Vinte Annos de Vida Litteraria
Part 2
É incalculavel o numero de autopsias que meu pae fez como medico forense. Quando eu e meus irmãos eramos pequenos, embirravamos muito de que meu pae viesse para casa cheirando a vinagre aromatico: já sabiamos que tinha estado retalhando um cadaver.
Elle ria-se dos nossos engulhos, mettia-nos jovialmente á galhofa, e dizia-nos que puzessemos os olhos no seu bom appetite.
Só uma vez, á volta de uma autopsia, o vi chegar menos alegre. Mandou inutilisar parte do fato com que tinha saido, para obstar ao contagio do dipheterismo.
Apenas dou conta de o ver doente uma vez, era eu creança; cuido que havia sido atacado de ictericia negra, com graves complicações. Os collegas fizeram-lhe conferencia: acharam-n'o perigoso. Meu pae, que teve sempre uma grande agudeza de ouvido, escutou o prognostico que elles fizeram, e logo que sairam, disse a minha mãe:
--Está-me appetecendo uma chavena de chá e uma torrada.
--Pelo amor de Deus! Isso não!
--Morra Martha, morra farta. Venha o chá e a torrada.
Como a sentença era de morte, não o quizeram excitar, contrariando-o. D'ahi a oito dias levantava-se do leito.
--Nós sabemos sempre muito, dizia elle, mas o doente sabe sempre mais.
Esta descrença ironica pela sciencia que exercia era quasi sempre manifesto nas suas apreciações medicas; uma pontinha de scepticismo fazia-o desdenhar do seu diploma, que principiára a conquistar aos 17 annos, em 1825, quando entrou na Escola Medica.
Este homem de animo forte e tranquillo via aproximar-se a morte com heroica serenidade. Era o declinar de um bom. Como eu, sem grande esforço, o pudesse voltar no leito, elle disse-me placidamente do fundo da sua lethargia:
--Isto é quasi um cadaver.
Mas, para desviar este pensamento triste, disse-me logo em seguida palavras de carinhosa ternura, que eu não pude agradecer suffocado pelas lagrimas.
Do medico, do homem alegre e sereno, restava nos ultimos dias um corpo devorado por dôres lancinantes, que elle indicava levando a mão ao peito. E, na sua dolorosa agonia, dissera para minhas irmãs com voz entrecortada e difficil:
--Rezem.
Era a sua boa alma triumphando, ainda serenamente, do corpo que se esphacelava.
Eu poderia escrever uma larga biographia d'esse querido octogenario que, sem ambições nem invejas, parecia não ter biographia. Mas o leitor comprehende que estou fazendo sangrar o coração a cada golpe de penna. O sacrificio tem sido superior ás minhas forças. Mas o coração, posto que dilacerado, não me permittia que, escrevendo de tantos homens a cuja memoria devo a homenagem da minha saudade, deixasse de falar d'aquelle cujo sangue corre nas minhas veias, o mais dedicado, e tambem o mais amado, de todos elles.
Junho de 1889.
* * * * *
III
Alexandre Herculano
Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais notavel historiador portuguez do nosso seculo. Avistei-me com Alexandre Herculano em 1874, e d'essa entrevista deixei memoria no livro que se intitula _O capote do sr. Braz_. Quando o eminente escriptor morreu, tentei traçar o seu perfil litterario n'outro livro, que então publiquei, _O Porto por fóra e por dentro_.
Hoje, porém, desejo apenas procurar na colossal individualidade de Herculano um outro aspecto, que aliás tem sido pouco explorado: a sua ephemera vida politica. Mas quer-me parecer que esta pagina, que acrescento agora á biographia do grande historiador, poderá conter elementos não de todo inuteis para quem houver de escrever um dia, definitivamente, a monographia completa da sua brilhante existencia.
Alexandre Herculano padecera as contrariedades da guerra civil, emigrára na onda dos liberaes que fugiram ao triangulo do patibulo, e voltára com D. Pedro a Portugal.
Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser um dos primeiros homens politicos do constitucionalismo, se não fossem naturalmente subjugados por uma organisação de poeta, com todas as qualidades e os defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam exhibir no forum, no parlamento ou nos conselhos da corôa, quando não têem, como Herculano teve, a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada passo os contraria e azéda.
Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante a sua ephemera vida politica, de ser um poeta, no sentido elevado d'esta palavra, um poeta cujos naturaes caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel ás conveniencias partidarias, ás manobras do parlamento e ás intrigas de gabinete.
