Visitas ao Santissimo Sacramento e a Maria Santissima para todos os dias do mez

Part 7

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Ah! Senhor, já que vós vos dignastes de visitardes hoje a pobre casa de minha alma, eu vola offereço com toda a minha liberdade, e vontade. Vós vos tendes dado todo a mim, e eu me quero dar todo a vós; sim, sejão vossos os meus sentidos, para que me sirvão só para vos agradar: sejão vossas as minhas potencias, de tal sorte que a memoria me não sirva mais que para lembrar-me de vosso amor: o entendimento só me sirva para cuidar de vós, e a vontade só se empregue em vos amar. Tambem vos consagro, e sacrifico, meu dulcissimo Salvador, esta manhã tudo quanto tenho; os meus pensamentos, os meus affectos, os meus desejos, os meus gostos, as minhas inclinações, a minha liberdade; em fim nas vossas mãos entrego o meu corpo, e a minha alma.

Acceitai, ó Magestade infinita, o sacrificio, que vos faz de si mesmo o peccador mais ingrato, que tem havido sobre a terra, mas que agora se offerece, e entrega todo a vós. Fazei, Senhor, de mim tudo quanto vos agradar. Vinde, ó fogo consumidor, ó amor Divino, e destruí em mim tudo que não agrada aos vossos purissimos olhos: fazer que de hoje em diante eu seja todo vosso, e viva sómente para seguir, e obedecer, não só aos vossos preceitos, e conselhos, mas ainda aos vossos santos desejos, e ao vosso maior gosto.

Ó Maria Santissima, apresentai com as vossas purissimas mãos á SS. Trindade esta minha offerta, e alcançai-me que a acceite, e me communique a graça de ser-lhe fiel até á morte.

V.

ACTO DE PETIÇÃO.

Alma minha, que fazes? Não percas este tempo precioso, em que pódes receber todas as graças que pedires. Não vês ao Eterno Pae, que está amorosamente olhando, e vendo dentro de ti o seu amado Filho, o objecto em que mais se compraz o seu amor? Ah! Lança fóra de ti todos os pensamentos mundanos, aviva a tua fé, dilata o teu coração, pede quanto quizeres.

Não sentes ao mesmo Juiz, que te diz: Alma, dize o que queres de mim. Eu vim para te enriquecer, e para te contentar: pede com confiança, e alcançarás quanto pedires.

Ah, meu dulcissimo Salvador! Já que viestes á minha alma para me communicardes as vossas graças, e desejais que eu vo-las peça, eu não busco, Senhor, os bens da terra, não as riquezas, não as honras, não os contentamentos do mundo: o que humildemente vos peço agora é uma grande dôr dos meus peccados; uma luz, que me faça conhecer á validade deste mundo, e o merecimento, que vós tendes para ser infinitamente amado. Trocai este meu coração em tudo conforme à vossa santissima vontade; um coração, que não busque mais que o vosso agrado, que não aspire mais que ao vosso santo amor. Eu não mereço isto, mas vós o mereceis, ó meu amado Jesus. Eu vo-lo peço pelos vossos merecimentos, e da vossa purissima Mãe e pelo amor que tendes a vosso Eterno Pae.

_Aqui poderá pedir qualquer outra graça particular para si, e para o proximo_. _Não se esqueça dos peccadores, e das almas do Purgatorio, e rogue tambem por mim_.

RELIGIOSOS PROTESTOS

I.

