Viriatho: Narrativa epo-historica

Chapter 5

Chapter 53,694 wordsPublic domain

Quando chegaram a Toletum, ainda Viriatho estava ausente, em uma exploração do territorio em que uma grandiosa Cava se prestava a imprevistos planos estrategicos, a que em futuro proximo teria de recorrer. Mas esses optimates cantonaes fôram encontrar na cidade a que se accolhera o exercito um grupo de homens, a que davam o nome honorifico de _Anciãos_, EN, e cuja palavra era inspirada e _eloquente_, por isso nas velhas linguas britonicas se exprimia por _D-eirim_. O povo, pelo costume antigo, chamava _Endre_ a cada um d'esses homens, a quem acatavam como depositarios de um maravilhoso poder espiritual. E de facto os _Endres_ eram propriamente os Antigos das tribus, os que conservavam a norma e sentido moral ou historico dos costumes; não formavam um corpo sacerdotal, nem mantinham a estabilidade de qualquer dogma theologico, mas possuiam um saber do passado, que os tornava oraculos vivos, conselheiros em todos os momentos arriscados, e conciliadores nas luctas intestinas e separatistas das varias tribus. Os _Endres_ eram queridos do povo; despidos de toda a hypocrisia de classe e de odios doutrinarios dos sacerdocios, mofavam com o seu bom senso dos ritos e dogmas dos _Druidas_ das Gallias, que elles desprezavam como macaqueadores das normas cultuaes da religião oriental dos Mobeds de Mithra, que se propagava pela Europa. O caracter e ascendente moral dos _Endres_ estabelecia-se espontaneamente, quando o povo reconhecia em um Ancião das tribus o bom conselho, o saber pratico da vida, e o conhecimento das Tradições do passado; era então considerado como unico e como inspirado. Apontavam-se na Lusitania numerosos _Endres_, venerandos pela sua edade e saber: uns conservavam de memoria as Runas, ou propriamente as tradições locaes e da raça, e tendo na mão o ramo da Azinheira coberto de _l'andras_, presidiam ao sorteio annual das terras, evitando prudencialmente todos os conflictos; outros sabiam as Sagas, ou narrativas históricas, as _Aravengas_, que recitavam nos banquetes dos regedores cantonaes e nas festas consagradas a perpetuar successos memoraveis das tribus; outros conheciam as Sentenças da moral gnomica, Singvan, os aphorismos ou dictados, que exercem justa auctoridade nas resoluções da vida, porque condensam em breves phrases, ás vezes em um só verso, a experiencia de seculos; outros interpretavam o sentido dos velhos Symbolos, resolviam os mais intrincados Enigmas, e penetravam a materia numerica dos Quadrados magicos. D'entre todos esses _Endres_ destacava-se um, pelo saber maravilhoso reunido em sua mente incomparavel; conhecia as mais vetustas tradições da terra da Lusitania, quando ella ainda se estendia até á falda occidental dos Pyreneos, as terras de _Lez_, que as convulsões do tempo fôram tornando cada vez mais ribeirinhas; só elle recitava Poemas de mais de seis mil annos de antiguidade; conhecia as cavernas e arcas cavadas nas rochas em que estavam occultos thesouros; e o que mais assombrava, tinha o segredo da leitura dos Quadrados magicos e dos Bastões runicos, que lhe davam uma fé inabalavel na independencia e missão vindoura da Lusitania. Esse _Endre_ chamava-se Idevor, e quando passava pelos povoados saudavam-o com o titulo de _Sanctum Anderu_, e davam-lhe corôas feitas de ramos de azinheira. Pela sua paixão pelas antiguidades e liberdade da Lusitania se justifica o regosijo que em seu espirito provocou o apparecimento de Viriatho! Como a derrota por elle infligida ao Consul Vetilio o encheu de fervorosas esperanças! Idevor appresentou-se em Toletum com _Endres_ de varias terras, e pelas conversas que entre si tiveram, facil lhes foi apurarem um conhecimento completo da personalidade do pastor _Ouriato_, que o povo acclamava agora pelo titulo de Viriatho. E vendo a chegada dos chefes das Contrebias, resolveram ir ao encontro d'elles, e dirigil-os no intuito de prestarem todo o auxilio ao destemido cabecilha.

