades. E de mais, se Martha, como o irmão dizia, estava sob a influencia da loucura, a sua desgraça parecia-lhe uma doença e não uma tragedia, segundo as exigencias de uma senhora que tinha lido o mais selecto da bibliotheca romantica franceza desde 1835 a 1845--tudo o que ha de mais falso e tolo na litteratura da Europa. D. Thereza queria mais drama na desgraça de Martha; porque, se alguma poesia elegiaca lhe concedêra pela tentativa de matar-se, toda se resolvia em chilra prosa pelo facto de a imaginar no thalamo conjugal com o arganaz do tio.

Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldellas a fim de dizer a missa de madrugada, e deixára a irmã a pedido de Martha; o barão do Rabaçal escancarava a bocca n'uns bocejos ruidosos e levantava uma perna espreguiçando-se; o noivo olhava para o mostrador do relogio collado aos olhos; e Martha, muito aconchegada de D. Thereza. queixava-se de caimbras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via faiscas no ar, e tinha muito calor na cabeça. D. Thereza dizia-lhe que se fosse deitar, que precisava de recolher-se. Martha pedia-lhe que a deixasse ir dormir ao pé d'ella, pedia-lh'o pela alma de sua mãe, pela vida de seu irmão.

A hospeda comprehendia, compadecia-se, receava o ataque epileptico, precedido sempre das faiscas e caimbras de que se queixava a noiva; mas não sabia como dirigir-se ao marido de Martha a pedir-lhe que se fosse deitar sósinho. Nos seus numerosos romances não achára um episodio d'esta especie. Interveio na critica conjunctura o Simeão, dizendo á filha:

--São horas de ir á deita. O teu marido está a cahir com somno.

Martha fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de colera, n'um arremesso de cabeça erguida, e com os labios a crisparem. Era a nevrose epileptica. Seguiram-se as convulsões, o espumar da bocca, um paroxismo longo de vinte minutos. D. Thereza pediu que a ajudassem a leval-a para a sua cama, e disse com fidalga impertinencia ao Simeão que a deixassem com ella, e não lhe fallassem no marido. Simeão coçava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao barão que a sua sobrinha era atreita áquelles ataques; mas que o cirurgião lhe dissera que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaçal notou que o remedio então bom era, e seria bom começal-o quanto antes. Disse mais chalaças a proposito e foi-se deitar. Feliciano ainda foi saber como estava a esposa; mas já não havia luz no quarto de D. Thereza. Reoolheu-se á cama, e continuou mais uma noite no seu leito solitario, virginalmente.

D. Thereza sentia-se mal, n'um embaraço quasi ridiculo, n'aquelle meio. Martha não a largava, parecia uma creança espavorida, agarrada ao vestido da mãe, assim que ouvia os passos do tio. Elle, muito carinhoso, com o monoculo no olho direito, a offerecer-lhe castanhas d'ovos, toicinho do céo, a pegar-lhe da mão e a fazer-lhe festas no rosto muito córado de pudor. D. Thereza discretamente deixou-os sósinhos. A Martha ficou a olhar para a porta por onde a amiga se evadira, e fazia uns gestos de quem meditava raspar-se; mas o marido tinha-a segura pelas mãos mimosas, beijando-lh'as ambas com uma sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito commedida, estendendo os beijos quentes e humidos até aos pulsos lacteos e redondinhos. Martha, n'uma impassibilidade, não se recusava ás caricias, e pareceu mesmo inclinar um pouco o rosto quando o esposo com um bom sorriso do amor dos quinze annos lhe pediu um beijinho, que foi mais demorado do que era de esperar da sua candura e da inexperiencia de taes delicias. Estavam ambos rosados; mas o rubor de Martha era carminado de mais e nos seus olhos havia uma rutilação vaga pela extensão da grande sala. Ella via a sombra de José Dias: era o José Dias em pessoa, dizia ella depois a D. Thereza, quando recuperou os sentidos, e não sabia como a transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de que o tio, depois que a beijára no rosto, a levára pelo braço e entrára com ella no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braços com muita força, não a deixando fugir e suffocando-lhe os suspiros com os beijos. Não se lembrava de mais nada. E D. Thereza, quanto cabia na sua alçada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto é que o marido a fôra chamar ao laranjal, um pouco afflicto, dizendo que a sua esposa estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz.

