Vinte Annos de Vida Litteraria

Part 10

Chapter 103,709 wordsPublic domain

Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas relações de amizade. Lembro-me ainda com saudade de um jantar que tivemos os tres no _Hotel Francfort_, onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente conversado, assistiu tambem a actriz Amelia Vieira. Quando cheguei a Lisboa, Santos deu-me um banquete romano na sua casa da rua do Amparo. Estavam á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e Miguel Queriol. Foi outra a actriz que assistiu a este festim: Emilia Letroublon, já então louca, mordia por vezes as mãos dos convivas.

Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor Santos, abro o pequeno livro das suas memorias, que elle publicou já acorrentado ao leito da morte como o Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão com que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do sepulcro, dilacerado o peito amante pelo abutre implacavel da saudade...

N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja de sagrado como os epitaphios, encontro uns versos meus escriptos para a noite do seu beneficio no theatro de D. Maria em 16 de maio de 1874.

Paro um momento a lel-os:

Foi aqui--a historia o conta... Que entre flôres, palmas, himnos, Dos talentos peregrinos Brilhou a constellação. Era um loureiral a scena, O theatro escola e templo, Cada talento um exemplo, Cada palavra--lição.

Formoso e esplendido quadro! As bellas frontes rasgadas Resplandeciam banhadas Em misterioso fulgor... Grupo onde tudo era grande Merecia moldura d'ouro, Se tantas cordas de louro Não o cingissem melhor.

Foi o tempo devastando As maravilhas da tela. Onde a loira Manuela? Onde Epiphanio, o pharol? Onde Sargedas, a graça? Onde Tasso e a sua gloria? Mais quatro nomes na historia, Mas não é posto inda o sol.

Não é. O quadro tem vida. Move-se, agita-se, fala Remurmuram n'esta sala Os eccos da sua voz... Supponde muitas palmeiras Rasgando do céu as brumas... Quando o vento prostra algumas, As outras não ficam sós.

Dos velhos heroes da scena Descem hoje sobre o espolio, No theatro-Capitolio, Flôres d'antiga ovação. É que um talento robusto, Honrando um nobre legado, Resuscita hoje o passado, Renova as flôres d'então.

E a sua voz, que domina Da ovação a anciedade, É a voz da posteridade, Que da scena aos velhos reis Diz como um brado da historia: «La vos honrei o legado; «Se vos prostrou o passado, «Não sois mortos. Reviveis...»

E de todos estes versos, a que unicamente a saudade de José Carlos dos Santos poderia dar segunda edição, ha um em que a minha attenção particularmente se detém:

Mas não é posto inda o sol.

Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. O theatro de D. Maria fazia lembrar n'esse tempo um vasto pantheon onde alvejavam as urnas funerarias dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia das Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice aniquilava-a. Já se não contava com ella senão para relembrar-lhe a gloria. E n'esse venerando cemiterio, onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, Santos sacrificava em honra de tantos mortos illustres, sacerdote solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as palmas que elle proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do velho theatro normal.

Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo interposto a um dia de victoria e a uma noite de decadencia.

_Não era posto ainda o sol_, porque elle era a luz crepuscular; não estava inteiramente deserto o templo, porque Santos o povoava ainda.

Mas não havia outro laço vivo a prender o passado ao presente senão elle.

Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; Taborda principiava a retirar-se.

Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada que ia render-se.

Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. Cegára tão rapidamente como se fechasse os olhos para dormir. E ao cair no seu posto de honra, similhante ao soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára que elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira da eternidade...

Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: appareceu cego no palco tres vezes, uma no theatro de S. Carlos, outra no theatro do Principe Real, a terceira no theatro da Trindade.

Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a alma confrangia-se sob as azas negras da cegueira. Era uma sombra que falava, uma realeza condemnada como a de Luiz XVI--que tantas vezes reproduzira--passando através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos cortezãos, mas insultada já pelos estragos da doença.

Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, porque os actores morrem no dia em que são obrigados a abandonar o theatro.

A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice. Cedia a uma revolução, ainda como Luiz Capeto, a revolução das trevas contra a luz. A cegueira, como um _sans-culotte_ implacavel, arrastava-o para o _Temple_, as quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, a doença, viria todos os dias annunciar-lhe a morte. N'esse angustioso despedaçar do corpo, ouvindo a voz do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma vez repetiria por certo a phrase notavel que Paulo Giacometti puzera na bocca de Luiz XVI: _Ah! a natureza humana não tem força para mais!_

O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença era irrevogavel. O condemnado sentira levantar os ferrolhos do _Temple_: era a sua familia que entrava para trocar com elle as effusões da ultima despedida. Despedida incomportavel! que devia durar cinco mezes, sem que os braços do amor pudessem afrouxar de tensão n'aquelle longo abraço, que era o derradeiro.

