Chapter 1
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VIDA DE TAKLA HAYMANOT
PELO
P. MANUEL DE ALMEIDA
da Companhia de Jesus
PUBLICADA POR
FRANCISCO MARIA ESTEVES PEREIRA
_LISBOA_
IMPRENSA LUCAS
93--Rua do Diario de Noticias--93
1899
PREFAÇÃO
Dos successos e vicissitudes do antigo reino da Ethiopia sómente se possuem noticias circumstanciadas a partir do reinado de Amda Seyon (6807-6836 M., 1315-1344 J. C.), de cujos gloriosos feitos foi conservada a narração na obra conhecida pelo nome de Historia das guerras de Amda Seyon[1]. Dos tempos anteriores não existem chronicas, apenas ha listas dos reis[2], e muito breves noticias se encontram espalhadas em differentes escriptos. Entre os documentos, que prestam mais valioso subsidio ao estudo da historia antiga de Ethiopia, são de grande importancia as vidas dos santos, que exerceram alguma influencia no mesmo paiz, quer na introducção e propagação do christianismo, quer na implantação e diffusão do monachismo, quer nas revoluções politicas. Este facto não deve causar admiração, e resulta principalmente da indole de certo modo theocratica do governo de Ethiopia, do grande poderio do clero, e das condições sociaes dos escriptores, quasi sempre ecclesiasticos[3].
Entre os santos naturaes de Ethiopia o mais eminente é sem duvida Takla Haymanot, o qual sempre foi tido pelos Abexins por varão apostolico, de analisada virtude, e maravilhoso em milagres; e se não foi o auctor e fundador da ordem monastica, que depois teve o seu nome, reformou-a e illustrou-a grandemente, de modo que ella floresceu durante seculos em numero de religiosos, em exemplo de virtudes heroicas, e em letras, quanto se podia esperar de gente, que nunca teve mestres, que lhes dessem algumas luzes das sciencias humanas, nem da theologia scholastica[4]. O zelo de Takla Haymanot não se limitou a edificar na virtude com a pregação e o exemplo os christãos do seu paiz; mas gastou a maior parte da sua vida, longa e laboriosa, na implantação da fé christã entre as gentes rudes, que habitavam as regiões meridionaes de Ethiopia, como Damot e Davaro, as quaes ainda então viviam mergulhadas no mais grosseiro gentilismo[5].
Da _Vida de Takla Haymanot_ existem duas redacções escriptas em geez: uma devida aos monges do mosteiro de Valdeba, em Tegre; outra dos monges do mosteiro de Dabra Libanos, em Xava.
A redacção dos monges de Valdeba parece ter sido escripta no seculo XV, provavelmente no tempo do rei Zara Yaeqob (6927-6960 M., 1435-1468 J. C.); o seu auctor foi verisimilmente um monge do mosteiro de S. Samuel de Valdeba[6]. Esta redacção é a mais breve das duas; está escripta em geez puro, sem mistura de palavras amarinhas; o seu estylo é simples e elegante. D'esta redacção só existe uma copia contida no manuscripto ethiopico n.º 136 da Bibliotheca Nacional de Paris[7]; foi publicada por Conti Rossini[8].
A redacção dos monges de Dabra Libanos parece ter sido escripta tambem no seculo XV, mas posteriormente á redacção dos monges de Valdeba; o seu auctor foi verisimilmente um monge do mosteiro de Dabra Libanos. Esta redacção é muito desenvolvida; comprehende CXVI capitulos, seguidos da narrativa da trasladação das reliquias do santo e dos seus milagres; está escripta em geez puro, sem mistura de palavras amarinhas; o seu estylo é simples e elegante. D'esta redacção existem numerosas copias: no Museu Britannico dez (ms. add. 16257, mss. orient. 696, 721, 722, 723, 724, 725, 726, 727, 728)[9]; na Bibliotheca Bodleiana de Oxford uma (ms. aeth. c. 3)[10]; na Bibliotheca nacional de Paris duas (ms. eth. 137 e 138)[11]; na collecção de A. d'Abbadie uma (ms. eth. 40)[12]. Esta redacção é inedita.
