Viagens na Minha Terra (Volume II)
Chapter 6
É uma grande lacuna na nossa historia; mas antes fique assim do que enchê-la de imaginação.
Oh! eu detesto a imaginação.
Onde a chronica se calla e a tradição não falla, antes quero uma pagina inteira de pontinhos, ou toda branca--ou toda preta, como na veneravel historia do nosso particular e respeitavel amigo Tristão Shandy, do que uma so linha da invenção do chroniqueiro.
Isso é bom para novellas e romances, livros insignificantes que todos leem todavia, ainda os mesmos que o negam.
Eu tambem me parece que os leio, mas vou sempre dizendo que não...
Emfim, tornemos ao frade, e tornemos ás minhas viagens.
Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando com a recordação das tremendas scenas que, havia tam poucos annos, se tinham passado em seu antigo mosteiro, eu me approximei emfim do real convento de San'Francisco de Santarem.
Dei pouca attenção ao bello adro e á solemne vista que d'elle se descobre--e menos ainda ás doentias acacias que ahi vejetam infezadas e rachiticas, como plantadas de má mão e em má hora--porque môças são ellas, é visivel: poseram-n'as ahi depois de extincto o convento. São triste mas verdadeiro symbolo da apagada e facticia vida que se quiz dar ao que era morto.
Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguçadas arcadas do claustro, pelas altas naves do templo se descubrimos algum vestigio do último guardião d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo destino em hora aziaga tam estreitamente se ligou com o d'elle.
Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito mais, do que todos esses tumulos e inscripções que por ahi estão, e que tanto characterizam este um dos mais antigos e mais historicos edificios do reino.
Mas em vão interrogo pedra a pedra, lage a lage: o echo morto da solidão responde tristemente ás minhas perguntas, responde que nada sabe, que esqueceu tudo, que aqui reina a desolação e o abandôno, e que se apagaram todas as lembranças de outro estado...
Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus amores? Que será feito d'esse homem que ousou amar-te amando a outra? E essa outra onde está? Resignou-se ella devéras? Sepultou comeffeito, sob o gêlo apparente que veste de triplice mas falsa armadura o peito da mulher do norte, todo aquelle fogo intenso e íntimo que solapadamente lhe devora o coração?
Não tenho esperanças de saber nada d'isso aqui.
So pude descubrir que, no dia immediato á scena nocturna das Claras, Fr. Diniz sahiu de Santarem, não se sabe em que direcção--que n'esse mesmo dia Georgina sahíra tambem pela estrada de Lisboa, levando em sua carruagem a avó e a neta, ambas meias mortas e ambas meias loucas--que não houvera mais novas de Carlos--e que a sua última carta, aquella que escrevêra de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada nas mãos convulsas quando partíra.
Pois tambem eu me quero partir, me quero ir embora. Ja me infada Santarem, ja me cansam éstas perpétuas ruinas, estes pardeiros interminaveis, o aspecto desgracioso d'estes intulhos, a tristeza d'estas ruas desertas. Vou-me embora.
E comtudo San'Francisco é uma bella ruina, que merecia examinada de vagar, com outra paciencia que eu ja não tenho.
Se tudo me impacienta aqui!
Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecadação milítar; andou a mão destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos preciosos, riscando com a baioneta pelo verniz mais pulido e mais respeitado d'esses jazigos antiquissimos: os lavores mais delicados esmoucou-os, degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros; e ao som da corneta militar acordaram os mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta final...
Decididamente vou-me embora, não posso estar aqui, não quero ver isto. Não é horror que me faz, é náusea, é asco, é zanga.
Maldittas sejam as mãos que te profanaram, Santarem... que te deshonraram, Portugal... que te invilleceram e degradaram, nação que tudo perdeste, até os padrões da tua historia!..
Eheu, eheu, Portugal!
CAPITULO XLII.
Protesto do auctor.--Desaffinação dos nervos.--O que é preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus está no Colliseu assím como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que estado se acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real sôbre a caveira.--O rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem nunca viu o rei cuida que é de oiro.--Brutalidades da soldadesca n'um tumulo real.--O que se acha nas sepulturas dos reis.--A phrenologia.--Vindicta publica, tardia mas ultrajante.--Camões e Duarte Pacheco.--A sombra falsa da religião.--Regimen dos barões e da materia.--A prosa e a poesia do povo.--Synthese e analyse.--O senso íntimo.--Se o auctor é demagogo ou Jesuita?--Jesu Christo e os barões.
