Viriatho: Narrativa epo-historica

Chapter 11

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Viriatho não hesitou um momento, pondo-se em frente do inimigo que bem conhecia; os seus Cavalleiros e infantes bateram-se desesperadamente, e quanto mais destroçavam as forças romanas, novas reservas accudiam a Quinto Fabio successivamente, por modo que Viriatho, conhecendo que lhe fraquejava um flanco do seu exercito, ordenou a tempo uma retirada sob _Bécor_, aonde as florestas, os rochedos e as ribanceiras intransitaveis o punham a salvo do exercito romano, que foi perseguindo-o por algum tempo. Viriatho deixou no campo muita da sua gente. Então, para vingar as perdas que soffrera, e o furor que lhe provocára o desapparecimento do Cabecilha em _Bécor_, foi Quinto Fabio com o seu exercito occupar as duas cidades que até agora estiveram sob o poder do chefe lusitano, dando ordem á soldadesca para o saque desenfreado, mandando em seguida lançar-lhes o fogo, passando á espada folego vivo que encontrassem.

Quando Viriatho estava já seguro em _Bécor_ do inopinado golpe em que o Proconsul levára vantagem, veiu-lhe um presentimento, que a ninguem quiz communicar:--A fórma do ataque de Fabio revela-me que se aproveitou de uma traição!

De repente chegou ao pé de Viriatho o seu companheiro Andaca:

--Sabei que os Turdulos e os Turdetanos depozeram as armas; e pediram paz a todo o transe; assim perdemos esse vasto territorio, todo o oriente da Betica.

N'isto chegou Minouro, o outro companheiro, e disse para Viriatho:

--Os Celticos, que confinam com a nossa terra lusitana, por causa d'esta derrota voltaram-se para os Romanos, dizendo que querem pastorear os seus rebanhos em paz por esse Alemtejo e Extremadura.

E emquanto Viriatho se mostrava apprehensivo, Andaca e Minouro affastaram-se um pouco e segredaram:

--A Espada invencivel perdeu d'esta vez o encanto.

E sorriram-se n'uma intima perfidia com uma satisfação que só elles ambos comprehendiam.

XXXVII

Depois da apparente victoria de Fabio, que muito bem sabia a quem devera essa momentanea vantagem, recolheu-se o Proconsul á capital da Hispania ulterior, á cidade de Corduba para ahi descansarem as tropas no rigor do inverno. Viriatho reconheceu que avançára demais para sudéste da peninsula, em que predominava o Ibero, e sentindo-se ahi sem apoio nas populações, aproveitou a inactividade do Proconsul para levar o seu exercito á Hespanha ulterior, onde era mais odiada a dominação romana, chamando á revolta desde o Anas e o Betis até ao Promontório Trileuco, todas as tribus e populações em quem girava o sangue lusitano.

As revelações que na ilha sagrada de _Achale_ Viriatho recebera do endre Idevor, dando-lhe viva comprehensão d'esta Patria ideal, por cuja unidade e autonomia batalhava; e o amor de sua noiva, a deslumbrante Lisia, que o escolhera para esposo exigindo por condição que o Romano _lhe pedisse a paz_, excitavam no valente Caudilho um heroismo inquebrantavel, e mais do que isso inspiraram-lhe o poder mysterioso de fallar ás almas, de estabelecer a harmonia dos sentimentos. A sua palavra começou então a ter tanta força como a sua Espada; e pelas terras por onde passava, deixava uma onda de insurreição, synthetisada n'um grito:

--Uma só vontade nos una! Guerra ao Romano!

Viriatho dirigiu-se áquella região que vae das fronteiras dos Carpetanos até ao paiz dos Edetanos, que fórma toda a parte oriental e occidental da Celtiberia, aonde habitavam os Belitanos e os Titos, cujas Companhias destroçára havia quatro annos, quando como alliados foram em auxilio do Pretor Caio Vetilio. A presença corajosa de Viriatho alvoroçou a população; o Cabecilha fallou-lhes com desassombro:

--Estaes resentidos de mim, e aqui me tendes se mereço a morte; mas ouvi-me. Eu lucto pela independencia da vossa patria, que é a minha. Vós, habitaes esta parte da Celtiberia, que tambem é Lusitania; porque os povos que aqui vivem não são Iberos, são _Lusonios_ separados pelo rio Ebro, sobre a sua margem direita. Estas duas raças são inconciliaveis! se ellas se podessem unir por um pacto de alliança, nunca n'esta peninsula hispanica se teriam estabelecido os Celtas vagabundos; nem aqui entrariam os Phenicios, nem os exercitos Carthaginezes occupariam o nosso solo. E como essa alliança nem pela necessidade da defeza mutua póde trazer a um accordo Iberos e Lusitanos, é por isso que as rivalidades entre os Carthaginezes e Romanos trouxeram estes guerreiros a repellil-os do nosso territorio, mas a impôr-nos cruamente o seu dominio, arrasando as nossas cidades, e roubando-nos ignobilmente pêlos seus Pretores. Os Iberos foram acceitando o governo ou propriamente o jugo dos Romanos; os Lusitanos, que em Roma pelo testemunho dos seus generaes são considerados os mais valentes e destemidos dos Povos celtibericos, são os que resistem ao estrangeiro, os que aspiram a ter uma Patria livre. Deixemos para além do Ebro o povo dos Iberos, que amam a auctoridade fortemente constituida; contemos só comnosco, Lusitanos a quem o espirito da revolta os impelle a sacudir todo o jugo e a cortar a mão que ousa domal-os. Desde o morticinio truculento feito á falsa fé por Galba em trinta mil Lusitanos chamados a uma assembleia pacifica, é que eu me insurgi contra essa clamorosa infamia, e ha sete annos que sustento uma campanha em prol da Patria livre infligindo derrotas successivas aos exercitos romanos. Em Roma votou-se o exterminio, a aniquilação completa dos Lusitanos. Fabio já teve um simulacro de victoria, porque encontrou no elemento iberico um meio de derrotar-nos, esse inconciliavel antagonismo. Isso nos obriga á união das populações e cidades da Lusitania. Vós, oh habitantes da Belia, d'esta Edetania, limite oriental da Celtiberia, vós sois Lusitanos, sem differença alguma, como o reconhecem mesmo os viajantes. Sois descendentes dos _Lusonios_, que transpozeram ha seculos immemoriaes os Pyreneos vindos da Aquitania, aonde existem ainda as tribus dos _Elusatos_; essas tribus dos Lusones fixaram-se nos montes que dividem os rios Jalon, Mosa, Henares e o Durio, estendendo-se até ao Mediterraneo e Montes de Idugbeda; pelo occidente alargaram-se do alto Durio até ao Tejo. Mas esta extensão primitiva da nossa Lusitania, que podemos chamar _Lusitania oriental_, foi sendo dividida pelas invasões estrangeiras, a começar pelos Iberos e Celtas, que a comprimiram para oéste, forçando os Lusonios a concentrarem-se nas Beiras, na Extremadura cistagana, e por todo o Alemtejo, formando hoje esta _Lusitania occidental_ que começa no Promontorio Sacro até aos Callaicos. Juntemos estas _duas Lusitanias_ e teremos o dominio da Hespanha, que só será senhora do seu destino quando repellir todo o poder estrangeiro do seu solo. Ahi estão as vossas cidades attestando pelos seus nomes, que ainda pertenceis a essa patria primitiva, que nos une a todos: _Lusera_ e _Luzes_, proximo de Jaen, estendendo-se até ao rio Tajuña; _Luzago_, _Lucia_ e _Alustante_, proximo de Jalon; _Lucos_ e _Lucera_, na parte meridional do Ebro. Foi por estarmos separados, que os estrangeiros nos invadiram, e o Romano nos aniquila para se mantêr pela expoliação das nossas riquezas. O isolamento das cidades é a fraqueza; a federação cantonal é a garantia da independencia.»

A voz de Viriatho calou nos animos; os Belitanos reconheceram que se não differençavam dos Lusitanos; e perdoando o castigo que o Cabecilha lhes infligira quando iam em soccorro de Vetilio, bradaram erguendo ao alto as mãos direitas:

--Uma só vontade nos una! Guerra ao Romano.

Com essa gente da Edetania veiu tambem o povo seu alliado da _Titulcia_, a que chamavam os Titos, jurar o pacto defensivo. Mas aonde a voz de Viriatho produziu um effeito vertiginoso, hallucinante, foi entre os Arevacos, nas nascentes do Durio, que se firmavam na sua fortaleza inexpugnavel de Numancia, visinha de _Luzon_.

--Bravos filhos da Lusonia! vós bem sabeis que todos os chefes militares que luctaram contra os Carthaginezes, pela independencia da nossa terra, e que coadjuvaram estes quando estavam em lucta de exterminio contra os Romanos nas chamadas _Guerras Punicas_, bem estareis lembrados que esses Chefes destemidos foram naturaes da Celtiberia, que na sua parte oriental e occidental era propriamente a _Lusonia_. Não podemos pronunciar o nome de Indortes, sem assombro; de Indibilis, Edescon e Mandonio, sem que sintamos referver o sangue n'um impeto de coragem; Carus e Alucio, e ainda Istolacio, embora da geração dos Celtas, são a prova de que não nos falece o espirito de revolta e a capacidade do commando. Mas se os Chefes são gigantescos, que diremos dos seus Soldurios e até da fraternidade heroica que elevava os seus servos? Quem se não recorda d'aquelle general lusitano, Tago, a quem Asdrubal deu a morte? O feito do seu escravo, que lhe vingou a morte apunhalando Asdrubal junto das aras em que estava sacrificando, mostrará a todos os estrangeiros, qual é o vinculo que nos liga uns aos outros.»

Das partes dos Arevacos levantou-se um mancebo de aspecto robusto e gestos decididos; era bem conhecido como filho de Salondico e continuador da sua bravura, estando-lhe por isso confiado o governo da fortaleza de Numancia. E batendo no peito como garantia de firmeza:

--Eu tambem repetirei: Uma só vontade nos una! e essa vontade seja a de Viriatho conduzindo-nos á guerra contra o Romano, até o repellirmos da Hespanha, tornando a nossa Patria livre. Diante de Numancia estacará o poder das armas romanas! e se a fatalidade da guerra fôr contra nós, morreremos ahi todos, mas morreremos livres.

Viriatho abraçou o mancebo denodado, que lhe dizia reconhecido:

--Tu consagraste a memoria de meu pae; por ti derramarei meu sangue quando o determines.

O incendio da guerra santa prègada por Viriatho propagou-se para o norte da peninsula, porque a Callaecia, a dos antigos, formára tambem parte da Lusitania; numerosos bandos, partidos e guerrilhas foram mobilisados pelos Callaicos; como estes, tambem se insurreccionaram os Vacceos e os Vettões na Extremadura; os Turdulos e os Turdetanos desligaram-se de Quinto Fabio Maximo; como em uma onda que vinha crescendo, correram a engrossar esta corrente novas tribus movidas por um sentimento acordado pelo espirito que fortificava o braço de Viriatho:--o ideal de uma Patria, synthese da unidade da raça até alli desmembrada, e de uma Tradição esquecida ou quasi perdida. Pela primeira vez a Lusitania teve a consciencia da sua unificação ethnica ao acceitar o pacto federativo contra o Romano, proposto por Viriatho como uma força defensiva. A coragem do chefe lusitano era tão grande como a confiança no futuro da Lusitania livre. Em todas as guerras da Hespanha nunca os Romanos encontraram um levantamento de povos assim vasto e unanime; era uma situação desesperada, que só por meios fóra dos processos conhecidos poderia ser dominada.

Roma, na prosecução dos planos da sua politica absorvente, desconhecia a coacção moral; quando não confiava na força das armas, recorria ao poder do ouro, subjugando pela corrupção, e falhando os baixos expedientes, alcançava sempre o exito descendo até á--traição. Ante o perigo da constituição federativa dos Povos lusitanos, Roma entrevia o seu triumpho na--morte de Viriatho. E nunca faltaram traidores.

XXXVIII

Esperando o momento azado para recomeçar as operações militares, Quinto Fabio Maximo passára o inverno no seu quartel estabelecido na cidade de Corduba, vendo que a espantosa revolução que irrompia entre as tribus lusitanas chegava á maior intensidade quando justamente estava a terminar o periodo do seu consulado. Elle presentia, que em Roma a sua pretendida victoria era motivo de facecias; por que as noticias do levantamento de tantos povos á voz de Viriatho, desde o Anas e Betis até ao Promontorio Trileuco, patenteava que o chefe lusitano redobrára de força e de prestigio depois da sua retirada para Bécor. Quinto Fabio, sob a incerteza se seria chamado a Roma, se continuaria no commando da Guerra viriathina, ou se outro Consul o viria substituir, passava os dias em uma agitação moral que o perturbava profundamente, obrigando-o ao esforço de occultar o seu estado de espirito, diante dos que o rodeavam. Na inacção forçada da estação hyberna, ordenou certos divertimentos, que os Consules, na sumptuosidade de vida que usavam na Peninsula, tornavam uma caracteristica da grandeza romana.

A melhor parte do dia passava-se em um lautissimo e grandioso banquete, em que á parte as iguarias, em que predominava o salmão cosido em vinho branco, deliciava os convivas a parte espectaculosa, que se continuava pela noite adiante. Durante o banquete resoavam as musicas proprias chamadas _acroamata_, em que grupos de moços e raparigas ao som de flautas e lyras cantavam desenvoltamente em meneios de dansas e pantomimas, imitando situações dos mythos religiosos e das lendas homericas. Eram sobretudo jovens syrias e gaditanas, que, ao som dos cantos licenciosos mais fascinavam pelas dansas lascivas os convivas de Quinto Fabio. E para fazer contraste com a belleza das fórmas, appareciam de repente os _anões_ e _aleijados_, que em contorsões violentas, procurando imitar os _equilibristas_, que formavam pyramides e torres ambulantes, dando cambalhotas e guinchos estridentes, suscitavam as mais estridulosas gargalhadas. Á variedade e profusão das iguarias, correspondia a mudança dos divertimentos, destacando-se, pelo seu poder hilariante, os _Imitadores_, que reproduziam o canto dos gallos, e o dos rouxinoes, os zurros do jumento, o miar dos gatos assanhados, macaqueando os gestos e a falla dos typos mais conhecidos da cidade de Corduba e mesmo de alguns Centurios.

Quando Fabio estava cansado de rir de todas essas manifestações da indignidade humana, das disformidades physicas e degradações moraes, então mandava que se fizessem as recitações poeticas, e appareciam com ramos de louro nas mãos os _Homeristas_, que ao som das lyras de sete cordas e de cytharas declamavam episodios dos poemas do Cyclo homerico. Já estavam os candelabros accesos na sala do banquete, quando entraram os _Homeristas_, para recitarem alternadamente os cantos de um Poema, a que deram o titulo de _Os Piratas tyrrhenos_; e em quanto declamavam, figuras mudas em um intermedio dramatico iam representando todas as situações descriptas:

«A bella e joven Neéra banhava-se descuidada nas ribas de Naxos.

«Apparecem subitamente os piratas do mar Tyrrheno e arrebatam-na, para a venderem para algum gyneceo real.

* * * * *

«Menéclida, seu velho pae, deplora a perda do encanto da sua velhice.

«O namorado de Neéra, encontra-o chorando, e persuade o velho para irem consultar o Oraculo. Partem ambos com anciedade.

* * * * *

«No mar os Piratas disputam entre si a posse de Neéra; e não se entendendo no meio da sua lucta ameaçam de metterem o baixel a pique, e morrerem todos.

«O piloto impõe-se aos remeiros, dizendo,--que é melhor ir offerecer a cativa ao Rei de Coryntho, porque assim alcançavam um porto de refugio e abrigo, quando fossem perseguidos ou batidos pelas tempestades do mar.

* * * * *

«Neéra é offerecida ao monarcha: a formosura da cativa deslumbra-o.

«Coryntho está em uma grande desolação por uma terrivel peste asiatica e a mortandade é enorme. O Rei consulta o Oraculo;--que responde: Que o seu Estado ficará livre da peste logo que elle despose uma prisioneira.

* * * * *

«Quando se faz o banquete das nupcias de Neéra, apparecem dois forasteiros, o pae e o namorado de Neéra, desfigurados pelas fadigas das jornadas, e por isso desconhecidos.

«Sentam os dois forasteiros á meza, e dão ao velho Menéclida uma lyra para entoar um cantico. Como bom rhapsodo, desenvolveu em uma canção saudosa o verso de uma tragedia de Sophocles:

--_É preciso para ser feliz--viver no seu lar..._

«A cativa, agora rainha, conhece pelo canto a voz do pae, e vê na physionomia do moço que o acompanha a expressão do namorado, dos seus primeiros amores, Alcimo.