Elle proprio o confessa quando diz: «Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o auctor de _D. Branca_, do _Camões_, de _João Minino_; o sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil do Mindello, não tiveram um cantor: _e apenas eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de tanta riqueza poetica_.»
_A Voz do propheta_, um dos seus mais notaveis escriptos politicos, não é senão um grito lancinante de poeta contra a revolução de 1836; a colera sublime de um poeta da _Carta_, deixem-me dizer assim; de um coração delicado que via ligada á memoria da _Carta_ a recordação dos seus melhores dias de soffrimento, de lucta e de esperança.
«A carta, escrevia elle em 1867, fôra como a estrella polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das tempestades, do desalento. _Vivia depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações novas._
Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto de vista exclusivamente politico dos homens que procuravam assaltar o poder, fazendo a revolução ou defendendo a _Carta_, d'esses homens que accentuavam agora em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham principiado a separal-os na emigração, collocava-se no ponto de vista desambicioso e romantico do homem que sustenta uma causa pelo estimulo sincero da sua propria convicção e da sua propria fé n'essa causa.
Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente, façamos-lhe essa justiça, que estava ali um litterato eminente, um espirito superior, mas que aquelle homem não _fazia sombra_ a ninguem como politico.
Não tinha coração, nem consciencia, nem caracter para isso. Era um teimoso honrado, um pensador insubmisso. E se Alexandre Herculano entrou em 1840 no parlamento foi o homem de lettras que levou pela mão o deputado.
Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico amavel de salão, escrevia cartas sobre cartas para o Porto, a José Gomes Monteiro, que nada valia como politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleição por aquella cidade, berço de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se em pleno parlamento, logo que ali entrou, de que não fizera um pedido, de que não escrevera uma carta para obter o diploma de deputado.
Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus companheiros de emigração, poria o fito em escalar o parlamento, fosse como fosse. O caso era entrar, para _chegar_. Mas ao passo que Garrett comprehendia isso, Herculano não o comprehendia assim. Por isso Garrett chegou a ministro, e Herculano abandonou a vida politica.
Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que principiou a 26 de maio de 1840, Alexandre Herculano usou pela primeira vez da palavra, na discussão da resposta ao discurso da corôa, em sessão de 6 de julho.
_O sr. Alexandre Herculano_--Sr. presidente, erguendo-me para dar a minha opinião sobre as graves questões que se têem ventilado n'esta camara, eu, deputado até aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito passo que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas cadeiras, para obter a qual _ninguem ousará dizer que eu gastasse uma rogativa, uma carta, ou uma palavra_; n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam, sem se lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em instrumento de martyrio, se não as queremos tornar recordação de remorsos, que nos acompanhe por todo o resto da vida.
«É esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos do coração, e as convicções do entendimento, que me cumpria fazer hoje, tendo de censurar o ministerio, no qual ha um homem a quem devo grandes obrigações, e mais que obrigações; antiga amisade. Se alguns serviços eu fizer n'esta camara á minha patria, que ella não m'o agradeça; mas agradeça-me o sacrificio que hoje lhe faço do mais santo dos affectos humanos, a boa e leal amisade. (_Grande attenção_).
«Da exposição do illustre deputado o sr. J. A. de Magalhães, vi eu (e ainda vejo, porque as razões dos srs. ministros que já fallaram, me não satisfizeram) que o governo tem deixado peiorar a situação das nossas relações estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade do ministro ultimamente encarregado d'este ramo de administração? Esqueceria elle o bem do paiz para só curar que das mãos lhe não cahisse esse pomo do bem e do mal, tão tentador, e formoso, chamado a pasta de um ministerio? Será culpa d'um ou de todos? Não o sei; o que m'importa é o facto para o haver de censurar como devo: visto que os meus constituintes me mandaram para este logar.
«Mas esta censura não cahe só sobre o ministerio actual: cahe tambem sobre o que o precedeu; porque se no tempo d'aquelle houve descuido (ao que parece) sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha havido tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo.
«E recordo-me hoje do que ha muito é passado, porque sobre os homens da minha crença politica se lançaram crueis accusações de falta de patriotismo; porque eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos jornaes que advogam a causa da revolução permanente, asselladas com o ferrete de lista ingleza.»
Muitas passagens d'este discurso foram vivamente applaudidas.
Citaremos as seguintes:
«Nem os homens da revolução quizeram vender Portugal á França; nem o partido cartista o quiz vender á Inglaterra; nem nenhum ministerio passado, presente, ou futuro, o vendeu ou o venderá a ninguem. (_Vivissimos apoiados_).
