Vinte Annos de Vida Litteraria

Part 5

Chapter 53,755 wordsPublic domain

Faz falta, porque era um homem superior, tinha o seu logar na imprensa e na politica, chegou a elle sem pressa e sem impaciencia, não pisou ninguem, não acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda a gente o esperava lá, todos reconheciam que devia ahi chegar, e alguns, os mais justos, estranhavam que não tivesse chegado mais cedo.

Tendo um passado politico, foi ministro depois de o ter. No nosso paiz isto é raro. Muitos escalam o poder pela trapeira; elle entrou pela porta da rua, e da primeira vez que foi ministro (1870) não passou do patamar da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, em lhe dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava a dictadura, haveria galgado os degraus quatro a quatro, para que se lhe não escapasse a occasião de ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, poucos fariam o que elle fez: pôr o chapeu na cabeça e sair.

Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se no poder pela dictadura. Mas de que modo elle havia luctado! Como um forte, um valente, um athleta; os nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se os medimos com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais gloriosa de toda a sua vida. Com a sua penna e a sua coragem, elle só, deu que fazer ao governo dos Cabraes. O ministerio empregava todos os meios ao seu alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. Andavam açulados os Argus da espionagem ministerial no empenho de farejar o esconderijo de Sampaio, e, durante quasi um anno, esse jornal, tão perseguido officialmente, apparecia em toda a parte, até dentro das pastas dos ministros!

Os revolucionarios de hoje seguem um caminho muito mais commodo: mediante uma estampilha de dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas victimas.

Depois da perseguição, da caça ao jornalista por parte do governo, vieram as tentativas de suborno. Sampaio repelliu-as nobremente. Appellou-se para a provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em duello. Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, quando o conde de Thomar caiu, quando para Sampaio chegára a hora de receber a féria, recusou ao ministerio Palmella todas as vantagens que este lhe propunha. D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça de homens foi ha annos sepultado no cemiterio dos Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua glorificação:

_Faz falta._

Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando de perto todas as vaidades irritantes e todas as ambições irritadas, conhecendo bem o mundo, atravessava-o com a serena philosophia do seu bom humor habitual, por que o bom humor era n'elle uma philosophia.

O marquez de Caraccioli chamava a isto _gaieté philosophique_, alegria philosophica; pois seja. «Feliz o homem, diz elle, que contente com a sua sorte e com o seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle os pesares como tentações, e só procura os objectos consoladores. É por um tal sistema de felicidade que se consegue resistir ás impertinencias e aos soffrimentos, e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica a esse contentamento da alma, que se não altera nem pelos remorsos, nem pelas inquietações.» Os _espinhos do poder_! repetia muitas vezes Sampaio, _isso é apenas uma metaphora_. E tinha razão, porque elle exercia o cargo de ministro de estado com a mesma alegria philosophica, a mesma honestidade tranquilla com que exercia todos os outros cargos. Sentindo-se velho e pesado, apreciava sobremodo o poder andar de trem. Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos da lenda, por se ver obrigado a passar do trem para o _americano_. Dizia-o muitas vezes, rindo.

Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam rindo tambem. _J'ai ri, me voilà désarmé._ Rindo, sabia perdoar. Ninguem o podia tratar de perto sem ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos homens haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava a comprehender como esse velho placido e alegre, cheio de bonomia e de serenidade, se transmudava de um momento para o outro no ardente articulista da _Revolução de Setembro_, semeando ás vezes resentimentos pessoaes que poderia ter evitado.

De uma vez certo titular _vieille roche_ foi pedir-lhe um favor politico.

--Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por aqui a pedir favores de chapeu na mão.

--Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio.

Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia procurou Sampaio para se oppôr ao despacho de um governador civil.

Sampaio respondeu-lhe:

--Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos; consinta ao menos que o ministro do reino governe n'um.

Eu, que acabava de passar tormentosamente pela vida administrativa, combati algumas disposições do codigo de 1878 n'um capitulo do livro intitulado _Viagens á roda do codigo admistrativo_.

Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus apoiavam a minha candidatura pelo circulo de Sinfães, Sampaio, consultado a esse respeito, foi á sua bibliotheca buscar o livro e disse com bondosa tranquillidade:

--Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, mas eu não me zangarei com elle por causa do circulo. Que venha á camara, e ficaremos amigos como d'antes.

A minha eleição foi causa indirecta da transferencia de um empregado. Passados dias, estava eu já eleito, Sampaio mandou-me chamar pelo seu _correio_.

Fui immediatamente saber o que elle queria.

--Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente Sampaio.

--Por que? perguntei eu muito intrigado.

--Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, que o elegeram, mandaram de casa mudada um afilhado meu.

--Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso.

--Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que trate de remediar o mal que está feito. Vá ter com o ministro F. e combine com elle o remedio.

Assim fiz; assim se fez.

Deve notar-se que Sampaio era então presidente do conselho de ministros.

Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações, e a todas as injurias.

Pouco antes de morrer andava em discussão accesa com Eduardo Tavares, que redigia então as _Instituições_.

Certo dia as _Instituições_ chamaram a Sampaio _pedaço d'asno_, com todas as lettras.

No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio tambem responderia a isto ou se deixaria de responder. Eu apostei que responderia. No dia seguinte corri a ler a _Revolução de Setembro_. O artigo de Sampaio principiava assim: «O homem das _Instituições_ chamava-nos hontem _pedaço do seu todo_.»

Soberbo!

Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se forte na velhice. _L'homme gai ne vieillit point, et paroit toujours se bien porter_, observa o marquez de Caraccioli. Os artigos da _Revolução_ punham bem em evidencia esta verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria combatendo. E os seus profundos conhecimentos de latinidade traziam-lhe á memoria e á mão, a maior parte das vezes, citações que elle aproveitava habilmente para acerar a mordacidade com que sabia rir da má situação em que deixava os adversarios politicos, ou em que elles proprios se collocavam.

Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito medico, _malgré lui_. Mas nas suas mãos a dictadura foi uma arma completamente inoffensiva; depois de cobrar os impostos partiu-a, atirou com ella para o mesmo armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se em dictadura, e ninguem dava por isso. O dictador Sampaio distraia-se ás noites no Passeio Publico, e dizia como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui estou para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo deixava-o estar. Sabia que era um homem bom, e ninguem receia a dictadura de um homem bom.

* * * * *

No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse: «É preciso defender a monarchia.»

Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, deve ser recebida como um evangelho.

Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o cerebro, até no sonho nos avassala. O delirio da febre deve ser alguma coisa de nebuloso e de vago como o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa vida deve enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, tanto mais apertadas quanto mais o espirito lucta para desembaraçar-se e partir.

Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario da realeza. A monarchia havia saido ungida, sagrada do baptismo da liberdade. Sampaio guerreava _à outrance_ o ministerio de 1846, porque entendia que esse ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava a idéa de liberdade que na Europa progressiva servira de base á reconstrucção monarchica.

Se depois do estabelecimento do regimen constitutional a monarchia se desprestigiasse prematuramente, seria um sistema perdido, uma fórma de governo apodrecida antes de amadurecer. Como adversario valoroso do antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas raizes do absolutismo que tinham ficado ainda arraigadas em derredor do throno constitucional.

Depois da organisação regular dos partidos politicos, Sampaio foi sempre um monarchico, e muitas vezes atiçava a lucta jornalistica entre esses partidos, porque perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria as fórmas de governo degeneram na tirannia ou na anarchia: ou uma só facção dispõe de todos e de tudo, ou todos governam em tudo. Elle claramente percebia que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação e de estimulo na gerencia dos negocios publicos, e de correcção e aperfeicoamento para o regimen estabelecido.

Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, em interesse da monarchia. Frequentando o paço, foi sempre um monarchico, nunca foi um aulico. Para os monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de conservar. Elle nunca o ultrapassou.

Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo do conflicto pela inversão violenta dos principios estabelecidos, pela postergação desordeira dos direitos sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do reino, e pela irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do estado concede a todos e a cada um.

Sampaio viveu muito; viu muito.

Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora morria, era com essa idéa que sonhava no delirio da febre: «É preciso defender a monarchia.»

E é.

Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente demarcados: monarchicos a um lado, inimigos da monarchia a outro lado.

Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são de sua inteira responsabilidade: nada temos com isso. Empreguemos nós os nossos, purifiquemos os nossos costumes politicos, procuremos fazer uma administração rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á porfia pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos as nossas escolas e as nossas industrias, aproveitemos os serviços dos homens de boa vontade que nos offerecem a sua cooperação, e veremos depois quem triumpha.

Mas para que o consigamos é preciso não adormecer: _é preciso defender a monarchia_.

* * * * *

VII

A livraria de Sampaio

Não ha nada que me entristeça tanto como assistir ao leilão de uma livraria, e comtudo attraem-me sempre esses espectaculos que me são dolorosos, e que se repetem em Lisboa quasi todos os dias.

