Viriatho: Narrativa epo-historica

Chapter 12

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Informado pelas suas esculcas, de que era procurado por Quinccio, esperou-o até ser visto, simulando que se retirava para as proximidades do _Mons Veneris_. O Pretor por inhabil ou por confiado avançou em perseguição de Viriatho, o qual reproduzindo as mesmas manobras, cujo effeito certo conhecia e com as quaes quatro annos antes derrotára Plancio, fez do _Mons Veneris_ o seu abrigo; Quinccio continuou a avançar, e o cabecilha lusitano precipitando-se repentinamente sobre as Legiões romanas e envolvendo-as de subito por todos os lados, fez um tal destroço e mortandade no exercito romano, que o Pretor só conseguiu escapar em uma pavorosa debandada, e sempre perseguido até refugiar-se no seu quartel de inverno em Corduba. Muitos estandartes romanos foram arrancados das mãos dos hastarios; e estes despojos, testemunho da victoria de Viriatho, foram mandados para a ilha sagrada de _Achale_ para serem collocados na Torre Redonda, consagrados como trophéos ao Deus innominato.

Na sua fuga desvairada, o Pretor Quinccio dirigindo-se para Corduba abriu passagem pelo paiz extremamente montanhoso dos Bastetanos, que se estendia para o sul até ao monte Ilipala, confrontando ahi com os Turdulos, ao occidente com os Oretanos, ao norte com os Lobetanos, e com os Contestanos do litoral. Era principalmente aqui n'este territorio dos Contestanos, que estava estabelecido o governo dos romanos, na cidade denominada Nova Carthago. Viriatho não esqueceu esta circumstancia, e não lhe bastando ter derrotado o Pretor Quinccio, submetteu a saque todas as povoações alliadas ou relacionadas com o poder de Roma. O Pretor fechou-se dentro das muralhas de Corduba, sem esperança de que o Consul Quinto Cecilio Metello viesse soccorrel-o, por que achava-se empenhado tenazmente nos combates em volta de Numancia, por fórma que não se podia conjecturar o termo d'essa nova guerra; e apavorado no seu reducto limitou-se a ordenar, que um ibero romanisado, como revela o seu nome Caio Mario, que estava com uma Legião em Italica, policiasse as cercanias de Corduba para o avisar da presença de Viriatho e evitar as suas correrias. É certo que o Pretor Quinccio não pôz mais o pé fôra das muralhas de Corduba.

O orgulho romano não podia conformar-se com esta humilhante derrota, e com a situação vergonhosa de Quincio, dentro em Corduba desde o meado do outomno de DCXI. Desde que despontou a estação favoravel para recomeçar a campanha contra os Lusitanos, o Senado nomeou para esse commando o novo Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano. Seria elle mais feliz do que seu irmão para vingar o lustre das armas romanas obscurecido pela audacia de Viriatho?

Desde que Serviliano fôra eleito Consul em DCXII, apoderou-se d'elle uma ambição irrefreavel e unica: vencer Viriatho, appresental-o em Roma, leval-o a pé e descalço no seu triumpho. Para estas esperanças o Senado concedera-lhe extraordinarios recursos: duas novas Legiões além das forças que estavam em Hespanha. E Serviliano podia sonhar com o triumpho, porque contra um guerrilheiro sem exercito organisado, tinha agora sob o seu commando um formidando exercito de sessenta mil homens, e mil e seiscentos Cavalleiros.

XL

Serviliano não queria perder tempo, e iniciou a campanha na Betica, nas cercanias de Jaen; o plano foi bem formado, porque Viriatho apenas pôde pela rapidez das operações do Consul entrar em combate com um contingente de seis mil homens.

Os tres companheiros de Viriatho, notando que o chefe reconhecia a insufficiencia da sua gente para sustentar o combate com um exercito disciplinado dez vezes mais numeroso do que o seu, entreolharam-se com um ár de intelligencia, como se aquella situação desesperada proviesse de uma combinação. Viriatho não succumbiu; antes o perigo o levava a descobrir extraordinarios recursos. E de relance, comprehendendo a situação, ordenou o seu plano:

--Manobrar com uma rapidez tal, que o exercito romano não possa manter-se em disciplina e ordem de batalha.