Padre Osorio veio jantar e buscar a irmã. Observou no aspecto do brazileiro uma irradiação de felicidade, o jubilo de um homem que se sentia impavidadamente completo, na integridade da sua missão phyloginia. Foi então que o padre assentou as suas theorias um pouco fluctuantes ácerca das vantagens da castidade em beneficio das impurezas alheias.

O Feliciano, quando o cirurgião chegou á tarde, contou-lhe com pouco recato de pudicicia conjugal as circumstancias, particularidades occasionadas no «fanico da sua esposa», dizia elle. O facultativo, um velho patausco, disse que não se admirava, porque a snr.ª D. Martha era muito nervosa, imperfeita ainda na sua organisação, e que as impressões desconhecidas e um pouco violentas nas constituições fracas produziam extraordinarias perturbações; mas que não se assustasse, que não era nada; que as segundas naturezas se faziam com o habito.--Banhos de mar, aconselhava, bife na grelha e vinho do Porto, quanto mais chôco melhor. O que se quer cá fóra é um rapaz; não ha como um filho para fortalecer a compleição d'uma mulher debil; um filho, quando sae do ventre da mãe, traz comsigo para fóra os máos nervos, e acabam os cheliques. Ande-me com um rapagão p'rá frente!

Na ausencia de D. Thereza, a melancolia de Martha cerrava-se de dia para dia. O governo da casa era-lhe de todo indifferente, como se fosse hospeda. O marido não a compellia a interessar-se n'esses arranjos de que, dizia o Simeão, ella nunca quizera saber em Prazins. O barão do Rabaçal mandára-lhe do Porto cozinheira e governante. Martha sahia raras vezes de uma saleta onde tinha um oratorio que trouxera de casa. Confessava-se mensalmente a frei Roque, o irmão da sua mestra, e professor do de Villalva, e demorava-se no confissionario com perguntas desvairadas a respeito da alma de José Dias, por que dizia ella ao padre-mestre que o via muitas vezes em corpo e alma, e até o ouvia fallar e lhe sentia as mãos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo da confissão, dizia á irmã que a Martha dava em douda como a mãe.

O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, n'um dos paroxismos epilepticos, se pôz a rir para elle com os olhos espasmodicos e a chamar-lhe _José, seu Josésinho_. Passada a nevrose, quando ela imergia num torpor physico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe chamar _Josésinho_. Ella parecia esforçar-se muito para recordar-se, e dizia que não se lembrava de nada. Vinha o cirurgião a miudo:--que era hysterismo, e consolava o marido com a esperança no tal rapagão, esperanças bem fundadas, segundo as confidencias do pai; mas, consultado pelo padre Osorio, o Pedrosa, um grande clinico, dizia que a brazileira não tinha simplesmente a gota coral; que havia ali epilepsia complicada com delirio, alienação mental intermittente, um estado de inconsciencia ou consciencia anormal, e que verdadeiramente se não podiam determinar bem quais eram os seus actos de lucidez intercorrente.

--Ella está gravida--observou o vigario de Caldellas.--Parece que este facto denota uma tal ou qual normalidade de consciencia, uma concepção racional dos deveres de esposa...