São ordinariamente duas as causas que determinam este genero de leilões: a pobreza ou a morte. Qualquer d'ellas faz uma profunda impressão a todos quantos estimam os livros, não para os revender com lucro, mas para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem a um leilão de livros com a indifferença profissional com que um medico assiste a uma operação cirurgica, e um enfermeiro á agonia de um moribundo. Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando na giria do negocio o que se vae passando em torno d'elles, mas acompanhando sempre, com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros e os movimentos do leiloeiro. E para um lado: _Comprou bem_; para outro lado: _Comprou mal_; ou, para um espectador que lhe diz:--_Quem comprou bem foi o senhor_,--como se um livreiro pudesse comprar mal algum dia: _Acredite que não ganho senão a encadernação._

Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi por muitos annos talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo fallido ou fallecido. Não a podia comprar por ser pouco vulgar no mercado ou muito elevado o seu preço; mas pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a possuiam, corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia muitos annos; fez porventura um grande, um enorme sacrificio para a comprar, mas finalmente achou-a, adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, mostrava o seu thesouro com orgulho: _Veja lá isto! Que me diz a isto?_--uma edição muito bem conservada, uma verdadeira preciosidade!

Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este mundo, excepto para os livros. A Victor Cousin emprestaram de uma vez um manuscripto de Mallebranche. Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, o dono do manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. Cousin recusou-se a restituil-o. «Mas o manuscripto foi apenas emprestado, disse o intermediario; o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha paixão.» Nós cá, em Portugal, tambem temos bibliophilos d'este feitio, que se desculpam com a sua paixão, e vão ficando com os livros dos outros.

_Livre preté, livre perdu_, diz um proverbio francez. Os proverbios são filhos da experiencia, e convém por isso respeital-os. Gifanius respondeu uma vez a Gaspar Schopp, que lhe pedia emprestado um manuscripto de Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É como se me pedisse emprestada minha mulher!»

Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, dia a dia, e a que o proprio constructor não chega nunca a pôr a cupula. Por muito longa que seja uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, que se deixa sempre incompleta no momento em que a vida foge. Se essa bibliotheca é de livros antigos, se é classica, por muito que o bibliophilo investigue o passado, não consegue, á força de canceiras e dispendios, reconstruir toda a litteratura dos seculos que o antecederam. Ha sempre um thesouro encanado que elle não póde descobrir, que não póde achar. Se é moderna, é tão precipitado, tão febril o movimento litterario de nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o ainda quando elle se não perdesse de vista um momento.

Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora a hora, com uma perseverança apaixonada, com um enthusiasmo sempre vivo, com uma fé sempre nova, e muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, desmoronado pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e que primeiro despedaça o coração antes de derrubar a sua obra querida. Um dia vê-se obrigado a vender os seus livros, a atirar--elle mesmo!--esses volumes, tão amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias dos livreiros--os gatos pingados da bibliographia--que fazem todos os funeraes das livrarias com a mesma indifferenca com que os outros arrancam os cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar na voragem do cemiterio.

«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das grandes desgraças da vida? Vendei os vossos livros.»

Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; não consentem que ninguem lhes toque, muitos não querem que ninguem os veja. O cardeal Passionei tomou para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e dava a razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: portanto, faço-a guardar por um eunuco.»

Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus livros, a noticia de todos esses thesouros misteriosos, a revelação de todo o segredo da sua riqueza litteraria vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, que se espalham de graça, com uma publicidade profana, e esses proprios thesouros vão ser expostos a um publico de amadores e de vendilhões, de interessados e de interesseiros, que caem famintamente sobre elles, que os devoram com o olhar, que os disputam na praça, como se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece ao publico, e se vende a quem mais der.

Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que alimentavam o fogo sagrado do espirito. Com ellas ninguem communicava profanamente. Só o sacerdote d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. Mas uma chusma de Clodios ousados e sacrilegos invade o santuario, desacata-o, profana-o, commette um sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se Messalinas, offerecem-se do alto das estantes, com uma crua impudicicia mercantil, á cupidez daquelles que não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um capricho da sua phantasia.

Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do seu dono, a profanação é ainda maior--talvez!

Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio Rodrigues de Sampaio.

Este homem que a posteridade não poderá esquecer, comquanto houvesse nascido obscuro, chegára no seu paiz ás mais altas honras politicas, fôra ministro varias vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente do conselho de ministros.

Á porta da sua casa--aquella mesma casa--ordinariamente fechada, batêra muita gente, timidamente, respeitosamente, para solicitar de Sampaio um favor. Todo o pretendente era introduzido por um criado na saleta, e ahi esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, com o seu grande ar de bonomia, o velho Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, e, ordinariamente, não se fazia esperar muito.

Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena porta á esquerda: era a sua livraria. Estava ali sempre, quasi sempre, de dia. Á noite, recebia os seus intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se guloso por bolos finos.

Pois desde que o leilão começára, a porta da rua estava aberta de par em par, escancarada, franca para todos os que passavam, e que subiam á vontade, falando uns com os outros, rindo, não encontrando criado algum que lhes tomasse o passo, não vendo em logar nenhum o correio do ministro do reino, que por tantos annos fez estação n'aquelle portal--ninguem, nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos habitaram n'aquella casa.

A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, arregaçadas; das antigas alfaias apenas restava o candieiro de cristal. No sitio onde estivera o piano, entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de bibliophilos que esperavam o principio do leilão. Á porta do escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a que os livreiros abancaram. Enquadrada na porta, a ampla figura do pregoeiro, que mascava um charuto, emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros que primeiro haviam de ser postos em praça.

N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que estava, para assim dizer, impregnado da individualidade de Sampaio. Havia em tudo aquillo um ar de terrivel devastação; parecia que o vento ardente do deserto passára por ali resequindo o coração de quantos haviam conhecido Sampaio. Sentia-se o simoun da morte que, ao passar, derrubara as alfaias e os livros, muitos dos quaes estavam amontoados no chão...

Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia o que ia comprar. Esperava um pouco ao acaso que passasse por diante de si um livro bom; por isso, quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em pé estendiam curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo--ao menos.

Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos seus livros.

No leilão, vendeu-se um exemplar dos _Sophismas parlamentares_, de Bentham, edição de 1840, prefaciada por Elias Regnault. Arrematei-o para offerecel-o a Julio de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha traços sinuosos, rapidamente lançados, denotando certamente que Sampaio estava lendo com interesse e que, desejando marcar um pensamento original, não queria retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do que com o lapis; deixava apenas no papel um rapido signal indicativo para facilitar a busca.

Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por Sampaio.

No prefacio de Regnault estão marginados todos os que se referem ao poderio politico da imprensa. Por exemplo: «Á imprensa pertence a iniciativa; á camara, a sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a realisação.» «Antigamente, as communas tinham um simples direito de petição para obter a reparação dos aggravos, hoje, a imprensa é uma petição perpetua.»

No texto, estão sublinhados, além de outros, estes pensamentos de Bentham:

«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na mesma situação, o que é velho possue, por esse motivo, mais experiencia do que o novo. Mas entre duas gerações, posto se chame velha á geração que precede outra, não se póde sustentar que tenha mais experiencia do que a que lhe succede.

«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as gerações primeiras, é cair n'um erro tão grosseiro como o de chamar velho a uma creança de berço.

«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados velhos? É a sabedoria dos cabellos brancos? Não, é a sabedoria dos moços imberbes.»

«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra a ninguem. Não se encontra no caminho com os ambiciosos; e estes, mudando repentinamente de linguagem, dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça e benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito pelos mortos fornece-lhes occasião de satisfazerem o seu odio pelos vivos.»

«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram de vez os diabos, os espectros e os vampiros. A agua benta fez-lhes muito menos mal que a tinta de imprimir.»

Ainda mais alguns aphorismos:

«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato; um procedimento insensato produz crueis desastres; d'esses desastres vem o mais util ensinamento.

«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não ao seu saber, que se deve pedir conselho; e é por isso que os sophistas invocam sempre a sabedoria dos velhos.»

«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania é absurda; toda a lei que a si mesma se declara irrevogavel, é perigosa.»

«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não póde durar mais do que essas circumstancias.»

«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. Resisti, e Blackstone vos condemnará; mas triumphae resistindo, e Blackstone vos adorará.»

De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, um dos mais annotados era com certeza a _Histoire des origines du gouvernement representatif en Europe_, de Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, que não pude entender. Mas as sublinhas a lapis são tão frequentes, sobretudo em certas passagens, que chegam a tracejar toda a pagina.

Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania:

«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, é a sua theoria de soberania; isto é, a maneira por que elle concebe, colloca, e attribue o direito de dar e de fazer executar a lei na sociedade.

«Ha duas grandes theorias de soberania.

«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem sobre a terra, qualquer que seja a força: povo, monarcha, ou principaes do povo. Outra sustenta que a soberania de direito não póde existir na terra, e não póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força terrestre que conheça e queira inalteravelmente a verdade, a razão e a justiça, unicas fontes da soberania de direito, que devem regular a soberania de facto.

«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, seja qual fôr a fórma de governo. A segunda combate o poder absoluto sob todas as fórmas, e não reconhece em caso algum a sua legitimidade.