Vinte Annos de Vida Litteraria
Part 8
Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação que recebi, ainda antes de partir, foi de Gonçalves Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. O que elle me dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel era para mim. A amizade cegava-o.
Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira pessoa que procurei ali foi Gonçalves Crespo. Conheci então o seu celebre quarto da Couraça de Lisboa, tão fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos _Homens e letras_, e tão falado ainda na tradição academica. Crespo estava adoentado, e não me pôde mostrar a cidade, mas encarregou d'essa missão, a que elle chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente está em Lisboa.
Crespo dera-me _rendez-vous_ para a noite, na livraria do Melchiades. Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que era já muito respeitado pela academia. Laranjo tambem ahi estava. Demorámo-nos conversando de litteratura, porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves Crespo viera passar o serão comigo no _Hotel dos caminhos de ferro_, onde eu estava hospedado.
Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com o primor que elle sabia dar á recitação. Burilador da phrase, um esmaltador do verso como Gautier o fôra da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas as bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril de artista. Tinha uma inflexão especial para cada meandro das phantasiosas filigranas que a sua musa tecia; de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua voz contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava todas as côres harmoniosas do verso. Miniaturisava com a voz como com o espirito. Via-se o que elle dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como poeta.
Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de costumes brazileiros sobretudo. Era tão primoroso, tão notavel nos quadros da vida americana, tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse genero. Desculpava-se allegando que o intimidavam as largas dimensões de um poema, e que se sentia á vontade nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava como o aço ao capricho da sua inspiração, e no soneto _Animal bravio_, offerecido a mademoiselle Eugenia Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão artistica do seu espirito:
Preferiras um ramo caprichoso De escolha rara e de um concerto fino, Onde visses o cacto purpurino E os nevados jasmins do Tormentoso.
Em vez do ramo exotico e oloroso, Casto recreio d'esse olhar divino, Acceita, Eugenia, este animal felino, Que o meu braço subjuga vigoroso.
Tive artes de o amansar: eil-o sereno! Acode a minha voz, e ao meu aceno Como um jaguar a voz de um saltimbanco...
Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto! E á doce Eugenia, do sorriso honesto, A fimbria oscule do vestido branco!
Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção publica. Crespo estava então em Lisboa. Certo dia recebi pelo correio um cartão de visita seu, que conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos _Nocturnos_:
ODOR DI FEMINA
Era austero e sisudo; não havia Frade mais exemplar n'esse convento; No seu cavado rosto macilento Um poema de lagrimas se lia.
Uma vez que na extensa livraria Folheava o triste um livro pardacento, Viram-n'o desmaiar, cair do assento, Convulso e torvo sobre a lagea fria.
De que morrera o venerando frade? Em vão busco as origens da verdade, Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.
Consta que um bibliophilo comprára O livro estranho e que, ao abril-o, achára Uns dourados cabellos de mulher.
Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha biographia para o _Diario de Portugal_[9]. A sua antiga amizade foi tão prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o interesse de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente agradavel e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter honestissimo; a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão de alguns e das injurias de poucos.
Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrára na adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonçalves Crespo por qualquer divergencia de opinião, grave ou insignificante.
O destino, porém, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada vez mais os nossos velhos laços de amizade, acabara por ser enganador e perfido.
Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde deviamos trabalhar em commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e tão depressa promettera como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! elle, que tinha finalmente chegado a uma situação, que lhe permittia viver inteiramente tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da sua vida.
A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em enfeixar esperanças para as despedaçar depois. A sorte havia dado a Gonçalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna d'elle pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios de fortuna, considerações politica e honras litterarias, gloria, amigos e admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que entrasse na Terra da Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo de transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o sempre o coração da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta das _Miniaturas_ e dos _Nocturnos_.
Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse da abundancia do coração. Outra coisa não fiz, nem de outra coisa curei. Emquanto Gonçalves Crespo esteve baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel das agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores dos _Contos para os nossos filhos_, colleccionados e traduzidos por Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem a Deus pela saude de um dos traductores d'esse livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa do velho amigo de seu pae. Não me restava portanto senão o triste desafogo de escrever com lagrimas estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero do luto da minha alma.