--Não denota nada--refutou o medico.--Faça de conta que é uma somnambula. E, como a sua demencia é funccional e não organica, não ha desorganisações physicas que a estorvem de ser mãe. O meu collega que lhe assistiu á ultima vertigem disse-me que, alguns minutos antes do ataque, ella, n'uma grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para Villalva, que queria vêr o José Dias... O marido felizmente fôra n'essa occasião prover-se de vinagre á dispensa. Eu considero-a perdida, a menos que se lhe não dê uma prompta e completa diversão ao espirito, e nem assim se consegue senão temporariamente desherdar os desgraçados que tiveram mãe e avó como esta Martha. Eu assisti ao primeiro e ao ultimo periodo da Genoveva. Repetiram-se as vertigens, veio a decadencia gradual da razão, delirios, idéas confusas, concepção difficil, nevroses vesanicas, e por fim, suicidou-se já n'um estado de demencia epileptica, que os especialistas consideram a mais incuravel. Este me parece o itinerario da Martha, e o casal-a com o tio deixou de ser um acto immoral para ser um estupido arranjo de fortuna por lado do pai e de luxuria por parte do marido. Esta pequena tinha de vir a isto, e ha-de ir á demencia, mesmo sem drama nem paixão. Tem o cerebro defeituoso assim como podia ter a espinha vertebral rachitica. Como se faz a perda da vista? Pela paralysia dos nervos opticos; pois a perda da vista normal da alma é tambem a paralysia d'uma porção de massa encephalica. Bem sei que isto embaraça um pouco os senhores theologos-methaphysicos, mas lá se avenham: a verdade é esta.

XVIII

Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requião, os tão almejados missionarios, interrompidos no seu esteril apostolado pela revolução da Maria da Fonte. Martha ouviu a noticia com alvoroço, e disse que queria seguir os sermões,--que precisava de salvar a sua alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco a respeito de religião; mas respeitava as crenças alheias, e não contrariava as devoções da sobrinha. O padre Roque era de parecer que se não deixasse Martha entrar muito pela mystica; aconselhava o marido que fosse viajar com a mulher, que a tirasse d'aquella terra, porque as suas enfermidades não podiam cural-as os sermões nem as hostias. O egresso conhecia a Pharmacia do varatojano de Borba da Montanha, e sabia que a primeira receita de frei João era exorcismal-a como demoniaca.

--Dão cabo d'ella, vocês verão, dão cabo d'ella--dizia o padre-mestre.

Eram quatro os missionarios que assentaram o vestibulo do paraizo em Requião.

O padre José da Fraga ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes sacerdotaes, grave e semblante intelligente. Tinha-se ordenado em Brancanes com o proposito de ir propagar o christianismo na China; depois, interesses e rogos de familia determinaram-o a ficar na patria, sem abrir mão da vocação apostolica. Lêra e percebêra Raulica, Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osorio dizia-lhe que guardasse as suas perolas para outro auditorio menos suino. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no pulpito, aconchegavam-se umas das outras para commodamente tosquenejarem o seu somno da manhã; e os homens diziam que não o chamava Deus por aquelle caminho--que _não calhava p'r'á prédega_.

O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia idade, auctor da _Escada do céo pelas escarpas do Golgotha_ e da _Via seraphica para o reino dos Cherubins_, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exercito realista, e ordenára-se para herdar uns bens de uma parenta beata que tinha horror á tropa. Lêra as novellas do Prévost e Madame de Genlis, quando era furriel. Ficou-lhe d'essas leituras uma linguagem amellaçada, com interjeições tragicas, e um geito especial de tocar as mães com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo: _E o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia dos anjos, quando lá do céo te vê peccar, estende para ti os seus bracinhos, e diz: Mãe, ó mãe! não peques; mãe, não peques! pelas lagrimas que por mim choraste, não caias na tentação, porque, se te perdes, se te afundas no abysmo eterno não tornarás a vêr o teu filhinho que te chama do céo, mãe, ó mãe_! E infantilisava o timbre da voz, inclinava a um lado a cabeça n'um langor menineiro, estendia os braços do pulpito abaixo com as mãos abertas, alongava os beiços no geito da boquinha de criança, e muito mavioso, n'um tremulo de voz e braços: _Mãe, ó mãe_! E todas as que tinham perdido filhinhos desatavam n'um berreiro.

