Viriatho: Narrativa epo-historica
Chapter 13
Minouro, que era muito mais novo do que Ditálcon, admirava-o profundamente, e tratava-o pelo nome de--Mestre, lamentando que elle não fôsse um Druida. Por uma lisonja petulante e insistente, veiu a illaquear Ditálcon, levando-o na direcção e intuitos que lhe suggeria. Minouro não era corpulento; era de uma estatura média que o não destacava do commum da outra gente; mas a cara redonda, o nariz curto, e os pequenos olhos que nunca fitavam de frente, denunciavam o typo do pequeno ambicioso do poder, do intrigante que trabalha pelo ideal da sua personalidade, servindo todos os partidos conforme as necessidades da sua elevação. Era como um fermento putrido, exercendo uma acção decomponente e incessante. Viriatho confiava em Minouro, pelo seu caracter de homem pratico, e especialmente pela consideração que lhe ligava Ditálcon.
O outro companheiro, Andaca, era mais phantasista, mas generoso; como Minouro admirava tambem profundamente Ditálcon, acatando-o mesmo quando este o censurava pela audacia das suas ideias, ou arrebatamento impulsivo das suas determinações. Andaca era homem novo; destacava-se entre os outros Cavalleiros pelos seus cabellos louros, que lhe cobriam quasi a testa e que separava para um e outro lado em uma marrafa caracteristica e inconfundivel. A barba era espêssa e tambem loura, a qual com a tez fortemente córada e os olhos azues, faria crêr um typo da Scandia perdido entre as tribus lusitanas de olhos e cabellos castanhos. Era sobrio, e desinteressado; sonhava com os tempos do decahido Druidismo, e teria sido um Bardo arrebatador para doutrinar os povos se tivesse nascido em uma melhor epoca, menos perturbada ou mais crente. Quando regressava dos combates e correrias em que se sentia viver, era-lhe indifferente a distribuição dos despojos; não tomava parte nos saques das cidades romanas, e quando depunha a espada e o escudo era para estar deitado sobre a relva ou nas penedias, em decubito dorsal, scismando como um vate. Minouro a pouco e pouco fôra influindo no seu espirito, dominando-o, e pelo poder de o revocar á energia, exercia um predominio completo sobre a sua vontade.
Partindo em direcções diversas, os tres Companheiros de Viriatho encontraram-se ao alvorecer á bocca da _Caverna das Fadas_, alguns estadios longe do mar, mas dentro da qual rebentavam as ondas nas grandes tempestades da costa. Ahi, no escarpamento maritimo do Promontorio Cepressico, é que se observava bem o trabalho das vagas, que pelo agglutinamento das areias moventes de uma praia que se foi alteando pelo decorrer dos seculos, formou com o calcáreo altissimos taludes, ou dunas, defendendo o valle de Callippo. Mas por seu turno em toda a extensão da costa desde o Promontorio Cepressico até ao rio Callippo, o mar recomeçou o trabalho de erosão abrindo numerosas Cavernas, destacando-se entre todas a mais profunda e mysteriosa, a _Caverna das Fadas_. Contam as vozes do povo, que algumas d'essas Cavernas foram abertas pela mão do homem, quando ainda elle não conhecia os metaes, e viera descendo da primitiva estação que fizera em Scalabis, até por estabelecimentos successivos chegar ao valle do Tago.
Na _Caverna das Fadas_ entraram os tres Companheiros de Viriatho maravilhados pela extensão do subterraneo, em um solo plano e profundo com abobada hemispherica, desembocando em uma galeria, aonde já os raios do sol nascente não chegavam, e aonde se occultavam numerosos esqueletos como em necrópole de uma remotissima edade. A curiosidade não os levou a entrarem lá dentro; ahi, á bocca da Caverna, antes de começarem a conversa para que vieram, não podiam eximir-se á observação de cousas que parecia extraordinario o encontral-as n'aquella solidão ignorada de todos.
Ditálcon, levantando do chão uns fragmentos de barro cosido, e mostrando-os aos companheiros;
--Quem é que póde explicar como esta louça veiu parar aqui! Em Ilierna eu vi louça egual em tudo a esta; e até na Bretanha...
