Viriatho: Narrativa epo-historica

Chapter 14

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«Esses Povos ribeirinhos, ou de _Lez_, e propriamente maritimos ou Atlanticos, levaram os conhecimentos da Astronomia, fixados no seu Zodiaco, ou Symbolismo zoomorpho das Constellações observadas no Anno sideral, até esses Povos da America, do Egypto, da Chaldêa e da India. Foi por isso que o Symbolo do _Touro_ é adorado no Egypto com o nome de Ser-Apis, e na fórma _Shor_, o Bezerro de ouro, na Palestina; com o nome de _Tauro_ o designaram os Chaldeos, os Syrios, e os Gregos. Por esse Symbolo da Constellação do _Touro_ é que a Civilisação da raça iniciadora dos Ligures se denominou _Turana_; todos esses Povos do Oriente adoptaram o Zodiaco occidental, sem notarem que pela evolução millenaria dos Equinocios, o Signo do _Touro_ deixou de coincidir com o comêço do Anno estival.

«Contra a Raça ligurica veiu do Oriente a pressão de outros Povos. As gentes do Iran, adorando o Fogo espiritual representado em Mithra, reagiram contra a representação do Fogo terrestre ou o _Touro_, morto por Mithra, ou contra o _Turan_. Na Europa, os Povos dos Celtas, e dos Iberos, dos Jonios e dos Phenicios, dos Carthaginezes e dos Romanos, foram gradativamente atacando a raça dos Ligures, e pelas invasões por terra, e pela pirataria nos mares, quasi que apagaram o nome e a Civilisação dos Ligures na Europa! Os Iberos, que atravessaram da Africa quando a Europa ainda estava ligada a ella por um isthmo, repelliram-na da vertente occidental dos Pyrenneos, em que se tinha apoiado na Edade glaciaria, cujas geleiras estacaram ante essa cordilheira; os Celtas louros e corpulentos atacaram-a nas Gallias trans-e-cisalpinas; os Phenicios apoderaram-se dos Periplos das suas navegações atlanticas pela pirataria; e os Jonios roubaram-lhe os seus Poemas em que celebravam as temerosas Aventuras do Mar. As luctas guerreiras, e o imperio das Civilisações militares fizeram esquecer a civilisação agricola e as Navegações dos Povos liguricos. Entre o Occidente e o Oriente deu-se uma separação, e esqueceram-se de que eram solidarios na História.

«Uma tréva immensa caíu sobre o mundo depois da Éra glaciaria; a força bruta prevaleceu sobre a Sciencia, a Guerra de devastação e de conquista sobre o trabalho pacifico da Agricultura. A Missão civilisadora dos Ligures, iniciada na America, no Egypto, na Chaldêa, na India, ficará interrompida para sempre?

«Diante da extensão e perstigio dos Imperios militares, parece que a acção da força bruta é definitiva. Mas, a Rasão e a Paz hãode triumphar um dia; o Occidente tem de reatar a sua antiga solidariedade com o Oriente. É essa a missão e o futuro glorioso da Lusonia.

«Este ramo, certo, o mais tenaz do tronco decepado da luctadora raça dos Ligures, resistindo na Hispania contra os Iberos, contra os Celtas, Persas, Phenicios, Carthaginezes e Romanos, hade um dia através de todas as crises reorganisar-se outra vez como Nação, e o seu poder derivará do regresso á primitiva capacidade da raça: Recomeçará as grandes Navegações do Atlantico; hade reoccupar pelas suas colonias laboriosas a America; fundará um vasto Imperio na India; dominará na Africa; e primeiro que nenhum outro povo circumdará a Terra, affirmando outra vez a supremacia pacifica como destino da Civilisação occidental. Sustentar a autonomia da Lusitania é impellil-a para a realisação d'este incomparavel destino,--alargando pela actividade pacifica a antiga Liga hanseatica n'uma Confederação das Gentes, na solidariedade humana.»

Dentro da Caverna do Cachão da Rapa ia escurecendo; estava já terminada a leitura ou exposição do Poema. Viriatho, cheio de esperança no futuro da Lusitania, exclamou:

--Este ideal dá vida e energia a uma nacionalidade! Torna-a imperecivel. Agora já posso morrer; e fosse esta Caverna, deposito de uma tradição sagrada, a minha ignorada sepultura.

