Viriatho: Narrativa epo-historica
Chapter 16
--Morreu o teu corpo, mas permanece imperecivel o teu ideal. Esta Espada transmittirá o esforço, truncado pela traição, áquelle que cedo ou tarde servir a aspiração de uma Lusitania livre.
E voltando-se para o exercito, que parecia reanimado por estas palavras:
--O que temos a fazer agora, e primeiro que tudo, é prestar a Viriatho as honras do funeral.
Emquanto se davam as ordens para realizarem de prompto, com a maior solemnidade, a lugubre cerimonia, no arraial dos romanos levantavam-se cantos de acclamação triumphal, que eccoavam de quebrada em quebrada:
--Acabou a Guerra da Lusitania. Morreu Viriatho! Morreu Viriatho.
LIII
No arraial de Quinto Servilio Cepio a inesperada noticia da morte de Viriatho propagou-se com uma rapidez inaudita; perguntavam entre si os Legionarios:
--Quem seria o valentão que se atreveu a ir atacar pessoalmente aquelle colosso?
--Morreu em duello Viriatho!?
--Só por traição...
--Quem foi o romano astucioso?
--Quem teve essa gloria?
--Não ha gloria em matar á traição.
--Não foi nenhum romano; fôram lusitanos, e amigos de Viriatho.
--Custa a crêr.
--Elles estão ahi junto da barraca de Cepio para receberem o premio promettido.
--Então, foi Cepio que os comprou? que os aliciou para a traição?
--Sim! Nada podendo pelas armas, alcançou pela astucia o que nunca poderam conseguir Vetilio, Plancio, Nigidio, Fabio, Quinccio e Serviliano. É velho o ditado, mas sempre verdadeiro: Quem não póde, trapacêa.
E n'estas conversas entre os Legionarios, a curiosidade aguçava-se estimulando alguns d'elles para irem vêr como eram as caras dos tres miseraveis que tinham, ao serviço de Cepio, assassinado o general que Roma tanto temia. Os Legionarios que passavam e encaravam com Ditálcon, Andaca e Minouro, iam dizendo entre dentes:
--Ia jurar que aquelles homens não são lusitanos!
--Viste aquelle mais alto, e mais velho? Se não é um africano branco, berber, mesmo ao pintar!
--E o outro? o loiro, parece celta.
--O da cara redonda é que se assemelha mais ao typo luso; mas assim roliço, e puchando para a gordura... é com certeza ibero.
Afastaram-se á pressa, por que o Consul Quinto Servilio Cepio apparecera á porta da sua barraca de campanha; alguns ouviram o som confuso das palavras trocadas entre elle e os tres traidores, palavras atropeladas, e d'entre as phrases destacando-se as que Cepio proferiu com accentuado e esmagador desdem:
--Roma não tem por costume dar premio a soldados que estrangulam o seu general.
As trombetas abafaram o resto da phrase, tocando á formatura das Legiões e á parada geral do exercito. Emquanto esteve o exercito consular em fórma, Cepio conferenciou com os Centurios, estabelecendo o plano a seguir depois da morte de Viriatho:
«Primeiramente intimar ao exercito lusitano a rendição peremptoria e incondicional; agora privado de chefe, é de todo impossivel a resistencia.
«Depois d'isto, que Decio Junio Bruto avance com uma parte do exercito romano e penetre na região da Vettonia e vá ao encontro dos Callaicos, que tratam de prestar soccorro ao exercito, conforme o pedido que lhes fizera o Caudilho.
