Chapter 1
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RARIDADE BIBLIOGRAPHICA
GAIA
ROMANCE
POR
JOÃO VAZ
PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR NO ROMANCE COM FORMA ERUDITA NOS FINS DO SECULO XVI
POR
THEOPHILO BRAGA
COIMBRA IMPRENSA LITTERARIA 1868
VILLA NOVA DE GAIA
ROMANCE
POR
JOÃO VAZ
DE EVORA
PUBLICADO SEGUNDO A EDIÇÃO DE 1630 E ACOMPANHADO DE UM ESTUDO SOBRE A TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE ANONYMO NO ROMANCE COM FÓRMA LITTERARIA
POR
THEOPHILO BRAGA
COIMBRA IMPRENSA LITTERARIA 1868
TRANSFORMAÇÃO DO ROMANCE POPULAR
NO ROMANCE COM FÓRMA ERUDITA NOS FINS DO SECULO XVI
Não se póde conhecer a litteratura portugueza, ignorando o movimento das litteraturas da edade media da Europa; como a formaçao das linguas, do direito, da religião e das instituições sociaes, nenhum facto faz sentir tanto como a litteratura a unidade da grande raça neo-latina. Quasi todas as phases porque passaram as litteraturas italiana, franceza, hespanhola ou provençal, quer na fórma das primeiras poesias, nas novellas cavalheirescas, nas chronicas, ou nos contos decameronicos, no romance popular, ou no sentimento da natureza despertado pela Renascença, tudo, tudo, abertamente o sustentamos, se encontra na litteratura portuguesa.
Foi a poesia dos jograes que soltou os dialectos neo-romanos da sua gaguez pelo canto; em Portugal, os primeiros monumentos linguisticos que apparecem são essas canções do seculo XII e XIII que os criticos não tem sabido avaliar. Foi a poesia do povo, longo tempo desprezada pelas côrtes provençaes, que os livreiros mercenarios dos principios do seculo XVI atiraram ao vulgo, recolhida em _folhas volantes_.
Foi assim que d'estas folhas dispersas se formaram os primeiros Romanceiros; Esteban de Najera, Martin Nucio, Andres de Villalta e Pedro de Flores juntaram os romances que andavam _discarriados_. A _Silva de varios romances_, de 1550, assignala a épocha da grande vulgarisação dos romances populares da Peninsula, que, ainda assim, para serem acceitos depois de colligidos, precisaram de se arreiar com o titulo de _Cancioneiro_, então preconisado pelo gosto erudito e provençalesco. Por este tempo o _Cancionero de Romances_ é reimpresso em Portugal, sendo a maior parte dos romances que cita já conhecida de Gil Vicente, e por conseguinte do povo portuguez. O _Romancero do Cid_ de Escobar e a _Primavera e Flor de Romances_ reproduziram-se tambem nos prelos portuguezes. O romance popular, simples de condição, franco, rude, tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não sabia abstrahir, dramatisava, accumulava as situações. Fôra preciso um genio superior para comprehender-lhe a ingenuidade profunda. Lope de Vega foi um dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar que o metro octosyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos, e pôz em fórma de romance os passos dolorosissimos da Paixão. Após elle seguiu-se a turba dos poetas; Juan de la Cueba, Garci Sanches, Lasso de la Vega, Segura, Timoneda vão reduzindo á fórma de romance todas as historias do mundo, desde a Biblia e historia da Grecia e Roma até aos Chronicons monasticos. O romance achou-se d'este modo despido da sua natural _sencillez_; tornaram-no declamador, quando elle mal sabia titubear, e se repetia nas grandes emoções; fizeram-no descriptivo, com uma abstracção subjectiva, que o desnaturava. D'esta degeneração inevitavel nasceram os romances mouriscos, que estafaram o gosto com tanta _Zaida y Adalifa_, como se queixa o _Romancero General_. O poema de _Gaia_ de João Vaz, de Evora, pertence a esta épocha, e é um precioso monumento que assignal-a na litteratura portugueza esta transformação. O romance popular, perdendo o genio rude, perdêra a fórma octosyllabica, ia tomando a fórma heroica da outava academica, como o poema de _Roncesvalles_ de Balbuena.
Tornaram-se os romances do povo um pretexto para as _glosas_ dos poetas palacianos, que se serviam dos motes mais celebres para as suas galanterias.
