Vinte Annos de Vida Litteraria

Part 11

Chapter 113,666 wordsPublic domain

Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás vezes pedia-lhe a gente qualquer cousa. Elle, parecendo sempre distraido, respondia affirmativamente. Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá se esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não tinha esquecido. Quando já menos se esperava, dava accordo de si, satisfatoriamente.

Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, e pensava em colleccionar as cartas do grande historiador, mas não o chegou a tazer. O tempo fugia-lhe, não só porque elle o perdia com os outros, mas porque tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a Academia, e o Conselho Superior de Instrucção Publica. E de mais a mais faltava-lhe methodo para trabalhar. Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.

Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um estilista, escrevia com pureza e elegancia. Apreciava muito estas qualidades nos outros, especialmente em Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, teve uma grande admiração. _A Semana_, jornal que Silva Tullio dirigira de 1851 a 1852, atacou violentamente Camillo no seu noviciado litterario. Mas o tempo passára evidenciando a supremacia intellectual de Camillo, o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, e Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas admiradores do eminente romancista.

Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se no _Hotel Universal_. Jantei ali com elle e, quasi ao terminar o jantar, entrou Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo _por mestre_.

* * * * *

XIX

Conselheiro Viale

Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me ao Porto uma carta dos srs. Lucas & Filho, proprietarios da Bibliotheca Universal, convidando-me para escrever um romance historico.[13]

Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o romance _Annel mysterioso_ começou a ser publicado em fasciculos.

Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. Lucas & Filho me instigou a escrever outro romance, para seguir-se immediatamente ao _Annel mysterioso_.

Aquelles editores davam como razão d'esta proposta o facto de ser recebido com agrado o meu romance que estavam publicando.

Confesso francamente que me encontrei n'uma situação embaraçosa lembrando-me de que é sempre difficil agradar na repetição, e de que a empresa editora poderia ser prejudicada pela aventura de querer que eu succedesse a mim proprio. _Non bis in idem_, diz o proloquio. Escogitei então na escolha de um assumpto que lograsse despertar maior interesse do que o _Annel mysterioso_, e ao cabo de dois ou tres dias pareceu-me haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda explorada a lenda piedosa que se havia formado em torno do sarcophago de D. Pedro V, afigurou-se-me que esse assumpto valeria por sua mesma popularidade. Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em meu favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação do _Annel mysterioso_, seguiu-se immediatamente a da _Porta do Paraiso, chronica do reinado de D. Pedro V_. E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que deixou lucros á empresa editora. Lucas filho morreu pouco tempo depois, mas ainda vive o pae,[14] com tipographia na rua dos Calafates, e esse poderá dar testemunho de que é inteiramente exacta a minha narrativa.

Comecei a escrever a _Porta do Paraiso_ no Porto. A meio do romance, caiu-me em casa um despacho para a secretaria da Procuradoria Regia de Lisboa, e vim tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. Vim definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui os ultimos capitulos.

Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como um Creso na rasão de 600 réis por dia...

Perdão! Não era isto o que eu queria dizer.

Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa que conheci o conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe apresentado por Silva Tullio na Bibliotheca Nacional. Como eu não vim occupar uma posição brilhante, d'estas que logo põem em evidencia um homem, ainda que elle valha pouco, fui vagarosamente fazendo a minha provisão de relações sociaes, conhecendo hoje um politico notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje um actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, laboriosamente, o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.

Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca Nacional, quando eu cheguei com Silva Tullio. Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua cabeça de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma lente para fixar a minha phisionomia. Estive em foco alguns momentos. Falando-me com extrema amabilidade, destacava as suas palavras n'um tom gravemente conceituoso, que o habito do professorado explicava. E na sua maneira de pronunciar havia um _tic_ original, que fazia retinir algumas sillabas.

Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado das lettras, quizesse espontaneamente conhecer um velho academico. Fez sentir que o grito de guerra, dos arraiaes litterarios, era «_Place aux jeunes_», ainda que para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os velhos.

Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça pelos que chegavam. O seu resentimento era fundado. A injustiça desmandára-se até á jogralidade. E elle, que sabia profundamente o muito que sabia, magoava-se com razão de que a multidão dos novos passasse sob a sua janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, ridicularisando-o no seu apego a Homero, no seu fanatismo por Pindaro. A maior parte dos novos não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.

Falou-me da _Porta do Paraiso_, disse-me que o livro lhe avivára recordações saudosas de el-rei D. Pedro V é da rainha D. Estephania; que de ambos fôra professor; e que tendo ido á Allemanha, para ensinar portuguez á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito um opusculo, que eu alias só conhecia por uma transcripção. Offereceu-me esse opusculo e mandou-m'o d'alli a dias: _Apontamentos para uma biographia de S. M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima memoria_, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.

Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos evidenciaram-se logo ás primeiras palavras, denunciando a firmeza convicta de um crente. Viale viveu sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e acatava profundamente a auctoridade da igreja romana; homem de lettras, adorava o classicismo, dormia, como Alexandre, com Homero á cabeceira, a adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um trecho da _Illiada_ ou uma ode de Pindaro.

Collaborou no _Jornal da Sociedade Catholica_, redigiu o _Catholico_, traduziu o primeiro canto da _Odissea_, o sexto da _Illiada_, os cinco primeiros cantos do _Inferno de Dante_, o episodio do conde Hugolino, e bosquejou em oitava rima a historia de Portugal, propagando pelas escolas de instrucção primaria as tradições gloriosas do passado.

A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da sua alma; traça com uma linha geographica os limites da sua honesta actividade intellectual. Educar pela lição grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do catholicismo, foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.

Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze annos publicou um poema heroico, _David triumphante_, entrou no mundo das lettras pela porta da oitava-rima. Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, invadida pelos turcos, salvando sobraçado o ultimo thesouro da civilisação greco-romana. Não chegou cantando o amor, como todos, adejando por sobre os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se na Italia, abrigar-se no palacio dos Medicis em Florença, conversar em Roma com Leão X e Julio II, preparar em espirito a Renascença. Assistiu mentalmente á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas na resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem na lucta tenaz do catholicismo contra Luthero. Partindo da Renascença, parou horrorisado deante da Reforma. Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção era de tal modo pura e profunda, entrincheirava-se tão fortemente n'um baluarte de sciencia, que conseguiu atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem fazel-o vacillar um momento.

Eu tenho aqui, deante de mim, as _Tentativas Dantescas_ do conselheiro Viale, a sua traducção do _Inferno_ prefaciada por uma notabilissima carta de elrei D. Pedro V.

As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de seu proprio punho, na sua calligraphia senilmente arqueada, constituem a mais amavel das dedicatorias.

Eu era por esse tempo professor de historia de seu filho Luiz Filippe, um moço que ha de honrar largamente, nas lettras patrias, a tradição erudita do pae. O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, as mais subidas provas de consideração em que eu não deixei nunca de enxergar o coração affectuoso do pae através dos repetidos favores com que o academico, o professor, o hellenista confundiam a minha humildade de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official dos meritos de seu filho, não dependia de mim a sentença do seu exame, mas comprehendia que Viale me pedia, de um modo captivante, que ensinasse áquelle que devia ser o successor do seu nome tudo quanto na exiguidade do meu peculio historico lhe pudesse ministrar.

Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns annos, nunca mais tornei a avistar-me com o conselheiro Viale.

Maio de 1889.

[13] Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.--_Nota da 2.ª edição._

[14] Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a tipographia, que ainda subsiste.--_Nota da 2.ª edição._

* * * * *

XX

Eduardo Coelho

Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem...

A noite estava clara, levemente fria. Principiava a sentir-se um tudo-nada d'essa animação popular que, á meia-noite, havia de repartir-se pelos ranchos joviaes, de homens e mulheres, á saida da missa do gallo. As confeitarias resplendiam num grande espelhamento de guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam o _Jornal da Noite_, que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, era a unica folha que saía depois de posto o sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado e a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade alta. Para os theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se um formigueiro de espectadores, dobrando a esquina do largo das Duas Egrejas, onde hoje está a ourivesaria Leitão. Vendedores de _cautelas_ rouquejavam o pregão da _taluda_, o 4897, perseguindo a gente.

Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e, diga-se francamente, uma pequenina onda de saudade, mansa mas teimosa, envolvia o meu coração na salsugem de recordações esfumadas, de memorias fugitivas d'aquella noite de festa.

Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, eu ia aventurar-me a uma exploração, não direi tão arriscada como as do sertão africano, mas não inteiramente isenta de difficuldades, por certo.

Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo Coelho em sua casa, sem o encontrar, elle tivera a amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim de encontrarmo-nos _definitivamente_, fosse eu á redacção do _Diario de Noticias_, ás nove horas da noite.

Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as ruas de Lisboa sem o auxilio de ninguem, entrei no Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda da rua dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua do _Diario de Noticias_ é de recente data.

Complica-se com o encruzamento de varias travessas a topographia d'aquelle bairro. Ha pessoas que, comquanto nascidas em Lisboa, não se orientam facilmente no Bairro Alto, assim como tambem não são capazes de sair, sem que as dirijam, do labirintho do Bairro d'Alfama.

Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, o caminho do _Diario de Noticias_, e não me ficou barata essa audacia. Perdi tempo e passos. Mas sustentei heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta sequer. Aprendi n'aquella noite a complicada topographia do Bairro Alto, levei a cabo a exploração, sabe Deus com que trabalho!