Eu o mais miseravel e maior de todos os peccadores, com o mais profundo respeito e submissão, humildemente prostrado ante o Throno de vossa Divina Magestade, e na vossa adoravel e respeitavel presença, protesto que creio firmemente tudo quanto crê e ensina a Santa Madre Igreja Catholica Apostolica Romana, unica e verdadeira Igreja, fóra da qual não ha salvação, pois só esta foi instituida por Vós, verdadeiro Deus, e verdadeiro Homem, Verbo Divino feito carne para redempção dos homens, Redemptor e Salvador nosso, Supremo Juiz que nos haveis de julgar, unigenito do Eterno Pae consubstancial com elle mesmo, e com Elle e com o Espirito Santo o mesmo e Unico Deus. N'esta Fé, cujos mysterios todos e cada um dos seus artigos aqui hei por explicitamente confessados, e na qual por misericordia Vossa, Senhor, tenho vivido desde o meu baptismo, protesto querer constante e inviolavelmente persistir, e apezar de tudo permanecer até ao ultimo instante da minha vida. Protesto vencer e desprezar, mediante a Vossa Graça todas as tentações com que o inimigo commum do genero humano me possa accommetter contra qualquer dos Dogmas ou verdades reveladas ensinadas pela Santa Madre Igreja, para o que imploro a Vossa Divina Graça, só com a qual poderei triumphar do mesmo inimigo; e se por desgraça minha, acontecer, que alienado dos sentidos, eu diga, pense ou faça alguma cousa que seja, ou pareça ser contraria, ou menos conforme a estes meus protestos, desde já para sempre tudo isso retracto, desdigo, revogo, desprezo, e declaro que nada d'isso é minha vontade, e que só é a renuncia, resistencia, combate, e vencimento de tudo quanto for opposto ou menos conforme á Vossa Divina Fé.

II.

Protesto na vossa adoravel presença, Senhor, que desejo render-vos infinitas graças, por me haverdes tirado do nada, creado para Vós e á Vossa imagem e semelhança, especialmente por me haverdes feito Christão, chamando-me ao santo baptismo, e por elle ao seio da santa Igreja, concedendo-me o preciosissimo dom da Fé com as mais virtudes infusas, e adoptando-me por vosso filho e herdeiro do Ceu, isto só a impulsos do vosso amor e Misericordia, dignando-vos escolher-me entre milhares e preferir-me a um sem numero d'almas, que por vossa terrivel e adoravel Justiça foram deixadas na massa da perdição. Ah! que graças podem ser bastantes para tão especial e gratuita predilecção!

E que direi eu da particular providencia com a qual desde os meus primeiros annos, desde o principio da minha existencia no mundo, tendes vigiado sobre mim como o mais desvelado e amante Pae, fazendo sensivel por modos tão notaveis, particulares, e até extraordinarios um cuidado paternal o mais solicito e extremoso! Que direi da pasmosa paciencia com que tendes soffrido minhas enormes ingratidões e offensas, com que me tendes esperado, com que, como a porfia comigo, quanto mais vos tenho offendido, com quanto mais profusão, vós me tendes accumulado de graças, de dons e de beneficios! Bemdito sejais, Senhor, por toda a Eternidade. Oh! se todos os meus membros se convertessem em lingoas, nem ainda assim, bastariam para assaz vos louvar e engrandecer! Gloria, honra e louvor vos deem por mim todas as creaturas. Fazei Senhor, por vossa infinita Misericordia, que até ao ultimo instante da minha vida eu permaneça n'estes sentimentos de gratidão, que os renove com maior fervor na hora da minha morte, e que vá louvar-vos e bemdizer-vos por toda a Eternidade.

III.

Posto que os meus peccados tenham sido sem numero e mui graves e enormes, protesto que nem por isso ó meu Deus, desconfio da Vossa Divina Misericordia a respeito do perdão d'elles e da minha salvação, antes pelo contrario muito confio que toda a Trindade Santissima pelos infinitos merecimentos da Vossa Paixão e Morte, se ha de compadecer de mim, perdoar-me e salvar-me; mas para que esta esperança não seja da minha parte temeraria, protesto e desejo de todo o coração animala com a pratica das boas obras e exato cumprimento dos meus deveres, para o que repito e renovo aqui, e proponho renovar e repetir na hora da minha morte as promessas do meu baptismo, renunciar satanaz, ás suas pompas, e obras, promettendo de conformar a minha vida com a minha fé, e de vos amar, servir, obedecer em quanto viver, e vos rogo e supplico o mais efficazmente possivel me concedaes a graça da preserverança e me assistaes com o vosso poderoso auxilio agora e sempre, porem especialmente na hora da minha morte.

IV.

Já que até aqui tenho sido tão ingrato duro, e rebelde para comvosco, meu amorosissimo Redemptor, que não só vos não tenho amado como devo, antes offendido, e negado o por tantos e tão rigorosos titulos, devido tributo d'amor; já que sendo Vós o centro do meu coração, e devendo o meu coração ser todo para Vós, eu desgraçadamente em logar de vos amar com todo o meu coração, é talvez a Vós a quem menos tenho amado: agora protesto, e desejo anciosamente d'aqui em diante, até ao ultimo momento da minha existencia, amar-vos sobre todas as cousas, com todo o meu entendimento, com todo o meu coração, com toda a minha alma, e com todas as minhas forças e só a vós amar, e ser o vosso amor o unico dominante e soberano do meu coração.

