Vinte Annos de Vida Litteraria

Part 1

Chapter 13,774 wordsPublic domain

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Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1908.

Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.

No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali apresentados.

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

ALBERTO PIMENTEL

Vinte Annos de Vida Litteraria

(2.ª edição, revista pelo auctor)

1908 Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA EDITORA _Rua Augusta, 44 a 54_ LISBOA

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--10.º VOLUME

VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

ALBERTO PIMENTEL

Vinte Annos de Vida Litteraria

(2.ª edição, revista pelo auctor)

1908 Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA EDITORA _Rua Augusta, 44 a 54_ LISBOA

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Composto e impresso na typographia DA Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA _Rua Augusta, 44 a 54._ LISBOA

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A QUEM LER

Prologo da 1.ª edição

Publiquei o livro _Atravez do passado_, receoso de que não agradasse por ser excessivamente pessoal. Mas Pinheiro Chagas, escrevendo na _Illustracão Portugueza_ um artigo muito amavel para mim, a respeito d'aquelle livro, preconisava a vantagem de todos os escriptores reunirem as memorias jornalisticas e litterarias do seu tempo, como subsidio indirecto para a historia completa da sociedade a que pertencem. Este ponto de vista e a auctoridade de tão abalisado homem de lettras deram-me estimulo, confesso-o francamente, para colleccionar um segundo livro de memorias.

De mais a mais, trabalhando n'este genero de escriptos, eu obedeço gostosamente a uma natural inclinação do meu espirito para a reconstrucção do passado, que a saudade illumina. Sinto-me bem remexendo as cinzas e contemplando as ruinas que o tempo deixou. Não sei se até certo ponto entrará n'isto o egoismo de, pelo que me respeita, reviver pela memoria os dias que já vão longe.

Fui escrevendo estas recordações de vinte annos de vida litteraria sem preoccupações de nenhuma especie, nem mesmo chronologicas. Quanto ás pessoas de que falo, não tratei de classifical-as pela ordem da sua hierarchia politica ou litteraria. Aproveitei os nomes que me iam lembrando, e as recordações que me acudiam ao bico da penna.

Ha n'este livro, é certo, alguns perfis politicos, algumas paginas que não versam assumptos exclusivamente litterarios. Mas foi pelo braço da litteratura que eu entrei na politica, e foi pela politica que eu pude conhecer mais de perto certos homens.

Lisboa, 42 de novembro de 1889.

ALBERTO PIMENTEL.

Prologo da 2.ª edição

Este livro deve certamente a boa fortuna de uma segunda edição ao facto de contêr aspectos biographicos de alguns homens notaveis, com os quaes eu convivi na minha mocidade. Esses homens marcaram uma época da vida historica do paiz e, como sempre acontece, a morte deu-lhes maior prestigio. De modo que o livro não envelheceu por causa d'elles, e só d'elles recebeu a vida que o faz resurgir em segunda edição.

Creio, hoje como hontem, que a biographia é o processo mais agradavel de escrever a historia, ainda quando esse processo caia em mãos tão incompetentes como as minhas, comtanto que seja honesto e sincero, que não engrandeça nem amesquinhe apaixonadamente os biographados.

Por mim julgo os outros: releio com prazer algum trecho de Plutarcho, e custa-me a digerir meio capitulo de Tito Livio.

Eu tive sempre o culto do passado, e por isso me não aborreci de mim mesmo revendo agora este livro, que ia ser reimpresso. Não é que o repute perfeito, porque nem depois de retocado o fica sendo. Mas porque a sua revisão me reconduziu a uma época em que os homens e os factos constituiram um vasto edificio de que só restam cinzas e ruinas.

N'aquelle tempo a vida portugueza era mais calma, communicativa e cordeal. Não se tinham ainda desencadeado grandes borrascas de odios pessoaes, que nos agitassem como n'esta hora. As amizades eram perduraveis, e os amigos certos. Os que chegavam eram recebidos de braços abertos, acarinhados, protegidos. E cada qual plantava os seus ideaes sem incommodar o vizinho, nem o malsinar só porque elle possuia aquillo que nós desejariamos ter.