Finalmente, entrei na redacção do _Diario de Noticias_ quarenta minutos depois da hora aprazada.

Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira vez, embora tivesse estado com elle em communicação epistolar, a causa da minha demora.

Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto, riu da minha aventura e, ficando silencioso um momento, acabou por dizer-me:

--Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. Você é um homem capaz de luctar, de soffrer para vencer. Perdeu quarenta minutos á procura do _Diario de Noticias_, mas ganhou o ficar habilitado a tornar cá com os olhos tapados.

Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, captivou-me com aquella sincera bonomia que era a feição predominate do seu caracter affectuoso: ficamos amigos.

Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro ou quarto acto de uma comedia, que já não sei como se chamava; Mas, pouco antes de acabar o espectaculo, Eduardo Coelho despediu-se. _Ia fazer a meia noite, com a sua familia_, disse-me. Eu não sabia o que era _fazer a meia noite_. Coelho riu-se.

--É o que lá, para as nossas provincias, se chama a consoada, a ceia do Natal.

Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo Coelho, proprietario e redactor principal do _Diario de Noticias_.

Em maio de 1889 chegava eu á _gare_ de Campanhã, no Porto, em virtude de um acontecimento de familia, que me trazia então dolorosamente preoccupado. Ouvi dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo o _Jornal da manhã_:

--Morreu o Eduardo Coelho.

--De repente?

--Sim, de repente.

--Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada constava...

Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador e alegre, que foi, deve dizer-se, _uma das forças do seu tempo_.

Depois de haver sido um dos _vencidos da vida_ (não no sentido pantagruelico que esta denominação está tendo hoje, mas no sentido economico e abstemio) elle conseguira, graças á sua imaginação, ter uma idéa que o salvasse.

Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores porque tiveram uma idéa: seja um plano de batalha ou a invenção de uma machina. Eduardo Coelho teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser pessoalmente proveitosa, tem aproveitado a muita gente: lançar um jornal de dez réis para noticias e annuncios.

Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. Eduardo Coelho affirmou esse duplo merito, e a sua idéa, feita jornal, conservou sempre a direcção que elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, já não poderá desgarrar-se.

Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances e dramas, folhetins e versos, elle teve comtudo o bom senso de nunca ser tão exclusivamente litterato no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a indole noticiosa e popular do _Diario de Noticias_.

Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do circulo de Popilius que a si proprio se havia traçado, e se as saudades da litteratura o tentavam a fazer arte por amor da arte, deitava o seu livro, espanejava-se em liberdade n'um volume independente, que era uma especie de gazeta feita... á gazeta.

Mas os moldes do _Diario de Noticias_ nunca foram alterados, o artigo litterario nunca floresceu tanto que ensombrasse a noticia, a _blague_ phantasista nunca se permittiu nutrir á custa do chocolate do annuncio--este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.

Dizer o que se passava, com uma grande investigação de pormenores, mas sem refolhos de linguagem que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse do leitor, eis o proposito inicial do _Diario de Noticias_.

Contar as occorrencias como qualquer pessoa que chegasse á escada as poderia contar, ainda sob a primeira impressão, e sem retoques de litteratice, n'um tom que tanto pudesse servir para o visconde do primeiro andar como para a velhinha do quinto, eis o que o _Diario de Noticias_ se propoz conseguir, e realisou.

Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam ás vezes a epiderme do _Diario de Noticias_: queriam-n'o mais enlitteratado, mais pintalegrete em estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade que fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do _Martinho_. Seguia o seu caminho, tranquillamente, resolutamente, e, graças ao seu trabalho honesto e indefesso, ia construindo predios na rua dos Cardaes ao passo que os seus criticos, trabalhando sempre, mas com peor orientação, viviam em casa de renda, com difficuldade em pagal-a.

Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, conseguiu que Lisboa inteira se cousubstanciasse com o _Diario de Noticias_, que, se o lermos com attenção, é a chronica da capital, escripta dia a dia, na flagrante nudez da sua verdade anatomica.

Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os litteratos) que chegue á porta esse vigilante mensageiro de todas as manhãs. Os outros jornaes podem interessar-nos mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo das nossas predilecções pessoaes ou politicas; mas o _Diario de Noticias_ diz-nos o que ha a dizer com a brevidade de quem dá um recado, informa-nos, faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para lermos, consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e não é um concorrente perigoso para as novas empresas jornalisticas, porque os dez réis que elle custa cristalisaram no orçamento domestico da população lisbonense, converteram-se em despesa ordinaria, não entram em linha de conta para o gasto, maior ou menor, que hajamos de fazer com os outros jornaes que se vendem avulso.