XIV

Toletum estava em festa; pela presença d'esses homens ornados de collares de ouro e braceletes, e acompanhados de numerosos sequitos de soldurios e ambactes. O pequeno grupo dos _Endres_ levando á sua frente o venerando Idevor saíu a saudal-os á entrada da cidade, e juntos todos fôram tomar a refeição ou consoada e libar grandes covilhetes de cerveja. Á meza um dos castellões, Leucon, chefe de tribus celtibericas, lançou a phrase:

--Dizem que Viriatho, o vencedor de Vetilio, é um simples pastor da Serra, que apascenta gado alheio lá no Herminio maior, que separa as duas Beiras?

Idevor percebeu uma vaga intenção de amesquinhar a capacidade militar do vingador dos morticinios de Galba, e com a clareza de uma consciencia pura, que de tudo se informára, respondeu:

--Eu conheço a vida d'esse valente pastor, desde o tempo em que o seu nome era simplesmente Ouriato. Quantos aqui possuem gados, sabem qual é o valor de um homem a cuja guarda se confiam para mais de vinte mil cabeças de variados rebanhos, que elle tem de defender através das marchas da deambulação, quando são levados das terras seccas, sem prados e abrazadas pelas calmas, para as pradarias de serras chêas de barrancos, de ursos e lobos e mesmo de salteadores. Este serviço dos gados na sua transhumação está organisado na instituição da Mésta, que dirige a juncção dos gados de todos os proprietarios; e n'este serviço só chegam a _Maioraes_ aquelles moços que revelaram qualidades singulares de intelligencia, coragem, ardil, e que pela valentia ou astucia souberam salvar os rebanhos de perigos ou assaltos repentinos. Ouriato chegou a _Maioral_ da Mésta em uma edade quasi de adolescente; foi n'esse serviço violento da deambulação dos gados, e responsabilidade de tantos valores, que elle provou além da valentia e disciplina, as qualidades mais intemeratas de caracter. É verdadeiramente um homem: e, pela resistencia ao soffrimento e ás contrariedades da sorte, é o typo dos lusitanos. O que insurreccionou a sua alma contra os Romanos foi o ter assistido á mortandade iniqua de trinta mil lusitanos ordenada por Galba, de que escapou maravilhosamente; e hoje o seu poder sobre o exercito provém-lhe de o ter salvado da rendição já combinada, e de no barrocal da patameira ter destruido quasi metade do exercito romano, desmoralisado pela morte do Consul Vetilio. Este homem é perante o povo uma reapparição d'esse Viriatho, que os romanos chamavam o Principe da Lusitania, e que indo combatel-os á Italia, soccumbiu na famosa batalha de Cannas. Esta auréola maravilhosa é tambem uma força, e com ella podemos contar, porque Viriatho será o libertador da Lusitania. Temos um general consumado; o povo accode ao seu chamamento, falta só o apoio dos chefes das Contrebias.

A ameaça das reprezalias romanas fez comprehender a todos esses presidentes das cidades federadas, que tinham de dar o seu apoio a Viriatho como recurso da propria segurança:

«Que seja entregue a Viriatho o _Collar de ouro_ como insignia do poder, e para que lhe obedeçâmos como nosso egual.»

Foi geral o assentimento. Então Idevor, erguendo-se com um magestoso aspecto, disse:

--Eu sei onde pára occulta uma Viria, que attesta essa epoca em que todos os Estados da Lusitania estavam ainda unidos. É um _Collar de ouro de tres Crescentes_! Representa a mutua solidariedade de raça, costumes e Governo da Callaecia, da Betica em volta da Lusonia! Eu só guardava o segredo d'esse thesouro incomparavel, muitas vezes receiando que elle se extinguisse com a minha vida! Felizmente que se ergueu um homem, que pelos seus feitos os outros julgam digno de receber a Viria! O _Collar dos tres Crescentes_ está occulto em uma caverna do Herminio maior, desde o tempo das invasões da Hespanha pelas hordas orientaes. Pouca gente terá pisado as veredas que conduzem ás Cavernas lindissimas do Cantaro Magro; mas no Covão do Boi, ao sul do Cantaro raso, existem umas ruinas ou Catacumba descoberta, com menhires e potentes monolithos sobrepóstos; do fundo da rocha d'onde se avista o bôjo do Covão Magro com o singular especto de _uma enorme carranca_, é ahi que está excavada na rocha uma Arca ou caixa em que se contém o _Collar de ouro dos tres Crescentes_. Eu me presto a ir buscal-o, e dentro em poucos dias aqui estarei de volta.