A impressão que eu recebi da leitura d'este livro foi a de uma sociedade remota, que me não propuz descrever, mas que resulta de um conjunto de biographias n'elle agrupadas.

E á medida que eu voltava cada pagina sentia-me expulso do passado pela distancia e do presente pela estranheza.

Quanto ao futuro... Os velhos já não têem futuro. E se elle fôr o _crescendo_ logico do dia de hoje, eu não sinto pena de o não viver--e descançarei serenamente da fadiga do caminho. _Fatigatus ex itinere sedebat._

Lisboa, 27 de abril de 1908.

_O auctor_

* * * * *

I

El-rei D. Luiz

Escrever dos reis, quando elles vivem ainda, é pelo menos um pouco arriscado: póde parecer adulação. Mas escrever de um rei que já não existe, e contar lealmente os altos favores pessoaes que d'elle se receberam, é mais do que gratidão--é justiça.

Eu estou n'este caso para com el-rei D. Luiz. Nunca o disse em publico durante a sua vida, para afastar de mim a suspeita de lisonjeiro, mas não perdia occasião de dizel-o em particular. Muita gente o ouviu da minha bocca, muitos o sabem; porém outros o ignoram. Para estes escrevo.

O que eu vi sempre menos na pessoa do senhor D. Luiz I foi o rei, o principe, o astro da côrte. O que n'elle sempre me captivou, desde o primeiro dia em que tive a honra de lhe falar, foi o homem illustrado e complacente, o amigo dos que trabalhavam, o protector dos que rudemente luctavam pela existencia.

O rei podia desagradar alguma vez ao capricho das paixões politicas, que em torno d'elle se debatiam. O homem era sempre o mesmo para todos: bom, compassivo, affectuoso.

Chegava a causar assombro que um principe, tão preoccupado de negocios e até de distracções, pudesse seguir tão attentamente o fio de tantissimas pretensões particulares, de que elle, e ás vezes só elle, possuia o segredo.

No conjunto das massas populares havia centenas de biographias que el-rei D. Luiz conhecia pagina a pagina, e que acompanhava dia a dia.

A sua consciencia devia sentir-se satisfeita com o galardão de si mesma quando, na turbamulta de uma festa ou de um espectaculo publico, o rei divisasse, perdidas humildemente na multidão, as phisionomias de muitas pessoas que occultamente havia protegido e felicitado.

Estou certo de que um sorriso ou um olhar quasi furtivo d'essas pessoas agradaria mais ao seu espirito do que os discursos officiaes e as lisonjas cortezãs que por toda a parte o perseguiam.

De mais a mais o rei tinha essa memoria inexcedivel de todos os principes da sua familia: fixava facilmente as phisionomias e as datas, de modo que não perdia nunca mais de vista a pessoa a quem alguma vez houvesse falado.

Muitas vezes, nos actos solemnes e ostentosos da côrte, el-rei D. Luiz me avistou na posição pouco evidente em que sempre procurei collocar-me, e o seu olhar perspicaz, quando não era o seu sorriso amavel, correspondia de longe ao meu cumprimento respeitoso, mas quasi subtil.

Posto isto, que me nasce da abundancia do coração, eu direi em singelas palavras como foi que desde 1873 tive a honra de me aproximar de el-rei D. Luiz I.

Quando cheguei a Lisboa, na menos prospera situação burocratica que ainda assim vi com alegria cair do céu, tinha eu publicado recentemente um livro, _A Porta do Paraiso_, chronica do reinado de el-rei D. Pedro V.

Os regeneradores estavam no poder, e o governador civil do Porto, Bento de Freitas Soares, que se me affeiçoára, dera-me uma carta de apresentação para o ministro do reino, Antonio Rodrigues Sampaio.

Fui ao seu gabinete entregar a carta, e Sampaio recebeu-me immediatamente com a bonomia familiar que elle tinha para com toda a gente.

Sampaio, apesar da ante-sala estar repleta de homens politicos e de pretendentes, demorou-se bons tres quartos de hora conversando comigo. Falou-me da sua origem obscura, da sua lucta pela existencia, da perseguição aos Cabraes, do _Espectro_, e na sua palavra, ás vezes demorada, havia um doce tom de familiaridade verdadeiramente captivante.