A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz commoveu-se. Tamanha era a magestade d'aquella realeza de infortunio!

Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença havia de cumprir-se. O condemnado offereceu a sua cabeça ao sacrificio, e uma familia coberta de luto fôra regando de lagrimas, religiosamente, a via dolorosa por onde esse rei da scena era arrastado á tortura.

Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando de uma familia orphanada, o theatro portuguez soluçava n'um luto irremediavel, n'uma viuvez amarissima.

Era o Delphim que pranteava a morte do rei...

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Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: o Izidoro, o Theodorico, e o Rosa pae.

Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer _partidas_: algumas conta elle proprio nas suas _Memorias_. Como actor comico, mereceu a celebridade que teve. Quando cantava com Taborda o _duetto_ de _Moysés_, ou representava os _Dois candidatos_ e _Para as eleições_, era da gente rebentar a rir.

Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, estava doente, triste, muito velho. A troça indigena mettia a ridiculo a sua declamação emphatica, um pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente um defeito de escola, mas, em compensação, todos os artistas do seu tempo, incluindo elle proprio, sabiam representar. Muito escrupuloso, muito correcto, só tinha, para a nossa época, o defeito de haver envelhecido.

No trato particular, um perfeito cavalheiro.

Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, dava todas as manhãs o seu passeio no Rocio, sentava-se a descansar n'um ou n'outro banco e, se a gente o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que pretendia então um logar na alfandega.

Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como em Lisboa, o Rosa pae. No Porto, ouvi-o recitar o episodio do _Adamastor_, de Camões, e o _Firmamento_, de Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma _reprise_ do _Marquez de lá Seiglière_, que foi o seu cavallo de batalha.

Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange de actores antigos capazes de investirem com a tragedia e com a epopea. Mas possuia, como Theodorico, os defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos tres, de que tenho falado, o mais _poseur_: toda a gente se lembra ainda de o ver passear nas ruas de Lisboa com um grande chapeu desabado e o sobretudo alvadio ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a até fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo botas.

Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros actores notaveis

* * * * *

Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O celebre alfaiate Humann dizia a respeito de Gavarni: «Não ha senão um homem que saiba desenhar uma casaca: é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, com igual justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão um homem que saiba vestir uma casaca: é o Tasso.»

A sua dicção, um pouco _saccadée_, era cristallina, sonora. Ainda não ouvi no theatro quem dissesse melhor do que elle. E decerto não tornarei a ver quem soubesse estar melhor em scena.

Vi o Sargedas no _Gaiato de Lisboa_, no theatro de S. João, do Porto. Era dos bons, antigos. Apesar de velho, fazia o _Gaiato_ como se estivesse ainda em idade de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham da velhice, só os consegue o talento.

Antonio Pedro é um morto de outro dia.

Fóra do theatro, a sua _gaucherie_ passava em proverbio. No theatro era um grande actor por intuição, tropeçando por vezes em pequenas difficuldades de prosodia, simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo palco, os que estudavam mais do que elle e lhe censuravam a ignorancia manifesta em questões de arte dramatica.

Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma modestia phenomenal, aos que o elogiavam: «Isto calhou assim.» Esta phrase, tantas vezes dita por elle proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua organisação artistica.

* * * * *

Com o Tasso convivi durante uma _tournée_, no Porto; com Sargedas nunca tratei pessoalmente. Rectifico assim uma inexactidão que só agora notei na 1.ª edição d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer diabrura tipographica.

Já isso vai ha tanto tempo!

* * * * *

XVII

Pintores

No verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra como vogal da commissão de exames de instrucção secundaria.

Coimbra, a _terra de encantos_, só então me pareceu tel-os, porque da primeira vez que a visitei, durante um dia triste e chuvoso, cheio de incertezas para mim, a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco agradavel.

Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes verdejavam as suas galas roçagantes, o Mondego, manso e humilde, amenisava bucolicamente a paizagem, toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por entre os sinceiraes e as suaves quebradas dos montes.

Uma delicia!

De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, arduo sempre, e por vezes doloroso como é. Mas de tarde eu desforrava-me passeando no Choupal, na Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego.

A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores do Porto, de Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos uns aos outros nos passeios de todas as tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar sósinho: era o pintor Christino, que fazia parte do juri de desenho.

Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, e, recostado na prôa do barco, parecia gosar n'um extasi pantheista o bello espectaculo da natureza que o rodeava.

Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas d'aquella clara paizagem, lucida e placida como uma vista de stereoscopo.

