Vinte Annos de Vida Litteraria

Part 12

Chapter 123,649 wordsPublic domain

Chegára a _paz geral_, que o meu excellente amigo D. Polycarpo Lobo, hoje coronel de lanceiros,[15] havia prophetisado. Os adversarios de 1848 tinham ensarilhado armas, os regeneradores de 51 haviam-se congraçado com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio Sampaio, com uma magnanimidade que faz honra á sua memoria, referendára o decreto que agraciou Antonio Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez de Thomar.

Em que abismo de recordações não mergulharia o espirito d'aquelles homens, que se estimavam na paz depois de se haverem odiado na lucta! Como elles ririam da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos do combate, que o ardor póde ser eterno, e que as suas proprias paixões hão de queimar durante toda a vida com a mesma violencia! E como elles chorariam intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das noites mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos de outr'ora, que se desfizeram em fumo!

Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio sentados nas suas cadeiras de ministros, e o marquez de Thomar sentado na sua cadeira de par do reino, meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles diziam...

Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a onda revolucionaria da _Maria da Fonte_ tinha rolado para o sorvedouro da historia, deixando maiores recordações no papel do que nos homens.

Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, por dentro e por fóra, a natureza humana.

De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio deviam achar-se da mesma estatura quando se medissem mentalmente. O valor d'estes tres homens divergia em determinadas aptidões; mas a energia de caracter tinha sido igual em todos tres.

Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á mão tente com os homens que se lhe oppunham; foram precisas duas revoluções para o derrubar, porque á primeira resistiu elle.

Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a penna, combatera-o implacavelmente com o _Espectro_, amargurára-lhe as horas de triumpho, os dias de poderio. Homem para homem; coragem por coragem.

Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os embates, que procuravam lançal-o por terra na sua gloriosa iniciação como ministro da corôa. Pôde dominar todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades, chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar.

Todos esses tres homens foram dominadores por sua vez, todos tres brigaram encarniçadamente, e todos tres eram corações generosos, almas de bom timbre, expansivas e affectuosas.

Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos podem encontrar-se e communicar, todos tres contemplarão lá do alto a sombra que projectaram na terra, e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos parece enorme. Porque, descontadas no homem politico as suas paixões, as suas furias de momento, o que a seus proprios olhos deve restar parecer-lhes-ha cousa pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, continuamos a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos vendo através da historia...

Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito de Costa Cabral, algumas notas discordantes.

Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria, mas a primeira condição para apreciar um homem politico deve ser, segundo penso, o exame detido e imparcial das circumstancias em que se encontrou. É preciso reconstruir toda uma época para julgar com segurança um homem politico. E as circumstancias em que Costa Cabral se encontrou foram das mais agitadas por que tem passado o governo constitucional n'este paiz.

Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario e conservador. Esta accusação póde ser fulminada contra a maior parte dos homens politicos de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar é transigir, dizia amiudadas vezes Fontes Pereira de Mello.

Pois bem, os homens de estado têem que obedecer ás correntes caprichosas da opinião--tão caprichosas como as da atmosphera. E a palavra opportunista, modernamente lançada na circulação, explica bem todas as eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica.

Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral de renegado.

Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde ser feita igual accusação!

Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, essencialmente, uma força instavel, que se impõe muitas vezes á vontade dos homens, subjugando-a.

Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha principios absolutos, nem na sciencia, nem na politica, nem em cousa nenhuma. Ao sistema astronomico de Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. Em politica tem-se visto tal paiz, como a França por exemplo, ser alternadamente monarchico e republicano. E cada individuo muda dentro de si mesmo centenas de vezes.

Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo da maior solidariedade politica que depois de 1834 se tinha visto n'este paiz. Por isso mesmo chegou a rodear-se dos mais dedicados amigos. Quem não era por elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A união faz a força.

O sr. Oliveira Martins accusa-o, no _Portugal Contemporaneo_, de ter governado sem um principio moral. Ah! Diogenes da politica, accendei as vossas lanternas, e procurae os principios moraes de todos os governos... Haveis de ficar ricos com o achado!...

Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver a viação publica, como o fez Fontes Pereira de Mello, se tivesse interessado no seu governo as classes operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado no poder.

Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.

Setembro de 1889.

[15] Esbocei saudosamente o seu perfil no livro _Figuras humanas.--Nota da 2.ª edição_.

* * * * *

XXII

Alexandre da Conceição

Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na Academia Politechnica do Porto quando eu tentava na imprensa a minha estreia litteraria. Era um dos poetas novos da phalange de Guilherme Braga, José Dias d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição ao Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, que haviam quasi abandonado as musas a esse tempo.

Principiou militando nas fileiras do romantismo, que era a corrente dominante da época. Em 1865 reuniu em volume as suas poesias sob o titulo de _Alvoradas_. E dez annos depois fez segunda edição augmentada com novas composições.

Como poeta, se não podia medir-se com a estatura genial de Guilherme Braga, era comtudo muito distincto. Dou como _specimen_ aquella das suas poesias que teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro _Alvoradas_, póde ajuizar, pelo _specimen_, do valor de Alexandre da Conceição como poeta:

PERGAMINHOS

Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos; Eu tenho mais orgulho do que pensas E rio-me tambem; É debalde que tentas humilhar-me, Porque eu ouso pensar--vê tu que insania! Que tambem sou alguem.

Alguem que veio ao mundo sem familia, Um producto do acaso, um paria, um misero, Um engeitado emfim, Um sêr sem protecção das leis canonicas, Filho sem pae no assento do baptismo, Mas um sêr, inda assim.

Levantou-me da estrada do infortunio Um homem que entendeu que um filho espurio Tem jus a protecção, Um homem que entendeu que é vil e infame Atirar para o lodo dos hospicios Uma alma em embryão.

Este homem deu-me a força do seu braço, Legou-me em vida o seu honrado nome... Vestiu quem era nu, Depois, quando me viu robusto e forte, Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta, Trabalha agora tu.»

Luctei, passei curvado sobre os livros A mais florida quadra dos meus dias Sereno a trabalhar; Estudei, progredi, illuminei-me E um dia para entrar em novas luctas, Pude emfim descançar.

É que eu vi as premissas da victoria, O applauso espontaneo dos estranhos Incitar-me a seguir, É que eu via deante dos meus passos Rasgar-se ampla, infinita, luminosa A estrada do porvir.

Se alguma cousa sou a mim o devo, Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo, Ao amor de meus paes, Á força de vontade, á intelligencia, Á sociedade pouco, ás leis bem menos... E a ti não devo mais.

E és tu que vens fallar-me em pergaminhos? E és tu que vens fallar-me nas riquezas Que o destino te deu? Eu não troco os meus louros de poeta, As conquistas do estudo e o meu futuro Por tudo quanto é teu.

És louca!... Sabes lá que orgulho é este Do homem que a si só deve o que vale E que espera valer? Ha lá brazões illustres que equilibrem Estes louros viçosos d'um triumpho Que soubemos mercer?

És louca! Sabes lá como eu sou rico, Rico de muita honra e muita esp'rança E muito coração? És louca! Mostra a escravos as riquezas, Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro, Sou bastante christão.

E quem te disse a ti que eu te invejava Esse ouro, que é teu unico prestigio E o nome a teus avós? Orgulhosa!... pois julgas decidido Qual seja, n'esta lucta de vaidades, O mais nobre de nós?

Pois julgas que ser nobre é mero acaso, Uma questão de berço ou de destino, Uma questão de paes? Não vês que se a nobreza fosse heranca, Tendo eu e tu por paes Adão e Eva, Seriamos eguaes?

E não somos, bem vês, porque a nobreza Não se lega, conquista-a a intelligencia, O talento, as acções; Ora eu, se me permittes a vaidade, Colloco um pouco abaixo dos meus louros Todos os teus brazões.

Devolvo-te portanto os teus insultos E a suspeita de te adorar os risos, Que nunca mendiguei; Se és bella e tens orgulhos de rainha, Mulher, entende bem, eu sou poeta, Tenho orgulhos de rei.

Que é esta a nossa força; n'estes tempos Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro Para nos insultar, É modestia a orçar pela baixeza Não fazermos sentir aos maus e aos futeis Quem devem respeitar.