--Seria um mesmo povo?--Inquiriu Andaca imaginoso; e levantando do chão numerosas contas de côr esmeraldina e esverdeadas, que estavam espalhadas pelo chão, como se formassem outr'ora vistosos collares, continuou observando:--Mas estas contas desenfiadas tenho-as encontrado em outras Cavernas da Lusitania, em que nos temos refugiado n'estas correrias contra os Romanos. Quem tivesse tempo para ajuntal-as e formar com ellas um collar para offerecer a Lisia por occasião do seu casamento com Viriatho.
Ao proferir este nome, os tres Companheiros entreolharam-se subitamente, suscitados pelo pensamento que alli os trouxera. E Minouro atacou o assumpto:
--O casamento de Viriatho! É isso o que nos obrigou a virmos aqui. Elle quer agora a Paz com Roma, para gosar tranquilamente a sua vida de casado; e mandando cada um para sua casa, lá se vão os nossos commandos, todo o nosso valimento, e mesmo os nossos recursos.
Ditálcon atalhou:
--Viriatho é sincero; elle não acceitou o ser Rei da Lusitania, como lhe propoz Serviliano.
--Mas, depois de casado, não quererá elle dar á mulher um throno? e com os filhos formar uma dynastia?
Andaca interveiu:
--Em todo o caso, nós somos uns instrumentos passivos dos planos ou das ambições de Viriatho; e isto não deve, não póde ser.
Ditálcon, retomando a sua auctoridade e ascendente moral:
--A Paz com que Viriatho se lisongeia, é um engano. Roma ratifica a Paz assignada por Serviliano, mas como vê Numancia em revolta, vae mandando mais tropas para a Hespania citerior. Ainda n'este anno de DCXIII chegou o Consul Quinto Pompeu Rufo, com Quinto Servilio Cepio para continuar essa guerra desesperada que dura já desde DCXI. Os Numantinos não succumbem; são dos que morrem mas não se rendem; elles são verdadeiramente Lusitanos, e Roma sabe-o melhor do que ninguem. Por isso, se vos faz falta a guerra, ahi a tereis, segundo as minhas previsões, e eu sou homem para me ufanar de ter dito algumas verdades ao mundo. Agora, o que aqui vos confesso é que estou cansado de guerras, por uma causa sem fundamento.
--Sem fundamento!? Accudiram Minouro e Andaca, com surpreza.
--Sim; porque nós os Lusitanos nada temos com esse povo primitivo que antecedeu na Peninsula o Ibero, que o veiu repellindo para as bordas do mar. Viriatho sonhou esta divisão entre o Lusitano e o Ibero, quando tudo isto é Celtiberico, e deve formar uma só patria, a que bastaria por ora a constituição municipal que Roma nos impõe.
Minouro apoiando-se na affirmativa de Ditálcon:
--Eu vou-me convencendo d'isso; porque para sermos uma Nação lusitana, como dizes, não temos differença de Raça; e pelo que tenho observado n'estes nove annos de campanha pela Hispania citerior e ulterior, tambem não vejo montanhas que limitem os nossos territórios, nem rios que nos sirvam de fronteiras separativas. N'estas condições uma Patria lusitana é uma creação de fórtes peitos, obra de homens, e sustentada apenas pelo prestigio das suas espadas. Nós mesmos obedecendo a este impulso fizemos do pastor _Ouriato_ o _Viriatho_ que não quiz o sceptro d'este novo reino.
Andaca, suggestionado pelo argucioso Minouro, e acreditando nas palavras de Ditálcon:
--Para que esta Hispania unida entre na Civilisação moderna, como Roma attingiu no mundo e como nol-a quer transmittir, só temos um passo a dár, e digo-o com sinceridade: Renegar a Patria lusitana!
--No meio d'isto tudo, disse Ditálcon, em um dos seus momentos de pessimismo que o atacava,--para mim só me bastam sete palmos de terra.
Andaca, passando com os dedos inconscientemente pela barba loura, parecia que era impellido para o mesmo desalento; Minouro é que se mostrou alegre:
--Deixemos vir para nós os acontecimentos. A tranquillidade de Viriatho não será por muito tempo; nem me parece que a sua obra tenha estabilidade. E recomeçando os Romanos a guerra, porque o Senado que ratificou esta Paz é o mesmo que approvou a traição de Servio Galba ha dez annos, Viriatho tem de vir a campo. E nós cá estamos para dirigirmos as cousas como entendermos.