--Para que te deixas assaltar por presentimentos de morte? Eu ainda não te desvendei todos os conhecimentos contidos n'esses Bastões dos Poetas, ou _Sagitas_, que se arrojam ao ár, e conforme cáem voltadas para o Oriente ou para o Occidente, assim nos dão os Pre-_Sagios_ venturosos ou aziagos. Ha um conhecimento de incomparavel _sagacidade_: revela-o a seta, que equilibrada sobre um ponto, trémula, oscilante, indica a linha do Norte a Sul; mais poderosa do que aquellas que guardam as _Sagas_ das Tradições dos Navegadores liguricos, ella os guiou seguros--por Mares nunca de antes navegados!--Pela posse d'essa Vara chamada a _Seta de Ouro_, realisará a Lusonia o seu alto destino.

E á medida que ambos se afastavam da Caverna, disse Viriatho, ao perder de vista o penhasco das inscripções mysteriosas:

--Agora comprehendo eu o verso da saudação: «A Pedra sagrada da esperança do povo.»

XLVI

A cerimonia do casamento de Viriatho com Lisia estava determinada para dia certo. O cabecilha era esperado na Torre redonda de _Achale_, e já sobre o lar ardia o fogo sagrado que representa a santidade da familia apoiada n'esses mysterios cultuaes da memoria dos Antepassados. Lisia entretinha o fogo, quando chegou Viriatho; o guerreiro aproximou-se de Idevor, e disse com uma dominadora serenidade:

--Agora, que já temos uma patria livre, tambem quero render culto aos meus Antepassados, e venho rogar-vos por isso, para que Lisia, vossa filha adoptiva, me acompanhe n'este acto comendo commigo do mesmo pão diante do mesmo fogo.

Idevor ergueu-se d'onde estava assentado, aproximou-se da Pedra focal, e chamando para junto de si todas as pessoas que habitavam na Torre Redonda, proferiu a fórmula sagrada:

--Eu vos entrego, oh mancebo, a minha filha Lisia, trocando este lar paterno pelo que ides inaugurar com amor e esperança.

E pegando em Lisia pela mão, conduziu-a para Viriatho, como desligando-a da religião domestica, e entregando-lh'a para que a iniciasse em um novo culto da familia a que de ora em diante pertencia. Os dois esposos olharam-se com ternura; os canticos das donzellas que acompanhavam Lisia resoavam com a magestade de um sacramento, e n'aquelle dia entre festas, banquete e recitação de poemas, passou-se a primeira parte do cerimonial consuetudinario do casamento.

No dia seguinte era a partida da esposa para a terra de seu marido; sahiram da Torre Redonda os tres Companheiros de Viriatho, e a luzida cavalgada que tinha de conduzir a noiva pôz-se a caminho. Lisia, vestida de branco e com a lunula de ouro na cabeça, coberta com um véo, ia em um carro todo enramalhetado, ladeado pelos cavalleiros da Trimarkisia. E adiante caminhava um arauto levando um facho accêso, que como symbolo nupcial dava á cavalgada o prestigio do sentido religioso. Em todo o percurso ou pompa, modulavam-se hymnos consagrados; e de toda a parte vinham ao encontro da cavalgada homens e mulheres, que atiravam com flôres para o carro da noiva e lhe derramavam trigo pela cabeça, augurando felicidades.

Ao aproximar-se de Viseu, tres raparigas robustas e esbeltas, trajando vestidos garridos, com suas arrecadas de ouro, vieram collocar-se diante do carro de Lisia, e foram seguindo-a cantando-lhe uma Canção de marcha nupcial. Pelas suas vozes, como excellentes cantadeiras, bem conhecidas, espalhavam alegria em volta de si; eram Caenia, Aponia e Nilliata, de que Viriatho se recordou com jubilo. Fôra ao subir da serra dos Herminios que ellas lhe fallaram de Lisia, e é com o mesmo encanto que agora entôam a

*Marcha nupcial*

Bem vindo o par ditoso Para a nova morada! Do amor o laço forte Não o desata a morte.

Pelo braço do esposo Lá vem a bem casada! Laço que a união celebra, Nem mesmo a morte o quebra.

Como ao tronco ramoso A vide entrelaçada, Que outro laço mais ata? O filho que os retrata.

Que encontre infindo goso N'esta união consagrada O par, que vem sorrindo; Par ditoso, bem vindo!