Terminou perguntando-me o que eu queria.

Respondi a Sampaio que desejava apenas ser apresentado a el-rei para lhe offerecer um exemplar do livro que acabava de dar a lume. Acrescentei que era eu a primeira pessoa a reconhecer o nenhum valor litterario do meu livro, e que de modo algum ousaria offerecel-o a el-rei, se não se tratasse casualmente de uma novella baseada em factos do reinado do senhor D. Pedro V; que, portanto, o meu livro, se não podia prender, como obra de arte, a attenção de el-rei D. Luiz, teria comtudo para sua magestade o interesse que resultaria naturalmente de todo e qualquer escripto que dissesse respeito a uma pessoa da familia real.

Sampaio disse-me logo que o meu pedido seria satisfeito; que no dia seguinte, uma quinta feira, havia despacho no Paço; que estivesse eu, á uma hora da tarde, na secretaria do reino, por que me levaria na sua carruagem, e me apresentaria a el-rei antes do despacho.

No dia seguinte, á hora indicada, partimos do Terreiro do Paço para a Ajuda, na mesma carruagem, e dez minutos depois de chegarmos ao Paço, el-rei, que logo tinha recebido Sampaio, mandava-me entrar para uma das salas interiores.

Quando ali entrei, com a timidez de um homem que arrisca os primeiros passos nos tapetes da côrte, el-rei, encostado ao vão de uma janella, e fumando charuto, com as mãos mettidas nos bolsos de um _veston_, conversava com o ministro do reino.

Sampaio apresentou-me em termos excessivamente amaveis, e el-rei disse-me palavras tão obsequiosas, que augmentaram ainda mais a minha confusão.

Depois de trocadas estas formulas de cortezia, el-rei falou-me logo no livro que eu lhe ia offerecer. Disse-me que já o tinha lido. Referiu-se a muitos factos a que eu alludia, principalmente as viagens que elle proprio fizera com el-rei D. Pedro V. Depois, como aproveitando um relampago da sua felicissima memoria, recordou que eu tinha biographado Julio Diniz. Falou muito d'este mallogrado homem de lettras, perguntou-me se eu o havia tratado intimamente, e apreciou, com grande segurança de critica, os seus romances, acceitando a minha opinião de que Julio Diniz seguia principalmente no romance a escola ingleza.

E como eu, segundo a etiqueta, tivesse despido a luva da mão direita--o que Sampaio me advertira--el-rei, certamente por ter reconhecido que eu fumava, abriu a charuteira, e offereceu-me um charuto.

Inclinei-me agradecendo, mas recusando. E el-rei, sorrindo, observou-me:

--Não póde negar que fuma; nem eu. E fumo muito.

Conservando a charuteira aberta, insistiu no offerecimento.

Lembrei-me de repente d'aquella anecdota de lord Stairs, que acceitou uma vez ser o primeiro a entrar na carruagem de Luiz XIV, allegando que resistir ao offerecimento de um rei era descortezia imperdoavel.

Sorrindo, acceitei o charuto, mas como estivessemos falando de escriptores portuenses, fingi-me distraído, não o accendi. Nem me era facil saber como havia de accendel-o. Eu não tinha phosphoros comigo, Sampaio não fumava; só o rei estava fumando.

Mas sua magestade, vendo que eu não accendia o charuto, offereceu-me lume.

Aqui, n'este lance, começou a minha tortura. Eu fumo desde os quinze annos desesperadamente--mas cigarro. O charuto estontea-me. Basta ás vezes o seu fumo para incommodar-me.

O leitor calcula pois a repugnancia molesta com que eu, acceitando o lume que el-rei me offerecia, accendi o charuto, que de mais a mais era fortissimo.

A fim de evitar que o charuto me estonteasse, deixei-o apagar a breve trecho, propositadamente. Mas el-rei, reparando que o meu charuto se havia apagado, tornou a offerecer-me lume. Felizmente, quando eu estava no apogeu da tortura, fôra el-rei avisado de que chegára o presidente do conselho de ministros, Fontes Pereira de Mello, e a audiencia terminou um pouco abruptamente com estas palavras de el-rei:

--Procure-me sempre que precisar de mim. Mas faça-o sem acanhamento.