«E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nação se ergueria como um só homem, e esmagaria os infames que atraiçoassem a terra da sua infancia; que chamassem os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas que cobrem as cinzas dos nossos paes! (_Muitos apoiados_).
«Depois nós iriamos afiar as armas nas campas dos valentes d'Aljubarrota; e pelejariamos até o ultimo de nós cahir moribundo pela independencia nacional!
«Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em ess'outras sentam-se homens, que juntos combateram nas linhas do Porto; juntos velaram noites longas e dolorosas; juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes desacompanhado de esperança, sem que nunca se vissem uns aos outros enfiar ou tremer; sem que nunca imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse os seus companheiros d'armas. Como é possivel que hoje irmãos reneguem da confiança em seus irmãos? Penhor do procedimento presente seja o procedimento passado. Qual de nós pertenceria a um partido que não tivesse por bandeira--_independencia e liberdade_?» (Vozes: _Muito bem, muito bem_).
Este discurso de estreia revela o homem de lettras _depaysé_ no parlamento. É um academico que fala, encadernando em bons periodos litterarios uma alma delicada de poeta, que sinceramente presta culto á terra em que nasceu e á amizade que o liga a um dos ministros. Nada faz suppôr n'este discurso que esteja ali o argumentador capcioso e sophista que haja de entrar em todos os debates da politica apaixonada, em todos os incidentes facciosos e obstruccionistas, o _rabula_, o furão da politica.
Rodrigo da Fonseca Magalhães, a raposa astuta, conhecia bem Herculano, sabia por onde havia de dirigir-se para lisonjear o homem de lettras. Por isso comparou-o a Lamartine, um grande escriptor, tambem poeta da politica, e falou ao coração de Herculano a linguagem affectuosa da amizade. Procurou rendel-o tocando todas as fibras mais sensiveis e impressionaveis da organisação de um homem de lettras que tinha, sob um feitio ás vezes aspero, um coração de ouro.
Foi pois o ministro do reino que se levantou para responder por parte do governo.
Começou por prestar calorosa homenagem ao talento e ao caracter de Herculano.
«Sr. presidente, disse elle, principiarei por dar os parabens ao nobre deputado, que acaba de falar, pelo seu primeiro discurso n'esta camara, que nos promette a honra que tem a camara franceza de possuir monsieur de Lamartine; sem embargo de que lançou censuras sobre o ministerio a que eu pertenço. Eu sou o amigo a quem o nobre deputado se dirigiu, e tenho de o contradizer, porque elle quiz persuadir a assembléa de que me devia alguns obsequios: o nobre deputado nenhuns me deve, e pelo contrario se em algum de nós ha divida, pesa sobre mim. Estou certo de que as suas palavras sairam do coração, as ideias da sua intelligencia na questão de que se trata, questão solemne e solemnissima para mim, a maior em que me tenho visto até agora.»
Não se enganou Rodrigo da Fonseca Magalhães se, como suppomos, viu em Alexandre Herculano o homem que, longe de manejar as armas politicas nos combates de todos os dias, só uma vez por outra havia de tomar a palavra em assumptos que mais ou menos pudessem lisonjear as tendencias do seu espirito.
Assim aconteceu; a raposa vira bem.
Na sessão de 1 de agosto, Alexandre Herculano, como membro da commissão de instrucção publica, pronunciou algumas palavras sobre o projecto da jubilação dos professores.
Transcrevemos uma passagem d'esse pequeno discurso:
«O homem que ou aquecia as tenazes na inquisição de Evora, ou fazia cousa similhante está aposentado; e creio que não ha muita justiça em um tal accumular. (Uma voz--E o que tocava os folles do orgam na Patriarchal!) É por isto, sr. presidente, que eu requeiro que se approve o parecer da commissão de instrucção publica, sobre o direito d'accumulações dos professores, e que as commissões respectivas dêem o seu parecer sobre as outras classes, para que a essas a quem a mesma accumulação competir, se torne extensiva a disposição d'esta lei.»