Ambas as redacções contem muitas noticias acerca das crenças dos povos, que no tempo de Takla Haymanot habitavam as regiões situadas ao sul de Ethiopia, antes de serem convertidos ao christianismo; são por isso de subido valor para a ethnographia d'aquelles povos, e por meio dellas será possivel determinar as gentes de que eram oriundos, e apreciar a influencia d'aquellas que os dominaram, ou com as quaes mantiveram relações commerciaes.
Do que se conta na _Vida de Takla Haymanot_ não é possivel concluir-se a epocha precisa, em que o mesmo santo viveu. O P. Manuel de Almeida, da Companhia de Jesus, que esteve em Ethiopia nos annos de 1624 a 1633, observa com razão, que esta historia contem diversos e graves erros chronologicos, e que o maior é contar que o mesmo santo viveu no tempo do rei Yekuno Amlak (6762-6776 M., 1270-1284 J. C), e que recebeu o habito e capello do abba Yohani, terceiro successor do abba Aragavi como superior do mosteiro de Damo, que, pelo que se refere na sua historia[13], viveu no fim do seculo V e principio do seculo VI de J. C. Como porém na _Vida de Takla Haymanot_ se conta, que este santo converteu ao christianismo a gente de Damot e de outras terras meridionaes de Ethiopia, e nella se não faz menção dos musulmanos[14], que logo nos primeiros seculos depois do seu apparecimento começaram a infestar o reino de Ethiopia, concluiu o P. Manuel de Almeida[15], que Takla Haymanot floresceu no seculo VIII de J. C.
Da redacção de Dabra Libanos foi feita uma traducção arabica, a qual, segundo se diz no seu titulo, foi enviada pelo rei Galavdevos (7033-7051 M., 1541-1559 J. C.) ao abba Gabriel, XCV arcebispo de Alexandria. A traducção arabica é algum tanto abreviada; os nomes proprios são todos geez, mas soffreram consideraveis alterações[16]. D'esta traducção são conhecidas duas copias: uma é contida no manuscripto arabico n.º 284 (ancien fonds n.º 159) da Bibliotheca Nacional de Paris, datado do anno de 1307 dos Martyres (1590 J. C.)[17]; outra no codice arabico christão CV da Bibliotheca Bodleiana de Oxford, datado do anno de 1310 dos Martyres (1593 J. C.)[18]. Esta traducção é inedita.
Da redacção de Dabra Libanos foi feito um resumo em portuguez pelo P. Manuel de Almeida, e por elle incluida no segundo livro da sua _Historia de Ethiopia a alta_[19]. Acerca do modo como foi feito este resumo diz o P. Manuel de Almeida[20]: «Escreverei aqui a vida de Tecla Haymanot, assim como está no livro de Ethiopia, que elles tem por mais verdadeiro, posto que o não é em muitas cousas, como se deixará ver no discurso da historia;... mas tambem declaro logo, que não me pareceo bem escrever aqui esta historia palavra por palavra, assim como está no seu livro, por ser demasiadamente comprida e enfadonha; comtudo não porei senão o que nella acho, e isto abreviando quanto for necessario sem deixar cousa alguma que de conta seja, cortando mais pelas palavras que pelas cousas.»
Este resumo, ainda que muito breve, tem particular valor; dá uma ideia sufficientemente aproximada e completa do original, e mostra que este não soffreu alterações nos tres ultimos seculos. Os nomes proprios são escriptos algum tanto incorrectamente; comtudo é sempre facil reconhecer a forma ethiopica, e fazer a sua identificação. Além d'isso o mesmo resumo é um notavel documento dos trabalhos litterarios dos missionarios portuguezes dos seculos XVI e XVII, que ao mesmo tempo, que com incomparavel zelo implantavam e sustentavam a fé christã entre muitas nações da Africa e da Asia, com louvavel diligencia estudavam a lingua, a litteratura, a historia, os usos e os costumes dos povos, que evangelizavam. Pareceu por isso util a publicação do mesmo resumo; elle prestará sem duvida algum subsidio aos eruditos, pelo menos em quanto não é publicada a redacção original.