E em vez de esperar o ataque, deu ordem a um assalto instantaneo, em que toda a agilidade e bravura, que caracterisa os lusitanos, fôssem praticadas por modo que a confusão se estabelecesse nas Legiões romanas, e que as manobras usuaes não podessem ser executadas. Pôz á frente os montanheses do Herminio acostumados ás correrias dos lobos e ás montarias dos javardos, os quaes em berreiros descompassados--_Mata, que é romano!_--investiram com impeto indomavel de féras contra os manípulos de Serviliano. A espada e o punhal eram vibrados por uma e outra mão, tendo abandonado o escudo, para se moverem mais denodadamente. O assalto encheu de assombro os soldados romanos, que desconheciam esta impetuosidade dos que elles chamavam barbaros; e sem poderem sustentar aquelle recontro violento, foram recuando, suppondo que Viriatho, empenhando a batalha só com seis mil homens, contava com outras forças que viriam avançando, e que decidiriam da lucta.

Uma circumstancia salvou n'esse momento o exercito do Consul Serviliano: inesperadamente appareceram no campo da batalha dez Elephantes africanos e trezentos Cavalleiros bem equipados. Serviliano conheceu-os; era o contingente que lhe mandava Micipsa, o rei da Numidia. Quando o Consul projectava alcançar o commando da Guerra da Lusitania escrevera a Micipsa pedindo-lhe em nome da Republica o auxilio dos seus Elephantes e dos seus esbeltos Cavalleiros. Um pedido assim era uma ordem, e o Rei da Numidia bem comprehendia que com o contingente de alguns Elephantes e Cavallos, garantia a estabilidade do seu throno.

O auxilio não podia vir mais a tempo; e o exercito romano, reanimando-se com o extraordinario reforço, toma a offensiva. A rapidez do ataque da parte do exercito consular, servia para perturbar-lhe a disciplina, e Viriatho, evitando o combate, foi attrahindo as hostes para os terrenos anfractuosos seus conhecidos. Os Elephantes do rei da Numidia foram caindo um a um, com aquelle golpe ignorado dos romanos, mas praticado pelos lusitanos, quando com um aguilhão de ferro matam os seus bois ferindo entre as vertebras cervicaes. O successo inesperado produziu um estranho assombro; Serviliano pensa já na retirada, e Viriatho, furtando-lhe as voltas, toma-lhe a dianteira, avançando com rapidez incrivel por veredas que só elle conhecia, vindo occupar o arraial do exercito consular, apenas guardado por alguns hastarios.

Quando o Consul Serviliano, com o exercito cansado dos caminhos fragosos chegou já noite cerrada ao seu acampamento, achou o pequeno exercito de Viriatho fortificado com os fóssos e trincheiras com que contava defender-se, e viu-se constantemente inquietado pelos hastarios e fundibularios lusitanos. Aproveitando a escuridão da noite e contando com o cansasso dos soldados romanos, fatigados da retirada custosa, Viriatho ordenou incursões repentinas e por lados sempre differentes no acampamento romano. Serviliano perdera n'aquella jornada e incursões da noite para mais de tres mil homens; e como as tropas se achavam sem descanso e sem alimento desde a vespera, seria loucura o empenhar-se em uma batalha campal, resolvendo recolher-se com o exercito á cidade mais proxima, a Ituca, onde contava com viveres e as munições indispensaveis.

XLI

Viriatho não desvairou com a inesperada victoria. Reconheceu promptamente que se salvára d'esta vez de um perigo evidente, e que para luctar com Serviliano carecia de mais gente. Deu ordem, logo que partiu o exercito romano, de lançar fogo ao arraial, fazendo uma retirada cautelosa e tratando com a maxima urgencia de ir buscar levas de montanhezes ás serranias do Herminio, por que lhes reconhecera a valentia impetuosa dos assaltos.

Serviliano, uma vez abastecido em Ituca, e refeitas as suas tropas pelo descanso, debalde procurou Viriatho; convinha-lhe fixar o seu quartel de inverno não longe, para recomeçar a campanha contra os Lusitanos, e avançou sobre a Beturia, essa parte montanhosa da Betica, entre a planicie do Betis e o valle do Anas. Habitava ahi gente que se confederara na grande insurreição suscitada por Viriatho; o Consul occupou-a por conquista, avançando para o paiz dos Cuneos, castigando-os pelo mesmo pacto, e fixando ahi na Cynesia o seu quartel de inverno.

