Chapter 3
No alto da muralha o puserão Atado, e ia com corda no pescoço, E alli a tanger o constrangerão, Com muy grande praser, e alvoroço, A esta festa todos concorrerão, Nenhum velho ficou, nem Mouro moço, Ao som da bozina, h[~u]s cantavam, Outros dando rizadas apupavam.
Essas Mouras de honrra encerradas, E damas mais fermosas, e as feas Sobiam ao alto por escadas, Por verem dos eyrados, e açoteas, As mais Mouras, e Mouros amanadas, Vão, sò ficam os presos nas cadeas, Mas nas cadeas ouvem claramente, A festa, e clamor que vay na gente.
Almançor ao som da alegria, Que por toda a Villa ha soado, De novo disse, que comer queria, E à mesa se pos logo assentado, E quantas vezes a bozina ouvia, Com gram gosto metia o bocado, E a Gaya cruel com elle estava Que a ira, e zombar o ajudava.
A gente de Ramiro, que emboscada, Estava dahi perto donde ouvia, Os Mouros quando davam apupada, E vendo a bozina que tangia, Remetendo com ordem ordenada, Toda dentro na Villa se metia, Que as guardas que a villa então guardavam, Onde estava Ramiro então estavam.
E dalli como Lobos indomados, Nos paços de Almançor deram de siso, Ao tempo que elle, e seus privados, Estavão com mais festa, e com mais riso, Aonde logo foram degolados, El Rey, e os mais Mouros demproviso, E a Gaya tambem às mãos tomada, E a villa sogeita, e saqueada.
Essa Mourama junta como estava, Pera ver a Ramiro padecente, Que de nada então se percatava, Vendo entrar na Villa alhea gente E o furor, e esforço que mostrava Matando, e degolando cruelmente, Se põe a defender com seus traçados Mas logo foram hi desbaratados.
E como hia já sentenciado Que não se desse vida a nenhum Mouro, De sangue hum gram rio ha manado, Que pellos matos foy sayr ao Douro, E em sangue as agoas se hão tornado, E perdeo por então a cor de louro, E o mar pellos Portos ha mostrado, Ter muyto sangue então derramado.
Ramiro la do alto tudo vendo, A Deos pellas merces as graças dando Como livre se vio, se foy decendo, Vendo que o andavam os seus buscando, E como os seus o fossem conhecendo, A mão todos alli lhe então beyjando, Por seu Rey, senhor, e satisfeyto, Aos paços guiou, e foy direito.
Dous filhos de Ramiro alli vinhão Filhos da mesma Gaya nesta armada, Que chegando Ramiro jà hi tinhão, A sua mesma mãy às mãos tomada, Os quais por animala lhe dezião, Que farião que fosse perdoada, Chegado pois Ramiro lhe rogaram, Por ella, e a vida lhe alcançarão.
Em isto o bom Ramiro lhe contava A treyção que esta Gaya lhe urdira, Do que toda a gente se espantava, E como de seus laços se espedira, Que proposto à morte jà estava, Se Deos com seu favor não lhe acodira, Dando com discrição, e bom esforço, Que jà tinha o baraço no pescoço.
Com tudo, pois pedis filhos amados, (Lhe disse) lhe perdoe, e dê a vida, Pois della quereys ser filhos chamados Mando que ninguem isso vos impida, E vão à vossa conta os seus peccados, Que por elles milhor fora punida, Pera ficar aviso às semelhantes Casadas com bõs Reys, e com infantes.
Assolada a terra, e destroyda, E avida esta presa, e grão victoria, Ficou a soldadesca enriquecida, E com honra, e fama, e grãde gloria; Dos trabalhos passados esquecida, Sò deste bem presente tem memoria, Dando louvor a Deos toda a gente, Por victoria tal tão excelente.
Foy este tal triumpho celebrado, Cuja fama correo o mar, e a terra, E logo o arrayal hy foy alçado, Decendendo do alto, e da serra, Nas galès se hão todos embarcado, Por terem concluido aquella guerra, Começando a remar os remadores, Ao som das trombetas, e atambores.
A Gaya vay chorando amargamente, Pello Mouro Almançor que ja não via Ramiro, e os filhos de repente, Vendo quão pouco a vida agardecia, Mandarão na deitar em continente, No mar porque muy bem o merecia, Com h[~u]a grande pedra a ella atada, Alli fica esta Gaya margulhada.
E com prospero vento, e bonança, Ramiro a seus Reynos ha tornado, Levando de Almançor a tal vingança, E victoria que Deos lhe avia dado. E dahi em diante a sua lança Ja mais Mouro algum ha aguardado, E sempre este bõ Rey lhes moveo guerra Ganhandolhes de Espanha muita terra.
Aquelle Rey dos Reys omnipotente, Que na terra mercês lhe ha outrogado, O tenha em a gloria eternamente Com corôa da gloria coroado. E aos Reys Christãos que ao presente, Reynão, paz, e concordia aja dado Pellos quaes nesta liga assi ligado: Os immigos da Fè sejão domados.
LAUS DEO.
Dr. CHAVES E CASTRO
Apontamentos sobre alguns Processos Summarios, Summarissimos, e Executivos, e sobre o Processo para a exigencia dos Creditos hypothecarios, creado pela Lei hypothecaria de 1 de Julho de 1863--1 volume. 1$000
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SEVERINO D'AZEVEDO
Boas Festas a Manuel Roussado, broch. 100
Segunda Carta de Boas Festas, broch. 100
ARISTIDES DE BASTOS
Elementos de Poetica para uso das escholas--brochura. 400
J. MANOEL PEREIRA
Principios de Geographia e Chorographia Portugueza--brochura. 120
L. G. PERES FURTADO GALVÃO
Addição ao Indice alphabetico da legislação hypothecaria e fórma de Processo para as exonerações, expropriações e preferencia das hypothecas--brochura. 200
Notas de transcrição.
No texto original existem alguns caracteres que não têm representação no sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais. Os marcadores usados nesta versão electrónica foram os seguintes:
[~e] Resprenta um e com um til(~) por cima e que parece ser uma abreviatura dos caracteres "em"
[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma abreviatura dos caracteres "um"