Estava a terminar o trajecto festivo, e começava a terceira parte da cerimonia do casamento, em que a entrada da esposa em casa do marido se fazia por um rapto, pelo qual este, sem que ella tocasse com os pés no limiar da porta, a introduzia junto do lar, no novo culto domestico pela sua auctoridade de chefe da familia, que assim a iniciava por sua vontade. Era ahi que devia ser partido o pão entre ambos, diante do fogo do lar, bebendo n'essa communhão para a vida e para a morte, unificando as almas por um sacramento indissoluvel. Passou-se rapidamente este acto, porque era immensa a multidão de gente de todas as terras da Lusitania que esperavam os noivos na Cava de Viriatho aonde se formára um esplendoroso arraial, em que se expozeram todas as riquezas naturaes e industriaes da terra.

Alli se encontravam os Chefes das Contrebias, acompanhados dos seus ambactes, com os presentes offerecidos aos noivos.

Conheciam-se logo entre a multidão jubilosa os principaes chefes dos Castros e Citanias da Serra da Estrella; e diziam os curiosos:

--Olha o chefe do Cabêço do Crasto de Torvosello! E o do Crasto de Tintinalho? O do castello de Reigoso!

--Não faltou o Chefe do Cabêço de Escarrigo; nem o de Videmonte; o de Verdolhas, e de Tabeiró.

A gente de Traz os Montes tambem reconhecia os seus chefes:

--Lá está o de Castro de Avelãs. Olha o de Formil! Mais o de Fervença.

--Tambem o de Castro Samil! E o de Lambeiro branco! o de Soutello.

--Mais o de Rabal; e o de Alfaião.

A gente do Alemtejo mostrava certo orgulho ao apontar para os seus chefes da Orca, de Castro Verde, da Colla, de Castris.

Do norte, da região callaica, viam-se os chefes das Citanias, como os das de Briteiros, Tintinolho e Sabroso; o chefe da Corôa de Amonde; e o do Môrro de Affife; o do Castrello de Neiva; o de Monte Ferroso; de Laúndo, Guifães, da Roboreda. Era uma homenagem unanime de sympathia, de reconhecimento a Viriatho pelo exito da violenta campanha de libertação da patria commum.

Com as festas que por toda a Lusitania e Celtiberia se fizeram ao conhecer-se o texto do Tratado de Paz, e ao regressarem a seus lares os homens que ha tantos annos andavam na guerra da independencia, coincidiu tambem a noticia de que em breves dias seria celebrado o casamento de Viriatho com Lisia, a virgem semnothêa, aquella que sempre vaticinára a liberdade da Lusitania.

Assim, cada uma das terras que contribuira com tantos sacrificios para coadjuvar Viriatho no castigo da infamissima e sanguinaria perfidia de Galba, resolveu mandar uma deputação para a representar nas festas nupciaes do valente Caudilho. Essas deputações eram formadas de moços e raparigas, vestidos com os trajos das suas provincias os mais vistosos e caracteristicos, que iriam fazer os cortejos do esposo e da noiva, e alegral-os com as suas dansas e cantares, durante os dias das bodas e tornabodas; iam tambem os homens bons ou antigos com os presentes de bois e novilhos, de vinho, cereaes, fructas e sequilhos, para que a nova familia se iniciasse pela abundancia; e as mulheres, as mães, que fiavam no lar, offertaram tambem as suas grandes têas de panno de linho e bragal, meadas de linha alvissima e fina, boiões de mel, e aves sem conto. Era uma homenagem com o sentido de uma contribuição nacional espontanea áquelle que soubera unir as populações dispersas no mesmo sentimento de uma Patria livre.

Para a cidade de _Vacca_, fundada pelos Turdulos, que está proxima das fortes muralhas da Cava aonde Viriatho no anno DCVIII derrotára o Consul Nigidio, é que se dirigiram todas as deputações para as festas do casamento do Caudilho. Alli, n'aquella cidade, junto do rio Vaccua, costumava Viriatho recolher-se temporariamente das fadigas da guerra; era alli que tencionava viver tranquillamente o resto de seus dias no remanso do lar com a adorada esposa, Lisia, que tanto o fortificára pelo ascendente moral e confiança no futuro da Lusitania.