LIV
Os Cavalleiros romanos, que chegaram com a intimação affrontosa de Cepio ao arraial lusitano, podéram vêr e contaram as cerimonias grandiosas que se praticaram no Funeral de Viriatho. D'entre os Mil Soldurios que sempre o acompanharam, uns encarregaram-se de vestil-o magnificentissimamente com as mais ricas e festivas roupas que trajava em tempo de gala, quando animava os jogos celebrando as derrotas romanas. Amarraram-lhe os cabellos na testa, como se fôsse para entrar em combate, pondo-lhe na cabeça a triplice cimeira e o capacete de couro; pendente do pescoço o pequeno escudo concavo, preso por corrêas, e em uma das mãos um punhal largo ou faca de matto, estendida a seu lado uma lança de ponta de bronze e gancho para não deixar fugir a prêza. Outros Soldurios acarretaram para cima de um alto penhasco que estava na corôa da montanha, grandes mólhos de rama de pinheiro, de faias e carvalhos, formando alli uma estupenda pyra, sobre a qual, com veneração, fôram processionalmente collocar o corpo rigido de Viriatho. Parecia um soberbo throno a pyra; e logo que cada um dos Mil Soldurios foi junto do cadaver dar-lhe o derradeiro adeus, dividiram-se em grupos de duzentos, e póstos em frente uns dos outros, como quem vae entrar em combate, esperando que fôsse lançado fogo á enorme pyra. A chamma começou a atear-se, e assim que ella irrompeu intensa, principiaram as dansas guerreiras em volta da pyra, em fórma agonistica, batendo os escudos, floreando as lanças, brandindo as espadas e entrecruzando-se vertiginosamente, como se esse tripudio sanctificasse mais o acto lugubre, continuando ininterruptamente, incansavelmente, até que a ultima labarêda, tendo combusto o corpo de Viriatho, se apagasse por não ter mais que queimar.
E emquanto aquellas turmas de duzentos cavalleiros dansavam em volta da pyra, dois outros grupos conservavam-se balançando-se como a accentuar o rythmo de um Canto, em que celebravam as virtudes e o heroismo de Viriatho. O que esse Côro generoso e heroico vociferava, chegou na voz dos tempos a penetrar na historia:
ENDECHA FUNERAL
PRIMEIRA TURMA:
De obscura estirpe nascido, Fôra em criança pastor: Certo prenuncio e augurio Que um dia, por seu valor, Intelligencia e denodo, Guiaria o Povo todo.
SEGUNDA TURMA:
Nos transes mais arriscados, A astucia e penetração Dos seus planos de batalha, Descobria a salvação! Vimol-o em Tribula, quando Teve a Viria do commando.
PRIMEIRA TURMA:
Por trazer o Collar de oiro Não deixou de ser affavel! Dava a todos egualdade, Contra Roma era implacavel! Nas Legiões consulares, Mandava ao Orco aos milhares.
SEGUNDA TURMA:
Roma offereceu-lhe um dia Da Lusitania a Realeza! Simples, modesto no trato, Sceptro e purpura despreza, Fazer livre a Patria sonha; Por ella a morte é risonha.
Este grupo de Soldurios unindo-se, começaram uma carreira vertiginosa em volta da pyra; e os que até áquelle momento andavam em volteio ballucinante pararam subito, cantando por sua vez, divididos em duas filas:
PRIMEIRA TURMA:
Dominou pelas victorias! Mas nunca sua vontade Altiva se exerceu fóra Da Justiça e da Equidade. Sempre as prêzas repartia; Nada para si queria.
SEGUNDA TURMA:
Valente, audaz, destemido, No seu viver era sóbrio! Commodidades e luxo Tinha-os por vil opprobrio. Para a liberdade attreito, Tinha o duro chão por leito.
PRIMEIRA TURMA:
Triumphava nos perigos Pela astucia e pela audacia! Cansou Roma, a Paz lhe impondo Pela instante contumacia. Manietou os tyrannos Na campanha de dez annos.
SEGUNDA TURMA:
N'esses dez annos de lucta, Á sua voz tudo corre; Uniu-nos pela vontade Que a Patria lusa soccorre, A nossa Patria ditosa, Que, firme, libertar ousa!
AS QUATRO TURMAS:
E Roma, sempre vencida, Só achou o assassinato, Pela perfidia affrontosa Para vencer Viriatho! Vergonha á Cidade eterna, Que pela traição governa.
O Canto do soberbo Côro acabou pela estranha Vociferação, condemnando a traição execranda de Roma contra Viriatho emquanto dormia. Areytos e Tripudios funerarios acabaram simultaneamente; e emquanto se abriu uma vastissima cova para arrojar as cinzas de Viriatho, procedeu-se ao sacrificio das victimas consagradas aos manes do general insubstituivel. Cortaram as dextras dos prisioneiros romanos, que eram quasi todos iberos e levantinos, e foram mortos muitos cavallos. Dedicados amigos de Viriatho combinaram entre si o suicidio religioso, para o acompanharem além da morte, sendo alli enterrados sobre as cinzas d'aquelle com quem contavam encontrar-se em um melhor mundo. Subitamente apresentou-se á beira da cova Bovecio, e exclamou com voz firme:
--Ao bom conselho de Viriatho devi o voltar á vida, de uma doença mortal. É de meu dever acompanhal-o na morte.