No _Cancioneiro Geral_ sómente se encontra com fórma de romance umas trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que principiam:
Eu era moça menina per nome dona Inez, etc.[1]
'Neste tempo a fórma do romance popular tinha sido despresada completamente; na colleção de romances antigos, feita em Anvers em 1550, encontramos o titulo de _Cancionero de Romances_, em que a palavra Cancioneiro se emprega para proteger com o valor que tinha a rudeza da tradição oral. No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, sómente se encontra o _rymance_:
Tyempo bueno, tempo bueno, etc.[2]
Este romance é uma imitação dos dous celebres romances conservados no _Cancioneiro General_ de 1557: _Fonte frida, fonte frida_, e _Rosa fresca, rosa fresca_, muitas e muitas vezes glosados pelos poetos palacianos. O romance do _Tyempo bueno_, é algum troço conservado por causa da glosa que lhe fez Garcia de Resende. 'Neste tempo o renascimento das Canções provençaes distrahia os serões das principaes côrtes da Europa.
O romance popular era antigo e invariavel; não se prestava a perpetuar as anecdotas e pequenas intrigas palacianas. Então começaram os poetas cultistas a glosar os romances mais celebres da tradição. Na _Poetica Española_ de Rengifo, publicada em 1592 (cap. XXXVIII), se lê: «No ha muchos años, que com[~e]çaron nuestros Poetas a glosar Romances viejos, metiendo cada dos versos en la seg[~u]da de las Redondillas. Y han sido tan bien recebidas estas Glossas, que les han dado los musicos muchas sonadas, y se cantan, y oyen com particular gusto.» O que refere Rengifo encontramol-o confirmado no _Cancionero Geral_ de 1511, conhecido em Portugal, por isso que d'elle encontramos traduzidas por Frei João Claro, monge de Alcobaça, a _Paraphrase do Padre Nosso_, da _Ave Maria_ e do _Te Deum laudamus_ de Hernam Peres de Gusman, que se podem ver nos _Ineditos de Alcobaça_ de Frei Fortunato de Sam Boaventura[3]. O romance da _Bella mal maridada_ era glosado com predilecção pelos nossos Quinhentistas. Bernardim Ribeiro glosou o romance de Durandarte, aonde começa _Oh Belarma, oh Belarma_, já glosado até ao decimo verso no _Cancionero de Ixar_, fol. 138, e d'ahi por diante tirado da _Floresta de romances_[4].
A todas estas causas de decadencia e transformação accresceu a prohibição das _folhas volantes_ pelo _Index Expurgatorio_ de 1581.
Como Sepulveda, que tirava os seus romances das chronicas hespanholas, João Vaz, completou a tradição dos amores de _Gaia_ por algum documento escripto. Qual elle fosse ninguem o póde asseverar. É certo que se encontra a narração d'esses amores com esta fórma graciosa no _Livro velho das Linhagens_: «e este rey D. Ramiro se vê casado com huma rainha, e fege n'elle rey D. Ordonho; e pois lha filhou rey Abencadão que era mouro, e foilha filhar em Salvaterra no logo que chamão Mayer: entom era rey Ramiro nas Asturias; e quando Abencadão tornou adusea para Gaia, que era seu castello, e quando veo rey Ramiro não achou a sa molher e pesoulhe eude muito, e emviou por seu filho D. Ordonho e por seus vassallos, e fretou saas naves, e meteuce em ellas, e veyo aportar a Sanhoane da Furada; e pois que a nave entrou pela foz cobriua de panos verdes, em tal guiza que cuidassem que erão ramos, cá entonce Douro era cuberto de huma parte e da outra darvores; e esse rey Ramiro vestiose em panos de veleto, e levou consigo sa espada, e seu corno, e falou com seu filho e com os seus vassallos que quando ouvissem o seu corno que todos lhe acorressem, e que todos juvecem pela ribeira per antre as arvores, fóra poucos que ficassem na nave para mantela, e el foice estar a huma fonte que estava perto do castello; e Abencadão era fóra do castello, e fora correr seu monte contra Alfão; e huma donzela que servia a rainha levantouce pela menhã que lhe fosse pela agoa para as mãos; e aquella donzela havia nome Ortiga; e ella na fonte achou iazendo rey Ramiro, e nem o conheceo, e el pediolhe dagoa pela