1883.
[8] ATRAVEZ DO PASSADO: _Na morte de um condiscipulo._
[9] Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o que aliás duplica o valor d'esta especie bibliographica.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.
* * * * *
XIII
Antonio Maria Pereira
Quando eu fazia parte da redacção do _Jornal do Porto_, onde recebia apenas 500 réis diarios por o encargo de traduzir o noticiario estrangeiro acumulado muitas vezes com o trabalho de rever as provas das edições que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, vendia no seu estabelecimento de livreiro, escrevi um dia, no apuro de augmentar a escassa receita do meu orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria Pereira, propondo-lhe a acquisição de um romance original.
Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu vivamente.
Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que qualquer sorriso da boa-fortuna me parecia, por excepcional, irrealisavel.
Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se não viessem ordinariamente na idade em que o coração é forte e a imaginação exaltada?!
O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha proposta, mas dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. Offerecia-me o seu prestimo como auxilio á minha vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. Declarava concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse.
Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se fazia dos editores em geral.
Balzac, nas _Illusões perdidas_, tinha deixado a ethopea do editor. Era uma anatomia. Contavam-se dezenas de anecdotas que depunham em favor do escalpelo de Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de poesias por lhe achar _pouco peso_. O poeta respondêra que voltaria com os seus versos copiados em papelão. O tempo dos Mecenas tinha passado, e os editores não pareciam resolvidos a substituil-os.
Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira como applicada áquella época: «_Les lettres ménent à tout, à condition de les quitter._»
Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. Arnaldo Gama vivia com difficuldades. Evaristo Basto, o brilhante folhetinista portuense, mendigára um logar publico.
Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio de 500 réis por dia, ás ambições litterarias dos novos.
O que os estreantes queriam era sequer ao menos encontrar guarida na imprensa periodica, esquecidos, ai d'elles! de que, como disse Roqueplan, o jornal é uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o terem sido.
Eu havia ido refugiar-me no _Jornal do Porto_, onde a vinda de Ramalho Ortigão para Lisboa deixára aberta uma vaga. Confiei a essa vaga o meu fragil batel, mas a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, financeiramente, a uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram difficeis, e hoje, ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e a variedade de materias a que a concorrencia as obriga, têem posto o livro pelas ruas da amargura. Os jornaes enxameam, pululam, atropelam-se, esmagam-se. E no meio d'este conflicto de interesses similares, o livro, como a cidade sitiada, espera, privado da sua liberdade de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, tendo morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. Gutenberg experimenta a lei de Darwin. Dos trezentos novos jornaes que se publicam cada anno, apenas 50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta bastam para prolongar a crise que o livro vem atravessando ha dez annos a esta parte.
O que não deixa de ser curioso é que, justamente no momento em que o mercado mais falta ao livro, o publico exige, como está acontecendo, que o trabalho tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante.
De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado pela lettra redonda dos jornaes, só se deixa tentar pela belleza dos chromos. Tudo o que não seja isto, cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o consumidor. Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, sempre dispendiosas, das impressões de luxo.
Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, em que tambem era singela a _toilette_ dos livros, passaste á historia, és uma recordadação apenas, nada mais!
A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o encanto de uma surpresa pelo que respeitava á difficuldade de encontrar um editor accessivel, mas tambem a refulgencia de uma aurora polar que deixava cair, sobre a minha longa noite de incertezas, um clarão doirado irradiando de estipendio certo.
Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do romance. Chamar-se-ia _O testamento de sangue_. O _Jornal do Porto_ e o ensino livre absorviam-me o dia; foi pois á noite, depois de um dia inteiro de labutação litteraria, que eu tracei os primeiros capitulos d'aquelle romance.
O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com que eu entraria no mercado lisbonense pela mão de um editor acreditado, fez que por mais de uma vez, conversando com Cruz Coutinho e com os meus collegas de redacção, alludisse ao _Testamento de sangue_.
Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando no _Jornal do Porto_ se deu o que eu chamarei uma crise de folhetim. Estavam ali sendo publicados _Os dramas de Paris_, de Ponson du Terrail, arranjados sobre uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se em Lisboa, de modo que era preciso acudir á secção do folhetim com um romance que não fosse tão longo que prejudicasse a sequencia dos _Dramas de Paris_, nem tão breve que deixasse de preencher um compasso de espera.