E vibrando em si proprio uma punhalada, cahiu borbotando sangue na larga cova aberta. Muitos dos Soldurios de Viriatho, levados pela mesma vertigem, proclamaram o suicidio religioso. Então Andergus, o espadeiro de Toletum, propoz:
--Que se suicidem tantos amigos e companheiros de Viriatho, quantos os annos que duraram os seus combates contra Roma.
Avançaram para ao pé de Andergus os Maioraes da Mésta, Edovius, Togotes, Uvarna, Suttunus, Semesca, e alguns chefes de Contrebias, taes como Aernus e Candiedo; e começaram entre si um duello desvairado, jogando-se golpes de morte, cada qual procurando não ser o ultimo sobrevivente. Andergus foi o primeiro a cahir por terra. Mas a cerimonia inaudita teve de ser interrompida por um successo impressionante: dois Cavalleiros romanos, em nome do general Quinto Servilio Cepio, apresentaram-se intimando a rendição do exercito lusitano.
--Nunca!--bradaram os primeiros que ouviram a intimação affrontosa.
--Não se pactúa com um general que julga chegar á victoria pela traição.
E os que iam suicidar-se pela confraternidade heroica, decidiram:
--Morramos, sim, mas em lucta desesperada contra o infame Consul.
E n'aquelle momento, lançando a ultima pá de terra sobre a sepultura de Viriatho:
--Para a frente! Tantalo, Tantalo seja o nosso general, para continuar a campanha.
LV
Depois que Tantalo tomou o commando do pequeno exercito lusitano, alli mesmo em conselho armado assenta o plano a seguir para evitar o combate com Cepio:
--Temos dois recursos: ou debandar o exercito, indo cada um de nós recolher-se a Numancia, e coadjuvarmos Salóndico, que resiste com valentia a Quinto Pompeu Rufo; ou seguirmos em marcha sobre Sagunto, que está em poder dos Romanos, é verdade, mas cujas cercanias acham-se povoadas por Turdetanos.
--Para Sagunto! Para Sagunto.
A marcha fez-se com precipitação, de modo que Cepio, vendo que os Lusitanos não se rendiam, e dando ordem para o ataque immediato, encontrou o campo abandonado. Mandou circular em todas as direcções para descobrir o caminho que os lusitanos seguiam; e facilmente lhes seguiu o encalso, alcançando-os proximo das vertentes de Palancia e do Turia.
Tantalo não pôde evitar o combate; reconhecia que era impossivel a victoria, mas a derrota certa havia de custar muito sangue aos romanos. E voltando-se para os Soldurios, que no funeral de Viriatho se ajuntaram dois a dois para luctarem em duello até cahirem mortos para acompanharem ao outro mundo o seu chefe, exclamou:
--Agora é que vale a pena morrer. Continuamos ainda a glorificação de Viriatho.
O arranque com que os Lusitanos receberam o ataque do exercito de Cepio foi de molde, que o Consul, seguro da victoria, julgou melhor, ainda assim, não se aventurar ás contingencias do momento; e antes de dar o golpe decisivo, e dispostas todas as forças para o desfecho tremendo em que seriam passados á espada, mandou dizer a Tantalo:
--Posso offerecer-vos a _Deditio_. Quero ser generoso com os bravos que não temem a morte.
Tantalo explicou aos seus companheiros o que era a _Deditio_ concedida pelo general romano:
--Se nos entregarmos como _Dedititios_, ficamos subditos de Roma, e como taes ninguem nos poderá reduzir á condição de escravos vendendo-nos nos mercados como bestas de carga. Como _Dedititios_ tem de nos ser dado um territorio para habitarmos como Colonos.
A ideia de nunca serem escravos mais do que tudo sorriu áquelles cansados lusitanos; e então Tantalo mandou entregar a sua espada a Cepio como signal da rendição.
Cepio desejava apagar a mancha indelevel da deslealdade com que rasgou o tratado de Paz, e procurando attenuar o odio da perfidia com que fez assassinar Viriatho, deu aos trôços da gente que formava o exercito lusitano o territorio extenso e fertil do valle banhado pelo Turia, para o colonisarem pacificamente.