Na sessão de 11 de agosto, Alexandre Herculano tornava a falar sobre o mesmo assumpto, e dizia:
«Eu entendo que a rasão da lei dar o direito de accumulação aos professores, é porque estes professores durante 20, 25, 30 annos de serviço accumularam na mão do Estado um capital productivo. Por exemplo, o professor de instrucção primaria, converteu um bocado de pedra ou um bocado de pau n'um homem; um serrenho que desce das montanhas, e vem para a escola primaria, não dista da animalidade cousa alguma; eu tenho conhecido alguns, que realmente distam mais de uma creatura humana do que de uma alimaria: isto é verdade, e o professor de instrucção primaria converte este ente n'um homem, e em um cidadão productivo para a sua patria, o que por certo não seria, se não fosse o cuidado do professor de instrucção primaria. Estes homens passam ás escolas superiores, e vão ser magistrados, e vão ser militares, vão ser fabricantes e artistas, e emfim occupar todas as posições sociaes, tornando-se assim productivos, e augmentando a riqueza nacional, que como todos sabem (porque todos aqui sabem o que é economia politica) consiste em capitaes accumulados pela intelligencia, e pelo trabalho. Esses capitaes são os que os professores accumulam nas mãos do Estado, porque elles são a origem primordial d'elles.»
Na sessão de 27 de agosto, Alexandre Herculano mandou para a mesa, por parte da commissão de instrucção publica, uma substituição ou antes nova redacção do projecto de lei, que restituia os professores da academia do Porto aos seus respectivos logares, de que haviam sido demittidos em consequencia dos acontecimentos politicos posteriores ao dia 9 de setembro de 1836.
Na sessão de 21 de setembro discutiu-se o projecto de lei relativo aos abusos de liberdade de imprensa.
Alexandre Herculano tomou a mão para falar.
É muito saliente esta passagem d'esse seu discurso:
«Os abusos d'esta liberdade podem reduzir-se a tres classes--abusos contra a religião, e a moralidade publica--abusos contra a honra dos cidadãos--e abusos contra a segurança do Estado.--Entendo que qualquer d'estes crimes é gravissimo, e que as penas contra elles devem ser tambem gravissimas: eu não tinha duvida nenhuma em votar, que o homem que calumnia um empregado, ou um particular por via da imprensa, soffresse até um degredo perpetuo para a Africa; e porque? Porque é um assassino do espirito, da alma, assim como o homem que ataca com um punhal na estrada, é o assassino do corpo; e eu não distingo entre estes dois assassinos; não sei se diga, que detesto mais o assassino da alma, aquelle que me rouba todas as minhas esperanças sociaes. Era aqui, sr. presidente, que eu desejava todo o rigor da lei; mas não queria nenhuns embaraços para o exercicio d'uma garantia, que pela constituição têem todos os cidadãos; porque, torno a repetir, não tenho a honra de ser legista, mas entendo, que uma lei que regula não destroe, e eu vejo destruido este direito para todos os que não tiverem os meios de fazer este deposito, ou dar esta fiança».
Na sessão de 3 de outubro, discutindo-se o orçamento do estado, Herculano occupou-se da verba destinada á conservação dos monumentos nacionaes.
«Desejava agora saber, disse elle, o que se ha de fazer só com oito contos, quando para o convento de Mafra vejo que são precisos treze; isto é, só para este edificio; propondo-se agora oito contos para os reparos de todos os monumentos, pretendia eu saber como ha de o sr. ministro repartir esse dinheiro? Por tal motivo parece-me mais conveniente que se espere pela presença do sr. ministro para vermos o que elle diz a este respeito.»
Tornando ainda a usar da palavra na mesma sessão, conformou-se com as explicações dadas pela commissão.
«Não queria eu decerto que estes monumentos se concluissem com o que nós lhe vamos dar; queria que se reparassem, que se evitasse a sua ruina, mesmo porque hoje não ha em todo o reino artifices que sejam capazes de os acabar. Contento-me pois com isto, e muito mais com esta ultima declaração da commissão; porque ha muitos monumentos que não estão incluidos no numero d'estes que se chamam monumentos historicos, e posso citar o castello da Feira que se está arruinando e deitando abaixo, e pouco a pouco se vae apossando d'elle um sujeito que é dono das terras visinhas ficando d'aqui a poucos dias perdido para a nação esse primor d'arte. Muitos outros ha que têem a mesma sorte.»
Até aqui temos visto apenas o orador desambicioso, que não mira a fins politicos, que expõe parcimoniosamente a sua opinião, até com certa hesitação algumas vezes, mas sempre impellido por generosos sentimentos; e através do orador parlamentar, que o é sobreposse, descobrimos perfeitamente o gosto, a predilecção, a tendencia do homem de lettras, que faz a apologia do professor de instrucção primaria, o primeiro cabouqueiro do espirito humano, e dos monumentos historicos, que são a genuina expressão da arte nacional na serie dos tempos.
