Vinte Annos de Vida Litteraria
Part 7
E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho a sua propria saude.
_Parar é morrer._ Eis o lemma glorioso da sua vida politica, eis a divisa cavalheirosa de toda a sua carreira de estadista.
Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza o movimento que n'este momento historico a vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho ás classes operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do progresso. Os povos são como as machinas: o que é preciso é imprimir-lhes movimento para que adquiram velocidade. Depois trabalham por si mesmos.
Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio dos Prazeres o cadaver de Fontes Pereira de Mello não irromperam apenas dos labios dos sacerdotes que tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. Irromperam ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram de mil boccas, eram articulados por mil gargantas differentes: saiam de todas as fabricas, de todas as officinas, saiam dos teares e das locomotivas, eram, n'uma palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro do que ninguem e mais do que ninguem, fomentára em Portugal.
Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver de um morto illustre.
* * * * *
Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui recebido em sua casa.
Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. Fontes, de casaca, viera ao meu encontro, dissera-me palavras amaveis. Perguntou-me se eu gostava de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o voltarete.--Mas gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, replicou Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e vale a pena ir vel-o.
Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me que fosse fazer uma partida de voltarete com o visconde de N. e com o capitão de mar e guerra M. Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com a minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me aos dois parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se.
Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do preço.
--Não sendo caro não diverte, disse o visconde de N.
--Como quizerem, respondeu o capitão de mar e guerra M.
Eu vi-me obrigado a obtemperar:
--Estou ás ordens de v. exas.
Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a cinco tostões, talha de roda, duas talhas o que désse cartas.
Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que sempre fui pobre, vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro libras incompletas--um acaso que eu reputaria feliz em qualquer outra occasião.
A preoccupação da situação embaraçosa em que me achava collocado desorientou-me e afugentou a sorte. Quando se serviu o chá, havia immensas remissas: as minhas deviam orçar por quarenta mil réis.
Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri as salas, n'uma grande excitação nervosa, á procura de um amigo. Encontrei-o, felizmente para mim, e expuz-lhe o embaraço em que me encontrava, e que tivera por origem uma confissão ingenua.
--Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.[7]
Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi hoje umas rendas. Nem eu sei ao certo quanto é.
Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando eu voltei á sala do jogo. Continuamos jogando. A felicidade attrae o dinheiro, como o iman attrae o aço. Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa do meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas horas da madrugada, quando os meus parceiros quizeram, levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis. Nunca esta cifra me esqueceu.
Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao largo do Rato, tomei pela calçada do Salitre, pensando, como certo philosopho, que se a eloquencia é de prata, o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito aquella confissão ingenua de que jogava o voltarete...
Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, dois _fadistas_ parados. A calçada estava deserta. Um d'elles atravessou, de modo que eu havia de passar entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que naturalmente vinha de casa de Fontes. O homem ainda chegou a perguntar-me que horas eram, mas, vendo a carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e pedi á pessoa que ia dentro do trem que me permittisse tomar logar na almofada.--Aqui dentro, aqui dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma voz de homem. Agradeci, e subi para a almofada..
E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado o dinheiro alheio, e o meu! Ah! que noite de torturas que essa foi!
No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci á pessoa que ia dentro do trem, a qual ainda hoje não sei quem fosse.
Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se muito, e, ás vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, pedia-me que reeditasse a historia, a que achava graça.
* * * * *
De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento para um amigo meu. Fil-o muito contrariado, por dever de amizade.
Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a luneta, leu o requerimento, e perguntou-me:
--Tem muito empenho n'isto?
--Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir um amigo sincero.
Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me o papel, disse-me:
--V. é um homem novo na politica. Permitta-me um conselho: Estes favores são uma desgraça para a pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo d'elle, avise-o de que se está infelicitando irremediavelmente.
Janeiro de 1887.
[7] Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje fallecido.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.
* * * * *
X
Antonio Augusto de Aguiar
Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada tristeza, outras vezes com vaga tristeza--que é talvez o estado mais doloroso da alma--desejado a morte?
Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas amarguras ou porque sejam realmente grandes, todos nós temos mais ou menos pensado, com uma certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema em que o corpo ha de adormecer para sempre e a alma ha de partir para um mundo desconhecido, que, por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto bem mais tranquillo do que este...
Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz que pareça, que não tenha desejado a morte uma vez sequer.
A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido de nós para os outros, e que os outros dizem sempre que nós possuimos e elles não.
Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se na terra. Ave do azul, é no azul que passa ás vezes, mas tão alto, tão alto, que se por um momento a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez deleitosa...
Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora é ephemera, e o que fica depois é a realidade triste das coisas terrenas, a lucta, a batalha da vida, sangrenta e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para os quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, ambicionado e querido.
Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado a morte, quando ella passa perto de nós para ir fazer uma victima, quando sentimos o frémito das suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, quando o seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu caliginoso, faz-nos horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação e a sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera de misterio e silencio...
Por que não hei de eu dizer francamente que no combate da existencia, n'esta lucta de todos os dias, cada manhã renovada, algumas vezes a idéa da morte me tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de comprehender, porque todos somos iguaes. Mas a verdade é tambem que ainda esta semana, segunda feira, eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso que se chama a Morte, e cuja obra de devastação parece assombrar tanto mais quanto mais rapida é.
Estavamos, não sei quantos--poucos eram--no club da Ericeira. Jogava-se o voltarete n'uma tranquillidade paradisiaca, como poderia ser a do pae Adão, antes do peccado, se o voltarete já então houvesse sido inventado, e elle o estivesse jogando de quatro, com os seus tres filhos. Uma senhora ou uma creança tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a musica, com uma grande timidez de execução. O sol, alegre e bom, entrava docemente pelas janellas, como poeira de oiro finamente coada atraves de um crivo azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som aspero do choque das bolas, ou de uma contada do taco sobre o pavimento. De resto, o mar parecia ter-nos aqui prisioneiros n'uma região remota, longe, muito longe de Lisboa--essa grande cidade ruidosa, que dizem ser feita de marmore e de granito, e banhada por um bello rio portentoso, mas de que nós, aqui na Ericeira, apenas conservavamos uma vaga recordação...
Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que tambem acumula a funcção de sala de leitura, o carteiro da villa, com o boné em uma das mãos, a mala de couro na outra.
O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram para o carteiro.
É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o interesse que se póde ter em receber uma carta ou um jornal ainda que só esperemos banalidades.
Era o correio que chegava. Iamos receber noticias de Lisboa, essa longinqua cidade, de que apenas conservamos a vaga recordação de ser construida de marmore e de granito e banhada por um bello rio magestoso.
O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa de leitura: mólhadas de jornaes--progressistas, regeneradores, republicanos--e algumas cartas, poucas, sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma verdadeira alluvião.
E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo para um lado e para o outro:
--V. ex.ª hoje não tem nada.
--Aqui estão os seus jornaes.
--V. ex.ª tem só uma carta.
--Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª
Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala uma noticia profundamente dolorosa e inesperada:
--Morreu o Aguiar!
--Quem? O que?!
--Morreu o Aguiar!
--O Antonio Augusto?!
--Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...
E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente o jornal, procurando os pormenores, lendo e dizendo:
--De repente... de uma _angina pectoris_... ainda ante-hontem saiu... bem disposto... tinha jantado no _restaurant Rosa Araujo_ com o Luciano Cordeiro e com outro.
Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento de tanta surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos fulminados, assombrados, como se Aguiar acabasse de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os jornaes o referiam.
Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima vez que lhe falára, da boa disposição em que elle estava, do que dissera, do que contára. Havia apenas quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o tinha visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel aniquilar um homem de valor em quinze dias. Todavia os jornaes que estavamos lendo eram d'aquelle mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença de Aguiar fôra rapidissima, apenas de duas ou tres horas, na madrugada de sabbado para domingo.
Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas do Club a noticia da morte de Aguiar. Os jornaes passavam de mão em mão, qualquer novo pormenor era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases soltas, resumiam, no primeiro momento, a impressão geral:
--Um homem serio...
--Um homem de talento...
--Um homem de saber...
--Um bom caracter...
--Um homem digno...
Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo isso elle fôra, e todavia quantas vezes o ridiculo, a calumnia, e tambem a troça, não saiu ao encontro d'esse homem serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de saber, d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!
Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes lh'o contestaram, porque ha pessoas que parece quererem aggredir os vivos para terem que humilhar-se deante dos mortos.
Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado dar o seu a seu dono, a Deus o que é de Deus, a César o que e de César. Qualquer que fosse a sua posição politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma consideração e o mesmo respeito. E de todas as suas qualidades a que eu achava que tornava maior as outras era a serenidade com que elle recebia todos os golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. Ainda poucos dias antes de se fechar o parlamento, no momento de se commentar no corredor da camara dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, se deturpavam as palavras e os factos, elle dizia accendendo tranquillamente o seu charuto:
--Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.
Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito e da sua consciencia, o bem-estar interior, a paz inalteravel de um caracter sem manchas e sem remorsos.
Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes que era vaidoso. Não era, não. Era menos hipocrita do que os outros. Cada homem representa uma somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se esquece do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos sabem mais ou menos quanto valem, mas ha homens que recuam para avançar e homens que preferem ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem sem recuar.
Eu gosto mais d'estes ultimos.
1887.
* * * * *
XI
Mendes Leal
Dois escriptores da geração que nos precedeu não estão tendo desde já a celebridade posthuma, que ás vezes começa para outros escriptores no proprio dia dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes Leal.
Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade litteraria, não se dá o seu nome a qualquer instituição, a qualquer philarmonica ou club de operarios em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido que não appareça logo um gremio de classe, musical ou dançante, a adoptar-lhe o nome.
E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci pessoalmente, foi o mais brilhante estilista que até então floresceu em Portugal. Nunca ninguem antes d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão elegantemente colorida.
Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as suas primicias litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas foi o romance historico _Ráusso por homizio_, publicado em 1842 na _Revista universal Lisbonense_. Com razão dizia a _Revista_ referindo-se a este romance: «Damol-o sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de seu auctor:--que seria sacrilegio tocar, nem de leve, nas primicias que á sua patria offerece um tal espirito--¡quem no acreditaria!--¡de vinte annos!»
Assombroso, em verdade.
Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas meu patrono, tratei-o particularmente, tive sobeja occasião de avaliar a vasta erudicção do seu espirito e a fidalga grandeza do seu coração.
Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, e n'ella bem attentar, reconhecerá que poucas vezes póde um escriptor reunir em si tantas e tão variadas aptidões como Mendes Leal.
Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam pelas cumiadas da epopea: hajam vista o _Pavilhão negro_, _Ave Cesar_, _Napoleão no Kremlin_.
Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel continuador da obra de Garrett. Tudo quanto escreveu para o theatro--e foi muito--póde ter defeitos, mas affirma riqueza de imaginação, talento de _savoir faire_, opulencia de linguagem. Percorram toda essa vasta galeria de producções dramaticas, que vae desde os _Dois renegados_ até aos _Primeiros amores de Bocage_, e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol, engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás exigencias de cada genero e de cada época.
Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade tão accentuada como dramaturgo, não deslisou comtudo um ápice dos seus bons creditos de homem de lettras.
Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com notavel seriedade de espirito.
Como orador politico, deixou discursos parlamentares que podem servir de modelo aos que, dentro e fóra da camara, presam a lingua portugueza através dos arrebatamentos da paixão partidaria.
Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado a consagrar aos negocios administrativos, aos negocios politicos, aos negocios diplomaticos, e á vida de salão. Com uma organisação tão debil, com uma tão embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de occupações e distracções, ninguem seria capaz de trabalhar mais do que elle.
Estive durante alguns annos em relação epistolar com Mendes Leal. Creio que foi Castilho que recommendou á sua benevolencia de mestre as minhas palidas estreias litterarias. Castilho tinha uma grande consideração por Mendes Leal--a quem, na dedicatoria do primeiro livro das _Georgicas_, divinamente traduzidas, chamou--_caro Leal, gloria da terra lusa_.
Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, em missão diplomatica. Só em 1882, vindo elle a Lisboa, o pude conhecer pessoalmente. Visitei-o frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda, conversamos largamente, e era encantadora a simplicidade bondosa do seu trato. Mendes Leal dera-me provas de muita estima, tornando-se meu dedicado amigo.
Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades do mundo politico e do mundo litterario, quasi todos os ministros estrangeiros acreditados em Portugal, e grande numero de pessoas que mais lustravam em pompas de _high life_.
A ultima vez que me demorei conversando largo tempo com Mendes Leal foi em dezembro d'esse mesmo anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.
O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de Santa Isabel até ao cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal encontrou-me n'aquelle ondular de pessoas de todas as classes sociaes, que foram prestar a derradeira homenagem ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se ao meu braço. Assim fomos conversando até ao cemiterio occidental no meio da multidão immensa.
Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado ao prelo, n'uma brochura intitulada _Hommage aux lettres latines_, as suas ultimas composições poeticas. Ahi se póde ver com que primor elle manejava a lingua franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia envelhecendo e pendendo á terra.
A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata com este homem superior, que tão poderosamente contribuiu para impulsionar os progressos litterarios do seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da Silva, e é caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que a opinião publica passa por uma evolução demorada tanto para apreciar como para depreciar um escriptor fallecido--especialmente para aprecial-o. Quanto tempo não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria de Fernão Mendes Pinto? E o proprio Camões teve que esperar trezentos annos por uma apotheóse nacional.
