Viriatho: Narrativa epo-historica
Chapter 9
«Explicarei isto pela pureza do sangue lusitano; elles não se misturaram com os Celtas, que haverá quatro seculos invadiram a Hespanha e conseguiram alliar-se e fusionar-se com os Iberos. Na Lusitania não aconteceu como nas Gallias, quando ahi se effectuou a conquista do Celta invasor; o lusitano não cahiu na servidão militar como o gaulez. O povo vive espalhado por casaes, villares, pobras, agricultando, deixando o trabalho dos campos ás mulheres, desde que é preciso correr ás armas para defender a terra; as Cidades são confederadas entre si, tambem no intuito da defeza, e para o fim de governo administrativo. São elles que votam em Conselho armado a guerra defensiva, e que elegem os seus chefes e generaes, declarando cada povo ou localidade com quantos Cavalleiros ou infantes contribuirão para a guerra contra os Romanos. Os Chefes eleitos apresentam-se na _entrada de Maio_ promptos para a campanha, seguidos dos seus Companheiros, que são todos os homens seus dedicados, soldurios e protegidos, que os seguem por toda a parte, e lhes obedecem incondicionalmente. É esta a organisação do seu exercito. E de Viriatho me contam, que elle tem, além do commando geral de todas as forças, uma guarda de Mil Soldurios, que desde a matança do Tribola, em que salvou o exercito Lusitano da perda immediata quando já propunha a rendição, ficaram constituindo a sua Guarda de corpo, com juramento de lhe não sobreviverem morrendo elle em campanha, como prova da sua Irmandade heroica. Desde o desastre de Tribola até hoje muitos d'entre os Mil Soldurios têm morrido nas guerras com Plancio, com Claudio Unimano e Caio Nigidio, mas esse numero está sempre completo, porque a maior gloria que póde aspirar um guerreiro lusitano é jurar o pacto de amisade na vida e além da morte, sendo eleito em consequencia de feitos extraordinarios um dos Mil de Viriatho. Com uma organisação militar que assenta no vinculo sentimental da confraternidade, e que se move pela emoção hallucinante da Patria, as Legiões romanas nada pódem, e a estrategia dos Pretores fracassará sempre desde que continuem com o systema das batalhas campaes, em um terreno cheio de anfractuosidades perigosissimas e que os naturaes conhecem perfeitamente.
«Apontando estes contras não quero espalhar o desânimo; e assim como Roma já soube tirar uma lição luminosa dada por estes barbaros, adoptando para o seu exercito a _Espada hispanica_, que lhe tem proporcionado victorias, d'elles temos a tirar ainda a arte de os vencer. Porque, rigorosamente, os Lusitanos não pódem ser vencidos senão pela perfidia. Sabereis que entre a raça dos Iberos e a dos Lusitanos ha um odio irrefreavel mas latente; nunca se ligam, nem se entendem, e a sua aversão mutua separa-os mais do que as inaccessiveis fronteiras de rios caudaes ou de alterosas montanhas. Passarão os seculos, mas esta antinomia prevalecerá. É sobre ella que Roma deve apoiar o seu dominio; muitos povos da Lusitania estão hoje confundidos em territorio iberico, e Viriatho conseguindo reunil-os para a Confederação defensiva em que trabalha expulsará o poder de Roma da Hespanha, com certeza e não tarde. O Ibero lisongeia-se com os contactos da soberania de Roma: dêem-se-lhe titulos de cidades municipaes, attraiam os seus filhos a Roma, e elles ficarão submissos, porque adoram o poder; aproveitemos o odio do Ibero para demolir o Lusitano. Para aniquilarmos o Lusitano é debalde que empregaremos a espada, mas é infallivel o resultado impellindo-o para a união iberica. Hoje toda a Lusitania tende a retomar a extensão primitiva, e unifica-se moralmente á voz de Viriatho, que se acha revestido entre o povo de um prestigio maravilhoso: nada menos do que acreditarem todos que elle é invencivel. Nós sabemos quanto esta credulidade influe no animo das tropas e decide das batalhas. Corria por aqui entre as tribus da Lusonia que appareceria um guerreiro montado em um _Cavallo branco_, e que elle conseguiria repellir o estrangeiro invasor; todos hoje consideram Viriatho como a realisação d'essa velha prophecia, e os companheiros que lhe deram o Collar de ouro do commando ou a _Viria_, foram os primeiros que o acclamaram pelo nome de um guerreiro prestigioso do tempo de Annibal, chamando-o VIRIATHO! Morto este chefe dissolver-se-ha a Lusitania; porque esse profundo sentimento de raça e de patria, que anima as tribus lusas, carece de uma representação que as identifique. Viriatho deve ser morto; sem o que, não acabará a campanha e Roma será sempre vencida. Urge pensar n'isto e só n'isto. Simulem-se campanhas, mas vise-se a este fim unico. Perguntareis: Quem hade matar Viriatho? Por certo, que nenhum general romano ou cavalleiro audacioso o desafiará para um combate individual. Mas, já indiquei o caminho: o odio dos Iberos e dos Lusitanos entre si é insondavel, e não faltará um Capitão de sangue iberico que se preste a alcançar a gloria d'essa traição.»