Por amor de Vós, ó meu Deus, eu protesto tambem d'aqui em diante amar ao meu proximo como a mim mesmo. Por amor de Vós perdôo do coração a todos os meus inimigos, a todos quantos me teem offendido, ou querem offender, ou teem feito, ou desejam por qualquer modo ou maneira fazer mal: perdoae-lhes Senhor, não os castigueis: retribui-lhes antes em bens e graças, o mal que me houverem feito ou desejado fazer.

Por amor de Vós eu humildemente peço perdão a todos que eu tiver offendido e escandalisado por palavras, obras, máus exemplos, ou por simples descuidos e omissões: desejo dar todos, e a cada um, a devida satisfação e reparação, e muito vos supplico. Vos digneis fazer-me conhecer o que a este respeito devo praticar para allivio da minha consciencia, promettendo eu tudo promptamente executar antes que chegue a hora da minha morte.

V.

Não é possivel, ó meu Deus, bem amar-vos sem ter um grande pezar de vos não ter amado, por isso, muito e muito me pêza de vos não ter amado, e de vos haver tanto offendido: protesto nunca mais offender-vos; proponho emendar-me. Abomino e detesto tudo quanto é peccado; declaro e protesto que desde agora até ao ultimo instante da minha vida não quero mais desagradar-vos, não quero consentir em pensamento algum contra a vossa divina Lei: antes tormentos, antes infamia, antes total perda de bens e de saude, antes morte do que um só peccado e offensa do meu Senhor. Quem dera a meus olhos lagrimas perennes e inconsolaveis, para chorar de dia e de noute os meus peccados! Oh! se o coração se me partira de dor e contrição de os haver commetido! Se eu morresse de excesso de pezar e arrependimento de ter peccado! Só Vós ó meu Jesus, me podeis conceder tão especiaes graças; eu as desejo sinceramente no meu coração, eu vol-as supplico humilde e anciosamente. Mas que! um tão grande peccador ainda ousa pretender ser ouvido e attendido? Uma creatura tão ingrata e rebelde, ainda se atreve a supplicar graças, e graças tão especiaes? Sim, ouso e supplico porque a Vossa Bondade, Amor e Misericordia para com os peccadores não tem limites. Oh! se tambem houvera remedio para não ter peccado! Custasse elle o que custasse; custasse o sangue das veias, custasse a propria vida, todo o Sangue, mil vidas eu dera de boa vontade para Vos não ter offendido uma só vez. Senhor, Misericordia! Não entreis em juizo de rigor com o Vosso servo. Quem ó meu Deus apparecerá justificado na vossa presença! Continuae Senhor, a ostentar como até agora tão liberalmente tendes ostentado n'este miseravel peccador, as Vossas Misericordias Eterno Pae, fixae vossos amorosos olhos sobre a face do vosso divino filho, meu Senhor Jesu Christo, compadecei-vos de mim e perdoae-me. Esquecei-vos para sempre dos meus crimes, admitti-me á vossa Graça e amizade, e não permittaes que eu torne a perder joia tão preciosa e inestimavel. Não me deixeis jamais cahir em tentação. Fazei com a vossa poderosa Graça, que sempre, mas especialmente no transe da morte, eu possa vencer e sahir triumphante de todas as tentações e do tentador. Graça e Misericordia Senhor, digo eu agora, Graça e Misericordia desejo eu dizer na hora da minha morte.

VI.