A revelação de Idevor foi recebida com acclamações de assombro; e os chefes das Contrebias, pedindo-lhe que fôsse buscar o thesouro da raça, bradaram:

--Seja dado a Viriatho o _Collar de ouro dos tres Crescentes_.

Carros com pipas de cerveja passavam pelas ruas, e taboleiros com fartes de farinha de bolota á cabeça de moças com arrecadas de ouro nas orelhas e grossas contas de ambar em volta de pescoço; formava-se o arraial para a entrada de Viriatho.

XV

A chegada de Idevor a Toletum com a Viria dos tres Crescentes de ouro, de que até então se fallára como fabula ou tradição confusa, coincidiu com o regresso de Viriatho seguido da numerosa cavalgada dos seus Soldurios, que o fôram esperar ao caminho, e dos tres companheiros que lhe formavam a trimarkisia, Ditálcon, Andaca e Minouro. Estes tres bravos eram do pequeno numero dos sobreviventes da mortandade de Galba, e pela tremenda desgraça se achavam ligados ao agil pastor que matára os dez elephantes africanos, e com elle andaram pelas cidades da Lusitania insurreccionando os povos contra a devastação de Roma; vinculava-os uma decidida dedicação áquelle em quem reconheciam espontaneamente o maximo ascendente moral. Ditálcon era o mais velho, intelligente e reflectido, capaz de desempenhar missões difficeis; Andaca, joven e phantasioso, mostrava-se repentinamente enthusiasta ou desalentado, segundo as pessoas com quem tratava; Minouro, tinha algumas qualidades d'estes dois companheiros; mas predominava n'elle a solercia, ou antes a falta de franqueza no caracter. A victoria e a acclamação de Viriatho ligou-os mais intimamente ao chefe reconhecido, de quem não tinham inveja. Quando elles viram Idevor e o triplice Collar, disseram entre si:

--Para o Principe da Lusitania.

Viriatho fitou-os com seccura, e abaixou os olhos desdenhoso, com o desgosto de que alguem suspeitasse que combatia por outra ambição que não fôsse a liberdade da nossa Terra.

Os Chefes das Contrebias, avistando Viriatho, caminharam ao seu encontro, saudando-o com gritos de alegria, e erguendo ao ár as suas lanças de prata, com que presidiam ao sorteio das terras, e á entrega dos gados da sua região aos Chefes da Mésta, e mesmo aos tribunaes á sombra da carvalheira, onde davam as sentenças. E elles proprios, vendo o sabio Idevor junto de Viriatho com o _Collar de ouro_ na mão, bradaram com enthuziasmo:

--Lançae-lhe ao pescoço a Viria do Commando, aqui, agora, antes de entrar na cidade.

Idevor obedeceu com jubilo, e lançou-lhe o Collar de ouro. Disse um dos chefes das Contrebias:

--Agora, dignificado com a _Viria_, é que Ouriato ficará para sempre sendo o nosso Viriatho.

Idevor, que conhecia as mais antigas tradições da raça, acudiu com ár mysterioso:

--Se procurarmos o sentido mystico que se contém no nome de Viriatho, vamos encontrar na palavra scythica _Vrindus_, que designa o Touro, o totem da nossa antiga raça e civilisação dos Ligures, a relação com a valentia do heroe e a sua missão religiosa do combate libertador.

Assim conversando, a brilhante Cavalgada entrou em Toletum, dirigindo-se ao terreiro da cidade em que estava erecta a columna denominada Pilumnos, que symbolisa a independencia da communa ou Municipio. Foi ahi, que antes de destroçarem, pediram a Idevor, para que recitasse a Saga ou narrativa tradicional que se dizia existir da Viria ou _Collar de ouro dos tres Crescentes_.