Era mais longa a Carta de Caio Lellio ao Senado; muitas das suas passagens foram aproveitadas pelos geographos gregos e chronistas romanos, de épocas ulteriores, e pelos historiadores que referiram as Guerras viriathinas. A parte que interessava directamente á politica romana foi lucidamente comprehendida, não só pela experiencia dos anteriores desastres, mas pela confiança no tino indiscutivel de Caio Lellio. Por isso nos Annaes da Republica não se referindo nenhum combate dado por Lellio na Lusitania, inscreveu-se que imprimira aos successos uma direcção que os tornava menos favoraveis aos Lusitanos.
O effeito das palavras sensatas de Lellio era tardio, e os acontecimentos atropellavam-se exigindo uma acção immediata. Para os espiritos ambiciosos a missão de Lellio tambem fôra frustrada; era uma derrota como as outras, mas sem apparato. O Senado obedeceu á corrente da opinião: n'aquelle anno de DCIX da Edificação da Cidade, e sexto da _Guerra dos Ladrões_, foram eleitos Consules Quinto Fabio Maximo Emiliano, e Lucio Hostilio Mancino, filhos e irmãos de afamadissimos generaes, que tinham levado as armas romanas ao maximo esplendor na victoria de Pydna, e na destruição de Carthago. Fervia-lhes o sangue; Quinto Fabio empenha-se para vir tomar pessoalmente o commando na guerra da Lusitania. O Senado attendeu o seu desejo dando-lhe a ordem peremptoria.
XXXI
A _Guerra viriathina_, como em Roma já se dizia da campanha desgraçada na Lusitania, levou o Senado a encarar os acontecimentos com a justeza que lhe competia, preparando uma solução pratica. Usando de um direito de negociar e concluir allianças com os povos estrangeiros, entendeu o Senado que era tempo de propôr a Viriatho um tratado de mutuas garantias, da cathegoria d'aquelles em que ha egualdade de obrigações, e designados sob o titulo de _Foedus aequum_. A lucta desesperada das populações da Hispania Ulterior resultava de um sentimento de independencia local e pessoal, que Roma não podia apagar pela força das suas legiões; pelo direito era possivel ligar esses povos aos interesses romanos, por que as terras ficariam governando-se pelos seus costumes e os individuos adquiriam o _Jus peregrinum_, gosando de uma protecção legal em Roma sem dependencia de patronos.
Cada derrota de um Pretor ou Consul na Lusitania manifestava ao Senado a difficuldade de poder submetter esta região hispanica ao regimen do _Foedus iniquum_, titulo com que Roma cobria a subserviencia dos povos submettidos ao seu protectorado. A Lusitania não era um inimigo vencido, nem tampouco seria um amigo fraco; reconhecendo-o no meio de tanto desastre, o Senado viu claro o caminho para exercer a sua acção na Hispania Ulterior indicando a opportunidade do _Foedus aequum_. Approveitava-se a occasião da partida de Quinto Fabio para a Lusitania: elle seria o portador do tratado de alliança, ficando-lhe reservado o arbitrio de poder firmar o tratado com Viriatho, ou de o occultar, caso o successo das armas romanas mantenha o seu imperio. A convenção diplomatica não comprehendia sómente a segurança das pessoas e das transacções entre os dois paizes; continha-se ahi um facto capitalissimo, e que poderia exercer uma influencia decisiva no futuro da Hispania Ulterior: o Senado reconheceria Viriatho como princepe ou rei da Lusitania, assignando e responsabilisando-se pela execução do tratado como soberano.