aravia, e ella deulha por hum antre, e el meteo hum camafeo na boca, o qual camafeo havia partido com sa molher a rainha pela meadade; el deose a beber, e deitou o anel no antre, e a donzella foice, e deo agoa á rainha, e cahiolhe o anel na mão, e conheceu ella logo; a rainha perguntou quem achara na fonte; ella respondeu qua não era hi ninguem: ella dice que mentia, e que lhe non negace, ca lhe faria por onde bem, e mercê; e a donzela lhe dice enton que achara hum mouro doente e lazarado, e que lhe pedira dagoa que bebece, e ella que lha dera; e entonce lhe dice a rainha que lhe foce por el, e se o hi achasse que lho adusese. A donzela foi por el, e dicelhe ca lhe mandava dizer a rainha que fosse a ella; e entonces rey Ramiro foise com ella; e el entrando pela porta do paço conheceo-o a rainha, e dicelhe--«Rey Ramiro quem te aduse aqui?»--E el lhe respondeu--«ca o teu amor»--: e ella lhe dice que vinha a morrer, e el lhe respondeu, ca pequena maravilha; e ella dice á donzela que o metese na camara, e que lhe não dese que comece, nem que bebece; e a donzela pensou del sem mandado da rainha; e el jazendo na camara chegou Abencadão e derãolhe que jantace, e despois de jantar foice para a rainha; e desque fizerão seu plazer, dice a rainha--«se tu aqui tivesses rey Ramiro, que lhe farias?» O mouro então respondeo--«o que el a mi faria: matal-o.» Então a rainha chamou Ortiga que o adusese da camara, e ella assim o fez, e aduseo ante o mouro, e o mouro lhe disse--«es tu rey Ramiro?»--e elle respondeo--«eu sou»--e o mouro lhe perguntou--«a que vieste aqui?»--elrey Ramiro lhe disse entom--«vim ver minha molher que me filhaste a torto; ca tu havias comigo tregoas, e nom me catava de ti»--e o mouro lhe disse «vieste a morrer; mas querote perguntar: se me tiveces em Mier que morte me darias?»--Elrey Ramiro era muito faminto e respondeolhe assim--«eu te daria um capão assado e huma regueifa, e fariate tudo comer, e dartehia em cima en sa çapa (copa?) chea de vinho que bebesses: em cima abrira portas do meu curral, e faria chamar todas as minhas gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um padrão, e fariate tanger o corno, até que te hi sahice o folego.»--Então respondeo Abencadão--«essa morte te quero eu dar.»--E fez abrir os curraes, e fezes sobir em um padrão que hi entom estava; e começou rey Ramiro entom seu corno tanger, e começou chamar sua gente pelo corno que lhe acorressem, ca agora havia tempo; e o filho como ouvio, acorreolhe com seus vassallos, e meterãose pela porta do castello, e el deceuse do padron adonde estava, e veyo contra elles, e tirou sa espada da bainha, e descabeçando atá o menor mouro que havia em Gaia, andarão todos á espada, e nom ficou em essa villa de Gaia pedra sobre pedra que tudo nãa fosse em terra; e filhou rey Ramiro sa molher com sas donzellas, e quanto haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'Ancora amarrarão as barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Ramiro deitouce a dormir no regaço da rainha, e a rainha filhouce a chorar, e as lagrimas della caerão a D. Ramiro pelo rostro, e el espertouse, e disselhe, porque chorava, e ella disselhe--«choro por o mui bom mouro que mataste»--e então o filho que andava hi na nave ouvio aquella palavra que sa madre dissera, e disse ao padre--«padre não levemos comnosco mais o demo»--Entom rey Ramiro filhou uma mó que trazia na nave, e ligoulha na garganta, e anchorouha no mar, e dês aquella hora chamarão hi Foz d'Ancora. Este Ramiro foice a Myer e fez sa corte, e contoulhe tudo como lhe acaecera, e entom baptisou Ortiga, e casou com ella, e louvoulho toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege nella hum filho, e quando naceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse entom o padre, que lhe punha este nome por que seria padre e senhor de muito boa fidalguia; e morreo rey D. Ramyro. Deos lhe aya saude a alma, requiescat in pace[5].
[1] Fol. 221.
[2] Cancion. Geral, fol. 217.