Idevor não se fez rogado, e começou em uma recitação quasi melodica o poema em que era celebrado este Symbolo da Confederação primitiva dos estados da Lusonia, antes de um invasor oriental ter penetrado na Hespanha, explorando-lhe as riquezas, e dissolvendo-a pelo espirito separatista com que enfraquecera a raça. Como os Aédos de Hellade, diante das tribus doricas, eolias e acheanas, Idevor unificava idealmente as tribus lusas recitando o poema de:

*CHRYSAÔR*

Do Herminio Maior na immensa altura Vê-se o _Corgo das Mós_, que as nuvens fura, Formado por tres grupos de rochedos, Como irmãos que se apoiam firmes, quedos! Sobre o do centro, como em pedestal, Bloco estupendo, grandioso assenta; De um Gigante a cabeça representa, De longe contornando no horisonte Negro perfil de mysteriosa fronte.

Das convulsões da Natureza activa, No calor de uma lucta primitiva, São taes blocos relêvos manifestos: Mas ha quem reconheça n'esses restos, No bloco e nos tres grupos de rochedos, Da Lusonia antiquissimos segredos: Governou esta terra um patriarcha, Théron, desde o norte ao sul a abarca, E aos extrangeiros a fronteira fecha.

A seus tres filhos este Estado deixa:

--Se a terra de Lusonia dividida Fôr entre vós, por certo enfraquecida Fica exposta ao assalto do estrangeiro, D'Africa, ou levantino aventureiro. Mas se a Lusonia unida se conserva, Não entra aqui indomita caterva; E grande, desde o Sacro Promontorio Até ao mar Cantabrico, este emporio Que vae dos Pyreneus té á vertente, Será da Hespanha o estado mais potente.-- Do mundo era por toda a redondeza Théron, por causa da sem egual riqueza, De Chrysaôr por nome conhecido. Pelo pezo da edade amortecido, Chama os tres filhos; vieram reverentes, E um aureo _Collar de tres Crescentes_ Lhes entregou, no seu momento extremo:

--Dou-vos a insignia do Poder supremo. Os trez Crescentes d'este aureo Collar, Pela crença da religião lunar, As tres phases da Lua symbolisa. São a Lusonia integra, indivisa, Abrangendo a Tartéssida virente, Tarraconia, e Callaecia, a mesma gente! Ah, se partirdes este Collar de ouro, Cae a soberania... escuro agouro.

E receiando o temeroso evento O velho Chrysaôr exhala o alento.

Deram os tres Irmãos ao pae amado Nas Cavernas do Cantaro Delgado, Sepultura em pyramides alpinas, Que têm o aspecto de um castello em ruinas. Ante o cadaver, na alta sepultura, Entre si, cada um dos Irmãos jura Não partir o _Collar dos tres Crescentes_, Mantendo unidas as lusonias Gentes. Em catacumba do Covão do Boi O Collar de Ouro escondido foi, Fixando, do local para lembrança, Aquelle d'onde a vista longe alcança Sobre o Cantaro Magro ingente bôjo Que de bruta _Carranca_ tem o antojo. Resguardado na Arca de um fraguedo, Os tres Irmãos em mutuo segredo Conservam da Lusonia, ora indivisa, Do Poder soberano essa divisa. Ha entre os tres Irmãos tanta harmonia, Que sentindo o que cada um sentia, Ou unidos no mesmo pensamento, Realisam o accordo em um momento, Um longe, na Callaecia laboriosa, Outro áquem na Tartéssida formosa, Ou já na Tarraconia grande e forte.

Quanta prosperidade d'esta sorte De Lusonia engrandece os tres Estados, Rica de bens, dinheiros, e de gados! Mas a faina do Mar fôra esquecida, Trocada pelas da agricola vida! Ah! d'aqui a catastrophe resulta, Que a liberdade lusa atroz sepulta.

Quantos Povos invejam com insania Os viçosos Jardins da Bastitania, E vêm pelos cantares dos Homerides Buscar o Elysio e os Jardins Hispérides, Crendo encontrar aqui o Velocino, Que reconhecem ser gado bovino! Aventureiros lá do mundo Asiano, Arribaram ao porto Gaditano, Affrontando do pélago o terror, Para roubar o gado a Chrysaôr! Heracles forte, o tyrio, vinha á frente, Doésta os tres Irmãos, soberbamente, Para um combate a corpo, singular. Terrivel o recontro, atroz o azar! Caiu dos Tres Irmãos o irmão mais velho, Heracles o esmaga sob um joelho! E a mesma dôr, que a vida lhe arrebata Aos outros dois Irmãos é a que os mata. Desde então a Lusonia sem commando, Viu-se roubada de estrangeiro bando, Que a invade, a devasta e a governa, Perdida a ideia da união fraterna! A aspiração moral ficou intacta! Do _Collar de ouro_ nunca se desata Nenhum dos Tres magnificos Crescentes; E á espera de outra Éra e novas gentes, Aguarda, ao fim do secular destrôço, Um bravo e audaz a quem cinja o pescoço.