Da cidade de Vacca partiu o cortejo dos moços á frente de Viriatho, que iam ao encontro da noiva, que vinha da Ilha sagrada de _Achale_, acompanhada por seu pae Idevor e pelo grupo das donzellas de todas as cidades lusitanas lá reunidas para essa marcha. Por onde Lisia passava punham-lhe arcos de flôres e verdura; tapetavam-lhe a estrada com ramos e plantas aromaticas de alecrim e verbena, e arrojavam-lhe punhados de trigo, cantando seguidilhas de felicitação e augurando venturas.

Quando o cortejo chegou á margem do Vaccua, os grupos interrogaram-se mutuamente, e depois de simuladas as perguntas e respostas, em que Lisia era concedida como esposa a Viriatho, o guerreiro passou o rio com presteza, e como por encanto lançando o braço em volta da cinta de Lisia, levantou-a do chão para cima do seu cavallo branco, partiu á desfilada fazendo o acto cerimonioso do rapto. Todos os mancebos foram apoz elle, mas quando chegaram á cidade de Vacca já encontraram Viriatho e Lisia juntos no balcão de pedra que dava entrada para a casa que fôra construida para habitação dos noivos.

Diante do terreiro da casa, coberto por uma extensa ramada, cheia de dourados cachos de uvas, começaram os cantos e dansas; e depois da chegada de Idevor, os noivos desceram para vir ao encontro do velho endre, a quem beijaram a dextra, que alli diante de todos consagrou aquelle consorcio unindo-lhes as mãos. Então, de braço dado, os dois esposos dirigiram-se á Cava enorme, dentro de cujas muralhas estavam expostos como em uma Feira franca todos os gados, cereaes, tecidos, objectos de trem domestico e mais delicados presentes, que as populações lusitanas offertavam a Viriatho como seu libertador. A vista d'essa assombrosa homenagem manifestava o quanto Viriatho era querido, e bem explicava a confiança com que á sua bravura tinham ligado os seus destinos aquellas terras, que elle conseguira libertar.

Viriatho e Lisia foram percorrendo a Cava, em que estavam expostos todos os presentes, que representavam as riquezas das regiões lusitanas. Reconhecia-se a região do Norte, entre Douro, Minho e Beira Alta, pela abundancia dos seus milhos, pelo centeio da primavera e do verão, pelas excellentes castanhas. A região montanhosa da Beira Baixa e Traz-os-Montes, pelos seus nedios bois, carneiros e cabras das boas pastagens das encostas e valles; e pelo seu trigo molle e centeio. A região central da Extremadura até ao Tejo, mandava das suas extensas e ferteis landes os trigos molares e rijos, castanhas deliciosas, azeite cordovil e vinhos generosos. A região do sul, Alemtejo e Algarve, appresentava o trigo de inverno, os figos sêccos, tamaras, alfarrobas e castanhas piladas, e porcos de uma creação afamada.

Viriatho, lembrado dos annos da campanha libertadora, não pôde olhar para os cavallos em que vieram os chefes das Contrebias, sem confessar quanto devia ás suas qualidades de resistencia excepcional. E conversando com os chefes que o rodeavam, iam uns e outros notando:

--Este typo _galleziano_, de cavallos pouco corpulentos, e resistentes ao trabalho, é commum ao Minho, ás Asturias, Vasconia e Navarra.

--E estes mais corpulentos, com grande aptidão para o trabalho de carga e de tiro, fórmam uma _variedade castelhana_, que se encontra ahi pelo Minho, Traz-os-Montes e Beira.

--Cá para mim, o typo da minha paixão é o betico-lusitano! Estes cavallos das provincias do sul, são elegantes de fórmas e de postura. É olhar para essa raça de Alter, das Lesirias do Tejo e do Alemtejo; incomparaveis.

Em homenagem a ter Viriatho sido na sua mocidade pastor e chefe da Mésta, grandes manadas de bois vieram á feira apparatosa, na representação de cada provincia. Viriatho foi passando vagarosamente diante das manadas, interrogando com enthusiasmo, e caracterisando com os chefes das Contrebias as differentes raças.

--Estes bois vermelhos, amarellos e fulvos, isto é que é proprio para trabalho! as vaccas são extremamente leiteiras. Quem não reconhece n'este gado o Minho e a Galliza?

--Tambem pertence a esta raça galleziana, o barroso, lá do Gerez.

--Estes são da raça Maroneza, robustos, ligeiros, firmes no passo. São ahi das regiões visinhas do Durio.