Isto fez-me suppôr que el-rei havia attribuido a acanhamento o facto de eu ter deixado apagar o charuto.

Tive que esperar que o despacho terminasse. Á saida, Sampaio apresentou-me a Fontes Pereira de Mello, e aos seus collegas no ministerio. Uma vez entrados na carruagem, contei a Sampaio a historia do charuto, que elle ouviu rindo ás gargalhadas, e pedi-lhe licença para fumar um cigarro, a fim de restabelecer-me pelo systema homoepathico:--_similia similibus curantur_.

As minhas relações com el-rei D. Luiz dataram d'esse dia.

Depois d'isso voltei algumas vezes ao Paço para offerecer a el-rei um exemplar dos livros que ia publicando.

El-rei dizia-me invariavelmente:

--Procure-me sempre que precisar de mim.

De uma das vezes contei-lhe a historia do charuto, el-rei riu expansivamente, e mandou-me fumar cigarro. Mas, porque estivesse fumando charuto, soprava ao fumo para o afastar.

Um dia... um dia tratava-se do pão quotidiano, do bem-estar da minha familia. Eu vegetava, havia dez annos, amarrado a um obscuro logar de amanuense. Muitas vezes, mas sempre baldadamente, havia procurado melhorar de situação. Iam reformar-se os serviços da camara dos pares; creavam-se logares de redactores. Mas as pretensões, e algumas d'ellas fortemente apadrinhadas, fervilhavam em torno de Fontes. Desejando um d'esses logares, mas não dispondo de influencia que pudesse dar-me probabilidades de ser attendido, lembrei-me do repetido offerecimento de el-rei.

Metti-me n'um trem, fui ao Paço. Cinco minutos depois era recebido por sua magestade, que me ouviu com a amavel benevolencia que sempre me dispensou. E, tendo-me ouvido, disse:

--Esteja certo de que eu vou pedir com o maximo empenho. Havemos de ir até onde pudermos. É muito justo que lhe dêem alguma folga aos seus incessantes trabalhos litterarios. Não se póde aguentar por muitos annos um trabalho d'esses.

No dia seguinte, ás duas horas da tarde, falei a Fontes Pertira de Mello, que, logo que me viu, me fez esta pergunta:

--Diga-me uma coisa: que empenho teve para el-rei?

Reconheci que sua magestade havia tratado immediatamente do meu pedido com a maior pressa e solicitude. Desde essa hora julguei-me despachado.

--O meu empenho, respondi eu a Fontes, vai decerto surprehender v. ex.ª

--Diga lá.

--O meu empenho... fui eu só.

Contei então a Fontes tudo quanto se passára.

E Fontes limitou-se a dizer-me:

--El-rei tem o maior empenho no seu despacho.

Corri logo ao Paço da Ajuda a agradecer a el-rei. Sua magestade, apenas me viu, perguntou-me:

--Ha alguma novidade a respeito da sua pretensão?

--Não ha, meu senhor. É que eu venho agradecer a inexcedivel diligencia de vossa magestade. Acabo de falar com o presidente do conselho.

--Eu falei-lhe hontem mesmo.

Isto disse o rei, e mudou logo de assumpto.

Os jornaes propalavam boatos a respeito de nomeações para a camara dos pares. O meu nome nunca foi lembrado pelos jornaes. A politica interveio n'este negocio, como em todos: disse coisas falsissimas. Mas a minha pretensão triumphou, graças á protecção do rei.

Quando o despacho appareceu, e lh'o fui agradecer, el-rei dignou-se abraçar-me dizendo:

--Tenho hoje um dia de satisfação. Agora descance um pouco. Era justo. Era justo.

Eu senti lagrimas nos olhos; mas el-rei tambem não tinha os seus enxutos.

Desde então mantive com el-rei as mais gratas relações, não direi de amizade, mas de franqueza.