Não chamem exaggerado ao que vai escripto no fim do último capitulo; senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poderá haver é desacêrto nas palavras, porque em verdade não sei explicar a impressão que me faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os nervos, vibram-me n'uma discordancia e dissonancia insupportavel. Queria ver antes estes altares expostos ás chuvas e aos ventos do ceo,--que o sol os queimasse de dia,--que á noite, á luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das estrellas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sôbre seus arcos meio-cahidos.
Não me parecia profanado o templo assim, nem descahido de majestade o monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras sôltas, entre as hervas humidas, e levantar o meu pensamento a Deus, o meu coração á glória, á grandeza, o meu espirito ás sublimes aspirações da idealidade. O material, o grosseiro, o pesado da vida não me vinham affligir ahi.
Deus, a idea grande do mundo--Deus, a Razão Eterna--Deus, o amor--Deus, a glória--Deus, a fôrça, a poesia e a nobreza d'alma--Deus está nas ruinas escalavradas do Colliseu, como nos zimborios de bronze e marmore de San'Pedro.
Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho, concertado pelas Obras-públicas para servir de quartel de soldados--aqui não habita espirito nenhum.
Quero-me ir embora d'aqui!
E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando? Não póde ser, é verdade.
Onde está elle?
No côro alto.
Subamos ao côro alto.
Oh! que não sei de nôjo como o conte!
O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam dado ás delicias do prazer como foi seu pae ás austeridades da justiça, em que estado elle está!
Oh nação de barbaros! Oh malditto povo de iconoclastas que é este!
O tumulo do segundo marido de D. Leonor Telles é um sarcophago de pedra branca, fina e friavel, elegante e simplesmente cortada, com mais sobriedade de ornatos do que tem de ordinario os monumentos do seculo XIV, mas de uma acabada sculptura, casta e continente, como o não foi a vida do rei que ahi incerraram depois de morto.
Percebem-se ainda vestigios das vivas côres em que foram induzidos os relevos da pedra branca:--stylo byzantino de que não sei outro exemplar em Portugal. Este é--ou antes, era--precioso.
Era; porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrivel. Imaginou a estupida cubiça d'estes Allanos modernos que devia de estar alli dentro algum grande haver de riquezas incantadas,--talvez cuidaram achar sôbre a caveira do rei a coroa real marchetada de perolas e rubis com que fosse interrado,--talvez pensaram incontrar appertado ainda entre as sêccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo de oiro macisso que lhes figura o rei d'espadas do sujo baralho de sua tarimba, e que elles teem pela indisputavel e infallivel insignia do supremo imperio;--talvez supposeram que mesmo depois de morto, um rei devia de ser de oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e pensaram? O que se sabe, porque se ve, é que quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram, primeiro, levantar a campa; não poderam: tam solidamente está soldada a pedra decíma ao corpo ou caixão do jazigo, que o todo parece macisso e inconsutil. Mas n'este impenho quebraram e estallaram os lavores finos dos cantos, os caireis delicados das orlas; e a campa não cedeu: parece chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos com o sêllo tremendo que so se hade quebrar no dia derradeiro do mundo.
A cubiça estolida dos soldados não se aterrou com a religião do sepulchro, nem lhe causou attrição, ao menos, ésta resistencia quasi sobrenatural das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou alli, de alavanca e de ariete, algum possante e ponderoso pé-de-cabra; mas que trabalhou em vão muito tempo.
Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram atacar, mais brutalmente mas com mais vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente suspeitaram de menos espessos. Assim era; e conseguiram na parede da frente abrir um rombo grosseiro por onde entra facil um braço todo e póde explorar o interior do tumulo á vontade.
Assim o fiz eu, que metti o meu braço por essa abertura barbara, e achei terra, pó, alguns ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem, outra de criança.
Não me lembra que haja memoria alguma de infante que ahi fosse sepultado tambem, segundo faziam os antigos muitas vezes que punham os cadaveres das crianças nos jazigos dos paes, dos parentes, até de meros amigos de suas familias.
Tive, confésso, uma especie de prazer maligno em imaginar a estupida compridez de cara com que deviam de ficar os brutaes profanadores, quando achassem no tumulo do rei o que so teem os tumulos--de reis ou de mendigos--ossos, terra, cinza, nada!
Por mim, estive tentado a furtar a caveira d'elrei D. Fernando. Se acreditasse na phrenologia, parece-me que não tinha resistido. Não creio na sciencia, felizmente--n'este caso--para a minha consciencia. Tambem não sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o 'fraco rei' que fez 'fraca a forte gente' não são reliquias as suas que se guardem.