[3] Vid. o meu Cancioneiro popular, pag. 31-39; notas, pag. 204.
[4] A edição da Bibliotheca Portugueza é detestavel; desconheceu a celebre edição de Ferrara, e atribue a Bernardim Ribeiro a pag. 363 um soneto de Gongora, fazendo-o auctor do romance de Durandarte das velhas colleções hespanholas.
[5] Mon. hist., II Scriptores, pag. 180-181. Esta mesma legenda se encontra no Livro das linhagens do Conde Dom Pedro (Mon. Hist., ibid. pag. 274-277) com algumas variantes na acção.
Aqui agradecemos ao illustre philologo, o Sr. Dr. Pereira Caldas, a valiosa offerta do unico exemplar conhecido do romance de _Gaia_, de que nos servimos para a presente edição.
BREVE COMPOSIÇAM E TRATADO,
Agora novamente tirada das antiguedades de Espanha. Que trata de como el Rey Almançor morreo em Portugal junto á cidade do Porto, onde chamão Gaya, ás mãos del Rey Ramiro, & sua gente, donde tambem cobrou, & matou sua molher chamada Gaya, que estava com este Mouro, da qual ficou este lugar chamado de seu nome.
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Composto por João Vaz natural da Cidade de Evora, em verso de oitava rima.
_Dirigido a dom Miguel de Meneses, Marquez de Villa Real, &._
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Foy visto, & approvado, pello Padre Frey Manuel Coelho.
_Em Lisboa com todas as licenças necessarias._
_Por Antonio Alvares._ 1630.
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Soneto ao Marquez.
A ti Varão insigne, & sinalado, Da generosa stirpe Lusitana, Author offerece este tractado, Sobre esta Hystoria Mauritania. Desse Rey Almançor desbaratado. Pella gente Galega, & Castelhana, Desse bom Rey Ramiro o esforçado, Dos quais Reys ambos, a Historia emana. Recebe pois Senhor esclarecido, A obra, que o Author te apresenta, Com amor, humildade, & cortesia. Como que se desculpa de atrevido. O que por paga toma, & se contenta, Por servir a tam alta Senhoria.
ARGUMENTO E DECLARAÇAM DA HISTORIA.
Em tempo que reynava em Galiza, & parte de Espanha, o animoso Rei Ramiro que foy casado com h[~u]a Senhora chamada Gaya, tendo os Mouros occupada: a demais: por ser em tempo que se avia perdido Espanha entre outros Reys Mouros, reynava Almançor.
Estes dous Reys, avendo entre si batalhas, em h[~u]a captivou Ramiro h[~u]a irmãa deste Almançor, a qual tinha por amiga; do que enojada Gaya, tratou com Almançor a quisesse furtar, que ella daria ordem como se fosse com elle, como deu, & a cobrou, & levou pera Portugal, que estava de Mouros, & a foy pór junto da Cidade do Porto, & junto do Rio Douro, sobre o lugar que agora chamão Gaya, onde Almançor tinha fortaleza, & paços, dos quaes oje em dia se vem os alicerces, & fundamentos. O que vendo Ramiro, ordenou demproviso tres Gales de armada, & com ellas veo aportar, a Sam João da Foz, mea legoa do porto, & sendo de noyte com ellas se entrou por o Rio Douro, sem serem sentidas dos Mouros, & cobertas de ramos por não serem vistas, tanto que amanheceo, Ramiro se pos em trajos de romeiro, & sayo em terra deixado em sinal aos seus, que se ouvissem tanger h[~u]a buzina que consigo levava lhe acudissem. E assi se foy guiando pera os paços deste Mouro, & antes disso chegou a h[~u]a fonte, onde com elle veo ter h[~u]a Moura, que vinha buscar hum pucaro de agoa, pera a mesma Gaya, o qual falandolhe em Aravia lhe pedio o pucaro pera beber por elle, & lho deu, & des que bebeo, tirando hum anel do dedo o deitou dentro, sem o ver a Moura. Bebendo Gaya conheceo o anel que era de seu marido Ramiro, & o mandou chamar, por ser já entam ido Almançor, & vendose, se abraçarão, & tratarão de matar o Mouro, & se hirem ambos, & pera isso o meteo em h[~u]a camara, pera que quando Almançor durmisse a sesta lhe desse rebate; nisto veo Almançor da caça, & sentado á mesa pera comer, esta Gaya lhe deu conta de Ramiro, & como vinha pera o matar, & assi o Mouro mãdou vir ante si a Ramiro, & passadas antre si rezões, por fim, disse Almançor, se eu Ramiro fora a tua casa pera te matar, que me fizeras? respondei, mandarate levar a hum alto, & com esta bozina te fizera tanger até que rebentaras, mandou Almançor, que isso lhe fizessem, levado ao alto, começou a tanger, & logo a gente de Ramiro acudio, & tomando os Mouros descuydados degolarão Almançor, & os mais, & foi saqueada a terra, & dessa Gaya ficou o nome ao lugar de Gaya, da Cidade do Porto.