VIDA DE TECLA HAYMANOT
Tecla Haymanot quer dizer Planta da Fé; foi descendente de Sadoc, sacerdote, filho de Abeitar de Hierusalem; porque, quando Salamão mandou a seu filho, pera que reinasse em Ethiopia, mandou com elle a Azarias, filho de Sadoc, pera ser sacerdote, como seu pai; e sahio de Hierusalem com grande festa e honra, trazendo comsigo a arca de Siam Deos de Israel; e pouco tempo despois, chegado á terra de Tigré, casou Azarias com huma filha dos honrados da terra, que se chamava Decamadabay, e gerou hum filho, a quem poz por nome Sadoc, como seu pai; Sadoc, gerou a Levi; e Levi gerou a Hizbizaay; e Hizbizaay [gerou] a Hezbeoay; e estes sacerdotes ensinaram a Lei velha á gente de Ethiopia, até o tempo que Tiberio era Emperador de Roma, e Herodes Rei de Galileia, e Bacen Rei de Ethiopia, e Aquim sacerdote; então nasceo Nosso Senhor Jesus Christo em Bethlem de Judá; Aquim, sacerdote, gerou a Simão; e Simão gerou a Embarim; e despois da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Christo 256 annos, veio hum mercador de Hierusalem, e com elle dous meninos, que se chamavam Fremenatos e Sydracos, e se agasalharam em casa de Embarim, sacerdote; e aquella noite adoeceo o mercador, e dali a pouco tempo morreo; e os meninos se criaram em casa de Embarim. Nossos pais antigos[21] nos trouxeram a circumcisão; e o crer em Christo nos ensinou a Rainha Endake; pera nos bautizar e dar a communhão não veio a nós Apostolo; mas vós ide ao Papa de Hierusalem, pera que vos dê poder de ser nosso apostolo: e deulhe ouro e prata pera seu caminho.
Com isto partio Fremenatos de Ethiopia, e chegando a Hierusalem, referio ao Papa Athanasio os costumes desta terra, com o que elle se alegrou muito; e ordenandoo o fez Bispo de Ethiopia, e lhe poz por nome Abba Salama, que quer dizer Padre Pacifico, porque havia de por paz entre Deos e os homens; e assi tornou Abba Salama á terra de Agazy, e chegou a Embarim aos 315 annos do nascimento de Christo Nosso Senhor, e o bautizou, e lhe deu ordens de diacono, e despois de sacerdote; e mudandolhe o nome, o chamou Hezbekadez, e lhe mandou que bautizasse toda agente, e disse que lhe dava poderes de Bispo; e assi foi bautizando a todos os de Tigré, Amaharâ, e Angot, e ensinandolhes a Fé de Christo; e foram muito bons christãos. Hezbekadez gerou a Hezbebarie; este veio da terra de Tigré, e fez seu assento na terra de Daont, que se chama Baheraquedâ, aonde casou, e gerou a Tecla Kade; este casouse no Amaharâ com huma mulher, que se chamava Maguedela, e gerou sete filhos, e até agora estão ali seus descendentes; e hum daquelles sete, que se chamava Azquelevi, bautizou a gente de Olecâ e Amaharâ, e a gente de Marrabete e Manz. Este Azquelevi casou em Harbeguixe, e gerou a Abaila, a quem, despois que cresceo, mandou el Rei Dignacio á terra de Guva com cento e cincoenta sacerdotes; e chegando bautizou em hum dia vinte mil, e edificaram muitas igrejas; e Abaila escolheo a terra de Zorarê, e gerou Harbeguixê; este gerou a Bacoraseon; este gerou a Hezbekadez; este gerou a Brahanamascal; em tempo deste passou o reino de Israel a Zagoe; Brahanamascal gerou a Heotbena; este gerou a Zarajoanes; [este gerou] a Sagaza Ab, o qual he pai do nosso santo. Sagaza Ab casou com huma filha dos honrados daquella terra, que se chamava Sara; e foram ambos tementes a Deos, faziam muita oração, jejuavam, e davam grandes esmolas; e amavamse como Abraham e Sara, e Zacharias e Isabo.
Era Sara dotada de grande formosura e muito prudente; pelo que seu sogro a chamou Egzyereâ, que quer dizer Deos a escolheo, e por este nome se nomeou ao diante; porém era esteril, pelo que ella e seu marido tinham grande sentimento; e assi pediam muito a Deos, que lhes desse fructo de benção; e pera alcançar esta mercê, tomaram ao archanjo S. Miguel por seu particular avogado, e cada mez lhe faziam festa; mas vendo que havia já muitos annos que eram casados, e que não alcançavam o que tanto desejavam, offereceram a Deos, e repartiram com as igrejas e os pobres toda sua fazenda, forrando juntamente muitos escravo que tinham.
Neste tempo se levantou hum tyrano, por nome Mutolamê[22], cuja mãi se chamava Aseldanê, e reinou nas terras de Damot, Xaoa, Amaharâ, até o rio Gemâ; este adorava os idolos, e destruia as igrejas. Hum dia veio este tyrano dar hum assalto na terra de Salalgi, e cercou a Zorarê; fugiu Sagaza Ab; seguioo hum cavalleiro dos do tyrano, e indo já perto lhe atirou com huma lança, mas errouo; segundou com outra, mas esta se virou no ar, e lhe veio atravessar hum braço; ficou o homem espantado, e Sagaza Ab teve tempo pera se meter em huma alagoa, que ali perto estava, na qual S. Miguel o guardou por espaço de tres dias debaixo da agoa. Egzyereâ cativou neste assalto; e vendo os soldados sua extraordinaria formosura, a levaram a seu Rei, o qual a cubiçou pera mulher; e dandolhe ricos vestidos, mandou aparelhar grandes festas pera a receber e coroar por rainha diante de hum seu idolo em hum templo, que se chamava Malberedê s. Seiva de Deos. Egzyereâ estava muito triste, e passava os dias e noites em oração, pedindo a Deos a livrasse das incestuosas bodas do tyrano. Chegou o dia sinalado, que foi o de 22 de agosto; sahio Mutolamê com toda a sua corte, do melhor que nella havia; e mandou trazer a Egzyereâ ricamente vestida até o templo dos seus idolos; estava o ceo claro e sereno; porém em hum momento se toldou de nuvens grossas e espessas, as quais se romperam em trovões espantosos, e em tantos raios e coriscos, que mataram a mil soldados, e a trezentos feiticeiros e sacerdotes dos idolos; e o tyrano Mutolamê ficou tam assombrado, que perdeo de todo o juizo, e desta maneira viveo muitos annos; só a serva de Deos ficou intacta, porque o archanjo S. Miguel no meio daquella escuridão lhe appareceo com grande luz e resplandor; e tomandoa, e levandoa pelos ares, de Damot a poz em hum momento em sua terra de Zorarê. Sahia da igreja Sagaza Ab, aonde fora encommendar a Nosso Senhor a vida e saude de sua mulher; encontrando com ella, ficou não menos espantado, que alegre, ouvindo contarlhe as maravilhas, que Deos e o santo archanjo obraram em seu livramento; contoulhe elle tambem os favores que primeiro recebera de S. Miguel; e passando o dia em louvores de Deos, naquella noite concebeo Egzyereâ, e teve ella e seu marido varios e mysteriosos sonhos, em que Deos lhe descobrio as grandezas do filho, que Deos lhe queria dar; era 23 de agosto o seguinte dia que amanheceo, e dali a nove mezes, aos 30 de dezembro lhes nasceo o bemdito menino; o qual ao terceiro dia despois de nascer, alevantando a mãosinha, e abrindolhe Deos a bocca, disse em alta voz estas palavras: Hum Padre Santo, hum filho Santo, hum Spirito Santo: pasmaram todos os presentes, e deram a Deos grandes louvores; e como se acabou o tempo da purificação, que são quarenta dias, levaram o menino ao templo, e o bautizaram, pondolhe por nome Feça Sion, que quer dizer Alegria de Siam, polla muita que lhes trouxe, e muita mais que trazia Deos a toda a igreja por meio deste menino. Sendo de treze mezes Feça Sion, em toda a Xaoa e Zorarê havia grande fome; e chegandose a festa de S. Miguel não tinham seus pais com que a festejar, dando nella como costumavam largas esmolas aos pobres; havia em casa hum cesto com hum pouco de trigo, hum calão com alguma manteiga, e algum sal. Sobre tudo isto poz o menino as mãos, e fez o sinal da cruz; e logo o trigo pullou no cesto, cresceo a manteiga e sal, de maneira que se encheram doze cestos de trigo, muitos calões de manteiga, e houve sal em abundancia; fizeram sua festa dando as costumadas esmolas, e sobejoulhe ainda pera todo o tempo da fome.