Quando entre alguns membros do Senado se aventou a importancia de um tal acto, de consequencias imprevistas, um dos Senadores mais experimentados no governo sorriu-se com superioridade:
--Todas essas garantias estão apenas na letra; por que vós todos sabeis, que embora pertença ao Senado a direcção das negociações com os estrangeiros, nenhuma alliança poderá concluir-se sem que os Comicios lhe prestem o seu assentimento ou ratificação.
A ideia diplomatica foi promptamente comprehendida. Na partida de Quinto Fabio entregou-se-lhe o tratado, cujo conteudo ignorava, e impondo-lhe a clausula, que só o abrisse e cumprisse, quando e até aonde a marcha dos acontecimentos o determinasse. Era ainda um habil modo do Senado eximir-se a responsabilidades.
As forças que Lellio commandava em Hespanha estavam cansadas e apavoradas; o Consul Quinto Fabio comprehendeu que era condição impreterivel partir com algumas novas Legiões, para com ellas metter em disciplina as que se consideravam exhaustas. Os exercitos romanos estavam divididos pelas campanhas gloriosas da Grecia, da Macedonia, de Carthago, achavam-se diminuidos e tambem debilitados por esforços ininterruptos; os veteranos que regressavam á patria vinham semi-mortos, e para nada se poderia contar com elles. De Pydna haviam chegado a Roma as Legiões triumphantes; da destruição de Carthago regressava Scipião com os seus bravos; mas nenhum legionario se quiz inscrever para acompanhar Quinto Fabio para a guerra da Lusitania, justificando-se com desdem que não desciam das altas façanhas contra nações grandes e civilisadas, contra umas obscuras tribus miseraveis dos confins do occidente e demais commandadas por um chefe de ladrões, (_Dux latronum_). Por estes imprevistos embaraços, e pela situação apathica em que se via Caio Lellio, a guerra lusitana afroixára; Viriatho, para não cansar as suas Companhias e Terços aproveitou-se d'esta tregua forçada, contando que nova epoca de lucta seria iniciada, cada vez mais desesperada e cruenta da parte dos Romanos.
XXXII
Para que a inactividade passageira em que se via não prejudicasse o perstigio que exercia sobre os seus homens de armas, resolveu Viriatho ir consultar o velho Idevor á ilha sagrada de _Achale_, junto do promontorio Cepressico, aonde se conservavam as tradições cultuaes trazidas de Hierna; partiu acompanhado dos seus Mil Soldurios, e transpondo a margem direita do Tagus, dirigindo-se para Cetobriga, aonde o Sado desemboca no Oceano, deu ordem aos companheiros que alli o esperassem durante tres dias.
D'alli, d'aquella bahia do Sado, partiu Viriatho em uma barca de couro, com os trez Cavalleiros que sempre o custodiavam, em direcção ao promontorio Cepressico de traz do qual parecia occultar-se a ilha de _Achale_. Um d'esses companheiros, Ditálcon, dizia:
--Foi n'essa ilha que se refugiaram as familias lusitanas assombradas pelo morticinio de Galba; junto do templo do Deus innominato, encontraram alento para resistirem á calamidade que os aniquilava.
Minouro, ancioso por pisar aquella ilha mysteriosa de _Achale_, avivava tambem as suas reminiscencias:
--Conta-se que outr'ora um Collegio sacerdotal de Druidas estava na ilha Pelagia, situada ao norte, fronteira á costa de Ophiusa, chamada d'antes Oestrymnis. Da ilha sagrada de Hierna vieram para aqui os Bardos, que doutrinaram as tribus de Lez, cujos navegadores cruzavam o mar Tenebroso indo buscar o estanho ás ilhas Cassitérides, e voltavam confiados no afamado pharol da torre de Brigantia. Mas, quem sabe onde está hoje essa ilha Pelagia?