--Ficamos n'isso! Conclamaram os outros dois, levantando a mão direita.
O sol ia a pino; e montando silenciosamente os cavallos que andavam pastando entre as ervas marinhas, dispersaram-se rapidamente em direcções differentes, para reapparecerem desencontradamente no valle de Callippo.
XLIV
Viriatho, regressando da ilha sagrada de _Achale_ para a companhia dos Mil Soldurios, vinha alegre pela novidade que acabava de saber poucos momentos antes:
--O Senado e o Povo romano ratificaram a Paz assignada por Serviliano! A Lusitania está livre de hoje em diante. Não disputaremos nunca a Roma o seu dominio entre os Povos ibericos; disfructe ahi á vontade as suas conquistas e as suas exacções fiscaes. Que os seus Proconsules e Pretores se enriqueçam rapidamente, e venham ahi remir-se pelo seu governo das garras dos crédores que os empobreceram em Roma. A Lusitania só quer que a deixem no seu trabalho, que é a sua festa permanente. Na fé do Tratado depômos as armas; vou communicar esta resolução, que é da parte dos Lusitanos o começo do cumprimento do glorioso Tratado, ao Conselho armado, para que em seguida todos os Têrços e Companhias, que andam ha nove annos empenhados n'esta campanha de libertação, voltem ás suas terras.
Foram dadas e transmittidas todas as ordens necessarias para que o Conselho armado se reunisse junto da Mamôa mais proxima. Quando Viriatho fallou em dissolver o exercito, ouviu-se uma voz de entre os do Conselho, observando:
--Tenho por perigoso esse desarmamento; porque Roma não cessa de mandar tropas para a Hespanha, e está sustentando uma guerra sangrenta em volta de Numancia. Ahi estão dois Consules temerarios Quinto Pompeu Rufo, e Quinto Servilio Cepio, sustentando essa campanha. Nada mais facil do que, sabendo esses generaes que o nosso exercito se licenceou, voltando os Têrços a seus lares, um d'elles se lembre de vir fazer uma incursão á Lusitania e nos apanhe isolados.
Viriatho ouviu attentamente a observação, e não foi immediatamente de encontro a ella, antes parecia corroboral-a:
--É uma supposição plausivel, e tanto mais para recear, que um d'esses Consules, Quinto Servilio Cepio hade querer vingar o irmão Serviliano por ter assignado o Tratado de Paz; e além de tudo Cepio, segundo a voz que corre, é considerado em Roma como um devasso, capaz de todas as deslealdades pelo seu caracter perfido. Mas, Cepio tem de obedecer ao Senado e Povo romano, e por isso estamos livres de qualquer traição, como a que ha doze annos praticou Servio Galba contra a Lusitania. Hoje não tratamos com Consul algum pessoalmente; é com Roma representada pelo seu mais alto poder politico. Não temos direito a duvidar d'ella; o Tratado aqui está escripto e assignado.
E em seguida passou as laminas de cobre em que o Tratado de Paz com os Lusitanos estava assignado por Lellio e Servilio, os dois Consules n'esse anno de DCXIV da Fundação de Roma; e cada um dos membros do Conselho armado foi lendo detidamente e approvando:
--É a garantia de uma paz duradoura.
--Para que esse Tratado seja effectivo, continuou Viriatho, temos de mostrar a Roma que confiamos na seriedade das suas Leis, e que pelo nosso lado cumprimos o Tratado depondo as armas e voltando aos nossos labores quotidianos.
--É assim mesmo! assim mesmo.
E approvada a resolução, foram enviados mensageiros para todos os povos e terras que tinham luctado pela independencia da Lusitania; para os Vettões, para os Vacceos e Callaicos; outros foram levar traslados do Tratado de Paz para que fôsse lido na Celtiberia, na Carpetania e na Oretania, na Betica e até ao Paiz dos Cuneos.
Ao saír do Conselho armado, disse ainda a mesma voz suspeitosa:
--Bem sei que a noticia do Tratado vae causar por todas essas terras uma alegria immensa! É legitima. Porém vendo o exercito licenciado, e sabendo quanto é difficil pôl-o de repente em pé de guerra, continuarei dizendo, e oxalá me engane: Tenho por perigoso este desarmamento.