Protesto, que eu desejo com a maior efficacia que me é possivel, receber, na proximidade da minha morte todos os Santos Sacramentos proprios dos enfermos que se acham n'aquelle perigo, e desde já, e com o maior empenho os peço. Peço o Santo Sacramento da Penitencia, e a vós, Senhor, todas as graças necessarias e convenientes para fazer então uma boa e perfeita confissão. Peço a Santissima Eucharistia por viatico, e a vós, Senhor, me concedaes os affectos mais devotos de que o meu coração é capaz, ajudado com a vossa Graça, para receber com o devido fructo o vosso Corpo, Sangue, Alma, e Divindade tão real e perfeitamente como estaes no Ceu, bem que occulto aos nossos olhos debaixo das especies sacramentaes. Peço-vos mui humildemente, ó meu amado Jesus, não permittaes que eu então fique privado da consolação de receber este preciosissimo penhor da futura immortalidade. Desejo que a devoção e fervor d'esta minha ultima communhão repare a tibieza e indignidade de todas quantas communhões tenho feito em todo o decurso da minha vida. E se por qualquer incidente eu não poder conseguir esta felecidade, desde já eu declaro e protesto, que em tal caso a minha vontade e os meus mais vehementes desejos são, de, ao menos commungar espiritualmente, e receber em desejos no meu coração o vosso Corpo Sacramentado, render-vos todos os meus affectos como se effectivamente vos recebesse, e desde já tambem rogo-vos digneis acceitar benignamente estes meus sinceros desejos, e derramar em minha alma, então mais que nunca necessitada, os vossos divinos dons e graças. Peço igualmente desde já o Santo Sacramento da Extrema-Unção, e a vós, meu Senhor Jesu Christo, a disposição necessaria para o receber, com fructo; e no caso de não o poder receber que nem por isso fique privado dos seus effeitos espirituaes e tão saudaveis, dignando-vos vós, Senhor, misericordiosamente liberalisar-mos para conforto da minha alma em tão arriscado transe, a fim de resistir corajosamente, e vencer o inimigo. Peço em fim todas as orações, assistencias, e soccorros espirituaes da Igreja, destinados para aquelle passo; a applicação da Indulgencia plenaria; e benção Papal do Santo Padre Benedicto XIV, e toda e qualquer benção e absolvição que possa ter logar então receber; a lição dos psalmos penitenciaes, o officio d'agonia, e todas as mais orações respectivas do ritual Romano, as quaes todas desejo, e me proponho repetir e acompanhar conforme o estado da enfermidade m'o permittir, se não poder com a bocca, com o coração, em espirito contrito, humilde e religioso, e desejo exhalar o meu ultimo suspiro tendo invocado muitas vezes antes com fé e devoção, e repetindo então eu mesmo com a maior ternura e fervor o vosso Santissimo e dulcissimo nome, e o de vossa querida Mãe minha Senhora, pois é assim que eu quero, proponho, e ardentissimamente desejo finalisar a vida, e entregar a minha alma nas vossas mãos.

VII.

Protesto que com toda a resignação, e com a melhor vontade, acceito da vossa mão e da vossa adoravel e amorosa Providencia a molestia que deve pôr fim a meus dias, as dores, as afflicções e angustias da morte, e a mesma morte, e proponho tudo soffrer e levar com espirito penitente e christão, beijando a vossa divina e paternal mão, já em justissimo castigo e expiação das minhas culpas, já em testemunho do meu amor, e do desejo de acompanhar-vos em vossa sacratissima paixão, morte e Cruz, e de participar d'ella, pois que n'ella e por ella me remistes: por isso desde ja vos offereço todos aquelles padecimentos e a minha morte em satisfação dos meus peccados, e em sacrificio d'amor, gratidão, humildade e submissão a vossa Suprema Magestade; e não só conformo e resigno toda a minha vontade na vossa e renuncio toda a impaciencia, mas em igual espirito e intenção me sujeito a todas as humilhantes mudanças, corrupção e dissolução por que o meu corpo ha de passar, e a que a morte o ha de reduzir em justissima pena das offensas, de que no decurso da vida, foi causa, e instrumento contra o seu mesmo Senhor e Creador. Convenho, e até mesmo estimo, que todos os meus membros, ossos, e carne soffram os horrores e humiliações da sepultura, para assim ao menos repararem por fim a enorme injustiça da sua rebellião contra o espirito, e mais que tudo contra vós. E ainda que iste não fosse indispensavel pensão de todo o ser humano, eu mesmo se me fosse permittido, a pagaria por escolha minha, só para d'alguma maneira render á suprema Sabedoria de vossa divina Magestade um sacrificio, e testemunho nada equivoco, e incontestavel, do meu reconhecimento, submissão, e humildade.

VIII.