Cresceo o menino em idade e saber; aprendeo os salmos de David com admiravel facilidade; jejuava muito, e com o jejum e paciencia se armava contra as tentações do diabo. Chegando aos dezoito annos o levou seu pai ao Abbuna Kerilos, sendo Patriarcha de Alexandria Abba Benjamin, pera que o ordenasse de diacono; appareceo S. Miguel ao Abbuna, e reveloulhe como Deos tinha escolhido aquelle menino pera cousas de grande gloria e honra sua; e por isso em o vendo, lhe mostrou muito amor e respeito, e lhe deu as ordens de diacono com grande vontade. Voltando Feça Sion pera sua terra, a hum homem que o tratou mal, e não quiz agasalhar em sua casa, alevantandoo no ar, o fez açoutar S. Miguel, até que elle pedia misericordia, e Feça Sion fez oração por elle; indo mais adiante, anoitecendolhe em hum lugar, em que não havia agoa, a pedio elle a Nosso Senhor com muitas lagrimas, e chegando as que chorava, ao chão, arrebentou huma fonte muito clara, em a qual elle e vinte homens, que vinham em sua companhia, beberam e mataram a sede.
Pouco despois de chegar a sua casa ordenado de diacono, trataram seus pais de o casar; repugnou elle a isto com grande determinação, dizendo que tinha offerecido a Deos sua riqueza; porém os pais, pretendendo sahir com seu intento, trouxeram a donzella, com quem o queriam casar, pera sua casa; mas Deos acudio, e ordenou, que ella dentro de poucos dias adoecesse e falecesse. Feça Sion então se foi a buscar o Abbuna Keriloa, e lhe disse que attentasse pelos abusos que havia na terra, que faziam outra Fé, e outro costume novo da igreja, porque bautizavam os meninos antes de os circumcidarem; ouvindo isto o Abbuna Kerilos lhe deu a benção, e disse: Porque tendes zelo das cousas de Deos, como Elias propheta de Israel, haveis de ser novo apostolo, e derrubareis os idolos, e lançareis aos demonios fora dos corpos, e fareis que muitos, deixada a adoração dos demonios, adorem a Christo Nosso Senhor polla graça do Spirito Santo, que está em vós: e logo o ordenou de missa, e fez como vigario geral seu em toda a terra de Xaoa, e o mandou pera ella com muita honra.
Pouco despois de chegar á sua terra morreram seus pais, Egzyereâ aos 12 de agosto, e Sagaza Ab aos 16 do mesmo mez; teve Feça Sion o devido sentimento com a morte de tão bons pais; e gosando das riquezas que lhe deixaram, e cumprindo com as obrigações de sacerdote, esteve sete annos em sua casa, no fim dos quais, sahindo hum dia á caça, e apartandose no campo dos companheiros, lhe appareceo S. Miguel com tão notavel luz e resplandor, que assombrado Feça Sion cahio no chão como morto; mas o archanjo o alevantou, e animou; e tirandolhe o medo, lhe disse: Este officio não he vosso, que não pertence ao sacerdote ser caçador das feras, senão das almas dos homens pera as trazer a Deos; assi o fazei daqui por diante; e sabei que Deos vos dá poder pera resuscitar os mortos, sarar os doentes, e lançar os demonios dos corpos humanos; o vosso nome não seja Feça Sion, senão Tecla Haymanot, que quer dizer Planta da Fé, porque a plantareis em muitas terras e nas almas de muitos. Dizendo isto S. Miguel, Christo Nosso Senhor appareceo em figura de mancebo muito formoso, assentado sobre as azas do archanjo, e fallandolhe com grande amor, lhe disse que pela bocca de S. Miguel lhe mandara, e dera nome novo pera o mandar a hum povo novo, aonde não chegaram seus Apostolos; ouvindo isto Tecla Haymanot se lançou por terra, e deu a Deos muitas graças por tão grande mimo e mercê.