Quem assim fallava era o bravo Tantalo, que em toda aquella campanha nunca hesitou em cumprir uma ordem de Viriatho.
XLV
Depois da sahida do Conselho armado disse Idevor para Viriatho:
--Não quizeste acceitar o titulo de _Rei da Lusitania_; o teu sentimento puro revelou-te, que n'este solo lusitano não vegeta essa planta parasitica da realeza. E demais, uma Realeza investida e sustentada por uma potencia estrangeira! Só isso bastava para influir na degradação moral de um povo. Em troca d'essa Corôa que renunciaste, ou que desprezaste, mereceste que te seja entregue o _Thesouro do Luso_. Já terás sabido que elle se guarda na Caverna das Inscripções ogmicas; a rocha que domina essa Caverna é a _Pedra Virgem_, o penedo que falla, porque tem na face lisa, ou _Peravana_, os sons _fan_, _phone_, ou _vene_, que traduzem as Sagas venerandas das Edades passadas. Longa é a jornada para a Caverna das Inscripções, lá na margem direita do Durio, perto do Cachão da Rapa.
--Agora, que dei conta aos Chefes das Contrebias do Tratado de Paz com Roma, podemos partir, ainda que seja para longe; vamos seguros e sós. Eu sei todos os caminhos que nos levam ao Cachão da Rapa, e já vi com assombro esses traços para mim incomprehensiveis gravados na Pedra Virgem. Partamos.
E Idevor e Viriatho metteram-se a caminho. Já distantes e bem longe do povoado, encontraram solitaria á beira de um caminho uma casa palhaça, d'onde vinha o som rythmico do trabalho de um tear; de uma rocha que estava perto manava um jacto de agua cristalina, que fazia gosto beber. Emquanto matavam a sêde, escutaram a cantiga, que tomou para ambos o valor de um vaticinio; cantava uma pobre mulher
*Ao tear*
Olha a tecedeira Como tece bem, Como a lançadeira Vae e vem ligeira; Sua mão certeira Que presteza tem!
Lembra uma dansa O som do tear, De um sapatear Que jámais se cansa; Mas que é a bonança De um ditoso lar.
Fosse eu a trama Da sua urdidura; Como o fio se acama, A sua ventura Seria segura; Feliz de quem ama!
Cresce tanto a peça D'este branco panno, Que, com esta pressa, Se me não engano, Ainda este anno Cumpre-se a promessa!
Viriatho sorriu-se para o velho endre, que o comprehendeu, e proseguindo o caminho, acharam-se naturalmente fallando no casamento de Lisia.
Depois de alguns dias de jornada, os dois peregrinos entraram na região do Durio; seguiram pela margem direita, até chegarem á povoação de Linhares, aonde repousaram. Alli, na voz do povo, ouviram fallar dos Thezouros encantados, que estavam escondidos no fundo de uma caverna escura, coberta por um enorme penedo em que se viam insculpidos grande numero de Quadrados magicos. Ai do que se atrever a penetrar na caverna! Os que lá entram, se não ficam alli immediatamente paralysados com um somno lethal, ou perdem a falla ou cáem-lhe os dentes!
Apesar de todos os terrores, Viriatho e Idevor, logo ao nascer do sol, caminharam para a margem do Durio. D'ahi a meia legua, avistam, sobranceiro de um precipicio a uns vinte passos do rio, o enorme penhasco, que o vulgo saudava com o verso: «A Pedra sagrada da esperança do povo.» Ninguem sabia o que significava uma tal saudação. Idevor era o depositario d'esse mysterio do passado.