Não me compares, pois, a horda ignara Que te adora os sorrisos pelo ouro... Eu tenho coração, Tenho por pergaminhos o trabalho, Por thesouros a minha intelligencia E a honra por brazão.

Nós, os homens que andamos procurando Á luz do coração por este mundo Os caminhos do bem, Como trazemos alto o pensamento E a fronte erguida ao céo, temos orgulho, Bem vês, como ninguem.

Em 1867 publicou o poemeto _Abençoada esmola_, que considero inferior á maior parte das composições incluidas nas _Alvoradas_.

A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito prejudicára a inspiração. Sem embargo, sente-se ainda na _Abençoada esmola_ a destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado a prosaicas occupações.

E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para illudir-se. A este respeito discutimos n'uma serie de cartas publicadas no _Jornal do Porto_ desde dezembro de 1871 a março de 1872.

A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos antes. Uma das minhas primicias litterarias fôra justamente beliscada por Alexandre da Conceição n'um folhetim do _Nacional_. Quando a questão rompeu no _Jornal do Porto_, tudo fazia suppôr que viesse a azedar-se, mas quiz por excepção a minha boa fortuna que eu ficasse sendo favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da Conceição, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinião, especialmente em politica.

Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido em que militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio á imprensa, com nobre independencia, affirmar e defender as suas convicções. Não havia conveniencia de situação que lhe atasse os braços. O seu caracter era resoluto na expansão das suas convicções.

Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera peleja litteraria com Camillo Castello Branco, a proposito do _Euzebio Macario, historia natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes_.

Na _dedicatoria_ declarava Camillo o intento que o demovera a escrever essa novella humoristica: «Perguntaste-me um dia se um velho escriptor de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os _tics_ do estylo realista. Respondi temerariamente que sim.»

O _Euzebio Macario_ foi a justificação d'esta affirmativa, d'este compromisso espontaneamente tomado.

Camillo, o inexcedivel romantico do _Amor de perdição_, provou o seu pulso de escriptor realista no _Euzebio Macario_ e, depois, na _Corja_. Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da litteratura, não havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto, processos que lhe desnervassem o braço.

Alexandre da Conceição que principiara, como todos os litteratos do seu tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e em litteratura para o realismo.[16] Exagerou o seu enthusiasmo, fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. Não viu deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco. Cuidou ver apenas no _Euzebio Macario_ a pretensão _de lançar o ridiculo sobre a escola realista_.

D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggressões pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicação no facto de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham do afôgo com que elle abraçava os processos litterarios da escola realista.

O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte não houve trepidação que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um polemista insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os excessos que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no combate.

Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal têem o seu lado triste, e esta mais que todas, porque Alexandre da Conceição, no fundo da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios do seu contendor.

Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, no _Café Marrare_, n'uma calmosa manhã, em que ali entrámos.

O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade publica acompanhou-o, commentou-o e, faz pena dizel-o, divertiu-se. Mas estou plenamente capacitado de que nenhum dos dois guardou duradouro resentimento d'essa cruel peleja.

... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que resta? Camillo, irmanado na grandeza da desgraça a Milton, agonisou privado da luz dos olhos até que, revoltado contra as trevas, arremessou a sua alma para as alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. Alexandre da Conceição, adormecido na immobilidade da morte, não é mais do que o envolucro decomposto d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella alma ardente, mas fidalga.

E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças ficaram ao desamparo, sem pae e creio que... sem pão.

[16] Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde (1882) compilados no livro a que deu o titulo de _Notas, ensaios de critica e de litteratura._--_Nota da 2.ª edição._

* * * * *

XXIII

Julio Cesar Machado

No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos espiritos alegres, pendeu amortecida como essa outra flôr, que no campo chamam _bons dias_, quando a tarde principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...

A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, que desperta voltada para o oriente, e que sempre vae seguindo o sol, aquecendo-se n'elle para melhor sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida por uma dolorosa noticia...

A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos cachos de glicinia que, nas estradas monotonas, espreitam ás vezes sorrindo do alto dos muros das quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar por elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria sem lhe dar um momento de attenção em passando...