Entre os seus papeis ha de haver uma longa carta minha sobre assumptos que não eram pessoaes.

Ainda é cedo, porém, para fazer a historia d'essa carta. Ha quem conheça a carta, e possa contar a historia um dia, querendo.

A ultima vez que me demorei conversando com el-rei foi para lhe fazer o pedido de alguns brindes da familia real para um bazar de Setubal. El rei disse-me logo que pela sua parte podia considerar como satisfeito o meu pedido, mas que a rainha estava ainda invisivel, e que o principe real estava estudando as suas lições, motivo por que transmittiria á rainha e ao principe aquella solicitação.

N'essa mesma tarde parti para Setubal, e ao caír da noite recebia eu n'aquella cidade um telegramma do sr. D. Pedro Arcos participando-me que tanto a rainha como o principe mandariam brindes para o bazar.

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El-rei D. Luiz morreu, e a sua morte deixou no meu coração uma saudade indelevel pelo homem bom, pelo desvelado protector, que tanto me ajudou a desbravar o aspero caminho da vida. Se os bons são premiados além da campa, o rei de Portugal deve repousar no seio de Deus n'uma eternidade bem aventurada. Quanto á minha gratidão, será eterna, porque eu ensinarei a meu filho, para que elle o ensine á sua familia, que a tranquillidade do meu lar resultou de um acto magnanimo de el-rei D. Luiz I.

* * * * *

II

Meu pae

Toda a dôr moral é tanto mais absorvente e exclusivista quanto é sincera e aguda. Não sei, não quero saber o que se tem passado fóra de mim proprio: tenho vivido apenas das minhas recordações dolorosas, concentrado n'ellas, estranho a tudo o que não seja o drama intimo do meu luto e da minha tristeza.

E depois os leitores têem de certo para mim esse doce sentimento de condolencia que resulta de uma convivencia longa e leal. Somos bons amigos ha vinte annos, conversamos quasi todos os dias, tenho decerto adivinhado algumas vezes os seus pensamentos, commungado as suas opiniões: desculpar-me-hão, portanto, este desafogo de uma saudade irremediavel, tão sagrada e tão justa--a saudade de um filho que deplora a morte de seu pae.

Se alguma vez tenho conseguido chamar aos labios do leitor um ligeiro sorriso, fique esse sorriso á conta de compensação da magua que lhe posso causar hoje obrigando-o a lêr as palavras que certamente me acudirão orvalhadas de lagrimas.

Mas é que, naturalmente, estou vendo passar deante dos olhos todos os lances da minha vida desde a primeira infancia tão descuidosa e alegre, e no meio d'esse enxame de recordações entrevejo, a contrastar com ellas, o semblante demudado e quasi cadaverico do meu querido octogenario, que ainda ha oito dias contemplei semi-morto no seu leito de agonia.

Se eu tivesse morrido primeiro, elle, posto se não houvesse entregado ao cultivo das bellas-lettras, mas unicamente aos aridos cuidados da sua profissão de medico; elle, que devia ter com a morte essa fria familiaridade que a faz encarar tranquillamente como o desfecho forçado de todos os actos phisiologicos, acharia comtudo no fundo do seu coração de pae um terno perfume de poesia, uma triste idealidade dolente, que o levaria a encher de flores a sepultura do filho.

Sobrevivendo-lhe, eu quero ter para com a sua memoria a mesma delicadeza de sentimento, a mesma suavidade de lagrimas, e continuar a ver n'elle não aquillo a que a morte o reduziu, mas a alma affectuosa e honesta, a bella alma antiga, capaz de entender todos os carinhos e de comprehender todas as dedicações.

Elle foi um dos ultimos homens d'essa geração quasi extincta, que trouxeram do lar paterno a noção austera do dever e a impressão profunda dos bons exemplos caseiros. Tudo era antigo na educação d'esses homens, hoje já tão raros, que viveram os primeiros annos da sua vida em plena atmosphera de tradições sagradas e inviolaveis, e que professavam pelo passado um culto quotidiano, no meio de criados velhos, de costumes velhos, de velhas loiças da India, e de velhos retratos de avós fallecidos. Todas as grandes solemnidades religiosas não passavam sem commemoração domestica: eram outras tantas festas de familia, muito intimas e muito expansivas. O Natal, a Paschoa, os dias solemnes da Egreja eram esperados com jubilo, e celebrados com devoção tradicional. E sentar-se á mesa, d'esses dias memorandos, rodeados de todos os filhos e de todos os parentes, era para os homens de uma geração quasi extincta um doce prazer patriarchal, puro e simples, o goso perenne da felicidade pela familia.