ROMANCE DE GAIA
Cantemos de Ramiro Rey de Espanha, E del Rey Almançor de Berberia, Quando por desventura tam estranha, No mais de Espanha entam Mouros avia, Com animo cruel, com cruel sanha, Cada qual um ao outro pretendia, Privar de sua fama, honra, estado, Com todas suas forças, e cuydado.
Desse Ramiro digo o esforçado, Que deste nome tres com elle hão sido, Daquelle que com Gaya foy casado, Por quem tantos trabalhos ha sufrido, Da qual Gaya do Porto ha tomado; Em Portugal o mesmo apellido, Lugar junto do Douro em o Porto, Onde foy Almançor preso e morto.
Por mãos deste Ramiro animoso, No que se satisfez de sua afronta, E lhe valeo em isso o ser manhoso, Segundo a historia o aponta, Que nam bastava ser Rey valoroso, Que força sem saber muy pouco monta, E os ardis he cousa muy notoria, Que sam causa urgente de victoria.
Nem tratamos aqui das mais pendenças, E batalhas antre estes Reys avidas, Que forão muyto largas, e extenças, E em chronicas estão bem referidas, Só queremos tratar das differenças, Que antre estes Reys forão movidas Quando Ramiro ouve captivado A irmãa de Almançor, e deshonrado.
Donde este Almançor tempo esperando, A molher a Ramiro ha furtado, No qual se foy emfim muy bem vingado, Ou estava no furto melhorado, De Gaya Almançor ficou gozando, E com ella ficou como casado, Assi que um peccado outro chama, E fazem na maldade calo, e cama.
Vendose Almaçor com a tal presa, Como Aguia Real voou com ella, Logo que a furtou com ligereza Perdeo de vista os Reynos de Castella, E veo aqui portar nesta deveza Do Douro onde então estava aquella, Povoação, e paços, donde Gaya, A qual ahi está junto da praya.
Ramiro tal ficou com esta nova, Que se lhe deu la onde era ausente, Que esteve em se meter em h[~u]a cova, Não querendo viver antre a gente, Não aver igual dor, he clara prova, Porque de si he quasi impaciente, Mas como he Christão, e Rey sabido, A Deos logo então se ha socorrido.
Tanto, e mais chorava o seu peccado, Que toda esta mesma desventura, No que consiste o ser Christão chamado, E nisto está o seu remedio, e cura, Ramiro que em isto se ha fundado. Ver quam pouco na vida o gosto dura, A Deos se dedicou, o que Deos vendo, Neste caso quis logo ir provendo.
E assi lhe inspirou que ordenasse, H[~u]a pequena, e secreta armada, De h[~u]as tres gales, e que guiasse Aonde sua Gaya era levada, E que como fiel bem confiasse, Que por elle seria hi cobrada, E o mesmo Almançor morto, e vencido, Porque Deos o havia permetido.
Ordenou pois Ramiro com bom siso, As tres gales darmada pella posta, Com bonança vieram demproviso, A Portugal a demandar a costa, E por ella guiando sobre aviso, Calados sem falar, nem dar resposta, A Sam João da Foz forão surgidos, De noyte sem dos Mouros ser sentidos.
Chegadas as gales a foz, e entrada, Daquesse Rio Douro caudaloso, Ahi parou então esta armada. Com perigo, por ser lugar fragoso, Da noyte era ja parte andada, O Ceo estava claro, e luminoso, O ar sereno, tudo socegado, O mar porem alli sempre he irado.