Protesto finalmente, que desejo de todo o coração, e me preponho n'aquelle ultimo transe abraçar me intima e amorosamente com a vossa sagrada Imagem, beijando a uma e muitas vezes nos pés, nas mãos e no Lado sacrosanto, espirar repetindo o vosso nome santissimo, e encommendando ao Eterno Pae a minha alma peccadora sim, mas banhada com o vosso preciosissimo sangue. Egualmente desde já vos supplico, ó meu amantissimo Salvador, vos digneis conceder me a graça efficaz de executar então pontualmente tudo quanto agora aqui proponho e protesto. Finalmente vos rogo, ó meu Jesus, tenhaes para com a minha alma piedade e misericordia, e mui particularmente me concedaes a graça final, e o fim ditoso para que vós me creastes e remistes, pelo qual unicamente suspiro, e ardentemente desejo conseguir, que é a posse da Bemaventurança no gozo e vizão beatifica de Deus, meu unico, sempiterno e Summo Bem. Amen.

SUPPLICAS PARA PEDIR PERDÃO A DEUS.

Contra Vós Salvador do mundo, pequei como o filho prodigo, recebei-me porem penitente, pae amoroso, e tende de mim compaixão.

Como o publicano, a Vós levanto minha voz, Christo Salvador: sêde-me propicio como a elle fostes, e tende de mim compaixão.

Vossa protecção e prompto auxilio, ó Virgem pura, manifestae a vosso servo; repremi n'esta hora a onda das vãs cogitações, e levantae minh'alma cahida ó bemdita entre as mulheres; conhecido tenho quanto podeis, sede minha intercessora e advogada.

Como quem cahiu em mãos de ladrões, e foi d'elles mal ferido, assim cahi eu em feias culpas de que minha alma está chagada; a quem me soccorrerei enfermo senão ao medico das almas? Derramae sobre mim, Deus meu, vossa grande misericordia.

Venho como o filho prodigo ao pae compassivo; recebei-me Deus meu, como um de vossos mercenarios, e tende de mim compaixão.

Cahi em poder de máos pensamentos que como ladrões despojaram minh'alma, a feriram e maltrataram horrivelmente, e por isso jazo no caminho d'esta vida despido de virtudes e merecimentos. Tão asquerosas são minhas chagas que o Sacerdote apartou de mim os olhos, por julgal-as incuraveis. Passou por mim o levita e não curou de mim por julgar-me de forças desamparado. Vós porém, Senhor, que não sois de Samaria mas o Filho de Maria, por vossa clemencia sarae minhas chagas com o balsamo de vossa misericordia.

Na mente revolvo o dia tremendo em que com fogo haveis de julgar o mundo: percorro meus pessimos feitos, e estremeço quando me lembro que em vossa presença hei de comparecer reo! Que responderei ao rei eterno, ao inexoravel Juiz de vivos e mortos? Com que cara heide comparecer perante seu tribunal supremo? Pae piedoso, Filho unigenito, Espirito paraelito, tende de mim compaixão.

No valle do pranto, quando vos assentardes n'um throno de nuvens para pronunciar a terrivel sentença, não ponhaes patentes meus peccados, nem em presença de vossos anjos me confudaes; porem perdoae-me, Deus meu, e tende de mim compaixão.

Eu sou aquella arvore infructifera, Senhor, que nenhum fructo de compuncção hei produzido, temo seja cortada, e ao fogo eterno lançada: pelo que vos peço Salvador e Redemptor meu, que antes de tamanha desgraça me convertaes e salveis.

Consoladora esperança do mundo, Virgem Mãe de Deus, peço a vossa unica protecção, compadecei-vos de mim peccador, e supplicae ao Deus misericordioso, para que no mundo me livre de todo o perigo de peccado e na eternidade me dê a gloria dos escolhidos. Àmen.

ORAÇÃO PRODIGIOSA.

A NOSSA SENHORA.

Que se lhe póde offerecer nos Domigos e dias festivos da Mãe de Deus, e em tempo de afflicção, por algum aperto espiritual ou temporal, em memoria da vida, paixão e morte de seu Santissimo Filho, a qual traduzio o Padre Sarmento das Horas do Eminentissimo cardeal de Noailles.