--Aqui agora os da raça mirandeza; é a que se acha mais espalhada, por Traz-os-Montes, grande parte da Beira e da Extremadura. Tambem por aqui se vêem as suas variedades, a _braganceza_, a mirandeza _ribeirinha_, a _extremenha_. Isto sim, que é raça para trabalho violento!

--É por isso que se tem propagado tanto.

E proseguindo n'este passeio pela Cava, Viriatho e os chefes das Contrebias foram notando os bois de _Arouca_, excellentes, soffredores, de Lamego, Caramulo, predominando entre o Durio e o Vaccua. E elogiaram a raça _ribatejana_, brava para campo e corridas; a _alemtejana_ e a _algarvia_, docil, sobria, côr de castanho claro, e propria para trabalho e engorda.

E na grandiosa feira em que se representava o genio de cada provincia, viam-se tambem as raças ovinas, a _bordaleira_, que predomina do Minho até ao Tagus; os _merinos_, de Campo Maior e Marvão, Moncorvo, Mirandella e Villa Flôr; e as _estambrinas_. Estavam alli as cabras da Serra da Estrella, do mais bello pêlo longo, e as de pêlo raro, todas muito leiteiras. E os porcos _Bisare_, do Minho, Traz-os-Montes e Beira; com os do Alemtejo, Extremadura, Algarve e margens do Tejo, chamados _Romanice_.

Via-se alli representada a alfaia agricola, que estabelecia uma transição para os productos industriaes. Era um encanto examinar a perfeição dos arados, cangas, carros, engaços, sacholas, cêlhas, concas, crivos. Destacavam-se mais adiante as louças de barro, de argilas ocreas. Nos trabalhos textis, as linhas ou fios de cozer em meadas alvissimas e novellos; rendas, cortinados, adamascados; as lãs de Portalegre e da Guarda em cobertores; as estamenhas, cintas, pannos, de trabalho domestico do Algarve: os bureis e baêtas listradas, da Covilhã e de Viseu.

Mas o que mais attrahia a attenção de Lisia eram os trajos lusitanos, que davam ao arraial um fulgor pittoresco, de côres e talhos: a Capa de honra, de Miranda; o Gabinardo de Nisa; a Capinha de Barroso e Sobreira; a Castreja de Laboreiro; a Jangadeira de Anha; a Camponeza de Perre, Areosa, Meadella e Ovar; a Ceifeira alemtejana, maiata, poveira; era um espectaculo commovente.

Grupos de mulheres vieram acercar-se de Lisia e offertaram-lhe com alegria presentes especiaes: a roca de freixo ruge-ruge cheia de ornatos; aventaes de Vianna; lenços bordados, segundo o costume, pelas noivas de ao pé do rio Vaccua; rendas de malheiro, de Aveiro, Setubal e Lagos, e rendas de bilro de Vianna, Villa do Conde, Peniche e Setubal.

As mulheres mais abastadas tambem lhe offertaram peças de ouro e prata feitas pelos lavrantes de Gondomar e Fanzeres; eram argolas de beira lisa, arrecadas, botões de amoras, brincos fusiformes, laças, corações de filigrana de ouro.

Foi alli dentro da Cava que se armaram as mezas para o festim nupcial; alli estavam as pipas do vinho palhete, e as fructas com abundancia. A variedade dos trajos e as physionomias dos individuos que representavam a nação desde os Gallaicos até aos Cuneos, davam uma impressão viva e sympathica de um forte povo que tinha uma feição propria, e que queria viver livre. As dansas eram continuadas, simulando combates, e saltos espantosos. Homens e mulheres fórmam bandos, em frente uns dos outros, alternando os versos da Canção, e um Côro dos homens antigos que as presenceavam é que ia repetindo o refrem, em que soava o nome de Viriatho.

Foi á meza do banquete, que Viriatho se ergueu, junto de Lisia, e tirando do seu pescôço a Viria ou Collar de ouro do commando, que até áquelle dia trouxera, o collocou no pescoço da formosa esposa, abdicando alli deante de todos do poder militar que lhe tinha sido confiado, e confinando-se na vida pacifica do lar. D'alli em diante o symbolo da guerra ficava uma joia, adorno da graça feminina; e a arma tornar-se-ia utensilio de trabalho.