--Se o teu romance não estivesse destinado para Lisboa, poderia servir para o jornal, dissera alguem.
Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com uma insistencia, que me deixou embaraçado. Allegavam que eu não tinha marcado prazo ao sr. Pereira, nem estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois publicar _O testamento de sangue_ no _Jornal do Porto_, e escrever outro romance para Lisboa. Observei em primeiro logar que não tomaria resolução alguma sem ter previamente consultado o sr. Antonio Maria Pereira; em segundo logar, que estando apenas traçados os primeiros capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, de escrever os outros dia a dia, o que certamente obstava a um tal ou qual acuro que eu queria dar á novella.
Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. Pereira, e, para que o romance pudesse ser retocado, comprometteu-se a publical-o em volume depois de ter sido publicado em folhetim.
Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me, na volta do correio, que me editaria um livro, qualquer que fosse, e quando me aprouvesse. A sua carta era gentilissima de amabilidade.
Comecei então a escrever precipitadamente o romance, a fim de satisfazer ao pesado encargo de um folhetim diario--encargo que eu acumulava com a minha collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações quotidianas.
Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto de forças. Morava eu então no predio n.º 456 da rua do Almada. Da minha janella avistava-se a quinta do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de todos os dias. Nem elle, nem eu paravamos nunca.
No livro _Nervosos, lymphaticos e sanguineos_ deixei consignada, a pag. 86, uma recordação d'esse moinho com que eu tão irmanado estava--pelo destino. Arranco-a, para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre da Conceição, com quem eu sustentava polemica epistolar no _Jornal do Porto_.
«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,--o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu.»
Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de trabalho importava. Escrevi o romance dia a dia, e no mez de setembro, finda a publicação em folhetim, revi-o, para sair em volume. O pequeno prologo que o precede é de todo o ponto exacto quando explica a pressa com que o _Testamento de sangue_ fôra escripto.
No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois livros novos, _A Porta do Paraiso_ e _Entre o caffe e o Cognac_. Tive então occasião de conhecer pessoalmente o sr. Antonio Maria Pereira.
Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta n.° 50, 52. Seriam duas horas da tarde. Um calor abafadiço pesava sobre a cidade baixa. A loja, que o filho e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar alargando-a, tinha uma só porta e a _montre_. Sobre o balcão havia uma grande agglomeração de livros e folhas impressas. Ao fundo da loja, de pé a uma escrivaninha, estava um homem que, ouvindo perguntar pelo sr. Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era elle. Á ilharga d'esta escrivaninha havia outra em que trabalhava um homem de barba e cabello preto: era o antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. Em frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em que um rapaz, de bigode, parecia tomar notas. Era o Francisco, o segundo caixeiro da casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho.
Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão cumprimentar-me. A phisionomia um pouco arabe d'este editor era insinuante; e as suas maneiras distinctas. Bigode e cabello grisalhos, com uns tons luminosamente argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A face morena e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia os labios, inspirava confiança. Estava todo vestido de preto, e, na occasião em que entrei, fumava charuto.
Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me sentar n'um d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras haviamos ainda trocado, quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira. Era seu filho, o actual editor[10]. Tempo antes, seguindo o exemplo paterno, havia começado a trabalhar, emprehendendo a publicação de uma _Encyclopedia litteraria_, para a qual tivera a amabilidade de solicitar a minha collaboração.
Escrevi ahi uns versos, _Virgens loiras_, cuja inspiração me parece hoje bastante macrobia: vinte e tres annos pesam sobre elles, e as _Virgens_, que devem estar decrepitas--como os versos.
Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio Maria Pereira relações de agradavel convivencia.
Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos Caldas, perto do palacio do marquez de Penafiel, onde por signal entrei no dia do leilão e assisti ao desalfaiar d'aquellas opulentas salas, que deram brado em Lisboa.
Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso apêgo bairrista. Custa-me realmente sair do meu bairro, tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras que estou costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos habituaes era limitado pelo Rocio, oude morava o meu editor Mattos Moreira, e a loja do sr. Pereira, na rua Augusta.
Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira, onde havia, quando menos, dois cavaqueadores: o dono da casa e o bibliographo Innocencio.
Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa n'esses serões litterarios, que se prolongavam ordinariamente até ás dez horas, e ás vezes até ás onze.
O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois de jantar ao seu estabelecimento, disposto a distrair o espirito na conversação de um pequeno grupo de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a essa hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio, elle fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e apreciava muito essas fugidas á sua labutação quotidiana.
Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que eu conservo d'esse illustrado editor, que prestou relevantes serviços ás lettras portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje fallecidos[11]--graças talvez, e não pareça isto desacerto, á felicidade de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta da gloria--editando-lhes os primeiros livros.
[10] Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas do exhaustivo trabalho quotidiano--a que elle chamava _a vinagreira_.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.
[11] Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas, etc.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.
* * * * *
XIV
Innocencio Francisco da Silva
Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas provas de estima pessoal e de consideração litteraria.
Foi elle que me propoz socio correspondente da Academia Real das Sciencias. E fel-o espontaneamente, penhorando-me sobremodo.
Mantive com Innocencio as melhores relações de amizade, inalteravel entre nós dois até os ultimos dias da sua attribulada existencia.
Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio não recebeu nunca do estado os beneficios a que, pela improba canceira a que se dedicou, tinha inquestionavel direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo entre a funcção burocratica, que desempenhava no governo civil de Lisboa, e os seus valiosissimos trabalhos bibliographicos. Nem todos os homens de lettras lhe faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe foros de escriptor, simplesmente pelo facto de não ser um estilista. Alguns amesquinhavam o seu trabalho, que capitulavam desdenhosamente de _rol de roupa suja de livros velhos_. Que revoltante injustiça! De mais a mais, Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos livros, não dispunha de meios bastantes para poder satisfazer todos os seus caprichos de bibliophilo.
Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom por vezes azedo e irritado das suas apreciações litterarias, falando ou escrevendo. Innocencio devia pouco ao mundo para o qual sempre havia trabalhado dedicadamente. Tinha a consciencia de merecer mais do que lhe davam, e o seu espirito justiceiro revoltava-se contra essa flagrante ingratidão. D'elle é que com propriedade se poderia dizer que fôra um _vencido da vida_. Viveu atormentadamente; e assim morreu.
Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, que bello coração o seu e, a sobredoirar a bondade do coração, que excellente caracter de portuguez antigo!
Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente infantis. Passava rapidamente da indignação á bonomia, e então era adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes liberrima em facilidades de linguagem.
Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. Não sabia enganar nem fingir. O que era, era. Mas havia na sua alma, repito, um grande e doce fundo de bondade antiga.
A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida quintilha de Sá de Miranda:
Homem d'um só parecer, D'um só rosto, uma só fé, D'antes quebrar que torcer, Elle tudo póde ser, Mas de côrte homem não é.
Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, receberia a impressão de ter deante de si um velho militar rabujento,--um major revoltado contra a sua reforma e a decadencia do exercito.
Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão patriarchal, de--digamol-o assim--bom humor tarimbeiro, ficava-se encantado de ouvil-o e de tratal-o, porque a sua erudição fazia desculpar as demazias de linguagem em que ás vezes caía.
Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra que, depois da _Bibliotheca Lusitana_ do abbade Barbosa, saiu dos prelos portuguezes. Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas escripturou com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados posteriormente á publicação da _Bibliotheca Lusitana_.
Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação, de buscas mallogradas ou felizes, de sacrificios pecuniarios, de caminhadas improductivas ou bem succedidas, de contrariedades vencidas ou vencedoras representa o _Diccionario Bibliographico Portuguez_ até o ponto em que o deixou publicado, e apparelhado para a continuação dos restantes volumes do _Supplemento_!
De mais a mais, a natureza da especialidade em que labutava não lhe consentia uma hora de descanso. Tarefa interminavel, porque um diccionario bibliographico não se completa nunca, arrastava-o a uma aspera applicação ininterrupta.
Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que, ao cabo de uma longa viagem, avistam a terra desejada: _Emfim!_
O seu _emfim!_ devia ser a morte.