Perto já do penhasco, em grande parte coberto de musgo, Idevor dirigiu Viriatho para a parte em que estava a face lisa, da altura de dez covados, e de quatro de largura, e ahi contemplaram patentes os Quadrados, formando como pequenas janellas, com traços encruzados, e enxadrezados, agrupados diversamente. O povo acreditava que essas letras se renovavam todos os annos, no comêço da quadra estival. É certo que os Quadrados estavam agora bem visiveis, e até se lhes notavam côres. Idevor, contemplando aquelles caracteres indecifraveis, disse para Viriatho:
--Esses Quadrados que vês, são como as _Lettras runicas_, que os nossos antepassados deixaram gravadas sobre muitos rochedos do norte. Chamaram _Ogum_, nome que se aproxima dos _Kova_, ou os hieroglyphos de um povo amarello do extremo Oriente. Com o movimento das raças, esses caracteres gravados nas pedras foram reproduzidos em ramos de arvores, a que chamaram os _Bastões dos Poetas_; muitas vezes porém, nas largas narrativas historicas, esses bastões runicos baralhavam-se, e para restabelecer a sua ordem chronologica, ou as séries das Triades, era necessario ir procurar nos rochedos esquecidos nas florestas a disposição primitiva d'esses traços ou letras. É o que acontece com este rochedo que está diante de nós; repara bem: esses Quadrados gravados na pedra fixaram para sempre a ordem em que se devem dispôr os Bastões runicos, nos quaes estão escriptas as tradições da Lusonia.
--E aonde estão depositados esses _Bastões dos Poetas_?
--Dentro da Caverna a que se sobrepõe este penhasco. Mas, antes de tudo, repara para estes Quadrados: uma linha figura o tronco da Arvore de Ogham, e como ramos d'ella, cruzam-se outras linhas, que se distinguem umas das outras apenas pela posição e agrupamento: a primeira letra é figurada por um risco ou barra atravessada; a segunda letra por dois travessões, terminando o grupo de barras na quinta letra. E do lado opposto ao primeiro grupo, recomeça-se da mesma fórma os caracteres, do segundo grupo de letras; no terceiro, os traços são prependiculares ao tronco; e no quarto esses traços são transversaes ou obliquos.
Os nomes d'essas vinte letras é tomado da arvore cujo nome começa pelo som d'essa letra; é por isso que o termo _Feadha_, a planta, a arvore, a floresta, significa tambem o symbolismo alphabetico, a sciencia, e o vate ou _Faethiste_. Se não fossem os caracteres que ahi vês inscriptos n'esse penhasco, seria impossivel conservar a ordem dos _Bastões dos Poetas_, em que está escripto o Poema de seis mil versos, que se guarda ahi dentro da Caverna.
E Idevor mostrou a Viriatho a ordem alphabetica, ou _Beith-Luis_, na sua successão ogmica: *b*, *l*, *f*, *s*, *n*, *h*, *d*, *t*, *c*, *q*, *m*, *g*, *ng*, *st*, *r*, *a*, *o*, *u*, *e*, *i*.
Era n'esta ordem que deviam ser dispostos os Bastões runicos. Idevor procurou a entrada da Caverna, que era um pequeno corredor de accesso, na vertente do despenhadeiro, que ia dar a um recinto ou vasta camara revestida nas paredes e tecto por infiltrações stalactilicas. Parecia um hypogeo sepulchral, a que as concreções stalagmiticas davam o aspecto de estatuas mortuarias, envolvidas em sudarios brancos. Á medida que os dois peregrinos avançavam pela assombrosa camara, os rumores dos passos resoavam por outras galerias que se succediam apenas separadas por grandes pedras; de vez em quando sentia-se esvoaçarem aves das trevas, que alli hibernavam, e que para os crédulos pareciam as almas dos antepassados. Sobre o pavimento estavam espalhados estilhaços de silex, machados de pedra, ossos de animaes que pertenceram ao clima glaciario. Avançando com precaução, Idevor chegou á entrada de uma segunda camara, mais vasta e esplendida, pela sua estructura trabalhada pelas infiltrações das aguas; era allumiada por uma fresta aberta nas fendas da rocha, e ahi existia ao centro um bloco despegado do tecto da caverna, formando uma ampla meza aquella lagem de fórma arredondada. E em volta, junto da parede natural, achavam-se dispostas seis pedras, como se fossem assentos patriarchaes; sobre ellas estavam estendidos, á maneira de feixes de setas, os Bastões runicos, a que Idevor por vezes alludira. O velho endre fallou para Viriatho:
--É n'estas varas que está escripto o _Poema da Lusonia_.
E foi tirando pela ordem ogmica os Bastões e collocando-os combinadamente sobre a grande meza central; todos esses feixes formaram outros tantos Quadrados, como os que acabavam de contemplar na face lisa do Penedo do Cachão da Rapa. E depois de se acharem todos dispostos convenientemente, disse Idevor:
--Agora posso lêr o velho Poema da raça de que provimos, e em que se encerra o destino da _Lusonia_.