Passados dois annos, Decio Junio Bruto, denominado por antonomasia o Callaico, por ter derrotado os quarenta mil gallegos que vinham em auxilio de Viriatho, confirmou os privilegios d'aquelles dediticios, e á cidade que haviam fundado e já se tornava florescente deu o nome de _Valencia_, consagrando o heroismo dos destemidos lusitanos.
LVI
Estavam acabadas as guerras de Viriatho, mas não estava pacificada a Hespanha lusitana. Decio Junio Bruto tinha transposto o rio Lima, e entrado na Galliza victorioso, refugiando-se a pobre gente nas cavernas do Monte Medulio. Dentro em Numancia, o chefe celtibero Salóndico resiste tenazmente contra os generaes romanos; elle tinha a valentia de Viriatho, mas faltava-lhe a astucia e promptidão em inventar uma cilada. Roma não o temia tanto, embora diante d'elle combatessem successivamente Marco Pompilio Lenas, Caio Hostilio Mancino, Marco Emilio Lepido, Lucio Furio Philo, Quinto Calpurnio Pisão, até Cornelio Scipião Emiliano.
Pela indomavel bravura com que Salóndico sustentou Numancia, chegou a correr entre o povo a voz mysteriosa, que era em suas mãos que estava a Espada de Viriatho, a invencivel espada. Verdadeiramente quem sabe aonde está occulta essa espada, que synthetisa a energia para a independencia da Lusitania? Sabe-o Tantalo, que a salvou de perder-se com generoso intuito, na rendição junto do Turia.
Passaram-se esses terriveis acontecimentos, que deixarão inolvidavel o anno de DCXIV; Lisia, sómente ignorava no seu retiro em Vacca a sorte da campanha, e nem suspeitava a morte de seu esposo. Mas a demora de Viriatho, a falta de novas, o silencio de todos em volta d'ella, o ár de ternura com que illudiam as perguntas que fazia aos que passavam, lançaram Lisia em uma melancholia deprimente. E ouvindo cantar uma rapariga gaditana debaixo do seu miradouro, notou que insistentemente lhe chamava:
--Sempre noiva! a Sempre noiva.
E quando Lisia disse para seu pae, o velho druida Idevor:
--O coração adivinha-me, que Viriatho está morto!
O velho respondeu com firmeza:
--Viriatho não podia morrer em batalha! Se não apparece, é porque anda lá por esses montes da Celtiberia, ou talvez pelo sul da Lusitania, ou Cynesia, organisando a resistencia. Não desesperemos!
Lisia, cansada de incerteza, teceu uma corôa de Verbena, a erva da segunda vista, e collocou-a na cabeça. Desde esse instante lhe occorreu o pensamento de consultar os oraculos para saber a verdade completamente, ainda que lhe causasse a maior dôr. E o oraculo mais sacrosanto e irreparavel nas suas revelações era o das _Pedras baloiçantes_, os Loghans, visitados na região dos Cynesios, junto dos quaes nunca ninguem se atrevia a ficar durante a noite.
Lisia, acompanhada de alguns ambactes ou serventuarios de condição livre, partiu com seu pae até á Ilha sagrada de Achale, aonde se recolheu o velho druida, e ella continuou a jornada com impaciencia, para ouvir a sentença definitiva dos Loghans, na região procurada por tantos crentes. Não tinha descanso emquanto não soubesse a verdade, mas verdade que decidia da sua felicidade, de toda a sua existencia:
--Viriatho está vivo? Viriatho estará morto?
E seguindo em temerosa jornada por desertos infestados por lobos, e por cidades occupadas por subditos de Roma, Lisia caminhava incolume, como no somnambulismo da concentração de uma saudade inconsolavel.
LVII
Contam-se maravilhas d'essa região dos Cynetas, na qual se ouve, segundo dizem, o esturgir dos raios ardentes do Sol quando se afunda nas aguas do Oceano, ao fim do dia. E tambem relatam viajantes audaciosos, que esses blocos de ambar amarello, de impagavel belleza, que o mar arroja ás praias, são a solidificação d'esses raios solares bruscamente mergulhados nas aguas. Mas entre tantas maravilhas, a que mais deslumbrava os espiritos é a dos _Loghans_, os penedos baloiçantes, que revelam o desconhecido a quem se aproxima d'elles e os interroga.