O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, d'uma porcaria de sotaina digna dos agiologios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era forte na topographia do inferno e nas genealogias, usos e costumes dos diversos diabos. Affirmava que a legião d'elles se dividia em esquadras, capitaneadas por Lucifer, principe da Luxuria, por Asmodeu, Satanaz, Belzebut e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus competentes vicios. Dava noticia de um caudilho de esquadra, chamado Behemoth, cujo empenho era bestializar os fieis--verdadeira superfluidade.--Leviathan capitaneava o esquadrão da Soberba; e o ministro e secretario de estado encarregado da pasta da Avareza chamava-se _Mamona_. A sciencia moderna matou este diabo, extrahiu-lhe o oleo, e pôl-o ao serviço dos intestinos dos peccadores--_oleo de Mamona_. Explicava o padre ás mulheres o que era a corja dos _demonios incubos_. Contava casos de algumas que ficaram gravidas d'esses devassos, e dizia em latim que taes demonios fecundos podiam, mesmo contra a vontade da mulher, _rem habere cum ilta_. E as mulheres, sem pôr mais na carta, farejavam o latim e murmuravam indignadas:--Tarrenego! Catixa! cruzes, canhoto!--e benziam-se, cuspinhando nos calcanhares umas das outras.

Fr. João de Borba da Montanha, com quanto não frequentasse o pulpito, era o vulto mais proeminente da missão. Sahira já velho do Varatojo, peito fraco, um pigarro chronico de catarrho pituitoso, com poucos dentes, por onde as palavras lhe sahiam assobiadas que nem melro nos sinceiraes de julho. Por isso o confissionario era a sua faina de prosperrimas colheitas para o céo, e os exorcismos a sua famosa gloria cheia de triumphos sobre todas as esquadras dos demonios conhecidos do seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de mãos dadas, o terror do inferno; um a explorar diabos no planeta, o outro a enxotal-os. Á omnipotencia d'este varatojano é que o vigario de Caldellas confiara a reducção da mãe de José Dias.

Este egresso tinha feito á sua custa a terceira edição do _Peccador convertido ao caminho da verdade_, obra do seu conventual varatojano frei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia-encadernação. Chamava-lhe elle o _seu balde de tirar almas do profundo poço do enxofre infernal_ Todas as beatas se consideravam mais ou menos empoçadas, e por 720 mettiam-se no balde de frei João. Barato.

Foi este o missionario escolhido por Simeão, de harmonia com o genro. Martha lembrava-se que o seu José Dias lhe fallára n'elle com muita esperança em que desfizesse os obstaculos do casamento. Quiz confessar-se ao varatojano, e revelou para esse acto uma espectativa seraphica, grande deliberação anciosa, um sobresalto jubiloso em que parecia influir a cooperação sobrenatural do querido morto. O padre Osorio entrevia preludios de loucura nas alegres disposições com que Martha, n'um recolhimento contemplativo, desde o apontar da aurora, esperava á porta da egreja que chegassem os missionarios com o cortejo das mulheres encapuchadas, muito ramellosas, estralejando os seus tamancos ferrados na grade do adro que vedava a passagem aos porcos.

Em quanto na egreja, depois da missão, se depunha a hostia nas linguas saburrentas e gretadas das beatas--que enguliam aquella farinha triga como quem devora sevamente um Deus--cá fóra armavam-se no adro dois taboleiros, assentes em tripêças de engonços, com seus pavilhões de guarda-soes de panninho azul. Algumas mulheres de aspectos repellentes, sujas da pójeira das jornadas, com os canêllos callosos e encodeados, expunham nos taboleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas á conta de subornarem freguezas com caramunhas e palavreados. No silencio do templo, ouvia-se cá de fóra:--Arre, bebeda!--Cala-te ahi, calhamaço!