E por se segurar determinarão, Tomar o Rio acima assi surgindo, Pella parte a dentro, se deytarão, Com os remos o Douro vão ferindo, E por fazer carreira deceparão, Mil arvores, que o Rio vam cobrindo, Que sem isso gales ir não podião, Até onde levalas pretendião.
Era o arvoredo nessa idade, Muy sobejo, e crecido até a praya, Na parte donde agora he a Cidade, E na banda daquem chamada Gaya, De arvores muy gram variedade, De brozios, e louro, mirtos, faya, E com ser tudo fragoa, e penedia, Somente o arvoredo alli se via.
Nesta parte de ca daquem do Douro, No mais alto outeyro, e o mayor, Ahi tinha seus paços el Rei Mouro, Aquelle a quem chamarão Almançor, Ahi tinha tambem o seu thesouro, Porque daquella terra era senhor, Contente e recreado alli vivia, Por ser terra de caça e monteria.
Ahi vay h[~u]a cava como mina, Até o Rio feita entre dous valos, Que ainda agora se vè, e determina, Ser pera írem beber os seus cavalos, Tambem he cousa certa, e de crer digna, Que tinha outros Reys Mouros vassalos, Todos a este Rey obedecião, Porque em sua ley maldita crião.
Alli se estava o Mouro aposentado, Donde o largo mar, cos olhos via, Dalli o via as vezes socegado, E outras quando bravo bem o ouvia Tambem estava alli fortalezado, Porque del Rey Ramiro se temia, Que quem deve, em fim sempre recea, Se tem um bon jantar, de haver ma cea.
Alli gastava a vida com sabores, O Mouro Almançor muy namorado, Gozando dessa Gaya; e seus favores, Molher del Rey Ramiro o magoado, Mas o jogo, e caça, e os amores, O fazem do perigo descuydado, E entre tanto o tempo dá h[~u]a volta, Pesca o pescador nagoa envolta.
Chegado pois Ramiro o muy prudente, Com suas tres gales apercebidas, De noite, ja que bem dormia a gente, Alli se preparão escondidas, E posto que vem feyto h[~u]a serpente, Ordena que não sejão alli sentidas, E seu furor resguarda pera quando, Se veja de Almançor ir triumphando.
Alli gastada a noyte em socego, Quanto possivel era e importava, Tratavão do segredo em emprego, E do que tal empresa demandava, A lingoa de Arabigo, e Grego, Muy ao natural pronunciava, Só do aviso da terra tendo mingoa Por si se oferece ir tomar lingoa.
Ficou porem por todos assentado, Que tocando Ramiro h[~u]a corneta Não fique em Gale nenhum soldado, Que logo o outeyro nam cometa, E com animo forte e esforçado, Contra os crueis Mouros arremeta, E todos juntos dando Sanctiago, Os Mouros ajam hum cruel estrago.
Passada pois a noite, veo o dia, Ramiro toma trajos de romeiro, Deyxada toda sua companhia, Sobindo se vay so pello outeyro, A Deos so quis levar por sua guia, E em sua fe firme, e muy inteiro, E fazendo o sinal da Cruz no peito Aos paços do Mouro foy direito.
Por ver se indo assi desconhecido A sua molher Gaya ver pudesse, Ou sendo Almançor a caça ydo, Ella com o seu Ramiro se viesse, O Phebo então mostrava aver nacido, Contra quem disse, se ora te aprouvesse, Com teu resplandor Phebo me ir mostrado, Este bem, que pretendo, e vou buscando.
Assi se vay o triste de Ramiro, De pensamentos tais arrodeado, De pedra não seria mais de hum tiro, Que perto estava ja de povoado; Dizendo vay, se este bem acquiro Deste Mouro serey muy bem vingado, E por esta historia ser sabida Aqui se verá feyta h[~u]a ermida.
E dando mais Ramiro h[~u]a passada Vio h[~u]a fonte dagoa muy fermosa, De rica pedraria fabricada, De agua muy delgada, e saborosa, A qual oje em dia he chamada, A fonte de Ramiro, sem mais glosa, A qual oje ahi está por memoria Em testemunho, e fe desta historia.
Alli se assentou por ir cansado, Não, para descansar, que mal descansa, Aquelle que então ha começado, Trabalhar por o que depois alcança, E alli se despõe determinado Armar h[~u]a certos laços desperança, Esperando que và alguém à fonte, Que novas de Almançor lhe diga e cõte.