No anno DCXIII, no comêço da estação propicia, iniciou Serviliano a nova campanha contra Viriatho, avançando para o norte; quando ia em marcha com o poderoso exercito, vieram ao seu encontro dois guerrilheiros, que andavam pela Cynesia, com uma partida de mais de dez mil homens. Eram Curio e Apuleio, que por uma temeridade inaudita se atreveram a atacar Serviliano. O Consul, com incomparavel vantagem, bateu a partida, ficando morto no campo Curio com todos os seus despojos, e debandando Apuleio com o resto da sua gente cruamente destroçada. Serviliano prosegue na impetuosa marcha, e reconquista a cidade da Baccia, toma dentro em poucos dias as cidades revoltadas contra o jugo romano, Scandiam ou Escambola, Gemella e Obucula, fazendo ahi dez mil prisioneiros, que vendeu como escravos, e mandando degolar uns quinhentos individuos mais importantes, que considerava como partidarios de Viriatho e fomentadores da revolta. E era a grande e generosa Roma, que acoimava de barbaros os povos da Hespanha, querendo civilisal-os pelas carnificinas e pelas depredações. Era a Lusitania, na sua parte oriental e na occidental, que se atrevia a resistir contra este regimen de latrocinios, batalhando pela sua liberdade.

Serviliano ia arrebatado por um pensamento exclusivo: encontrar Viriatho, derrotal-o! Sem isso não era possivel a submissão ou pacificação da Hespanha. Nas suas marchas o Consul não encontrava o Cabecilha lusitano; os seus espiões não davam noticia d'elle. Em quanto os soldados se regosijavam, conclamando, que Viriatho estava cansado da lucta; que perdera a esperança na causa da Lusitania; que já lhe faltava gente e recursos, Serviliano conhecia bem a tactica do caudilho, e suspeitava que Viriatho andaria por longe recrutando novos reforços. E seguro de que só mais tarde o encontraria, o Consul, para ir entretendo as tropas e satisfazendo-as com os saques das cidades devastadas, chegou ás cercanias de Erisane, cidade rica e populosa, e resolveu apoderar-se d'ella. Nem sequer mandou intimar a rendição aos habitantes de Erisane; pôz logo o cêrco á cidade, e deu ordem a que, em todo o seu circuito, se abrissem fóssos, fazendo da terra revôlta uma alta trincheira detraz da qual ficariam os hastarios, para que ninguem podesse fugir, e forçando-os a entregarem-se, assenhorear-se de tudo quanto em Erisane se guardava. De resto contava que os habitantes eram tambem uma rica mercadoria de escravos, e um meio para quebrantar as outras cidades pelo terror passando á espada alguns centenares. Serviliano procedia com tranquilidade e segurança, por que uma cidade sem defeza, como Erisane, não tem melhor recurso do que entregar-se ao invasor. A soldadesca romana achava-se em grande parte dividida em volta da cidade abrindo os fóssos, quando inesperadamente de dentro dos seus muros irrompem em tropel esquadrões sobre esquadrões de cavalleiros, de longas grenhas, com trajos e armas ao modo lusitano. Parecia que a cidade se desfazia em chusmas de cavallerias, e que de cada pedra se formava um cavalleiro. A violencia e rapidez da erupção, os gritos estridentes e a sanha vertiginosa bem revelaram logo que era gente de Viriatho! Como conseguira o Caudilho introduzir-se sem ruido dentro de Erisane n'aquella noite? E sem dar tempo a que Serviliano podésse metter em fórma o exercito, que estava esparso e em descanso no acampamento, na lisongeira espectativa do saque da cidade, Viriatho, com aquelles movimentos que só elle sabia dirigir, lança-se com todos os seus bravos Soldurios, e com os Terços mais firmes chacinando na massa desmembrada do exercito de Serviliano, multiplicando a sua força sobre as hesitações de espanto causadas pela instantanea surpreza.