O banquete correu animado e sempre cordato, dentro das muralhas da Cava, que era n'aquelle momento um arraial pacifico, nunca visto. Á medida que os grupos se iam levantando da meza, na planura vasta da Cava desenvolviam-se os jogos guerreiros, a vapulação, os saltos, os sarilhos, as luctas athleticas, e ouviam-se brados acclamatorios:

--Viva a Callaecia!

--Viva a Vettonia!

--Vivam os Carpetanos!

--Vivam os Oretanos!

--Viva a Beturia!

--Viva a Cynesia!

N'aquelle momento Viriatho ergueu-se com uma taça de vinho rubro na mão, e unificando todos aquelles gritos, que representavam o espirito separatista das differentes terras, proferiu com a voz timbrada e sonora acostumada ao commando:

--Viva a Lusitania!

A vibração d'aquella voz e d'aquelle nome produziu um delirio indescriptivel; e d'entre aquelles gritos sinceros e fervorosos, provocados por um intimo sentimento de Patria, destacou-se uma outra, distincta e magestosa:

--Viva a Lusitania! e com ella Viriatho, symbolo da sua independencia.

As festas do casamento duraram outo dias, e n'esse decurso nunca deixaram de chegar novas mensagens, e carinhosos presentes que se foram accumulando na Cava. No meio d'aquella multidão alegre levantou-se um rumor enthusiastico, vendo apparecer um formoso touro ladeado por cinco campinos; seguia lento e magestoso, levando enfiadas nas pontas, brancas regueifas de trigo, e em volta do pescoço grinaldas das mais rescendentes flôres. Era o costume dos povos da Extremadura, nas suas festas da entrada da primavera, que votavam a Viriatho esta sua manifestação cultual. Por onde o touro passava, uns lançavam-lhe flôres, outros batiam-lhe no lombo lustroso palmadas de affecto, e a multidão seguia atraz para presenciar a entrega d'aquella expressiva offerta a Viriatho. Os chefes das Contrebias, que assistiam á apparatosa cerimonia, approximaram-se de Idevor, insistindo com empenho:

--Explicae-nos o sentido religioso da _Festa do Touro_. Porque é que encontramos por todo o territorio hispanico Touros de pedra, como esses de Guisande? Que sentido historico terá a lenda do combate de Mithra com o Touro atravessado pela sua espada, como se vê insculpido em tantas rochas e monumentos?

Idevor accedeu promptamente ao empenho:

--«Um povo, que habita na latitude em que _o maior dia do anno é o dobro do menor dia do inverno_, desenvolveu-se e enriqueceu na paz dos trabalhos da Agricultura. Para elle o Sol representava-se-lhe á mente como o Touro celeste: e no começo do Anno solar, na efflorescencia estival, symbolisou essa Constellação pelo signo do _Touro_, a força geradora, a potencia fecundante. Esse symbolo zodiacal do _Touro_, conservou este nome entre todos os povos civilisados, como expressão de um conhecimento astronomico; e foi tambem objecto de adoração. O nome de _Thor_, o deus dos povos da Germania e da Scandinavia, designa o _Touro_, tornado a propria imagem do deus. Os Cimbros e Teutonios, que invadiram a Italia, juravam sobre o boi sagrado, que traziam comsigo. _Thor_, o chefe de todos os deuses scandinavos, é representado com um sceptro com cabeça de boi. Muitos nomes de povos e de logares foram tomados d'este symbolo do _Touro_, como o monte Tauros, o _Darana_, ou Atlas, os Tourisci e Taurini, e a região da Taurida. A Civilisação d'este povo occidental foi propagada ao Oriente, e chamaram-lhe _Turan_, pela representação do Touro, occupando o primeiro logar entre os quatro Signos do Zodiaco, na casa em que marcam no Céo as Estações solsticiaes e equinociaes.

«Contra esta civilisação do Occidente, que divinisára o Fogo material do Sol, no _Touro_, combateu o Iran, symbolisando no joven Cavalleiro cercado de raios luminosos, Mithra, o _Fogo vivente_ e espiritual. A lucta do Iran e de Turan foi representada em um combate de Mithra atravessando com a sua espada o Touro; era o antagonismo e o triumpho da civilisação militar sobre a civilisação agricola, sacrificada diante das invasões da força armada, da rapina organisada. A vinda dos Persas à Hespanha foi uma consequencia d'essa lucta; Mithra tambem aqui venceu o Touro, que representava as forças impetuosas da Natureza.