Andaca observou:
--Desappareceu, ou por mysterio ou força da natureza. O mar desfez essa ilha, e aonde ella existiu é hoje um vastuo estuario coberto de _moliço_ e algas. Parece que os acontecimentos nos levam a prevêr que a Lusonia tem tambem de desapparecer como a sua Ilha encantada. Aqui a nossa raça foi invadida pelos Celtas loiros turbulentos; aqui nos tem explorado os Phenicios e Jonios, destruindo a nossa navegação no Oceano, mettendo a pique as nossas barcas; aqui nos roubaram pelo seu commercio os Carthaginezes, que attrahiram sobre nós a pilhagem dos Romanos, que hoje temos vencido, mas que não largam a prêza.
Emquanto a barca de couro seguia para a ilha de _Achale_, ia Viriatho reconcentrado e silencioso, como absorto na alta missão da sua vida; ao ouvir aquellas palavras de Andaca, obedecendo a um impulso intimo da sua intuição quasi prophetica, exclamou para os trez companheiros:
--Não serão sómente os Romanos que hão de pensar em submetter ao jugo as tribus da Lusonia; outros povos ou outras raças virão do norte e do sul, e se espalharão sobre este territorio julgando possuil-o pela força da conquista. A Lusonia póde ser temporariamente vencida, mas _nunca d'outrem subjugada_; não se extingue, porque a sua liberdade subsistirá nas almas, e cedo ou tarde manifesta-se em espirito e renasce em restauração gloriosa.
As suas palavras foram interrompidas porque a barca de couro dobrara o promontorio Cepressico, e appareceu repentinamente á vista a Ilha sagrada de _Achale_.
--É alli, é alli que se guardam os thesouros salvos ás devastações e rapinas dos Romanos; outros povos lançam os seus thezouros aos lagos escuros, como melhor meio de defeza. Mas quem saberá da existencia d'esta ilha mysteriosa? Ninguem; ninguem.
Minouro fitou a ilha, contemplando-a com espanto, na preoccupação que desde aquella hora sabia aonde se guardava o chamado _Thesouro do Luso_. A mesma ideia tornou-se uma obsessão para Ditálcon. A barca chegava já ás rochas escarpadas da ilha de _Achale_, sobre a qual se erguia uma Torre redonda de trez andares, como sentinella do Oceano tenebroso.
Erecta sobre o pequeno promontorio, a Torre redonda de uma surprehendente elegancia, era construida de fortes blocos apparelhados de pedra sêcca, tendo no cocuruto um tecto tambem de pedra em fórma conica. Dos seus tres andares ou quadras sobe-se por escadas em caracol formadas em pequenas torres lateraes que terminam em ameias.
O interior é alumiado por seteiras geminadas, e a porta unica da entrada está a uma altura do chão para a qual se sobe por uma escada movel que se faz baixar quando é necessario. Como logar de refugio alli estão depositadas as folhas plumbeas que têm impressos os titulos das familias, e relações dos successos memoraveis, Crescentes e Virias de ouro, Fibulas mamilares, Tiaras e Bastões de prata, insignias do commando dos patriarchas. Alli na Torre redonda se conserva o Fogo perpetuo consagrado a _Samham_, o _Julgador dos mortos_, cujos ritos se celebram no primeiro dia de Novembro. Consagradas a esse culto dos Antepassados ahi residem as Gemmades (de _Genmaidh_, puro e casto) mulheres formando uma como classe de Vestalato ou _Lucae dominicae_; e alli comparecem os tocadores das Harpas triplices ou de tres cordas, chamadas _Telyne_, que com sons fortes e vibrantes enchem o ambiente acompanhando os canticos de uma inspiração divina expressa pela palavra _Awen_.
E torneando a ilha, para fazer o desembarque, perguntava Andaca:
--Não tem porto _Achale_?
N'isto roçou a barca em uma lingueta de areia, que se ia alli formando em cabedello, e que com o andar dos seculos encheu esse ponto de communicação do rio Sado com o Oceano tornando-se com as turfeiras uma extensa peninsula, sobre a qual se accumularam apparatosos monumentos, que por seu turno foram tambem devastados pelo tempo.