........................................

O sabio Idevor, dominado por uma commoção profunda, interrompeu a recitação do Poema de _Chrysaôr_, que segundo a tradição contava milhares de annos de vetustade; e de facto os successos referidos narravam as primeiras invasões no territorio hispanico, que antecederam todos os documentos ou monumentos da historia.

Os chefes das cidades confederadas applaudiram com os seus renchilidos e vivas o recitador, o Endre sapiente; o velho, mostrando o _Collar de ouro dos tres Crescentes_, avançou para junto de Viriatho, e depois de fazer uma vénia solemne lançou-lhe ao pescoço a Viria da triplice soberania.

XVI

Emquanto os Cavalleiros decorados de Collares de ouro de um só Crescente rodeavam o novo Caudilho lusitano, começou a ajuntar-se muito povo pelo empenho de admirarem de perto o vingador, aquelle que soubera inflingir a formidanda derrota ao exercito consular. E naturalmente aos gritos com que se saudavam as varias regiões autonomas:--Viva a Callaecia! Viva a Tartéssida!--começavam-se a organisar dansas peculiares dos montanhões e dos ribeirinhos, vistosas e com caracter guerreiro, outras surprehendentes pela agilidade dos pés e dos saltos, com um sapateado rythmico, ululando phrases que tornavam mais delirante o enthusiasmo. A dansa mais querida era a propriamente armada, formando uma grande roda ou circulo girando ora sobre a direita, ora sobre a esquerda, por homens de mãos dadas, mas tendo cada um a lança, da qual lhe provinha o nome de _Palotêo_ ou _Paulitos_, ora avançando, e já recuando ao compasso do canto de um Côro gigantesco, terminando no cabo de todos os passos por um simulacro de batalha.

No fim do animado palotêo, appareceu um grupo de mocetonas gaditanas, formosas e desenvoltas, com braceletes ricos e armilhas nos braços e pernas, dansando á moda da Tartéssida, e com seus adufes, dando-lhe um aspecto religioso orgiastico, estonteante. Os Romanos, que vieram á Hespanha Ulterior, sentiram-se fascinados por estas dansas das soalhas ou castanholas metalicas, e memoraram em seus livros a _Betica crusmata_ e a _Tartessiaca aera_, que tanto iria enlouquecer a mocidade dourada da Cidade eterna. Proseguindo na sua dansa fôram as bailadeiras beticas approximando-se do grupo em que estava Viriatho, dirigindo-lhe em Côro em fórma de corranda:

*A Canção da Viria*

Onde ha fontes de agua pura, Vamos a sêde matar.

Onde ha graça e formosura, Vamos com paixão amar.

*

Onde ha um bravo que vence, Vamos-lhe a gloria acclamar!

A Viriatho pertence De ouro o triplice Collar!

*

Brilha n'esses tres Crescentes Do sol fulgor singular:

Sigam os homens valentes Esta nova luz polar.

*

Onde ha odios e vingança, Vamos a sêde matar!

Da Patria livre a esperança Vamos com paixão amar.

*

Siga o triplice Collar O que ser livre aspirar!

Terminadas as dansas e cantares do vistoso arraial, os Chefes das Contrebias no meio de tanta alegria começaram a atirar pequenas moedas de prata ás rebatinhas, que o povo em chusma corria a apanhar, atropellando-se, em cambalhotas, em que cada um no meio de estrondosas risadas mostrava a maior agilidade e presteza. Essas moedas eram quasi todas de valor de um drachma, e cunhadas nas cidades lusitanas como manifestação da sua autonomia. Viriatho notou n'aquelle espectaculo divertido, que as turmas do povo, ao agarrarem as moedas, miravam-as no verso e anverso, e em seguida guardavam umas com soffreguidão, e arrojavam para longe com desdem as outras. Inquiriu do caso inesperado; foi então, que Idevor lhe explicou essa manifestação espontanea e significativa da alma popular, mostrando-lhe dois d'esses differentes numismas de prata:

--Reparae n'esta moeda: De um lado está cunhada uma cabeça viril, em cabello; tem barba, e um collar ao pescoço. Do outro lado, vêdes, um cavalleiro a galope, com a lança em riste! Agora a outra moeda: em uma face está impressa uma corôa de carvalho, e no reverso figura um Colono conduzindo dois bois, como quem lavra a terra. O povo conhece esta differença, e o que ella significa. Todas essas moedas do _Cavalleiro da lança_, são por antigo costume cunhadas em Cidades livres e autonomas, inscrevendo n'ellas o seu nome, como vereis em tantas que para ahi se arrojam ás rebatinhas, como estas...

E Idevor foi mostrando ao acaso as moedas, e lendo os nomes de Toletum, Alva, Bilbilis, Segovia, Segobriga, Carissia-Celsa, Sactabis, Toriasum, Clunioo, Gili, Italica, Sacelli, Sagunto, Lastigi, Osca, Ilipla, Itvci. E interrompendo o exame continuou:

--Roma emprega todos os meios para substituir estas moedas pelas do _Colono conduzindo os bois_, com que representa o seu dominio, pela corôa de carvalho, e a servidão dos povos submettidos como os bois ao arado, as quaes faz circular nas suas cidades estipendiarias e municipaes.

--Comprehendo agora o sentimento do povo. Repelle o jugo do estrangeiro, e só acceita o Cavalleiro da lança. É esse sentimento que me fortifica.

XVII

Os chefes das Contrebias, ao terminar das festas, saudaram um por um a Viriatho, e lhe fôram contando na mão _cinco_ pequenas moedas de prata, d'aquellas que pouco antes tinham arrojado á multidão. Era a expressão symbolica do direito individual, em uma sociedade que se regia pela communidade das terras lavradas, das pastagens, e dos celleiros do clan para as colheitas agricolas.

O territorio lusitano pertencia exclusivamente ás tribus ou gentes, sendo annualmente sorteadas pelas diversas familias as geiras que haviam de cultivar. Sobretudo nas margens fertilissimas do Douro, e no cantão dos Vacceos, é que este communismo tradicional se conservava na sua maior pureza. Com o tempo introduziu-se o costume de cada familia conservar como proprio o terreno de _cinco acres_, ou agra em que estava a casa, o poço e a horta. Era o que o rifão popular allude ainda, quando para significar a indigencia a exprime:--_Sem eira, nem beira, nem ramo de figueira_.

Este terreno, que tambem na primitiva familia romana tinha o nome de _Haeredium_, era o fundamento da estabilidade da familia, e, sempre inalteravel, era um vinculo ao qual se incorporava qualquer cercado em que se estabelecera um novo casal. Para que esse solar se mantivesse sempre indiviso, a herança dos irmãos da mesma familia fazia-se excluindo-os da propriedade da terra dando-lhes _cinco moedas de prata_.

Viriatho comprehendeu o sentido da offerta que lhe fizeram os chefes das Contrebias. Nos territorios da Lusitania elles possuiam como seus proprios e individuaes os solares dos Castros, Castrellos, Crôas e Môrros, Cabêços e Citanias, Penhas e Cidadelhes; e a entrega das _cinco moedas de prata_, significando a affirmação de independencia solarenga no meio dos territorios communaes, n'este momento representava o reconhecimento de uma suprema chefatura. Era o direito soberano de _Chevage_.

Na bandeira branca dos Mil de Viriatho, e no escudo do valente cabecilha, d'aquelle dia em diante ficaram representados os cinco dinheiros, chamando-se-lhes por isso o Pendão das _Quinas_, o Escudo das _Quinas_.

XVIII

Viriatho foi visitar as officinas dos Espadeiros de Toletum, que eram afamados no mundo pela tempéra rija que sabiam dar ao ferro com que fabricavam as armas hespanholas. O seu nome já era conhecido entre os Espadeiros, e um d'elles com aspecto de auctoridade deixou a forja e veiu ao encontro do Cabecilha com alegria:

--Bem esperava vêr-vos, e saudar-vos! As espadas que temperâmos carecem de braços firmes como os vossos.

Viriatho tocando-lhe com a mão no hombro, e avançando pela officina ao ruido das bigornas em que se rebatiam a martello as laminas já frias, volveu-lhe: