Vinte Annos de Vida Litteraria

Part 9

Chapter 93,787 wordsPublic domain

Todos os dias, de toda a parte--graças á actividade febril dos prelos nos ultimos vinte annos--recebia novos livros, que se iam empilhando em camadas alterosas á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a um novo supplemento, que decerto já não esperaria concluir.

Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia do _Diccionario Bibliographico Portuguez_, como subsidio para os nossos trabalhos litterarios. Tem defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em relação ao seu tempo, é pouco.

Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não era um avarento, um Harpagão egoista, que fechasse a sete chaves os seus livros e os seus manuscriptos. Facultava uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui obsequiado por elle com a copia de algumas poesias ineditas de Gabriel Pereira de Castro, que me serviram para architectar sobre ellas o conto--_Como as borboletas se queimam_--inserto no livro PORTUGAL DE CABELLEIRA (1875).

Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas em bibliomania. Era natural que, entre elles, disputasse encarniçadamente a presa. Julio Cesar Machado conta nas _Mil e uma historias_ o caso interessante de Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se um ao outro, com o fim de apanharem um livro raro, que ambos haviam lobrigado no Manuel Rodrigues, do Pote das Almas.

D'esta vez Innocencio ficou codilhado.

A este ou outros desastres alludia elle certamente quando, escrevendo o artigo _Bibliophilos e biblomaniacos_, na _Encyclopedia litteraria_, publicada pelo sr. Antonio Maria Pereira (filho), dizia com visivel azedume:

«Na classe dos bibliomaniacos _improductivos_, que capricham em accumular livros sobre livros, um conhecemos sobre todos digno de menção especial. Fareja este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, as lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que lhe escapem os leilões e a classica _feira da ladra_, na diligencia de prover-se de tudo o que nas diversas provincias da republica litteraria gosa de algum apreço por merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade dos livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, arte, litteratura, prosa e verso, impressos ou manuscriptos em qualquer lingua, e de qualquer tempo, tudo lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido reunir copiosissima somma de volumes, e não sem grande dispendio, com quanto seja de genio naturalmente acanhado, e de uma mesquinhez que toca as raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel aos vendedores que o têem por um caustico volante. Pois esta originalissima creatura, cujo saber parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje por suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo de vinte e tantas linhas, servindo de explicação a uma reles lithographia, que appareceu ha muitos annos em certo jornal artistico de Lisboa, de ephemera duração!...»

Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle era nas suas horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, auctor de um vasto repositorio bibliographico que a todos aproveitaria, comprehende-se e desculpa-se o desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar precioso, destinado a tornar-se improductivo para toda a gente, com excepção, talvez, do seu feliz possuidor.

Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um idolatra, um fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da rua de S. Filippe Nery abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E os que não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a publicação do _Diccionario_, com a riqueza dos thesouros acumulados por Innocencio.

O predio em que habitava--e que tem hoje uma lapide commemorativa--estava completamente cheio de livros, de alto a baixo. Innocencio e a sua pequena familia habitavam, os peores compartimentos do predio, unicos disponiveis.

Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu conheci Innocencio. Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos relações de amizade cordealissima. Innocencio falava sempre, fumando muito, e habitualmente maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar para que se tornassem mais fortes quando os reaccendesse. Em sua casa havia differentes caixas atulhadas de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava trabalhando.

Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira para matal-o. Innocencio morreu de um scirro na lingua, que o fez soffrer terrivelmente. Não podia falar, não podia comer, não podia descansar com dores atrocissimas.

Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!

Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa e dolorosa agonia. Despedaçava o coração vel-o soffrer. E--circumstancia que n'este momento me está lembrando com viva saudade--foi com o seu collar de academico que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda em honra do principe de Galles.

Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi. _Innocencio._» Mas a sua lettra estava já inteiramente desfigurada. A morte ia apagando lentamente todos os vestigios da sua viril individualidade. Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.

Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, sempre trabalhada de canceiras e desgostos, poderia dizer, pela primeira vez, «_Emfim!_»

* * * * *

XV

Tres actrizes

Vi no theatro de S. João do Porto representar a Manuela Rey, e parece-me, se penso n'isso, que estou sonhando ainda uma doce illusão meio sagrada, meio profana--a de ter visto passar no palco de um theatro um cherubim de azas brancas e cabello loiro.

Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica de actriz, a sua historia vulgar no amor--como as outras. Mas vel-a era o mesmo que divinisal-a, ouvil-a era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.

Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze branco e de conduzil-a á beira de um lago para que as estrellas e os lirios fossem testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito casto e muito leve...

Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. E todavia, acabado o espectaculo, ella tinha um amante que a esperava e um _coupé_ que a conduzia para um leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma.

Vi-a representar no Porto a _Cora_ e recitar a _Stella matutina_, de Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente a sua estreia ruidosa com a _Visão dos tempos_.

Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste harmonia, os versos do poeta:

Eu sou a filha d'Eva Gerada em outro amor! Caíndo a dôr me eleva... Senhor, Senhor, Senhor!

Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma lagrima tivesse voz, vibraria exactamente na tremula modulação musical d'aquella garganta divina, e que se n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa mulher, destinada a

... servir de falla Á dôr que emmudeceu

seria personificada na formosura etherea e biblica de Manuela Rey.

A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, vi representar no Porto todo o seu velho repertorio, a _Joanna a doida_, a _Mulher que deita cartas_, a _Medea_.

Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar Sophocles e Euripedes. A sua belleza decaía no esplendor de um occaso magestoso--como o sol. Via-se, atraves da neve com que a velhice lhe pulverisava os cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára no seu corpo de marmore. A expressão tragica dos olhos, a riqueza dramatica da voz, a amplidão esculptural do peito tinham-n'a fadado para a scena antiga, onde as grandes paixões humanas, para expludirem theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse vexado dentro de um manto real, uma plastica talhada a cinzel n'um bloco de Paros.

Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a da apotheose que os estudantes do Porto realisaram no theatro Baquet, na noite de 26 de fevereiro de 1863, em honra de Emilia das Neves e Sousa.

Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte na festa senão como espectador. Mas raro foi o estudante favorecido das musas que não afinasse a lira para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente da difficuldade que a minha familia teve em obter um camarote de segunda ordem. Na platéa, os estudantes, empilhados como sardinha em tigela, vozeavam applausos atroadores sempre que o himno da _linda Emilia_, como ainda então se dizia, era executado pela orchestra.

A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José Duarte, um poeta que estudava medicina; compuzera a musica outro academico, João Baptista Pires.

Ahi vae a lettra do himno:

O robusto leão da victoria De teus pés lambe a terra em redor; Tua vida é um archivo de gloria, O teu nome um augusto esplendor.

Para ti nunca findam as palmas, Nem os bravos que fazem tremer; E do ouro de lei d'estas almas Só tu podes um throno fazer.

Nós que vemos os lumes ardentes Onde Deus escondel-os nos quiz, Vimos hoje dizer-te frementes: «És sublime, és sublime, ó actriz!»

Arde o peito em delirio o mais puro, Cada olhar ao teu nome reluz; Has de ser immortal no futuro, Que este fogo é baptismo de luz.

Côro

Para a fronte onde o genio rebenta É pequena a corda dos reis; Ha no mundo uma só que lhe assenta: A corôa dos nobres laureis.

Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, postos em pé sobre as cadeiras ou pendurados dos camarotes de terceira ordem, por onde ainda outro dia as chammas alastraram as suas linguas de fogo.

Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, tão differente, bem o póde dizer quem a viu, das ovações convencionaes que hoje se fazem aos nossos artistas com applausos de amigos e _bouquets_ que se vão buscar ao palco para tornar a atiral-os.

N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas e flôres, abundancia caudalosa, que a propria Emilia das Neves, habituada ás glorias da scena, estava profundamente commovida.

Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá meia duzia de versos para um album ou para uma festa theatral.

Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os melhores poetas da Academia do Porto compuzeram em honra da _linda Emilia_ dois e tres epinicios cada um e, não contentes com imprimil-os ou recital-os, reproduziram-n'os no album da grande actriz.

Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o himno, escreveu uns alexandrinos que foram distribuidos, e outros alexandrinos que foram recitados por Luiz de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina.

Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito. Recitava primorosamente. Vi-o ha poucos annos em Setubal, tomando cerveja á porta do botequim do Lapido, melancolico e concentrado como sempre. Tive vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe: «Lembra-se da noite de 26 de fevereiro de 1863?» Se eu tivesse feito a pergunta, elle haver-me-hia respondido decerto: «Se lembro!» Aquella festa de estudantes ficou indelevel na memoria de quantos então o eram.

Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram trabalhados por Custodio Duarte sobre o modelo de Victor Hugo, que era então o mestre favorito dos poetas novos.

Darei uma pequena amostra:

Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita! Póde um peito conter oceanos de luz! Ha um quê no coração, que, se um dia palpita, Como o braço de Deus, cria mundos a flux...

Feliz o que no berço abraça em sonhos vagos Um phantasma de fogo e acorda pensativo! Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos, E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...

E então é tanto o ardor a incendiar a mente, Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões; Um descobre um Principio, um outro um Continente, O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!...

Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. Era ha poucos annos professor de não sei quantas cadeiras na escola de Gôa. Depois esteve na Africa occidental. Ultimamente regressou á metropole.[12]

Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem estar já pulverisados no seio da terra.

Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir a quadra final que elle compôz:

Curvamo-nos tambem... É Deus que passa Occulto nos monarchas do proscenio! É o seu braço de luz que, em fogo, traça N'aquellas sombras o caminho ao genio.

Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano de valor, que disse:

Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo, Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas, Sente, mas não traduz; Mulher ou anjo, realidade ou sonho, Teu genio admiro, como admiro o Etna! O mar... a noite... a luz!...

Emilia das Neves já estava então longe da sua florida mocidade, que devia ter sido gloriosa de esculptural belleza.

Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor quilate não duvidavam chamar-lhe em 1863 _mulher ou anjo_.

Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima peça, _O meia azul_, n'uma decadencia pungitiva. A mulher luctava com a doença e com a velhice: duas enfermidades.

O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um esforço supremo de declamação e caracterisação.

E então passava nos meus ouvidos este verso de Ernesto Pinto de Almeida:

Mulher ou anjo, realidade ou sonho...

O que restava do sonho era apenas a realidade...

Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, ourives da rua das Flores. Um hipocondriaco fatalista e supersticioso.

Este dissera a Emilia das Neves:

Agora que aos teus pés, mais uma vez, As rosas vem cobrir a tua estrada, Acceita esta homenagem não comprada, Mas filha do caracter portuguez!

Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, mas o genio dramatico de Emilia das Neves impunha-se de tal modo a admiração dos poetas, que não vacillavam em tratal-a com maiusculas, como se se estivessem dirigindo a uma verdadeira realeza.

Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragedia _Judith_. Soberba, n'esse papel, em que nunca mais tornei a vel-a. Recordo-me nitidamente dos lances capitaes da peça, sobretudo d'aquelle em que ella degolava Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli com barbas de guerreiro.

Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, o do Baquet teria ardido n'aquella noite.

Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi acompanhada a casa pela estudantada n'uma especie de «marche aux flambeaus», que se improvisou com mais enthusiasmo do que archotes.

Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um dos _hoteis_ da Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante a ovação, ao ar livre, e frio como costuma ser o das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações estavam quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam estentorosas pela rua de Cima de Villa dentro e pela Calçada da Madeira abaixo.

Emilia das Neves, abafada n'uma _capeline_ branca, recebia da janella do _hotel_ as saudações, alvejando como uma visão de Ossian ou de Macpherson; para o caso pouco importa.

Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no couce da archotada, assistiam gratuitamente a esse ultimo acto d'um espectaculo pago por bom dinheiro.

Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do himno:

Para a fronte onde o genio rebenta É pequena a corôa dos reis; Ha no mundo uma só que lhe assenta: A corôa dos nobres laureis.

E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava muito o terceiro verso d'esta quadra, segundo certa hermeneutica que passára despercebida ao proprio auctor e aos ouvintes de boa fé.

E eu era então um d'elles.

Isto foi em 1863.

Hoje... tudo são ruinas e cinzas: da _bella Emilia_, o alvo d'aquella ovação; de alguns poetas que endeusaram a grande tragica portugueza em versos de toda a especie; e até do theatro onde ella representou e elles a cantaram.

O tempo é um demolidor terrivel?

Gertrudes... Gertrudes não sei de que--toda a gente dizia apenas a _Gertrudes_--pertencia a essa raça privilegiada de mulheres fortes e bellas, em que Emilia das Neves brilhou como o sol no meio do sistema planetario.

Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as segundas; como mulher, o seu corpo branco e opulento, a sua carnação sadia e válida, fazia pensar mais n'ella como mulher do que como actriz.

E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar de _grande dame_, o seu bello collo de alabastro que, na velhice e na doença, triumphavam na scena de D. Maria, poucos mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada pela morte.

Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel mordacidade de que dou noticia em mulher. Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e dizia quasi sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava quasi todas as noites um curso de psichologia theatral. Punha a nú os segredos mais ou menos escandalosos, que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma tesourava os anteparos de papelão, que armavam á credulidade ingenua do publico.

Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez passar no theatro de D. Maria.

Acabára de realisar-se em Paris a _première_ de _Mr. Alphonse_ de Dumas Filho, e Santos, então á frente da empresa de D. Maria, encarregára-me de traduzir a peça em tres dias.

Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres as noites, e foi justamente á noite que, passeando e fumando, ia ditando a traducção a um amigo meu, que se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe.

D. Maria pôde finalmente dar a peça--por tal signal que em beneficio de Brazão.

Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, encostei-me a uma porta. Eu recebia, como todos os traductores, uma percentagem sobre os bilhetes vendidos. Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me esse facto, que redundava em proveito meu, e ia a sair da platea quando inesperadamente ouvi a Gertrudes dizer em scena:

--Vai-te d'aqui, meu estupor.

Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, o publico riu longamente, mas eu, fulminado, desesperado, corri á caixa, procurei por todos os cantos a Gertrudes.

Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava ainda em scena.

Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu encontro.

Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas que com ella tinham estado em scena, disse-me:

--Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas o caso é que agradou.

Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; que eu podia ser accusado, com apparente razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e com mau gosto, o original de Dumas.

E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante, tomando um tom sentencioso, disse:

--Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou? D'isto é que toda a gente entende, e gosta. Perdoe o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao publico.

E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem.

Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos no seu rosto. E aquella forte e bella mulher, que parecia talhada, como Emilia das Neves, pelo cinzel de um estatuario, expirou decerto poucos momentos depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente morta.»

[12] Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

* * * * *

XVI

Actores celebres

Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já alcachinado pela terrivel doença que o matou. Soffria da spinal-medulla; estava perdido. Vivia n'um pequeno _chalet_ alcandorado pittorescamente sobre a praia dos Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por piedosa convenção, o ar do mar.

Marcolino era um actor comico de subido merecimento, muito estimado em Lisboa. A doença afastou-o do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto que o conheci, e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena; mãe de sabios, de heroes, crime e virtude; golfão de riso e dôr, que ora serena, ora referve e escuma em sanha rude.

Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar residencia em Lisboa, mais attraido pelo seu movimento litterario e artistico do que pelas magras sopas que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho.

Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um _oiteiro_ no convento de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes de hoje não sabem o que era um _oiteiro_. Pois deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus litterarios, que a tradição da extincta Arcadia conservou ainda por muito tempo. O _oiteiro_ era o festival com que se celebrava a eleição da abbadessa em cada convento. Durava tres dias e tres noites. N'outro tempo, as freiras diziam das janellas para o pateo os motes que os poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador de _oiteiros_. No meu tempo, as coisas tinham mudado já. Havia recepção na _grade_ da abbadessa. O feminino superior do convento sentava-se, dentro da grade, em semicirculo, dando a presidencia á prelada recentemente eleita. Fóra da _grade_ havia um piano, um bufete permanente, e o masculino preciso para mundanisar a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. O mote era ainda obrigado, mas não constituia o unico elemento essencial da festa, como n'outros tempos.

Foi n'esse _oiteiro_ que eu ouvi Marcolino recitar, não uma poesia comica, como se poderia esperar do genero que elle tão distinctamente cultivava no theatro, mas uma poesia lirica, _A borboleta_, de Thomaz Ribeiro, que elle disse com um notavel primor de interpretação.

Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda:

Eu conheço-a! oh, se a conheço! sempre volitando anciosa, esbelta, fugaz, airosa, esquiva, amante, esquecida, eterno enygma na vida!... Eu conheço-a! ah, se a conheço! Estimo-a; estimal-a é grato; quero entendel-a... endoideço!

As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas coristas, algumas d'ellas gentilissimas) ficaram encantadas de ouvil-o, e nós, os homens, tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: creio que foi a ultima da sua vida.

Eram duas horas da noite quando saimos da _grade_, e eu lembro-me ainda de que me despedi em verso n'um improviso de que apenas sei hoje as ultimas rimas:

Tenho esta noite glosado Versos a esmo, a granel. Consenti, minhas senhoras, Que eu d'esta feita termine E que a vossos pés se incline Vosso servo: Pimentel.

Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço. Mas que alegria, que felicidade a minha n'aquella noite! Á saida, as gentilisimas pensionistas vieram ainda despedir-se de nós á portaria. Uma d'ellas era filha natural de um antigo conde do Minho; morreu pouco depois. Outra era minha prima: quarenta annos e uns olhos, que não tinham mais de vinte. Tambem já morreu. Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde lembrar-se do _oiteiro_ de S. Bento, porque tambem lá esteve: o escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com grande applauso da assistencia, glosou um mote n'um soneto, façanha comparavel á de ter mettido uma lança em Africa.

Foi tambem no Porto que eu conheci o Santos _Pitorra_, como dizia toda a gente, sem embargo de elle ser, pelo seu altissimo valor artistico, o _grande Santos_.

A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos era então um dos empresarios, dera alguns espectaculos no Porto, eu frequentava os espectaculos e os ensaios, o palco e o _foyer_, e escrevi por essa occasião, julho de 1873, uns versos, que se intitulavam _Lirios_, e que Emilia Adelaide recitára.

Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia de memoria, dezenas de versos, o que eu julguei, n'aquella occasião, um desastre irremediavel.

Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; mas, a breve trecho, encontrei a explicação do facto. A memoria da actriz prejudicára os versos; comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar todas as faltas da actriz.