A exposição bibliographica, feita nos taboleiros, além das obras em brochura e encadernadas dos missionarios, constava da _Regra de S. Bento_, da _Missão augmentada_, da _Missão abreviada_, das _Piedosas meditações_, das _Horas do christão_, do _Mez de Maria_, do _Mez de Jesus_ e do _Livro de Santa Barbara_. Havia tambem _Novenas_, _Via-sacras_ com estampas d'um horror sacrilego, uns Christos que pareciam manipansos do Bihé. Seguia-se a camada dos _Escapularios_; uns eram de _N. S. do Carmo_, de _N. S. das Dôres_, da _Conceição_; outros do _Preciosissimo sangue de Jesus_, do _Coração_ do mesmo, da _Santissima Trindade_ e de _S. Francisco_. Tinham grande sahida os _Cordões_ do mesmo santo, e as _Correias de S. Agostinho_, com um botão de ôsso, a apertar na cintura,--arnez impenetravel ao diabo, por causa do botão, que, posto na correia, tem virtudes para ôsso muito admiraveis, quasi como as da carne, mas no sentido inverso--ella attrahindo o cão tinhoso, e elle repulsando-o. De _Santo Agostinho_ e do _Anjo da Guarda_ também havia _Rezas_ enfiadas em metal, ou em cordão, simplesmente, mais baratinhas. Na especie medalheiro, grande profusão: as medalhas mais procuradas eram as do _Coração de Maria_, do _Coração de Jesus_, do _Anjo da Guarda_ e de _Santa Thereza_, a 10 réis.

As _corôas_, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram diversas no tamanho e na nomenclatura: as _seraphicas_ com sete _mysterios_, e cada mysterio com dez _Ave-Marias_; as da _S. da Conceição_ com doze _Aves_ e tres _mysterios_:--uma certa conta que os missionarios lá graduavam com a gafaria espiritual das confessadas. Havia algumas que se aguentavam com os _Rosarios de quinze mysterios_, e a _Corôa dos nove coros dos Anjos_, e a do _Preciosissimo sangue e coração de Jesus_. Mas o grande consumo era de _contas de azeviche_, refractarias aos máos olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é legitimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio a meio.

Martha, a beata, a senhora _brazileira de Prazins_, como lhe chamavam as regateiras das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado; mas sobre todos os devocionarios o da sua leitura dilecta era o _Peccador convertido ao caminho da verdade_, edição do seu confessor varatojano, fr. João de Borba da Montanha.

São impenetraveis os segredos revelados no tribunal da penitencia por Martha ao seu director espiritual. O padre Osorio, não obstante, suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consciencia, solicitada por miudas averiguações do missionario, saudades, reminiscencias sensualistas, carnalidades que se lhe formalisavam no espirito dementado, emfim, visões e sonhos com o José Dias. Inferia o padre a sua conjectura, sabendo que frei João lhe mandára lêr no _Peccador convertido_, tres vezes por dia, o capitulo 33, intitulado _Resistencia ás tentações contra a castidade_. Fortalecia esta hypothese ter dito Martha a D. Thereza que a alma de José Dias lhe apparecia em sonhos; e ás vezes, mesmo acordada, lhe parecia sentil-o na cama á sua beira; e então mordia o travesseiro para que o tio a não ouvisse chorar. Póde ser que estas revelações, communicadas ao confessor, um simplorio incapaz de destrinçar entre doença e peccado, fossem acompanhadas de particularidades sensitivas que Martha por vergonha não contava á sua amiga. É certo que a confessada do varatojano lia, declamando, deante do seu oratorio, tres vezes por dia, a _Resistencia ás tentações contra a castidade_.

A oração dizia assim:

_Senhor amorosissimo, não vos escondais, não me deixeis sósinha, que me cerca o leão para me devorar; os seus rugidos me atormentam para que não goste as suavidades do vosso amor. Cercarei todo o mundo, subirei aos ceos, não descançarei emquanto não achar o meu amor. Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, creaturas da terra que, se encontrares o meu amado, lhe digaes que morro d'amor. E, se quereis os signaes para conhecêl-o, ouvi. O meu amado é candido e rubicundo, escolhido entre milhares; candido por divino, e rubicundo por humano, candido porque innocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde vos escondestes? Tende compaixão de quem vos busca. Estes signaes que de vós tenho só servem de avivar-me a saudade, são settas que me ferem; morro, desfalleço, se vos não acho._