No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma honrosa, postoque modesta, homenagem que lhe prestou a villa da Ericeira. Ha ali uma rua com o seu nome. Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que elle cantou em 1857 na poesia _Mare magnum_. A descripção das _furnas_, tão bellas e tão agrestes, é de mão de mestre:
Não vos lembraes?--Além do manso pego, O mar, que vem do largo, e que não cessa, Da vaga arquea a cuspide irritada, E, com impeto cego, Á insensata escalada Dos immoveis penhascos se arremessa.
Quem ha de commetter a louca empresa De tentar a passagem tortuosa Que alguma convulsão da natureza Abriu sobre a voragem tenebrosa? Do rolo immenso a curva ameaçadora Investe, galga, apruma-se, desaba; E quando o turbilhão que o ar devora, Trovejando rebenta, Parece que á tormenta A terra não resiste e o mundo acaba.
Pelas rugas da penha sacudida,-- De niveos flocos inda guarnecida,-- Depois que o mar bramindo atraz volvêra, Um veio d'agua, rapido e sombrio, Deslisa; qual em rude face austera De um triste ancião, que a idade encanecêra, O pranto corre em fio.
Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas contra as _furnas_ da Ericeira, recordará eternamente a verdade sublime, a hipotiposis felicissima d'este notavel trecho de poesia descriptiva, e simultaneamente o nome de Mendes Leal.
O oceano vingará a ingratidão dos homens.
* * * * *
XII
Gonçalves Crespo
Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, deixei-me ir ao sabor da saudade, pelo mar das recordações em fóra, até o encontrar nos primeiros annos da sua vida, e da minha.
Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual eu comprehendi melhor que nunca toda a verdade e toda a philosophia que se encerram n'este pensamento de Garrett:
Saudade, gosto amargo de infelizes, Delicioso pungir de acerbo espinho.
Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, toda a observação psichologica que essa bella antithese contém; comprehendi Garrett n'esses dois admiraveis decassiliabos que já não esquecerão mais em lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel quando chama á saudade _um mal de que se gosta, e um bem que se padece_; comprehendi o rei D. Duarte quando no _Leal conselheiro_ escreveu da saudade com uns finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão d'esse agridoce sentimento, que ao mesmo passo despedaça e mitiga o coração...
Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho percorrido em poucos annos. A saudade fizera reverdecer todas as recordações, aquecêra todas as cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos a vida já extincta, enflorei-me das minhas antigas esperanças, remocei com as minhas illusões de outro tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado era completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser o que tinha sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, o sonho acabou, retrocedi pelo caminho que imaginariamente percorrera, e pareceu-me atravessar um deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e silencioso, onde tudo jazia sepultado na mudez da morte--esperanças deliciosas e amigos queridos, illusões que me fascinaram e pessoas que eu amei.
Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda enorme, eu só encontro a triste consolação de a recordar.
Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo providencial.
Assim é que os poetas a definem; assim é que eu a sinto agora--melhor por certo do que nunca.
Em verdade, as circumstancias em que me encontro, para escrever de Gonçalves Crespo, são muito especiaes. Elle teve muitos amigos, e merecia-os, mas as nossas relações vinham de longe, eram antigas na proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando eramos apenas duas creanças.
Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, rodeado de antigos amigos, quasi todos mortos já, apesar de moços.
Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas mais ou menos habituaes, que eu já historiei largamente no livro _Atravez do passado_--o meu primeiro livro de saudades.
Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com o criado da casa: o Angelo, um gallego.
Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha a linha elegante e aristocratica. Mas desconcertava-se n'aquellas brigas nocturnas, gostava d'ellas tanto como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada o primor da sua _toilette_, quasi sempre irreprehensivel.
Coisa notavel! Crespo não era então para nós um poeta: um elegante, sim. Eu fazia versos de pé quebrado; Alfredo Leão lia chronicas e romances[8]; mas Gonçalves Crespo _flanava_ a pretexto de estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento poetico com a publicação das _Miniaturas_.
Houve um periodo em que me separei de Gonçalves Crespo;--quando foi para Coimbra. Mas em quasi todas as ferias elle passava no Porto em direcção a Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. Crespo frequentava o _Café Portuense_, na Praça Nova, e continuava a ser um elegante. Mas quando eu o via, sempre me perguntava pelo Angelo--recordando as nossas façanhas anti-ibericas.