O exercito romano, sem ensejo para entrar em ordem, vae abandonando o terreno, vae recuando, sem plano; Viriatho, com a lucidez dos momentos decisivos, vae-o impellindo para o desfiladeiro apertado entre dois montes cobertos de penhascos, sem que o proprio Serviliano désse pela audaciosa cilada. Logo que Viriatho conseguiu encurralar o grosso do exercito consular, deu ordem a um trôço de companheiros para a um signal sabido fazerem rolar do alto das duas montanhas aquelles penhascos acavallados. Dispostas assim as cousas, mandou parlamentarios a Serviliano:

--«Que o Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, conhecendo a situação em que se collocára o exercito romano n'aquelle desfiladeiro, devia consideral-o perdido para o combate ou qualquer resistencia;

Que do alto das duas montanhas rolariam ao primeiro signal sobre o desfiladeiro os penhascos que alli negrejavam, esmagando todo o exercito ahi comprimido;

Que, antes de proceder e de pôr as suas condições, mandava perguntar a Serviliano que vantagens offerecia para que o exercito romano fôsse salvo.»--

Os parlamentarios, que tinham partido levando ao alto ramos de oliveira, não se demoraram muito tempo; traziam a mensagem de Serviliano:

--«Que da parte do Consul Quinto Fabio Maximo Serviliano, pelos poderes que lhe tinham sido conferidos pelo Senado, lhe entregavam um Cinto de ouro, como insignia de auctoridade soberana;

Que poderia Viriatho desde aquelle momento considerar-se _Rei da Lusitania_, e fiel _Alliado de Roma_, sendo o seu primeiro acto a assignatura de um Tratado de Paz e a dissolução do exercito.»--

Quando Viriatho leu essas condições sorriu-se com um superior desdem; e sem demora tornou a enviar os Parlamentarios com os Cavalleiros romanos que os acompanhavam, para dizerem a Serviliano:

--«Que das suas propostas só acceitava a Paz firmada pelo Consul e ratificada pelo Senado, em que se assentasse para sempre o reconhecimento da liberdade e independencia do Povo lusitano na sua terra, e da propriedade dos fructos do seu trabalho.

Que a Lusitania nada queria de Roma; e quanto a elle Viriatho não acceitava o titulo de Rei, mas unicamente a simples denominação de _Amigo_, dada pelo Senado romano.»--

A mensagem de Viriatho não podia deixar de ser adoptada por Serviliano, porque se limitava exclusivamente ao Tratado de Paz. E o Consul comprehendia o intuito leal de Viriatho, porque aquelle mesmo homem, que estando o exercito lusitano perdido recusou a Paz que Vetilio concedera, era quem agora, tendo o exercito romano entregue ao seu arbitrio, propunha como resultado da victoria uma simples clausula: um Tratado de Paz assignado pelo Proconsul e ratificado pelo Senado e Povo romano. Era nada menos do que a pacificação da Hespanha e o poder de Roma assentando sobre o Direito em vez da espada.

O Tratado foi redigido com todas as formalidades do Direito das Gentes, e Serviliano assignou-o como Proconsul; Viriatho firmou-o tambem enumerando os povos lusitanos que representava. Trocaram-se os diplomas authenticos, um que devia ser apresentado por Serviliano ao Senado em Roma, e o que ficava em poder de Viriatho, como garantia da Paz. N'esse dia os dois exercitos passaram em festa, ficando no campo as tropas de Viriatho, até que o exercito proconsular deixasse de ser visto seguindo em marcha para o seu quartel de inverno.

XLII

O sonho de Viriatho tornára-se uma realidade: a Lusitania livre, e Roma vinculada pela Paz. O Caudilho contava com a pacificação geral, embora algumas resistencias se manifestassem na Hespanha citerior; Roma era sufficientemente politica para ratificar esta Paz sem apparencia de impozisão. E emquanto Viriatho esperava a ratificação do Tratado pelo Senado Romano, partiu pressurosamente para a ilha de _Achale_. Cumprira a condição exigida por Lisia para a realisação do seu casamento.

Lisia sabia todos os terriveis accidentes da campanha de Serviliano, mas não tinha chegado ainda á ilha sagrada a noticia da pacificação inesperada. Do alto da Torre Redonda a semnothêa viu vogar para a ilha uma barca de couro; o coração bateu-lhe agitadamente, sem se atrever a conjecturar o que teria succedido. Mais proximo a barca, reconheceu a figura de Viriatho. Desceu subitamente para ir esperal-o á lingueta de areia.