A velhinha da mansarda já tem como certo que, além do indispensavel á sua alimentação, ha de gastar um vintem por dia: dez réis para o seu _Diario de Noticias_, dez réis para o carapau do seu gato.

Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou chega de uma viagem, todos os moços de fretes lêem preliminarmente o _Diario de Noticias_, encostados ás esquinas das ruas.

Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma extravagancia dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha para amealhar, com os olhos postos no seu ideal gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato das _maltas_, para alimentação, renda de casa e despesas miudas, entra a verba effectiva do _Diario de Noticias_, cuja leitura se faz, as mais das vezes, em voz alta, para o grupo todo.

É isto ou não é isto?

Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou n'um facto indestructivel. Deixou alguns livros, mas a sua popularidade, a sua gloria, a sua evidencia não lhe veiu dos livros, veiu-lhe do _Diario de Noticias_.

No proprio dia em que elle se enterrava, o _Diario de Noticias_ appareceu carregado de annuncios: era a affirmação glorificadora de que elle não trabalhára debalde e de que a sua idéa se havia convertido definitivamente n'uma instituição lisbonense.

* * * * *

XXI

Marquez de Thomar

Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar n'este mundo, e comprehendem facilmente que me interessasse mais o biberon do que a politica.

Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me sofregamente para ella e, segundo o testemunho de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão indifferente á politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes.

Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas de Plutarchos, ao traçar-me um pomposo elogio biographico, haveriam notado a coincidencia do meu nascimento com um dos periodos mais agitados da politica portugueza.

Teriam gritado: predestinação! E diriam, _una voce_, que o illustre estadista (o illustre estadista era eu...) nascera sob a influencia da grande lucta travada entre os amigos e os adversarios do conde de Thomar--lucta feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima cartada.

Effectivamente, os Cabraes haviam caido com a _Maria da Fonte_, o conde de Thomar fugira para Hespanha, mas o resultado das eleições de 1848 chamára-o de novo ao poder.

1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda republica franceza!... Decididamente, os srs. biographos poderiam, sempre no caso de eu ser um estadista de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da época do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação da republica em França e quando estava germinando a _regeneração_, foi que me estreei n'este mundo, envolto nas faxas infantis.

Mas como o acaso--essa bussola misteriosa que nortea os destinos humanos--não quiz que eu viesse a ser um politicão de marca, perdeu-se a descoberta de mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo notavel.

No que a meu respeito têem dito em bem e em mal, nem uma só palavra foi ainda escripta relativamente ao facto de eu haver chegado a este mundo depois de ter sido annunciado pelo himno da _Maria da Fonte_.

Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente morte do marquez de Thomar chamou a minha attenção para a época da sua decadencia politica. Eu entrei n'este mundo durante os _cem dias_, posso dizel-o assim, de Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve tambem, á volta de Hespanha, alguns dias de ephemera restauração.

O que é certo é que vim encontrar o mundo politico portuguez ainda saturado do nome dos Cabraes. Não sei se a minha ama era cabralista ou patuléa. Naturalmente seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, se pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem... E assim foi que correu a minha primeira infancia derivando por entre dois nomes, de que se falava muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, que tinha caído definitivamente em 1851, e o marechal Saldanha, que tinha triumphado com a regeneração.

Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, recordava-se o _Espectro_ e a _Maria da Fonte_, acudiam ainda á memoria de toda a gente as cantigas populares do Minho contra a familia dos Cabraes.

Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época nem sequer poupava a esposa do ministro caido:

Luizinha, agora, agora...

Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer pessoalmente muitos dos homens notaveis d'esse tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e pude d'este modo completar as fugitivas e incertas impressões que, para assim dizer, trouxera do berço.

Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque é verdade, que o vi por um oculo: o oculo aberto na urna em que elle viera de Inglaterra. Mas em todo caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços d'essa phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva e insinuante.

Vi o Sampaio da _Revolução_... de guardanapo ao pescoço, tomando pacatamente o seu chá de familia, e comendo com tranquilla delicia bolos de côco. Elle, o terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor do _Espectro_, o ardente pamphletario de 1846, vi-o eu ser o mais pachorrento, o mais soffrido, o mais tolerante dos homens que n'este paiz têem mexido em politica.

Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, ouvi-o, convivi com elle politicamente nas horas de triumpho e adversidade. Tambem o vi morto, com o seu uniforme de general, deitado no modesto leito que os cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado um pallido clarão indeciso.

Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo vigor de homem forte para a sua cadeira de par do reino, e vi abrirem-se para elle todos os braços, e ouvi as saudações respeitosas que todos os homens lhe dirigiam, sem excepção dos antigos patuléas _enragés_.

É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, saciado as impaciencias, envelhecido os homens.