Em fevereiro de 1841 discutiu a camara dos deputados a celebre questão da propriedade litteraria, em que Almeida Garrett tão activa parte tomou, sendo sua a iniciativa do projecto.
Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observações.
Esta famosa questão, que tão discutida tem sido sob o regimen liberal, veio surprehender Herculano, queremos crêl-o, no parlamento. Ella não tinha passado ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras, impondo-se profundamente á sua attenção. Só onze annos depois foi que Alexandre Herculano escreveu a celebre carta a Almeida Garrett, e ha n'essa carta alguns periodos significativos, referentes á discussão de 1841. Diz Herculano a Garrett:
«Se, porém, v. ex.ª quer que por esse facto eu mostrasse seguir as ideias de v. ex.ª declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de mim qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa provir-me. _Dez annos não passam debalde para a intelligencia humana, e eu não me envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender._»
Estamos persuadidos de que o debate parlamentar ácerca da propriedade litteraria encontrára Alexandre Herculano sem opinião definida sobre esse assumpto. Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos de que o sistema nervoso de um homem de lettras é ás vezes susceptivel, e que os proprios factos da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica. Herculano, o irritado contradictor da propriedade litteraria, reconheceu-a nas transacções honestas que fizera com o seu editor, reconheceu-a no seu proprio testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros.
Os grandes talentos têem d'estas aberrações nervosas. São o claro-escuro das suas concepções geniaes.
Espirito que a meditação de uma vida repousada tornára cada vez mais avesso ás promptas soluções dos negocios publicos, poeta da solidão, mas sempre poeta, Herculano, desfolhadas as ultimas illusões, aborrecêra a vida publica, e creára pelo parlamento a repugnancia que se deve sentir por um paiz onde a nostalgia nos acommetteu e pungiu.
Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo circulo de Cintra. Este circulo, segundo o decreto eleitoral de 1852, dava dois deputados. Alexandre Herculano saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco de Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente se notabilisára no parlamento como _apagador_ encartado. A lenda ridicularisava-o. Disse-se que Herculano não quizera ir á camara de braço dado com um _apagador_ satirisado. Não acceitamos esta versão. É certo que elle renunciou o logar de deputado, e que a razão adduzida na sua _Carta aos eleitores de Cintra_, agora reimpressa no II volume dos Opusculos, é pouco menos de futil.
Essa razão era--_que nenhum circulo eleitoral deve escolher para seu representante individuo que lhe não pertença_.
Politicamente o argumento é frivolo. Mas foi decerto o primeiro que Alexandre Herculano pôde encontrar para desculpar o seu aborrecimento por a vida politica, onde sempre estivera, postoque pouco tempo, contrariado e constrangido.
O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores, do que entre politicos interesseiros que punham a sua candidatura a ministros.
Na sessão de 13 de agosto d'aquelle anno foi discutido o parecer da primeira commissão de verificação de poderes acceitando a renuncia do logar de deputado, para o qual Alexandre Herculano havia sido eleito pelo circulo 26, sem que chegasse a tomar assento na camara.
O sr. Pegádo propoz a seguinte substituição ao parecer da commissão:
«A camara, considerando que a renuncia pedida pelo sr. deputado Alexandre Herculano não está exacta e rigorosamente no caso da lei, convida-o a acceitar o logar de deputado.»
Entendia o sr. Pegádo que Alexandre Herculano, tendo expendido pela imprensa as razões da sua renuncia, não julgaria logico mudar da opinião, mas que a camara podia tiral-o da posição melindrosa em que se achava, convidando-o a ir occupar o seu logar no parlamento.
Por parte da commissão, o sr. Mello Soares disse que se o sr. Pegádo tinha em mente fazer o elogio de Alexandre Herculano, a camara estava de accordo com as suas palavras, _porque o sr. Alexandre Herculano faz uma época ao paiz, pelo menos uma época litteraria_; mas a questão era outra, havia uma lei a cumprir e uma vontade a respeitar.
A requerimento do sr. Coelho do Amaral, julgou-se a materia discutida, e o parecer foi approvado.
Os animos generosos e fidalgos saboreiam ás vezes com agreste voluptuosidade o sentimento da resistencia obstinada ás correntes sociaes que em sentido contrario ás suas tendencias os solicitam.
Foi o que aconteceu a Alexandre Herculano. Elle cristallisára no seu aborrecimento pelo mundo politico, pelo scenario avariado do parlamento, onde se reconhecêra inferior aos outros, talvez mesmo a si proprio.