Não se imagina a eloquencia da mudez de Viriatho e Lisia, quando se deram as mãos e assim ficaram por alguns momentos. Avançando para a Torre Redonda, ia-lhe dizendo Viriatho:

--Cumpriu-se o teu desejo.

--A Paz? Com Serviliano?!

--A Paz com Roma; assignou-a Serviliano, Proconsul e general.

Lisia fitava immovel o vulto de Viriatho, crendo um sonho o que escutava. O valente cabecilha tirou d'entre a cota de malha de linho retorcido a folha em que estava escripto o Tratado de Paz, em que Roma reconhecia a liberdade e independencia da Lusitania. Lisia não pôde lêr esse texto, porque a impressão da alegria tinha-lhe arrasado os olhos de lagrimas. Viriatho entregou o Tratado ao ultimo dos Druidas Idevor, que leu a clausula: _Haverá paz entre o Povo romano e Viriatho._

Lisia, lançando os braços em volta de Viriatho, exclamava:

--Temos uma Patria livre! A Lusitania é independente!

E beijando com candura as faces crestadas e as mãos de Viriatho, continuou como se estivesse fallando em sonho:

--Já se póde constituir familia em uma Patria livre. Os nossos filhos nunca serão escravos.

Viriatho, lançando-lhe o braço em volta da cinta delicada, e em attitude reverente:

--Cumpri a condição que me exigiste: a imposição da Paz a Roma. Agora és minha esposa.

--Para a vida e para a morte! volveu Lisia, como se alli mesmo se consorciasse com o guerreiro á face do céo.

E Viriatho, tirando o braço direito da cintura de Lisia, tomou o Cinto de ouro mandado pelo Proconsul Serviliano, como symbolo da realeza offerecida, e cingindo-a com elle, disse com voz branda e quasi só ouvida pela noiva:

--A este corpo gentil, que eu desejo e hade ser meu, prendo-o com esta cadêa de ouro, trazida do campo da batalha para a paz da nossa casa. As almas sempre estiveram identificadas pela mesma aspiração, pelo mesmo soffrimento, e agora por uma simultanea alegria.

E mirando Lisia com interesse e carinho para vêr como bem lhe ficava o Cinto de ouro, dizia em voz que só ella entendia:

--Mal sabes a significação d'este Cinto?

Lisia ficou attenta para ouvir contar a batalha em que fôra tomado como despojo ao general romano.

--Foi-me offerecido por Serviliano com o titulo de _Rei da Lusitania_ e _Alliado de Roma_, para assim salvar o seu exercito do desfiladeiro em que o enclausurei.

--E acceitaste?

Recusei o titulo de rei, como uma vaidade pessoal e egoista, e só exigi a Paz, o Tratado de Paz ratificado pelo Senado Romano.

--Mas o Cinto?

--Fiquei com elle para ser a minha primeira joia de nupcias.--E com um sorriso cheio de bondade, continuou: Não deixará de ser o symbolo da realeza, no logar em que agora brilha; por que tu, Lisia, ligando a tua existencia á minha, ficaste verdadeiramente a rainha e senhora do meu destino.

Lisia tirou o Cinto de ouro que a envolvia, e tomando da mão de Viriatho o Tratado de Paz foi collocal-os sobre o altar do Deus Innominato. As Virgens do Côro da Semnothêa acompanharam de canticos estas offerendas, incertas sobre qual d'ellas substituiria no culto a Lisia, que ia deixar os áditos mysteriosos da Torre Redonda pelos deveres austeros da vida de mulher casada.

O regimen da Religião druidica ia-se obliterando; apenas na Ilha de Hierna se conservava na sua pureza primitiva. Pelas outras partes do Occidente europeu as perseguições fizeram que se dissolvesse a hierarchia sacerdotal, degenerando os Druidas muitas vezes em adivinhos e curandeiros, e as Semnothêas em bailadeiras dos festins e das praças. Na Ilha de _Achale_ conservava-se um apagado vestigio cultual, não tanto como doutrina theologica, mas como vinculo secreto que unificava as vontades no ideal politico da libertação da Lusitania. Era por isso que nenhum viajante fallando da Hespanha deu noticia da existencia do Druidismo na peninsula. Lisia, a Semnothêa, casando com Viriatho, realisava o ideal religioso servido pelo braço do guerreiro na aspiração politica de uma Lusitania livre.