Desappareceo a visão, e o santo se ajuntou com seus companheiros; e vindose pera casa, repartio e deu aos pobres tudo quanto tinha, começando vida nova e apostolica, pregando com grande spirito, e acompanhando a pregação com espantosos milagres, aos quais seguia a conversão de almas sem conta. Sahindo logo de sua terra, se foi a huma, que se chamava Catata, por lhe dizerem em Tigré, que os moradores nella adoravam a huma arvore, e ao demonio que lhes falava nella; fez oração, arrancouse a arvore com tal força, que matou a vinte e quatro dos que achou mais perto; e logo o demonio, forçado da mesma oração, por mandado do santo declarou a todos, como não era Deos, e os enganos em que os trouxera tanto tempo; pasmava a gente do que via, e ouvia; e desenganados se lançaram aos pés do santo, prometendo de fazer tudo, que lhes mandasse e ensinasse. Elle, pera mais os confirmar, pedio a Deos que resuscitasse os vinte e quatro, que a arvore matou, e logo se alevantaram vivos e sãos; e com elles mais quinze homens da mesma terra, os quais perguntados, quem eram, aonde estavam, e como resuscitaram, responderam, que viveram naquella terra no tempo que reinava Abra e Azbaha; e morrendo estiveram sempre em hum lugar, em que padeciam grandes tormentos, donde foram tirados; porque pela oração que o santo fizera pelos vinte e quatro, fora mandada a misericordia do ceo; e porque estavam ali juntos, os alcançara tambem a elles.
Ensinou, e doutrinou Tecla Haymanot a todos os que ali eram presentes, e bautizou naquelle dia 12.345, e entre elles a todos que resuscitaram; mas [disselhes] que não temessem, porque não hiriam pera o lugar de tormentos, aonde primeiro estavam, senão ao lugar de descanso; e logo morreram, e forão enterrados; ao dia seguinte veio muita mais gente, e logo ao principe daquella terra, que se chamava Darasgued, e a todos o santo ensinou, e converteo; e os que nesta terra receberam o santo bautismo chegaram a 645.387. Ao principe poz o santo por nome Bamina Christos, e a sua mulher Acrocia; e da arvore, que arrancou, fez fazer huma formosa igreja na terra de Enquedem, no lugar de Jateiber; aqui se deteve tres annos, e mandou á sua terra de Zorarê buscar sacerdotes, pera que o ajudassem a ensinar, e cultivar tão grande numero de christãos; na quaresma se mettia Tecla Haymanot pelo deserto, e jejuava sem comer mais que aos domingos, e nelles seu comer eram as hervas do campo, sem fazer differença entre as doces e as amargas. Estando hum dia no deserto lhe falou Deos, e mandou que fosse a pregar a Fé ao reino de Damot, e lhe revelou que naquelle lugar do deserto havia de alevantar huma igreja hum seu filho spiritual, que se chamaria Tadeus. Cumprindo Tecla Haymanot com o que Deos lhe mandava, despedindose daquelles christãos com muitas lagrimas e sentimento de todos elles, entrou pelas terras de Xaoa pregando o santo Evangelho, e convertendo a muitos; e dali passou a huma grande serra, que se chama Oifat, na qual o demonio, apparecendo de noite aos moradores em figuras espantosas, cavalleiro sobre hum lobo, e fazendo grandes males aos que o não adoravam, se fazia adorar por Deos de toda aquella pobre gente; mas o santo, pregandolhes e ensinandolhes que adorassem ao verdadeiro Deos, e bautizandoos, os livrou daquelle cativeiro do demonio, lançandoo fora daquelle monte e dos corpos de muitos, aos quais tyranisava com varias doenças e aleijoens. Daqui passou ás terras de Ennaret, aonde derrubou muitos idolos; e destas a Oiraguâ, e Catal, e á terra de Bilat, aonde reinava hum insigne feiticeiro, ao qual Tecla Haymanot deu huma grande bofetada, e derrubou com ella de huma cadeira dourada, na qual assentado, com varias e diabolicas adivinhações, enganava o povo; mas os criados do feiticeiro o carregaram de tantas e tão pesadas punhadas e pancadas, que o deixaram morto ao pé de huma arvore; resuscitouo S. Miguel, e logo tornou ao feiticeiro, e lhe fez o mesmo que primeiro sem medo algum; desta vez foi pelos criados do feiticeiro açoutado com cadeias de ferro, de tal maneira que lhe appareciam os ossos; e ficando espedaçado e morto, S. Miguel o curou e resuscitou segunda vez; quarenta dias trabalhou o santo debalde pera ensinar e converter a esta gente; mas vendo a sua dureza, aceso em zelo da honra de Deos, como outro Elias, fazendo oração pedio que se abrisse a terra, e os subvertesse vivos, o que Deos lhe concedeo; e no dia seguinte ouvio huma voz do ceo, que lhe disse, que lhe nasceria hum filho spiritual, por nome Anoreos, o qual converteria a gente daquella terra, e edificaria ali igreja.