Viriatho: Narrativa epo-historica

Chapter 10

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Nas palavras de Viriatho accentuara-se uma vibração de confiança em si, para, servindo a causa santa da liberdade da patria lusa, cumprir a condição quasi ultrahumana que Lisia lhe impozera. Lisia tambem teve a presciencia de que isso aconteceria, e tirando o annel de esmeralda que trazia, metteu-o no dedo da mão esquerda de Viriatho, n'aquelle em que se diz passar a vena-percordial.

E desceram ambos da Torre redonda, mais unificados nas almas do que se tivessem cohabitado em uma concordia de annos de ventura. Viriatho d'aquelle dia em diante tinha mais do que a Espada invencivel, que o não deixaria ser derrotado na guerra, nem morrer em combate; era o Annel de Lisia, que lhe infundia na alma uma confiança no futuro da inextinguivel raça lusitana através de todos os desastres em que a envolvessem as vicissitudes dos tempos vindouros. Viriatho via no _Terçado_ e no _Annel_ os Talismans que pelo poder da tradição formariam o Thezouro do Luso.

XXXIII

No segundo dia em que Viriatho passou na ilha sagrada de _Achale_, o velho endre Idevor levou-o ao primeiro andar da Torre redonda, e ahi ambos a sós, fitando o mar, demoraram-se longo tempo em um recolhimento mysterioso; fallava Idevor:

--«Tens a força material, n'essa Espada _Gaizus_, que te torna invencivel: a força moral é a que não se extingue e mais se communica. Já que o teu braço serve com lealdade a causa da Lusitania, é preciso que o teu espirito seja apoiado pela Tradição da nossa raça; que a conheças, por que a tua memoria sobreviverá n'ella, e que com ella ligues em um vinculo affectivo todos os companheiros de armas que seguem o teu commando. A tradição do passado é dolorosa, mas sublime; nós os Lusos sômos um ramo d'essa grande raça navegadora que desceu do Norte pela borda occidental da Europa, occupou as ilhas Britanicas, a orla atlantica das Gallias, da Aquitania, e espalhando-se na Hispania, chegou ás ilhas Mediterraneas e á alta Italia.

«Esse povo navegador, que explorava os mares e os rios, como os amphibios, tirou d'esta qualidade os nomes de muitas das suas tribus, que fórmam Ligas hanseaticas para protegerem a sua actividade mercantil, vendendo os blocos de Ambar amarello que iam buscar aos mares do Norte. Esse grande Povo, d'onde proviemos, encetou as audaciosas navegações do Oceano atlantico, descobrindo ahi as Ilhas Afortunadas, tocando em um ignorado continente que fica lá para as bandas do Oéste ou a terra dos _Aymaras_, a quem communicou a sua civilisação e conhecimentos de astronomia. E desembarcando na costa africana, chegou ao Golfo persico, e depois de estacionar na ilha de Dilmun, occupou a baixa Chaldêa, dirigido por Oannes ou _Huan_, que na velha lingua designava o Sol, que era o guia certo d'esses navegadores primeiros.

«Perdeu-se a noticia d'estas largas navegações; a raça foi atacada por outras raças fortes melhor armadas ou mais astutas. Em terra os Celtas, armados com espadas de ferro, bateram e dominaram os que só conheciam espadas de bronze; e essa raça corpulenta e loura, irrequieta e inculta, bateu os Ligures, escravisou-os ou misturou-se com elles desnaturando-os da sua pureza primitiva. Por mar os Phenicios e os Jonios do Mediterraneo lançaram-se no esteiro das suas navegações e mettiam a pique todos os baixeis liguricos que encontravam. N'esta longa lucta é que os Ligures foram succumbindo; sobretudo na Hespanha, quando os Iberos, vindos do norte da Africa, aqui entraram e monopolisaram o commercio do estanho que iam buscar ás Ilhas Cassitérides.

«Outras raças vieram successivamente á occupação da Hespanha, e aqui foram comprimindo a raça de _Lez_, o generoso povo da Lusonia, empurrando-o para a faixa occidental, e como que procurando arrojal-o ao mar Oceano. É no conflicto d'estas raças invasoras que a Lusitania tem diminuido de territorio, e as suas tribus vão sendo desmembradas. Os Romanos acharam-os já enfraquecidos, mas tenazes, tendo resistido na faixa que hoje occupâmos, á antiga invasão dos Celtas, e até agora nunca confundidos nem incorporados pelos Iberos. É com esta força de resistencia immanente na possa raça que deves contar; ella vale mais do que muitos exercitos disciplinados, estes morrem mas esse sentimento é inextinguivel. A Lusitania não é somente um territorio maior ou menor, que nos aggrega; é uma alma, o seio que nos une a todos! Os Jonios roubaram-nos as nossas tradições poeticas, transportando para as cabotagens do mar Mediterraneo as nossas aventuras temerosas passadas no Atlantico, que se tornou para os seus geographos o _Mar Tenebroso_. Os Phenicios afundaram os nossos baixeis e apoderaram-se dos nossos Periplos e do nosso commercio. E depois de tanta devastação do estrangeiro, vem ainda um outro invasor estrangeiro, a grande e generosa Roma votar-nos ao exterminio para assim firmar a sua posse pacifica da Hespanha, segura de que o Ibero se considera honrado com a expoliação do seu dominio. Hoje, Roma conta com a antipathia do Ibero para subjugar a Lusitania: com o odio do Ibero contará mais tarde qualquer outra potencia estrangeira para submetter a Lusitania, dando-se como protectora da sua autonomia! Mas, para que levantar o véo do futuro?...»

Idevor explicára longamente este quadro do passado da raça dos Ligures, e a situação sempre combatida das tribus da Lusonia, quando ella tocava quasi os Pyrenneos, e mesmo as margens do Mediterraneo. Mostrára a Viriatho as moedas autonomas das antigas cidades peninsulares, as armas dos seus heroes, os collares do commando, por onde o Chefe ficou conhecendo todos aquelles povos agora desmembrados entre os Celtiberos, que pertenciam á unidade da Patria lusitana. Por este conhecimento precioso Viriatho adquiriu um poder moral enorme para ligar a todos elles na defeza contra o Romano.

No terceiro e ultimo dia em que Viriatho se conservou na Ilha sagrada de _Achale_, o velho endre subiu com elle ao terceiro andar da Torre redonda, para _aventar_ rapidamente alguns traços do futuro:

--«Vês esse Mar immenso! esse Atlantico, que os baixeis liguricos sulcaram destemidos outr'ora, e hoje o Phenicio monopolisa? Quando o Luso se vir comprimido entre as raças que avançam de léste e o mar, que hoje lhe serve de barreira defensiva, elle terá consciencia da sua missão no mundo, sentirá em si renascer a antiga energia da raça, e restabelecendo as grandes Navegações antigas fundará novos Imperios em vastos continentes agora ignorados. É este o destino da Lusitania: será a primeira das Nações, emquanto ella servir esta tradição, emquanto um fiel alliado estrangeiro a não espoliar das suas descobertas...»

O endre não era bem comprehendido; o praso chegára, e a barca de couro já fluctuava junto da lingueta de areia no porto de _Achale_. Viriatho desceu da Torre redonda, acompanhado pelo endre e pelo côro das Virgens á frente das quaes vinha Lisia; embarcou, chegando em breve á costa de Cetobriga onde o esperavam com anciedade.

Lisia dissera-lhe á despedida:

--Agora tens o teu espirito iniciado para ires á _Pedra Virgem_, e lá tomares conhecimento do antigo Poema de seis mil versos, gravados nos Bastões dos Poetas. Não basta dar unidade ás tribus lusitanas pelo poder da Espada: a Tradição conservada na Arvore d'Ogham, de que o ramo inicial e mais caracteristico se denomina _Luis_, bem revela que os destinos da _Lusonia_ se eternisarão pelo perstigio do seu Canto nacional. Eu pedirei a Idevor, que te guie á Caverna das Inscripções oghmicas, junto á margem do Durius, e lá te descubra o grande Poema da raça, esse Pregão eterno do genio luso.

XXXIV

Apenas Viriatho se reunira aos seus Mil Soldurios, que o aguardavam impacientes, correu a noticia de que o Consul Quinto Fabio Maximo Emiliano, que fôra eleito n'aquelle anno de DCIX da fundação de Roma, já pisava o solo da Hespanha, vindo commandar pessoalmente a guerra. Considerava-se em Roma esse expediente como decisivo para assegurar o dominio da peninsula embaraçado por umas miseraveis tribus que tinham a ousadia de quererem ser livres.

Quinto Fabio sahiu de Roma descontente, porque sómente conseguira completar duas Legiões novas para reforçar aquellas já cansadas de que dispunha Caio Lellio. Conscio d'esta impotencia, o Consul comprehendeu os conselhos prudentes de Lellio, não pensando em dar começo á campanha sem se informar do territorio e dos costumes do temeroso inimigo, e mesmo dos elementos hostis indigenas que poderiam coadjuval-o; de mais, era conveniente desfazer as prevenções pessimistas que apavoravam as tropas. Quinto Fabio não foi ao encontro de Viriatho; e como que fugindo a uma conflagração, que poderia ser um desdouro para as armas romanas, procurára ponto estrategico para collocar o seu exercito, a coberto de qualquer surpreza do Cabecilha lusitano. Procurou a grande planicie cortada pelo rio Betis, porque ahi existiam numerosas Colonias romanas, que eram outras tantas guardas avançadas que lhe asseguravam a defeza.

Desceu até á extremidade oriental da Turdetania, aonde predominavam povoações ibericas, para as quaes o jugo romano se tornava uma honra; e ahi, na cidade de Orson ou Urso, assentou os seus arraiaes com toda a segurança. A posição era de uma firmeza imperturbavel, porque se achava rodeada por muitas Colonias militares importantes, taes como a _Italica_, da parte continental ou interior, tendo apoio na cidade mais opulenta e populosa de toda a Betica, _Hispalis_, emporio commercial activo e rico, com um semi-circulo de fortalezas afamadas cheias de provisões, que eram _Carmona_, _Astigi_, _Ucubi_ e _Tucci_. E como se isto ainda não bastasse para garantir a protecção ao exercito, ainda mais para o norte lá estava _Corduba_, a capital da Hispania ulterior, para impedir qualquer incursão do inimigo. Quinto Fabio podia estar seguro, porque com estes recursos era impossivel molestal-o do lado da terra; pelo litoral tambem não era presumivel o perigo, antes pelo contrario para uma eventualidade sinistra facilmente se refugiaria com o exercito nas fortes muralhas de _Gades_, de _Carteia_ e de _Málaca_.

Por certo o exercito que Fabio veiu tomar do commando de Lellio estaria em situação desesperada, para que elle assim procedesse estabelecendo o seu arraial com uma exclusiva preoccupação defensiva. Dispostas todas as forças nos seus quarteis, cada dia que passavam na inactividade era um motivo de enfraquecimento e de indisciplina; para justificar essa necessaria apathia, Quinto Fabio simulou uma excursão ou theoria ao templo de Hercules Gaditano, para tornar propicio o Deus das povoações ibero-phenicias, e offerecer-lhe um apparatoso sacrificio, para assim lisonjear a credulidade d'esses povos e ligal-os aos interesses de Roma. A ausencia do Consul impunha a necessidade ao seu logar-tenente de manter a disciplina do exercito em operações continuas de adestração, acostumando-o ás emboscadas e surprezas de um inimigo incansavel e sempre empregando expedientes imprevistos. Nem por isso o animo da soldadesca se alevantava, por que o conhecimento das derrotas anteriores era um nefasto agouro; e além d'isso pobres mercenarios recrutados á força por todas as colonias e conquistas romanas não eram impellidos por um sentimento, como aquelles para quem morrer sobre o solo da Patria que defendiam era uma gloria e um delicioso sacrificio.

Emquanto Fabio se demorava na excursão ao Templo de Hercules Gaditano, evitava decentemente qualquer batalha com Viriatho, que se julgava muito longe; e o seu exercito ia cobrando alento para o momento opportuno. E não era o tempo perdido, por que o Consul conseguira, talvez pelas indicações de Caio Lellio, travar relações com chefes de algumas cidades dos Turdulos, dos Turdetanos, e principalmente das cidades Celticas, que já se mostravam cansadas d'estas guerras prolongadas que estavam embaraçando a entrada da civilisação romana na peninsula hispanica.

Viriatho não se temia do exercito de Fabio; conhecia que as duas Legiões recem-chegadas de Roma eram maltrapilhos apanhados nos enchurros da cidade, bisonhos despreziveis extranhos a todo o brio e espirito militar; os que cá estavam não podiam esquecer os revezes a que escaparam e as derrotas que lhes infligira com vontade. Mas, uma cousa preoccupava o Cabecilha: as conferencias de Quinto Fabio com chefes civis turdulos e turdetanos, as suas visitas apparatosas a cidades Celticas, revelavam-lhe que o Consul procurava uma nova força não no exercito, mas no descontentamento das povoações que naturalmente eram antinomicas com a liberdade da Lusitania. E reconhecendo que toda a demora na acção era um ensejo para Fabio se reforçar com este antagonismo de raça, Viriatho decidiu ir atacar o arraial em que se defendera o exercito romano, começando por se occultar pelas florestas circumvisinhas da cidade de Orson.

Fez-se essa operação com extrema pericia, porque os Terços lusitanos dirigiram-se de afastados pontos para a extremidade oriental da Turdetania, e insensivelmente se internaram por Companhias nas cerradas florestas d'essa vastissima planura.

Não se fez esperar o primeiro golpe; do exercito de Fabio saiu um destacamento de uns quinhentos homens para ir buscar lenha á floresta mais proxima da cidade de Orson; iam muitos carros puchados por bois e por cavallos. Quando estavam abatendo os troncos, de todos os lados surgiram os Companheiros de Viriatho, rapidamente, e tão certos no plano, que esses quinhentos foram totalmente trucidados, sem que a nova terrivel podesse ser levada a Orson.

A demora dos mateiros fez com que o logar-tenente de Fabio mandasse vêr que extraordinario caso se dera; trouxeram-lhe a noticia do morticinio, mas longe de suspeitar que um tal golpe só poderia ser dado pela audacia de Viriatho, o logar-tenente alardeando conhecimento dos costumes da Hespanha, exclamou:

--Foi uma partida de Salteadores, uma d'estas Quadrilhas que vivem do roubo e depredações, tão constantes na Hespanha. Irei castigal-os, eu mesmo.

E pondo-se á frente de uma Legião, dirigiu-se para a floresta proxima de Orson, na ideia de que apanharia os Salteadores. Assim que dividiu as forças para o cêrco e batida, sahiram-lhe das outras florestas os Terços de Viriatho, que subitamente cáem sobre os manipulos romanos e os destroçam completamente.

Os que conseguiram fugir levaram o terror ao exercito aquartelado em Orson; e sob a tremenda impressão foram emissarios levar a Fabio, que estava ainda em Gades, a nova espantosa, que o forçou a partir a toda a pressa, e a vir tomar o commando do exercito para proceder conforme o exigia a presença do inimigo.

O Consul estava bem industriado, e guardou-se de dar batalha campal a Viriatho; fez como o Caudilho, respondia ás escaramuças com outras escaramuças; não perdia gente, e tendo o seu exercito bem aprovisionado, considerava estes pequenos assaltos em que ficavam no campo trinta, cincoenta homens, como uma eschola em que adestrava os seus soldados á indole especialissima d'esta guerra sem egual.

XXXV

Aproximava-se o fim do Consulado de Fabio, e fatigava-o a indecisão da campanha, quando se resolveu a abrir o tratado que lhe confiára o Senado. Era momento azado para negociar a alliança, por que não tinha sido derrotado, nem tampouco qualquer victoria recente ensoberbeceria o Cabecilha, para impôr condições vergonhosas. Mandou um emissario a Viriatho com as clausulas formuladas pelo Senado, confiado em que a paz e alliança com Roma nas bases do _Foedum aequus_ era uma solução honrosa em tão violenta campanha, satisfazendo equitativamente as aspirações da Lusitania.

Viriatho percebeu todo o alcance do Tratado, logo que descobriu a perfidia com que o Senado procurava seduzil-o pela vaidade, reconhecendo-o como _Principe da Lusitania_. E na sua linguagem franca e rude, mas luminosa de bom senso, fallou ao emissario entregando o diploma que lhe fôra confiado:

--Dizei a Quinto Fabio, que a paz e independencia da Lusitania é o empenho a que consagrei a minha vida; e que a alliança com Roma, n'essa base de egualdade politica, será effectivamente uma garantia para a autonomia por que combatemos. Mas no tratado que o Senado propõe ha uma phrase que fere o nosso sentimento nacional, quando me compara a Rómulo, que foi chefe de ladrões e que teve habilidade para dar á sua quadrilha a cohesão de um Estado entre as Cidades italicas.

«A Lusitania é constituida por cidades livres e trabalhadoras, subsistindo pelos costumes dos antepassados a que chamamos Fóros; e muito se engana quem procura fazer que eu seja considerado como chefe de Salteadores, embora me equiparem a Rómulo. São modos de fallar, e sem mais valor do que banaes comparações; mas o que eu repillo com todas as véras de alma é o titulo de _Principe da Lusitania_. Não é a simpleza dura do meu caracter ou isempção que me leva a recusar esse titulo; é o conhecimento da tradição d'esta terra livre por que combato.»

«A Lusitania nunca teve reis, e por isso foi sempre autonoma. No dia em que as suas cidades confederadas se submetterem a um chefe soberano, começará a sua servidão; esse Rei, preoccupando-se unicamente do seu interesse pessoal e da hereditariedade da sua familia em uma Dynastia irresponsável, tratará de unificar sob um mesmo sceptro a Lusitania e a Iberia, jungindo as duas nações como os bois ao carro. Para alcançar esta unificação, começará pelos meios capciosos dos casamentos reaes, para vir a conseguir pelas heranças a juncção das soberanias. E se estes meios falharem, o Rei procurará allianças com outros reis estrangeiros que o defendam, comprando a estabilidade do seu throno á custa da liberdade, da independencia e até do territorio da Lusitania, desmembrando-a se lhe fôr preciso, ou chamando o estrangeiro para se impor ao seu povo, ou abandonando-o na hora do perigo, deixando-o entregue ao assalto dos invasores.

«É isto um Rei, planta parasita e damninha, que esterilisaria toda a Lusitania. E Roma bem o presentiu, quando para subjugar esta terra, vendo-se impotente pelas armas, recorre a um instrumento de intima dissolução dotando-a com um Principe, acclamando um Soberano. Rejeito o glorioso titulo, que é uma affronta para Cidades livres, ligadas federativamente com as suas autonomias locaes. A alliança para a paz e francas relações de commercio entre os dois povos, essa abraço-a em condições de egualdade agora e sempre; mas estou certo de que o Senado visa a outros fins, tem outros intuitos.»

O emissario de Quinto Fabio partiu, assombrado d'aquelle desinteresse do Caudilho lusitano, que em Roma passava por chefe de ladrões. A incomprehensão do valor moral de Viriatho era uma das maiores causas dos generaes romanos serem continuamente derrotados; contavam com o homem audaz, mas não com a grandeza do caracter.

XXXVI

O tempo dispendeu-se n'estes preparativos de uma acção estrondosa e decisiva, quando começaram as primeiras chuvas do inverno; o corriculo do Consulado de Fabio estava terminado, e com elle o seu commando, em verdade esteril e inglorio. Poderia considerar-se equivalente a uma derrota surda. Em Roma fallava-se aggressivamente contra Quinto Fabio, como deslustrando as tradições heroicas da familia Emiliana. Aconteceu que n'esse anno de DCX foram eleitos Consules Servio Sulpicio Galba, esse antigo Pretor que ordenára traiçoeiramente o morticinio dos trinta mil Lusitanos, o qual se enriquecera com os latrocinios do seu governo provincial, e Lucio Aurelio Cotta, que com elle compartilhava n'esse anno o poder, e tambem era em Roma assás conhecido por uma avareza sordida e insaciavel ambição de dinheiro.

A guerra da Lusitania appareceu para esses dois Consules como uma venturosa espectativa; o commando do exercito facultava o exercerem em nome da Republica todas as extorsões e vilezas. Ambos os Consules disputavam entre si o commando da guerra contra Viriatho. Galba não queria perder o ensejo que se lhe appresentava; era o meio de voltar á Hespanha e de reconstituir a sua riqueza malbaratada ou perdida. Lucio Cotta já sonhava em vir a ser o argentario mais preponderante de Roma. Galba allegava:

--Já fui Pretor em Hespanha e governei a Provincia da Lusitania; conheço aquelles territorios, aquellas gentes e os seus costumes. Sou temido, e a lembrança do meu nome fará fugir diante das Legiões romanas todas essas tribus de ladrões e barbaros. Só eu tenho no actual momento as condições excepcionaes para commandar essa guerra que se vae tornando uma vergonha. Os Lusitanos bem sabem que eu não me pago com palavras.

Os credores e parasitas de Servio Galba apoiavam aquellas pretensões apparentemente plausiveis. Os partidarios de Lucio Cotta conclamavam:

--Ainda nos não esqueceu a accusação tremenda de Catão o Censor. O governo de Galba na Lusitania infamou Roma com uma nodoa indelevel. Galba é o unico homem a quem não póde ser confiado o commando da guerra contra Viriatho, porque a sua presença levantaria na Hespanha as proprias pedras contra Roma. Seria a prova de que Roma não civilisa os povos barbaros como proclama ao mundo, mas rouba-os, devasta-os, por que subsiste por esse expediente que a dispensa no seu exclusivismo militar de toda a actividade agricola ou fabril. Galba por fórma nenhuma!

Esta questão foi debatida no Senado; até ahi, entre esses venerandos patricios, sentados soberanamente nas suas cadeiras eburneas, se dividiram as opiniões, uns por Galba, outros por Cotta. Mas quando se discutia o assumpto, levantou-se o senador Scipião Emiliano, e erguendo a mão intimativamente exclamou com nitidez:

--Em meu entender, nem Galba, nem Cotta merecem a confiança da Republica!

O Senado ficou no mais sepulchral silencio ao ouvir aquella phrase que era quasi uma sentença. Scipião tinha grande auctoridade e ascendente moral enorme depois que regressára da destruição de Carthago. Depois continuou a phrase que mantivera em suspensão intencional:

--E não a merecem, porque um por ahi anda arruinado apoz a dissipação das riquezas que roubou quando Pretor na Hispania; o outro, pelo contrario, riquissimo pela sua proverbial avareza, só trataria de se encher mais, servindo-lhe a guerra de pretexto para saciar os seus ávidos interesses.

A voz de Scipião impôz-se a todos os espiritos, dominados pela coragem com que formulára em pleno Senado o seu argumento. Para sahir d'aquelle embaraço o Senado achou como unica tangente não melindrar a familia Emiliana, prorogando o commando militar e consular de Fabio, e que como Proconsul continuasse n'esse anno a guerra da Lusitania.

Substituir Quinto Fabio, quando elle já estava industriado na fórma da guerra viriathina seria um erro perigoso; e a increpação do destruidor de Carthago teve sua opportunidade, porque n'esse anno de DCX, passado o inverno, o Proconsul preparou-se para dar uma batalha campal a Viriatho, e justificar assim a anterior inercia.

Viriatho passára tambem esse inverno na Betica, porque conseguira tomar ahi duas cidades em que assentou os arraiaes. Fabio, apesar de ter augmentado enormemente o seu exercito, exigindo contingentes das varias cidades alliadas dos Romanos, fiava-se mais nas informações que conseguira obter de gente que andava nas hostes do Cabecilha. Era esse o pensamento de Caio Lellio, sendo o caminho aproveitar o antagonismo da raça iberica. E seguro de qualquer informação secretissima e por via que nunca será conhecida, o Proconsul põe todo o seu exercito em campo e ataca Viriatho com todas as regras da poliorcetica romana.