A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes com a sua sorte, esta flôr que, nas mais agrestes paragens, parece cantar na festiva expansão do seu perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, bem florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, para occultar a sua commoção, como tambem ás vezes a madresilva se encobre com as folhas da hera, que nos braços verdes a vae levantando ao alto das grandes ruinas...

A modestia, a violeta timida que não faz alarde da sua delicadeza, e que é o caracteristico das almas boas e simples, chorou sobre a terra que não tardaria a devorar, no seu seio egoista, o cadaver do homem que melhor a personificou no mundo...

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Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço sempre, tão costumado a rir, tão interessado pelo mundo, tão apegado á vida, que até parecia não estar disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos seus pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, n'um drama de sangue, que só de recordal-o sente a gente o coração confranger-se?!

Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se suicidem, comprehende-se, explica-se de algum modo. A vida era-lhes pesada, não tanto por si mesma, como por que elles proprios exageravam o peso da vida.

Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a scismas e presentimentos, tão bem disposto sempre a não extrair de toda a agua de uma nuvem mais que uma lagrima--apenas!

«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle (o livro _Scenas da minha terra_); tel-as-ha trazido alguma nuvem ligeira, que um raio de luz mais ligeiro ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus sorrisos, essas lagrimas...»

«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sair da sua terra, e até cuidam que o barco se ha de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. Muito pouco merecem, pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.»[17]

«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma ineffavel felicidade; nem entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, é morrer!»[18]

«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar da anecdota!»[19]

Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes de Mendonça, porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu o tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final.

O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira a uma allucinação de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de terra, nada fica de pé dentro de poucas horas.

Todos nós nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mão, muito ufano d'essa creança de calção e blusa, a quem falava curvando-se, a quem sorria escutando-a.

Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de feições miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com louvor ao seu livro mais querido, _Os contos ao luar_.

--Ó Julio, o teu prologo dos _Contos_ leio-o ás vezes para me sentir tão moço como ha vinte annos. «... E depois, eu não sei bem por que chamei ao meu livro _Contos ao luar_!» Bonito, como eram então as coisas bonitas!

--Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor do que o livro... respondia-me elle uma vez.

E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...

Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o pequeno Julio levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae, que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. Não tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois de haver apertado a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relações com o outro amigo que o reprehendera.

Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o perdeu;--basta por si mesmo a explicar a contradicção que em Janeiro de 1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.

Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que nos impelle para todo aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada.

Foi no livro _Manhãs e noites_ que elle saudou com excessivo favor os meus primeiros trabalhos litterarios, as _Peregrinações na aldea_ e o romancesito _Idyllios á beira d'agua_. Não me conhecia pessoalmente, elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado algumas cartas.

Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu, recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino.

Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um livro que me haviam comprado no Porto: _Photographias de Lisboa_.

Reproduzo uma pagina d'esse livro:

«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, está o escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros, retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu explico a phrase, que póde parecer descomposta. É que as mulheres, por naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahotico _atelier_ do Julio.

«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor no _ménage_, é um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado pela photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo, Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca Magalhães, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.

«A proposito dos escriptores francezes do album, falamos, á segunda vez que nos viamos, de litteratura franceza. Não sei qual de nós passou dos talentos masculinos da França para os femininos. Provavelmente foi o Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, mãe de Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei não haver encontrado o seu nomeado livro _Physiologie du ridicule_. É effectivamente raro este livro, cuja primeira edição data de 1833.

«--Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo a sua livraria, encontra-se a felicidade onde se não espera. Todavia é mais facil encontral-a debaixo d'um telhado do que debaixo d'uma pedra, d'onde a desencantou o nosso Camillo.

«E tirando para fóra um livro:

«--Ora se você póde reputar felicidade instantanea o encontrar a _Physiologia do ridiculo_, alegre-se que vae vêl-a.

«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:

«--E lel-a.

«O Julio havia escripto:

«_Ao seu amigo Alberto Pimentel--lembrança de Lisboa em outubro de 1873._

_Julio Cesar Machado_.»

«E entregando-me o livro:

«--E tel-a.

«Era impossivel recusar; acceitei.»

Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade tornaram-se familiares, intimas, o _tu_ veio consolidal-as como entre dois bons amigos de collegio, que se conhecessem desde a infancia.