* * * * *

«O moço diz ao rei que é esculptor, e que fizera as estatuas mais bellas de Aphrodite para os templos de Héllade; e que se promptifica a fazer a estatua de Neéra.

«O Rei quer a estatua da esposa, mas com uma condição: Que o artista contemplando-a núa, logo que fôr terminada a obra elle morrerá, sendo assim a sua morte o véo do pudôr.

«O moço acceita a condição resoluto: Neéra pasma, receiosa. Começa o estudo das fórmas, das posições...

* * * * *

«E quando os dois amantes sentiam mais ardente a paixão primeira, e Alcimo achava impossivel reproduzir no marmore tanta belleza, presentindo que a morte os separará para sempre, em um longo beijo assim lhe segreda:

--Que a mesma morte nos una!

* * * * *

«E de noite fugiram ambos do palacio, entrando em uma barca, das que estavam varadas no porto de Coryntho: foram mar em fóra ao som da agua, fallando dos seus amores, vogando perdidos, e ja muito longe, aos primeiros alvores da alvorada, Alcimo cantava:

Sobre o horisonte, quanto a vista alcança, Reluz vaga esperança: Branca vela! da salvação signal: --É o _Sonho do Ideal_. Succede á calmaria a viração, --Do Amor a aspiração, Que as nuvens da borrasca longe espalha! A vela branca assoalha. Nas auras fluctuando--esse estandarte Nos leva ás _regiões da Arte_. Que importa Syrtes ou parceis? agora Resplandece outra aurora, Um céo azul n'esses teus olhos! Vêl-o, E certo rumo--o _Bello_! Como busca outro clima uma andorinha, Que o calor adivinha, Fugimos! Crente, á prôa A alma para ti vôa... Pelo mar largo assim vamos os dois Devaneando... Depois, N'este enlevo sem fim, perdido o norte, Que seja o porto a morte!»

Apenas acabára a recitação dos _Homeristas_, já appareciam na sala os Parasitos para dizerem chascos e graçolas; mas o Consul Quinto Fabio deu ordem para que se retirassem.

--O que desejará agora o Consul? diziam uns para os outros. Talvez alguma Tragedia? Que venha já immediatamente o Graeculo.

Quinto Fabio ouvira fallar n'uma crença que os Povos da Lusitania tinham sobre os poderes maravilhosos de uma _Cerva branca_; constava-lhe que um velho poema barbaro celebrava esse mysterio, pelo qual se explicava o prestigio dos homens politicos. Foi trazido um prisioneiro lusitano, que se lembrava de numerosas estrophes do Poema.

Disse-lhe o Consul:

--Tens a liberdade, se me recitares o Poema da _Cerva branca_.

--É o Poema de _Abidis_, do Principe fadado por _invencivel diante de todos os perigos, e sempre subjugado pelo Amor_. N'esse poema está symbolisado o genio da nossa raça lusitana: luctando indomavel até á morte, mas deixando-se morrer de amor.

--Canta ou recita esse poema; e terás a liberdade.

O prisioneiro sentiu uma immensa alegria quando lhe tiraram as algêmas; e começou em uma melopêa estranha, que absorveu a attenção dos convivas:

*Rimo de Abidis*

Ouviu negro vaticinio O rei Górgoris um dia: Que do seu throno dourado Um neto o despenharia! Mandou fechar n'uma torre Distante, redonda, esguia, A Princeza sua filha, Unica herdeira que havia.