Depois que o caudilho saiu da Torre redonda, Lisia fallou adeparte com o velho endre:

--Agora que está assignada a Paz com Roma e livre, livre a ditosa Patria nossa amada, Viriatho virá pedir-te a minha mão de esposa. Muito desejára que antes d'esse dia lhe descobrisses o sitio onde se guarda o _Thesouro do Luso_, e lh'o patenteasses como depositario da Tradição, que elle serviu com tanto desinteresse e valentia. Eu bem sei que tudo se encontra na Caverna das Inscripções Oghmicas, que só tu sabes _interpretar_, pondo em ordem mysteriosa os _Bastões dos Poetas_ ou Vates, que por terem esse conhecimento da Floresta ou _Feadha_, são chamados _Faithiste_.

--Sim, volveu o velho, é preciso ser _sagaz_ para lêr essas varas _sagitarias_, feitas de _estêvas_, a que chamaram _Buchstave_, em que se contam as _Sagas_ heroicas. A quem, senão a Viriatho entregarei o Thesouro do Luso? Pela condição natural das cousas, Viriatho hade sobreviver-me. Encanta-me o teu pedido, porque a entrega d'esse deposito fica ligado ao destino affectivo da tua vida,--é o teu dote.

Lisia, beijando a fronte do endre encanecido, deu á intensidade do sentimento a sincera expressão das lagrimas.

Seriam aquellas lagrimas enternecidas um presentimento?

Na vetusta tradição dos povos do norte anda sempre ligada á posse do Thesouro a fatalidade tremenda,--a morte...

XLIII

Emquanto Viriatho se demorava na Ilha sagrada de _Achale_, no enlêvo d'aquelle amor que o fortificára na sua missão heroica, os tres Companheiros deixaram-se ficar no valle de Callippo á frente dos Mil Soldurios, em uma inactividade impaciente e desgostosos por vêrem tão repentinamente terminada a guerra contra os Romanos. Estavam acostumados a uma vida agitada de aventuras, ao prazer do saque, ás grandes emoções entre a posse de riquezas repentinas e a morte; custava-lhes a voltarem bruscamente aos costumes da paz, ao respeito forçado da vida e da propriedade. Preoccupados do mesmo pensamento, careciam de communicar entre si os seus intuitos; tinham receio de serem espiados, de que os Soldurios descobrissem em suas palavras qualquer hostilidade contra Viriatho.

Então Ditálcon disse para os outros dois companheiros:

--Que vá cada um de nós por diversos caminhos ter á Caverna que está entre o Promontorio Cepressico e o rio Callippo. Ahi, sem sermos vistos nem ouvidos, poderemos fallar á vontade, e resolvermos sobre a situação que nos espera.

Andaca e Minouro abraçaram o alvitre, e assentaram o dia do encontro na Caverna das Fadas, ao alvorecer. Então teriam tempo para fallar á vontade e á larga. Dos tres companheiros de Viriatho, Ditálcon era o mais velho, e até muito separado em edade. Era um homem alto e enxuto de carnes, de ossadura forte; e embora guerreiro destemido, nunca tinha perdido o porte aldeão, e mesmo um certo amor pelos trabalhos da lavoura. O rosto sobre o comprido e de faces cavadas, tinha uma carnação rubra tostada, sobre que assentava um nariz afilado, e uma bocca desdenhosa, a que dava um ár ironico um golpe que recebera na desastrosa batalha de Tribola. Os olhos eram garços, entre o azul e verde, lembrando pela fórma da cabeça o typo do africano branco berber. Fallava cadenciadamente como sentindo a propria auctoridade, porque era ouvido sempre attentamente, quando contava memorias de cidades destruidas, do tempo das guerras carthaginezas; dizia-se que na mocidade viajára até á Britania e á Gallia, e envolvia-se de uma atmosphera de oraculo, pretextando ora descontentamento dos homens e das cousas, por fórma que inspirava desalento em volta de si, ora acobertava os seus desanimos repentinos com uma isempção de todas as honras e riquezas.