Viriatho e os seus trez companheiros desembarcaram alegres; Idevor com um longo séquito de Endres, ou cantores e educadores do povo, veiu ao seu encontro, e entre musicas ruidosas e hymnos festivaes foram conduzidos para a vasta quadra que formava o andar terreo da Torre redonda. Era ahi a sala do banquete, em que se fazia a Symposia dos Chefes das Contrebias lusonias, quando se manifestavam sobre os destinos nacionaes. Era a primeira vez que Viriatho se assentava á cabeceira da meza, como se fosse um _Brenn_ ou _Hegmon_ das tribus.
E apenas Idevor o conduzira ao seu logar, entraram na quadra nove donzellas encantadoras, das mais bellas do typo da raça, cingidos os cabellos castanhos com litas douradas que desciam com as madeixas soltas ao longo das costas; e dansando em volteios com sentido hieratico, e cantando em unisono um côro que repetiam, foi o seu canto interrompido por uma voz argentina que parecia partir do alto da sonora quadra. Viriatho ergueu os olhos para descobrir d'onde vinha aquella voz que o penetrou com uma vibração seductora e dominativa, e viu lentamente descendo do primeiro andar da Torre redonda uma Donzella de uma graça e frescura sobrehumana.
Era Lisia, a filha do velho endre, e como elle conhecedora dos mythos da raça, e guarda das tradições mais augustas das tribus lusonias. Estava vestida com uma tunica branca guarnecida de purpura de Elisa, que os Tyrios tinham tornado celebre no mundo, cingida por um cinto de malha de ouro; uma lunula de ouro chato com finos ornamentos abarcava-lhe todo o alto da cabeça e vinha ás pontas das orelhas. Era uma Semnothêa, cercada por um grupo de nove Virgens, com quem no alto da Torre redonda celebrava os mysterios cultuaes. Lisia acabou de descer o longo escadorio, e atravessando por entre o Côro das donzellas, que a foram seguindo, tomou de uma ára a taça de ouro destinada ás symposias, e chegando em frente de Viriatho, estendeu o braço desnudado, alvissimo e de um contorno esculptural, appresentando-lhe a taça de ouro:
--Bem vindo! Viriatho. Só para ti, e com a minha felicidade.
Sob uma emoção repentina e como que subjugado pela belleza extrema que alli lhe apparecia, Viriatho tomou a taça da branca mão de Lisia e extactico, paralysado no seu movimento, não a levou logo aos labios. No rosto de Lisia transpareceu uma melancholia instantanea; seria desattendida a sua escolha? não a amaria o guerreiro de que tanto lhe fallavam, cujo nome se repetia nos cantos do povo e em hymnos de victoria?
Tudo o amor adivinha; lê nas almas, e o silencio é a linguagem mais expressiva da emoção ineffavel. Viriatho comprehendeu o vislumbre de tristeza que obumbrou o semblante de Lisia, e accudindo á hesitação involuntaria de que não se apercebera, levou a taça de ouro aos labios:
--Á tua saude! e _para sempre_.
Entrega em seguida a taça a Lisia, que com um rubor fascinante a levou aos labios, como completando a cerimonia tradicional esponsalicia, murmurando com suavidade:
--Para sempre!
E emquanto se entreolhavam em um invencivel enlêvo, Idevor ergueu ambas as mãos abençoando-os, lembrando-se de que aquella criança bella perdera toda a sua familia na mortandade de Galba, e de que aquelle homem forte surgira como o vingador e o libertador da Lusitania. Essas duas almas fugiam uma para a outra. As nove donzellas que acompanhavam Lisia como uma fórma não organisada do Vestalato, mas que poderiam ser comparadas ás _Senae_ ou _Barrigenes_ gaulezas, cantaram um hymno de amor, ao som de tetracordes, sobre a phrase que Viriatho e Lisia tinham trocado:
Para sempre--no espaço A estrella Erma, bella, Fulgor vivo derrama: De paixão nunca lasso, O que fará quem ama?
Para sempre--o sol flavo Solta a flux Vida, luz, Que o seu calor inflamma; Da attracção pura escravo O que fará quem ama?
Para sempre--o Oceano Tudo alaga Com a vaga Que plangente rebrama; Da alma no doce engano, O que fará quem ama?
Para sempre--sereno O luar Faz scismar, E mil saudades chama; No enlêvo mais ameno, O que fará quem ama?
Para sempre,--e sem calma A paixão Na attracção Do enlêvo augmenta a chamma; E embala o engano da alma Para sempre em quem ama!