Pois que o pintor Christino tinha a configuração de um eucalipto, alto e magro, nós, que da Ponte o ficavamos observando, podiamos distinguir, até grande distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, que destacavam á prôa do barco.

Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem do poente que a sua cabeça descoberta, e mal guarnecida de cabello, pendia scismadora. Comprehendia-se. Christino reunia mentalmente á belleza do panorama as tradições romanticas, as memorias lendarias d'aquella margem. D'esse lado ficava a _Fonte dos amores_ emboscada saudosamente na sombra de corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a elegia dos mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, á distancia de dois kilometros da cidade, a _Lapa dos esteios_, «retiro selvatico sem aspereza, e como enfeitado sem arte», segundo a phrase de Castilho, recordava os tempos semi-pagãos em que o poeta da _Primavera_ e os seus amigos ali foram, em plena mocidade, celebrar, no seio da natureza, a festa do equinoxio que traz as flores e os canticos, os perfumes e os amores.

Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, tinha uma alma de artista, era uma organisação delicada como a de Raphael, que se devorava nas suas proprias impressões, e ninguem mais profundamente do que elle poderia sentir toda a poesia d'essa região encantada, que o Mondego banha, e que as recordações e as arvores povoam.

Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se uma gondola de Veneza o fosse passeando no canal do Lido ao som da barcarola de uma gondoleira. _Ó dolce voluttá_! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos artistas! Que doces horas aquellas que o Christino passou no Mondego sonhando sobre as aguas!

Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou abençoando do alto da Ponte como se elle levantasse ferro para uma longa viagem aventurosa e arriscada. É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto a gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios ao acaso, que desgastam a alma, e com ella a vida. Volta-se velho, como se realmente se tivesse feito uma longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se envelhece ao cabo de algumas horas de concentração.

Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes tornei a avistar-me com o pintor Christino.

Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra morrêra, e ouvi dizer que a luz da sua razão tinha empallidecido primeiro que a dos olhos...

Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles sonhos do Mondego, tão a miude repetidos, e tão docemente devoradores!...

Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista notavel. Encontrava-o muitas tardes na alameda de S. Pedro de Alcantara passeando, quasi sempre só. Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces morenas, olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado, era comtudo facil e agradavel.

Amador da natureza, ia procural-a no panorama que d'aquella alameda se descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo artistico de que os pintores que copiam do natural precisam impregnar-se.

Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por S. Pedro de Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. Os olhos conservavam o seu brilho agareno. Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por vinte e quatro horas.

No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação havia morrido repentinamente.

E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, o panorama oriental da cidade parecia provocar, na sua belleza tranquilla, a paleta de um pintor.

Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que, sendo eterna a natureza, o homem, o mais perfeito dos seus organismos, seja quasi um ephemero!...

Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente nem com o Christino nem com o Annunciação. Os cabellos branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia era aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, parecia vender saude.

Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, n'uma _soirée_ litteraria que o visconde de Castilho (Julio) déra na sua casa da rua de S. João da Matta em honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio.

Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem augmentaram de intimidade. Mas eu gostava de encontral-o porque elle, que era um trabalhador, tinha alegria, e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom de convicção dava-me estimulo.

Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar na rua um homem que se mostra desanimado por ser obrigado a trabalhar...

* * * * *

XVIII

Um grupo de academicos

Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet--_Trente ans de Paris_--lembrei-me muito de Teixeira de Vasconcellos ao percorrer o capitulo que fala de Villemessant.

O livro (collecção Guillaume & Cie. ) é illustrado, e até o retrato de Villemessant denuncia um homem robusto, nutrido, como era Teixeira de Vasconcellos.

Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. Encontrei-me varias vezes com elle nas _soirées_ politicas de Fontes Pereira de Mello. Visitei-o outras vezes em sua casa, graças á benevolencia com que desde o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem de mundo, um _gentleman_, espirituoso, algum tanto mordaz. Contavam-se a seu respeito anecdotas escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia.

Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer parte da redacção do _Jornal da Noite_. Eu precisava trabalhar: acceitei. A benevolencia, que elle sempre me tinha dispensado, fazia-me acalentar a esperança de que o _gentleman_ das salas havia de continuar a ser affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. Mas, dentro da redacção, Teixeira de Vasconcellos era, pelo menos, um pouco Villemessant: auctoritario, por vezes brusco, um homem muito differente, tomando sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de dono de jornal.

Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem razão para queixar-me.

Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o dono do jornal desapparecia completamente. Teixeira de Vasconcellos voltava a ser, para o desertor do seu jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador.

As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, rasgavam-se. E Teixeira de Vasconcellos recebia cordealissimamente os homens com quem, no trato familiar de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.