Oh! e quem sabe? Ésta profanação, este abandôno, este desacato do tumulo de um rei, alli na sua terra predilecta--D. Fernando era santareno de affeição--não será elle o juizo severo da posteridade, a vindicta pública dos seculos, que tardia mas ultrajante, cai emfim sôbre a memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra as cinzas como ja lhe deshonrára o nome?
Quero acreditar que tal não podia succceder aos tumulos de D. Diniz, de D. Pedro I, dos dois Joannes I e II, de...
Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco aonde _esteve_? que ainda é mais vergonhosa pergunta ésta última.
Em Portugal não ha religião de nenhuma especie. Até a sua falsa sombra, que é a hypocrisia, desappareceu. Ficou o materialismo estupido, alvar, ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez cynica no meio das ruinas profanadas de tudo o que elevava o espirito...
Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo, apezar d'esta paralysia que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre parte de seu corpo. Mas uma nação piquena, é impossivel; hade morrer.
Mais dez annos de barões e de regimen da materia, e infallivelmente nos foge d'este corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espirito.
Creio isto firmemente.
Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, está são: os corruptos somos nós os que cuidâmos saber e ignorâmos tudo.
Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não intendemos a poesia do povo; nós, que so comprehendemos o tangivel dos sentidos, nós somos extranhos ás aspirações sublimes do senso-íntimo que despreza as nossas theorias presumpçosas, porque todas veem de uma acanhada anályse que procede curta e mesquinha dos dados materiaes, insignificantes e imperfeitos;--em quanto elle, aquelle senso-íntimo do povo, vem da Razão divina, e procede da synthese transcendente, superior, e inspirada pelas grandes e eternas verdades que se não demonstram porque se sentem.
E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou.
Serei fanatico, jesuita, hypocrita? Não sou.
Que sou eu então?
Quem não intender o que eu sou, não vale a pena que lh'o diga...
Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim d'este capítulo ja tam seccante, e prometto não reflectir nunca mais.
Jesu Christo, que foi o modêlo da paciencia, da tolerancia, o verdadeiro e unico fundador da liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu Christo soffreu com resignação e humildade quantas injustiças, quantos insultos lhe fizeram a elle e á sua missão divina; perdoou ao matador, á adúltera, ao blasphêmo, ao impio. Mas quando viu os barões a agiotar dentro do templo, não se pôde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os sem dor.
CAPITULO XLIII.
Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocação de incanto.--A irman Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E Joanninha?--Joanninha está no ceo.--A mulher morta a dobar esperando que a interrem.--A esperança, virtude do christianismo.--Uma carta.
Estou devéras fatigado de Santarem; vou-me embora.
Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal familia que nos hospedára com tanto carinho, com toda a velha cordialidade portugueza; partimos.
Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan nos olivaes, senti desaffogar-se-me alma d'aquella constricção cansada que se experimenta na longa visita a um museu de antiguidades, a uma galeria de pinturas.
Perdoem-me que não diga 'pinacotheca': bem sei que é moda, e que a palavra é adoptavel segundo as mais strictas regras de Horacio, pois 'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura: mas soa-me tam mal em portuguez que não posso com ella.
Santarem fatigou-me o espirito, como todas as coisas que fazem pensar muito. Deixo-a porêm com saudade, e não me heide esquecer nunca dos dias que aqui passei.
De quê e como sou eu feito, que não posso estar muito tempo n'um logar, e não posso sahir d'elle sem pena?
Ja me está custando ter deixado Santarem. Porque não haviamos de partir ámanhan, e ter ficado ainda hoje alli?
E hoje que é sexta-feira?... Mau dia para começar viagem!
Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle, da pobre velha cega que ahi vivia sua triste vida de dores, de remorsos e desconfôrto, esperando porêm em Deus, conformada com seu martyrio: martyrio obscuro, mas tam insanguentado d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente do coração rasgado, devorado em silencio pelo abutre invisivel de uma dor que se não revela, que não tem prantos nem ais.
Era na sexta-feira que o terrivel frade, o demonio vivo d'aquella mulher de angústias, lhe apparecia tremendo e espantoso deante de seus olhos cegos, elevado pela imaginação ás proporções descommunaes e gigantescas de um vingador sobrenatural.
Era a figura tangivel, e visivel á vista de sua alma, do enorme peccado que contra ella estava sempre.
Creio que escuso dizer que não tenho eu ésta superstição dos dias aziagos que tinha a desgraçada velha, que a sua Joanninha partilhava. Mas confesso que, recordando as fatalidades d'aquella familia e d'aquelle dia, não gostei de voltar n'elle ao valle de Santarem.