O hymno de amor desdobrava-se em um coral unisono no retornello--O que fará quem ama?--deixando uma impressão mais que humana. Emquanto os eccos do festival se repetiam por todas as quadras da Torre redonda, Lisia, de mãos dadas com Viriatho, foi percorrendo a sala á volta, cumprimentando os assistentes, que se inclinavam com sympathia. D'alli subiram os dois para o terceiro e ultimo andar da Torre d'onde se alcançava a extensão immensa do mar azulado, que reflectia o cariz de um céo sereno e sem nuvens.
--Como as nossas almas!--disse-lhe Lisia, apontando todo aquelle ambiente.
Alli, n'aquelle retiro ignorado do mundo e até aonde sómente Lisia tinha accesso pela sua qualidade de Semnothêa, alli, de pé, junto de Viriatho, e contemplando o Oceano profundamente placido n'aquelle dia, confessou-lhe a noiva ingenua:
--Nunca te tinha visto, mas representava-te na mente assim como és. Como Semnothêa e para que te entregue completamente a minha vontade, só me falta uma prova de ti. Tens de responder a um Enigma.
--O coração que ama tudo adivinha.
Então Lisia proferiu com incerteza este Enigma de caracter religioso:
Vive sem ter corpo, No valle ou em gruta; Falla sem ter bocca, Sem ouvido escuta?
--Esse Enigma, devolveu Viriatho, foi-me revelado pela tua voz, quando pela abobada d'esta Torre, lhe escutei o suavissimo _Ecco_.
--Bem se vê que tens entrado em grutas e cavernas sagradas. Eu bem sei que foi um Ecco em mysteriosa resonancia, que te proclamou invencivel.
E tirando uma armilha de ouro do braço, fechou-a no pulso de Viriatho, e atirou a chave ao mar, proferindo como em vaticinio:
--Para sempre!
E Viriatho, tomando-lhe as mãos ambas:
--Eu ouvia fallar de ti como uma apparição celeste, mas não tinha esperança de chegar a vêr-te. N'esta vida de combates que levo, para a independencia da nossa Patria ser firmada, esperando a morte como consequencia da lucta, e então... morreria sem vêr-te.
--Foi o teu amor pela Patria lusitana que me fez pensar em ti e levou a amar-te como a alma d'ella. As tuas victorias venceram-me tambem; e Virgem Semnothêa do Collegio sacerdotal, que através de todas as perseguições e ruinas ainda aqui se conserva occulto n'esta ilha sagrada de _Achale_, fiquei pertencendo-te desde que identificaste a tua vida com a independencia da Lusitania.
--É para mim muito mais do que a corôa de rei a escolha que de mim fizeste para teu esposo.--Disse Viriatho, tomando as mãos de Lisia e beijando-as trémulo.
Lisia approximou a face immaculada da bocca do guerreiro, que a osculou com emoção e pureza, na ingenuidade de heroe, que fazia d'esse beijo não um prazer mas um sacramento. Viriatho ficou mudo por algum tempo, fitando o mar como esquecido de si.
Lisia, com ternura e graça, perguntou-lhe:
--Quando te entreguei a taça de ouro, por que hesitaste em leval-a aos labios?
--Dominou-me o espasmo de uma impressão divina.
--Comprehendeste a minha tristeza n'esse momento rapido. Ah, n'esse momento decidiu-se na minha alma uma determinação mais forte do que o meu desejo, e que se tornou um voto religioso. Levaste a taça de ouro aos labios acceitando a minha escôlha; mas... só virei a ser a tua Esposa, cobrir-nos-ha o mesmo cortinado _quando um General romano te pedir a Paz_.
--Lisia, escolheste-me para teu esposo! Entrego-me á tua vontade,--para sempre. A condição que revelas é um impossivel, por ventura para não te destituires da hierarchia de Semnothêa? Virgem dos mysterios cultuaes, nunca deixarei de amar-te, elevando-me a uma adoração pura, e tirando d'este santo amor o impulso para vencer os Romanos, e para... que digo eu? deixa-me delirar um instante, para forçar um Pretor, um Consul a _pedir-me a Paz_. Eu tambem jurei sobre a Pedra focal não ter familia em quanto não expulsar os Romanos da Lusitania.