Triste, cativa a Princeza, Cantava de noite e dia, Para encher a soledade Nas angustias que soffria. Passa um Cavalleiro perto, A doce musica ouvia; Mas, como subir á Torre? Tão alta! quem poderia? Deixára soltar as tranças, E até á terra descia Seu fino e lindo cabello Por onde o moço subia. As noites eram auroras Da mais intima alegria, E as ausencias tornavam Cada vez mais negro o dia; Até que d'esses amores, Que ninguem suspeitaria, Ao cabo de nove mezes Formoso Infante nascia. Boas Fadas o fadaram, A qual mais dons lhe daria: --_Invencivel aos perigos_ _Serà!_ uma fada dizia. _De amores sempre vencido_, Outra fada retorquia. Toma o rei Górgoris conta Do Infante apenas nado, Que traz o nome de Abidis No cinto em que é enfaixado. Sempre o negro vaticinio Ao velho rei é lembrado; Só pensa em salvar o throno, Leva ao crime tal cuidado. Em uma estreita azinhaga Deixa o neto abandonado, Por onde passa correndo Sua boiada, seu gado. Pelo poder do destino Não foi o Infante calcado! O velho rei recrudesce No odio ao neto votado, E manda lançal-o ao monte Certo de ser devorado Por algum lobo faminto Ou serpente do vallado. Foram dar com elle rindo Na relva fresca do prado, Lá por uma _Cerva branca_ Com carinho amamentado!

O velho rei mais raivoso Mandou arrojal-o ao mar, Crendo que as aguas profundas Hão de a criança afogar. A onda a que a arremeçaram Á praia a vem entregar! Então Górgoris conhece Que a Deusa Hertha o quiz salvar. _Estrella do Mar_ se chama A essa diva lunar, Que traz por sagrado emblema Uma _Cerva branca_ a par.

Por causa da _Cerva branca_ Veiu tanto odio a acabar. O rei Górgoris tem gloria De Abidis seu reino herdar: Como o neto, resistente Seu Imperio hade ficar, Annunciando-lhe a grandeza Aquella _Estrella do Mar_!

Aproveitando-se de uma pausa ou hesitação de memoria do prisioneiro, disse-lhe o Consul Quinto Fabio:

--Já faço ideia do poder da _Cerva branca_; conta agora algum lance d'esse invencivel Abidis, _sempre vencido de amores_.

--Ah! toda a historia de Abidis ou Amadis, é quasi inteiramente de amores; dava para encher muitos dias e seroar noites com peripecias sempre de encantar. Começo por uma

*Declaração de amor*

Apalpando o lado esquerdo Não achei o coração! Na repentina surpreza, Com tamanha inquietação, Conheci que m'o furtaram, Não sei bem a occasião... Fui logo á procura d'elle Buscando o rasto no chão, Escutando attentamente, Se lhe ouvia a pulsação! Talvez esteja perdido Em remota solidão?

Quando já sem esperança Cahia na decepção, Fui dar com elle fechado Em nevada, fina mão! Não me atrevi a exigil-o, E eu mesmo, sorrindo então, A quem assim m'o levára Tive de pedir perdão, Porque ha no amor a furto O philtro da tentação.

O Consul, como homem culto, estava interessado pelas rimas do prisioneiro lusitano, que lhe pareciam barbaras mas impressionantes; e disse-lhe:

--Prometti-te a liberdade; para que a obtenhas de vez, é preciso que proclames em voz alta: «Viva o poder da grande e generosa Roma!»

O prisioneiro olhou desdenhosamente para Quinto Fabio, devolvendo com secura, e como em um arranco de morte:

--Volto para o ergástulo.

E murmurando entre dentes com entranhado rancor, ao retomar as algemas:

--A _Cerva branca_ ainda hade dar bastante que fazer aos Romanos! Oh, se hade!

A festa dos Acroamata era poucos instantes depois interrompida; chegára uma ordem cathegorica chamando a Roma Quinto Fabio Maximo Emiliano, e determinando-lhe a entrega immediata do commando do exercito consular ao novo general Quinto Cecilio Metello.

XXXIX

Com ordem expressa do Senado de abafar a insurreição o mais depressa possivel e de reduzir Viriatho aos seus incertos recursos, desembarcou em Tarragona o Consul Quinto Cecilio Metello, que vinha acompanhado do Pretor Quinccio.

Corria o anno de DCXI da fundação de Roma; Metello informou-se da situação da Celtiberia, e sabendo que os Arevacos se tinham rebellado, foi pôr cêrco a Numancia, de preferencia, para ahi contêr o cabecilha Salondico, evitando que se unisse com Viriatho. N'esse anno memoravel começou o grande cyclo da Guerra _numantina_, que durou dez annos, terminando em DCXXI pelo suicidio heroico e espantoso dos vencidos. O Consul Metello entregou o segundo corpo do exercito ao Pretor Quinccio, encarregando-o de ir combater Viriatho, que estava proximo da margem direita do Tagus.