Ó Santa Maria, eterna Virgem das virgens, Mãe de misericordia, Mãe de graça, esperança e refugio de todos os afflictos; por aquella espada de dor, que atravessou a vossa purissima alma, quando o vosso unigenito Filho Jesu Christo nosso Senhor padeceo o supplicio da morte de cruz, e por aquelle amor filial, que o fez compadecer da vossa dôr materna, e recommendar-vos a seu discipulo S. João, herdeiro do perfeito amor, que elle vos tinha; rogo-vos, Senhora, que tenhais de mim compaixão, e me deis remedio na afflicção, na enfermidade, na pobreza, na consternação, e em qualquer outra necessidade que eu padeça.

[Figura : Annunciação]

Ó refugio poderoso dos miseraveis, Mãe benigna de misericordia, promptissima libertadora dos degradados filhos de Eva, ouvi os meus rogos, e vêde as lagrimas da minha afflicção e da minha dôr. Eu me vejo opprimido de infelicidades e miserias, por causa das minhas culpas; e não tenho a quem recorrer, senão a vós, minha amada Senhora, piissima Virgem Maria, Mãe do meu Senhor Jesu Christo, e sollicita Advogada do genero humano.

Rogo-vos pois pelas misericordiosas entranhas do vosso Santissimo Filho, e pela gloria que elle teve no tempo da sua alliança com a natureza humana, ao deliberar com o Padre e Espirito Santo de tomar a nossa carne mortal para nossa salvação; pelo vosso inefavel gozo, ó bemaventurada Virgem, quando, depois da Annunciação do Anjo e do vosso adoravel consentimento, o divino Verbo se cubrio da nossa mortalidade no vosso purissimo ventre; donde, passados nove mezes, sahio a visitar, instruir e remediar o mundo.

Pela agonia, que o vosso mesmo Filho teve em seu coração, quando orou a seu eterno Pae no monte Olivete; pela fiel companhia, que vós lhe fizestes em todo o decurso da sua paixão e morte; pelas traições, pelos opprobrios, pelas injurias, testemunhos falsos e barbara sentença contra elle proferida; pelas duras cordas, com que o prendêrão, crueis flagellos, com que o açoutarão, e rigorosos espinhos com que o coroarão; pelas lagrimas e suor de sangue que elle derramou; pelo seu silencio e soffrimento; pelo temor, pela tristeza e agonia de seu coração; pelo summo pejo que padeceo, vendo-se despido no Calvario aos olhos de todo o povo; pelo incomprehensivel tormento da sua sêde sem allivio; pela ferida da lança, que lhe penetrou o seu lado amorosissimo; pelos grossos cravos que traspassárão as suas mãos e pés sacrosantos; pela recommendação, que elle fez da sua santissima alma a seu eterno Pae; pela benigna misericordia, que elle usou com o bom ladrão.

Pela honra e gloria da sua triumphante Resurreição; pelas apparições, que elle vos fez, e aos Apostolos e Discipulos no espaço de quarenta dias; pela sua gloriosa Ascensão, em que á vossa vista, e dos mais fiéis foi elevado ao Céo; pela graça do Espirito Santo, que elle derramou nos corações dos Discipulos em fórma de linguas de fogo; pelo terrivel dia do juizo, em que elle precedido d'um universal incendio, ha de vir a julgar os vivos e os mortos.

Pela amorosa compaixão, e fidelissima sociedade, que neste mundo lhe fizestes; pelo gozo ineffavel de vossa maravilhosa Assumpção, quando na presença e companhia de vosso mesmo Filho, e de toda a côrte celeste fostes sublimada ao Empyreo, e nelle coroada de gloria e delicias sempiternas; por tudo isto, Senhora, e por tudo o mais que representar-vos posso, vos peço, minha Mãe amabilissima, que ouçais os meus rogos, me concedais e felicitais a supplica, que agora vos faço, com toda a humildade e devoção que me é possivel. (_Aqui fará menção da especial rogativa_.) E como eu creio, conheço e confesso que o vosso Filho sacrosanto vos attende e vos honra de tal modo, que nada vos nega, nem deixa frustradas as vossas supplicas: espero e confio, minha adorada Senhora, que experimentarei fiel e promptamente, plena e efficazmente, o desejado soccorro de vossa maternal consolação, segundo a doçura de vosso coração misericordioso, todo conforme á benigna clemencia do vosso Santissimo Filho.