Vieram com os novos tempos novos costumes, e outros homens, dilatando a sua esphera de acção, tornaram-se cosmopolitas, entraram n'uma vida mundana, que os leva para longe do berço das suas tradições de familia, lançando-os n'um turbilhão de negocios e de ambições, de preoccupações e trabalhos. Esta corrente moderna, esta evolução do espirito humano, assombra os velhos de hoje em dia, e deve entristecel-os tanto quanto os assombra. Para elles a terra em que nasceram, com as suas arvores e os seus casaes, era o eixo obrigado de todos os movimentos psichologicos, o centro em torno do qual girava e se consumia toda a sua actividade. Ver aquillo que seus paes haviam visto, e só isso, era como viver ainda em espirito para elles e no meio d'elles, prolongar pela propria existencia a d'aquelles entes queridos que tinham constituido a familia, e haviam desapparecido já. Todas as folgas de meu pae passavam-se no Douro, n'uma quinta dos seus maiores, contemplando as arvores que elles tinham mandado plantar, colhendo os fructos dos pomares que elles haviam disposto. Concluidas as colheitas, voltava alegre e tranquillo á sua clinica portuense, tratando dedicadamente os seus doentes que conhecia ha longos annos, e que iam envelhecendo tanto como elle: os seus doentes de _partido_. Tinha extremos de paciencia para os escutar, para os attender, e muitas vezes o ouvi descrer da efficacia da sciencia que exercia, quando os não podia salvar. Havia no Passeio da Cordoaria um major reformado que era um verdadeiro _doente de scisma_, o protagonista bondoso de uma comedia molieresca, que se repetia todos os dias.

--Estou a morrer. Vão-me chamar o dr. Pimentel.

O medico, estivesse ou não entretido com o seu tão querido voltarete, dava-se pressa em acudir á chamada.

--Não, meu caro major, o senhor não vae d'esta. Palavra de honra que não vae. Somos amigos antigos: póde acreditar-me. Coma a sua asinha de frango, tome a sua chavena de chá preto, deite-se descansado e durma.

No dia seguinte a mesma scena.

Ahi por 1880 fui ao Porto visitar meu pae. Saimos juntos uma tarde, e elle pediu-me que o ficasse esperando no Jardim da Cordoaria.

--Vae ver o major? perguntei-lhe.

--Vou.

--Mas elle mandou-o chamar?

--Não, respondeu meu pae com tristeza. Agora sou eu que vou de motu proprio: o pobre major não dura oito dias, mas, felizmente para elle, já não scisma na sua doença.

Quando eu estive no Porto a semana passada, todas as velhas e lazaras dos recolhimentos das Fontainhas, de que meu pae fôra por largos annos clinico, mandavam saber d'elle.

Achei commovente este testemunho de gratidão, mas não era difficil encontrar-lhe a causa: meu pae tratava-as carinhosamente.

Assisti algumas vezes ás suas visitas aos asilos.

--De que se queixa? perguntava o medico a uma nonagenaria.

--Dôres... Afflicções... Eu sei lá!...

--Sei eu, respondia sorrindo o facultativo. Eu tenho isso mesmo.

--Tem?!

--Sim... tenho quasi a sua edade: é a nossa doença. Pois, minha boa doentinha, tome um chásinho de erva cidreira, que lhe ha de fazer bem ao estomago. Verá que passa a noite bem. Para as nossas edades não ha outro remedio: a velhice não se cura. Deitar grandes remendos n'um predio velho é perder tempo e trabalho. Vamos assim amparando as nossas ruinas com paciencia e tranquillidade. Ámanhã venho vel-a, e hei de achal-a mais socegada.