Foi o que aconteceu comigo.

Depois que sai da redacção do _Jornal da Noite_ vivemos deliciosamente. Se escrevia a meu respeito, fazia-o com extrema amabilidade. Se eu o visitava, acolhia-me gentilissimamente. E algumas vezes, na minha presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, como eu havia soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant para os outros, voltava-se para mim sorrindo e continuando a conversar placidamente.

Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que foi atacado, e assombrava-me o bom humor, sempre um pouco mordaz, só intermittente para os de portas a dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.

Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, mandou-me um pequeno artigo, que eu lhe havia pedido para uma publicação do editor Chardron e que, não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio d'aquelle editor.

Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior valia. Pena é conservar-se inedito.

Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, mas o seu lucido espirito colheu e aproveitou as lições da experiencia.

Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle me deu:

--Se receber um livro mau, cale-se; se receber um livro bom, elogie-o.

Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando o não sigo, arrependo-me.

Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. Passou metade da sua vida a estudar e outra metade a brigar. Quando entrei na Academia, estava ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que elle lá tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto e d'aquillo. Sem embargo, e talvez por isso mesmo, Soromenho prestou bons serviços á Academia, de que fôra bibliothecario durante muitos annos.

É frequentissimo compulsar um livro qualquer da Bibliotheca de Jesus e encontrar dentro d'elle uma etiqueta que diz: «_Adquirido pelo bibliothecario A. Soromenho para preencher a falta do exemplar da livraria._»

Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para mostrar quanto Soromenho se dedicára pela causa da Academia.

Eu, que desde alguns annos converso mais os livros que os socios da Academia, lucrei sobremodo com a passagem de Soromenho pela bibliotheca d'aquelle estabelecimento, que ás vezes parece mais morto que vivo.

Não conheci nunca, no trato particular que tive com Soromenho, a irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. Queixava-se, é certo, mas não se queixava mais nem menos do que todos quantos julgavam ter razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade de homens do mesmo officio sem razões de queixa. Peor do que uma sociedade de homens do mesmo officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou não inteiramente verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao imperador de Marrocos, que têem serralho.

O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho foi um grande, um ardente desejo de estudar e saber. Elle defrontava-se corajosamente com todos os assumptos, por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente de uma posição obscura, e litterariamente do lirismo romantico. Entrou no mundo das lettras com um livro de versos, o _Diwan_. Mas á força de trabalho e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu com as mais intrincadas questões de philologia, de historia, de epigraphia e de direito. E conseguindo, por um grande esforço de naufrago, emergir á superficie do mundo litterario, como professor e academico, certamente teria que combater e que soffrer, porque ninguem vence os outros sem ficar vencido de si proprio...

Apesar de robusto--Soromenho era um homem forte, com uma phisionomia algum tanto arabe--morreu relativamente novo.

A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria no Porto. Elle tinha ido áquella cidade como examinador de não sei que disciplina de instrucção secundaria; eu fui de Lisboa visitar a minha familia. Conversámos toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, coisas da Academia e das litteratices lisbonenses. Animando-se na conversação, levantava-se, e então a sua bella figura de homem forte destacava-se como a de um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, e a roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. Em rosetas não sou forte; entendo-me melhor com as rosas.

Lembro-me de que á despedida elle me dissera:

--Olhe lá. Voce diz no _Guia do viajante no Porto_ que eu nasci aqui. É engano. Sou de Aveiro--como os mexilhões.

Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos.

Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, sempre atarefado, gritador, ás vezes tão precipitado que não se sabia bem o que elle queria dizer ou fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou comtudo uma obra litteraria que pudesse dar na vista á posteridade. Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e em pequenas doses, pelos periodicos litterarios da sua mocidade, _A Semana_, por exemplo. O que lhe conheço de melhor são as monographias sobre D. Catharina de Bragança e a Casa dos Bicos, bem como os _Estudinhos de lingua patria_, publicados no _Archivo Pittoresco_. De resto não consolidou o seu nome litierario n'um trabalho de folego. Faltavam-lhe, para isso, paciencia e methodo. Comtudo, era um homem de vastos conhecimentos litterarios.

Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde ter muito emquanto teve boa saude. Era um catalogo vivo, e comtudo havia na Bibliotheca muita cousa que lhe escapára por falta de catalogação.

Quando eu escrevi o _Livro das lagrimas_ para a casa Mattos Moreira, quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca havia com relação a Santo Antonio de Lisboa.

Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me logo, de cór, mais de quinze livros que tratavam do assumpto.

E no dia seguinte mandou-me para casa não menos de outros quinze livros.