Logo que Lisia chegou ao paiz dos Cynetas, mandou que os seus ambactes esperassem no povoado, dirigindo-se ella sósinha para os dois grandes fraguedos sobrepóstos, que estavam no caminho do Promontorio Sacro, e se avistavam de longe, como dois nimbos opacos e caliginosos no horisonte. Aquelle aspecto infundiu-lhe um terror momentaneo; mas avançando sempre chegou ao pé dos dois gigantescos penhascos, para os quaes se subia por saliencias, como imperfeitos degráos formados pela erosão atmospherica. Um d'esses penhascos, e o maior, estava assente no solo, cercado de matagaes e dos pedregulhos que o tempo ia destacando d'elle, conforme o fendiam os raios, a agua gelada nas suas cavidades, e as raizes de mirrados arbustos. O outro penhasco apoiava-se sobre este, e apesar de ser um megalitho espantoso, podia-se notar que fôra separado por uma clivagem natural, e que tendo-se as juntas da estratificação corroido de fóra para dentro, ficou um ponto que escapando ao phenomeno da erosão, é aquelle em que oscilla levemente o Loghan ou calháo enorme.
Lisia, subira para o coruto do monolitho, que permanecia immovel; sentou-se cansada, n'aquella solidão e amplidão immensa, contemplando o már ao longe, e vendo o sol sumir-se no occaso. Depois enegreceu o ár, as sombras da noite cobriram tudo em volta, e Lisia, comprehendendo a situação da vida sem aquelle que tanto amava, ergueu-se resolutamente, procurou o vertice do penhasco baloiçante, e interrogou:
--Está vivo Viriatho?
A rocha ficou immovel. Lisia quiz ainda repetir a pergunta, mas entrando em um desespero de presentimento, inquiriu:
--Está morto Viriatho?
A rocha oscillou levemente para o lado esquerdo da posição em que se encontrava Lisia. Ella, como se vibrasse em si um ultimo golpe, renovou a pergunta, repetindo-se a mesma oscillação sinistra. Lisia ficou n'uma immobilidade attonita, n'um lethargo inconsciente, como se tivesse cahido d'aquella enorme altura, e alli jazeu a noite longa, insensivel ás rajadas frias, prostrada em terra, debruços, como esmagada pela impressão abrupta. A luz do sol é que a despertou; tinha voltado à vida, não a do seu dourado sonho, que alli acabára, mas a do soffrimento que não póde prolongar-se.
LVIII
No desmoronamento total da sua felicidade, Lisia lembrou-se de seu pae, o velho druida; queria communicar-lhe a revelação tremenda, chorar com elle a morte de Viriatho. Quando chegou á Ilha sagrada de Achale, aquelle refugio quasi celeste pareceu-lhe um desterro, e a Torre redonda consagrada ao Deus innominato appareceu-lhe como uma prisão erguida sobre o mar. Idevor, logo que viu a barca de couro dirigir-se para a Ilha, veiu receber Lisia com o côro das nove Donzellas, que volviam a acompanhal-a a ella, a--sempre noiva.
Lisia conheceu a intenção; e abraçando o pae, em uma d'aquellas angustias para que não ha lagrimas, proferiu apenas:
--Está morto Viriatho! Disse-o o Rochedo baloiçante.
--Tambem o sei!--devolveu o velho druida, encostando a cabeça da filha sobre o peito.
--Quem vos trouxe a noticia?
--Veiu aqui Tantalo, o companheiro de Viriatho n'esses dez annos de campanha gloriosa contra os Romanos; veiu entregar-me a Espada de Viriatho, que conseguiu salvar...
--A Espada invencivel?
--A Espada sempre invencivel.
--Mas, Viriatho não morreu em batalha... Viriatho foi atraiçoado!... Foi atraiçoado com certeza!
O velho druida, sustendo-a n'aquella hallucinação clarividente, disse para Lisia:
--Atraiçoaram-no os seus tres melhores amigos, Ditálcon, Andaca e Minouro! Comprou-os o Consul Quinto Servilio Cepio, o mais inhabil dos generaes romanos; só assim teve a ignobil victoria.
--E a independencia da Lusitania, d'esta desditosa Patria nossa amada?
--Completamente perdida!--respondeu o druida desalentado.
--Perdida, mas não para sempre,--proferiu Lisia, com um accento de vivacidade e esperança.--Quero vêr a Espada de Viriatho! é o que me resta do Esposo com quem estive sempre espiritualmente unida.