Viriatho approximou-se respeitoso, exclamando com jubilo:
--Esse Poema nacional é o verdadeiro _Thesouro do Luso_. O conhecel-o enche todas as minhas ambições.
E Idevor, percorrendo um a um, nos seis grupos de varas, os Bastões runicos em que se continham os seis mil versos da _Epopêa da Lusonia_, observou:
--Levaria muitas horas a leitura ou recitação pausada dos versos d'esta Epopêa; para o caso que nos interessa n'este momento basta um resumo claro e verdadeiro. Escuta pois o Argumento da
EPOPÊA DA LUSONIA
«Um grande Mar glacial cobriu a Europa, a partir do pólo até ao Ural, estendendo-se pelos territorios hoje occupados por nações, que levantaram dolmens e construiram muralhas e cidades com os blocos erraticos arrastados pelas neves, que deslisavam das altas montanhas.
«As neves eternas, descendo dos montes da Europa occidental, foram espalhando em uma marcha lenta, que durou seculos, essas morenas, que bordam as margens dos lagos, as costas do Oceano atlantico, onde se desaggregaram das geleiras. Todos os grandes valles foram atulhados de gelos, trasbordando sobre as planicies. Dos montes da Europa central se estenderam esses enormes geleiros, alastrando-se, destruindo as especies vegetaes, e repellindo diante de si os animaes gigantescos, que se refugiavam nas cavernas ou procuravam outros climas. Nas clareiras, não cobertas pelos gelos, conseguiram viver alguns animaes e pequenos grupos humanos, em uma lucta com a intemperie da natureza; apparecem estações humanas nas Gallias, Britania, Italia e Germania, e n'essas zonas exundadas é que se foram creando as raças da Europa, que se iam constituindo em Nações poderosas, com as suas linguas diversas, seus costumes, religiões e sociedades differentes: taes os Hyperboreos, formados pelos Proto-Scythas, Scythas, Sarmatas, Parthas, Germanos, Gaulezes e Bretãos. Elles conheceram a grande Constellação austral da _Ursa_, e iniciaram os trabalhos da Agricultura e da Navegação.
«As Estrellas da Grande Ursa, em numero de sete, assim como os bois que pucham os carros pesados chamados _Teriones_, foram designadas _Septemtriones_. O homem representou no céo os actos da sua vida terrestre: o Sol fecundante da estação estival foi representado como o _Touro_, ou o Deus Thor das gentes germanicas, e o mugido do trovão _Tarana_, como do touro que berra. E a navegação, que se fazia de uns para outros lagos, era tambem completada transportando os _Teriones_ as barcas em carros de um ponto para outro. Chamaram por essa fórma dupla de Navegação a esse povo aventureiro os _Gansos_, ou _Liguses_, os patos dos lagos. Foi assim que se fez conhecida no mundo a forte raça de Navegadores, os _Liguses_, ou Ligures, que constituiram Ligas ou Hansas maritimas, protectoras das suas remotissimas viagens, transportando pelo Atlantico e através da Europa os blocos de _Ambar_ amarello, e o estanho das ilhas Cassitérides.
«Esses Povos da região septemtrional da Europa, que se chama a Scandinavia, viveram longo tempo ás bordas do mar, e foram conhecidos pelo nome dos _Homens da Agua_, que em suas linguas se exprimia pelas palavras _Soma-lassed_, _Sabme-lassed_. Pela orla occidental da Europa esse Povo veiu descendo para o sul, e occupou as regiões de Hibernia, da Britania, e na Hispania esse Povo fundou o grande estado da _Lusonia_ ou terras de Lez, que se denominaram Anda-_Lezia_, Cale-_lezia_ e _Lusi_tania.
«Pela sua audacia aventurando-se na exploração do Mar tenebroso, as outras raças chamaram-lhes os _Atlantes_, de Atl, o nome da agua; e nas suas rascas ou barcas de duas prôas, ajudadas a remos, a que chamaram Kamares, estenderam as suas expedições pelas Ilhas perdidas no meio do Atlantico, desceram ao longo da costa occidental da Africa, foram tocar em um continente ou Mundo novo da Aymerica, penetraram o Mediterraneo até ao Egypto, e subindo o Golpho persico, chegaram até á Chaldêa, e á India.