E pae e filha encaminharam-se para o subterraneo da Torre redonda, em que se guardava o thesouro da Lusitania. Lisia reconheceu a Espada:
--É esta, a mesma que eu lhe cingi no ultimo dia da festa do nosso noivado, dizendo-lhe com um beijo:--Regressa vencedor! Viriatho cahiu apunhalado quando dormia: não foi vencido em batalha, não. Não regressou mais ao seu lar, aos braços da esposa que o esperava anciosa; veiu aqui ter a sua Espada, que eu contemplo, que eu beijo...
E como se estivesse em um delirio suave, ao levar a Espada aos labios, o brilho da lamina de aço reflectiu-se nos olhos grandes e rasos de lagrimas, e operou-se no seu espirito uma miragem do futuro, como se conta na velha lenda dos _Espelhos de Salvação_. E n'um arrebatamento prophetico e assombrada, continuou fitando a lamina fulgente, exclamando:
--«Desvenda-se-me o futuro. Eu vejo, eu vejo... Vão passados sete annos. Numancia ainda resiste corajosamente ao cêrco de Cornelio Scipião Emiliano; e que loucura a do destemido Salóndico! quiz fazer uma sortida ao acampamento romano, e lá ficou morto. Agora é que Numancia, sem chefe, tambem está perdida. Numancia não se rende; os Romanos entram na cidade e ficam assombrados diante do suicidio heroico da população. Morreram livres.
E passando a mão delicada pela lamina da Espada, para restituir-lhe o brilho empanado pela respiração offegante, tornou a contemplar o quadro do futuro:
--«Não bastou a traição de Cepio, nem a queda de Numancia para assegurar o dominio de Roma na Hespanha. É aqui na Lusitania que Sertorio vem encontrar o espirito de revolta para resistir contra as facções que o exilaram de Roma. É com o valor dos Lusitanos de que se rodêa, e que sonham com a sua independencia, que Sertorio derrota os generaes que Roma contra elle envia. Mas, ai! Empunhará a sua mão a Espada de Viriatho, que lhe foi confiada... e tal como Viriatho, cae tambem assassinado por um seu companheiro!...
Depois de um grande silencio, como se contemplasse acontecimentos incomprehendidos, como são esses da queda do Imperio romano, das invasões dos Barbaros do norte, das luctas contra os povos da Africa, Lisia, passando a mão pelos olhos ennublados, contemplou novamente a lamina scintilante:
«A Espada de Viriatho, longo tempo sepultada n'esta ruina immensa, está outra vez descoberta; eil-a brandida por um braço vigoroso e joven. Uma era nova se me ostenta! vêjo novos Symbolos, novos trajos; outra vez desencadeamento de raças de encontro umas ás outras! N'esta lucta dos dois Symbolos, a Cruz e o Crescente, eu vêjo a Espada de Viriatho nas mãos do joven Cavalleiro sustentando a independencia d'este territorio que vae do rio Minio ao Durio! É um pequeno trato da antiga Lusitania, mas que importa! é o fóco d'onde irradiará o impulso para se reconstituir a obliterada nacionalidade.
«Por quarenta annos a Espada de Viriatho é brandida pelo corajoso Cavalleiro, que vae estendendo o territorio lusitano ao Monda; já chega a Scalabis; conquista a bella cidade que está no lez do Tagus. Não virá longe o dia, em que esse territorio alcance as fronteiras do Anas, e se complete com a região dos Cynesios.
«A Lusitania revive, e ergue-se altaneira diante da Iberia, que procura absorvel-a na sua unificação. A Iberia serve-se do meio ardiloso de uma herança real, e recorre á invasão. Por entre a Ala dos valentes Namorados vêjo a Espada de Viriatho empunhada por um novo Caudilho! D'onde viria para a sua mão essa Espada? Eu vejo: entrega-lh'a o armeiro de Scalabis, que a desenterrou do chão em que se transforma o ferro no aço mais puro!»
Então Lisia, voltando a lamina refulgente, contemplou com mais assombro:
--«A Lusitania livre, depois de reconstituida no seu solo, reata a tradição dos antigos navegadores liguricos, e lança-se á descoberta das Ilhas do Mar Tenebroso, e tocando os dois continentes, vae fundar um novo Imperio lá aonde o sol se alevanta! É ainda a Espada de Viriatho na mão firme do seu Capitão _terribil_, que cimenta esse Imperio em bases inabalaveis, em que se mantem por seculos! Para que prescrutar tanto o futuro? A Lusitania revive...»