Estavamos porêm no valle; e ja eu via de longe aquellas árvores e aquella janella que tanto me impressionaram, quando éstas reflexões me acudiam ao espirito e m'o contristavam.
Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar larga dianteira aos meus companheiros de viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os perdido de vista.
Involuntariamente parei defronte da janella; mordia-me um interêsse, uma curiosidade irresistivel... Nem viva alma por aquelles arredores; apeei-me e fui direito para a casa.
Apenas passei as árvores, um spectaculo inesperado, uma evocação como de incanto me veio ferir os olhos.
No mesmo sítio, do mesmo modo, com os mesmos trajos e na mesma attitude em que a descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia, estava a nossa velha irman Francisca...
Ella era, e não podia ser outra; sentada na sua antiga cadeira, dobando, como Penelope tecia, a sua interminavel meada. Não havia outra differença agora senão que a dobadoira não parava, e que o fio seguia, seguia, inrollando-se, inrollando-se contínuo e compassado no novêllo; e que os braços da velha lidavam lentamente mas sem cessar no seu movimento de authomato que fazia mal ver.
Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabeça baixa, e os olhos fixos n'um grosso livro velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem sêcco e magro, descarnado como um esqueleto, livido como um cadaver, immovel como uma estátua. Trajava um non-descriptum negro, que podia ser sotana de clerigo ou tunica de frade, mas descingida, sôlta, e pendente em grossas e largas pregas do extenuado pescosso do homem.
Tambem não podia ser senão Frei Diniz.
Cheguei juncto d'elles; não me sentiu nenhum dos dois; nem me viu elle, o que so via dos dois.
Sem mais reflexão, e continuando alto na serie de pensamentos que me vinha correndo pelo espirito, exclamei:
--'E Joanninha?'
--'Joanninha está no ceo':--respondeu sem sobresalto, sem erguer os olhos do seu livro, a sombra do frade--que outra coisa não parecia.
--'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como foi, como acabou a infeliz?'
--'Joanninha não é infeliz: foi ser anjo na presença de Deus.'
--'E... e Carlos?' balbuciei eu hesitando, porque temia a susceptibilidade do frade.
--'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim os olhos e cravando-os em mim...
E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem os heide ver!
--'Carlos!... E quem é que m'o pergunta? quem é que tanto sabe de mim e dos meus?.. Dos meus! Eu não tenho meus: sou so.'
--'So! Não está aqui, que eu vejo?..'
--'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que a matei eu, e que aqui está á espera que dê a hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou so e quero estar so. Morreu tudo. Que mais quer saber?'
--'Venho de Santarem...'
--'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal. Aqui não, vive senão o meu peccado, que Deus não perdoou ainda, nem espero...'
--'A nossa religião fez uma virtude da esperança.'
--'Fez.'
--'E n'isso se distingue das outras todas.'
--'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?'
--'Ha mais do que não houve nunca--pelo menos ha mais quem o saiba melhor.'
--'Póde ser: os juizos de Deus são incomprehensiveis.'
--'E infinita a sua misericordia.'
--'Mas a sua cholera implacavel, a sua justiça tremenda.'
--'A misericordia é maior.'
--'Quem lhe insinou tudo isso?'
--'O evangelho, o coração, e minha mãe que m'os explicou ambos.'
--'Sente-se aqui... aopé de mim.'
Sentei-me. O frade pegou-me na mão com as suas ambas, e pôs-me os olhos com uma expressão que nenhuma lingua póde dizer, nem nenhum pincel pintar.
Esteve assim algum tempo, como quem me observava. Vi-lhe apontar claramente uma lagryma, vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos os olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro que lhe vinha á garganta; percebi distinctamente o estremeção que lhe correu o corpo; mas observei que todo se serenou depois.
Disse-me então com voz magoada mas placida e sem aspereza ja nenhuma:
--'Sabe a historia do valle?'
--'Sei tudo até á partida de Carlos para Evora.'
--'Aqui tem a carta que elle escreveu.'
Tirou do breviario um papel dobrado, amarello do tempo, e manchado, bem se via, de muitas lagrymas, algumas recentes ainda.
--'Leia.'
Li.
Ésta era a carta de Carlos.
CAPITULO XLIV.
Carta de Carlos a Joanninha.
Evora-monte... de maio de 1834.
É a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha prima, a ti so.
Com nenhum outro dos meus não posso nem ouso fallar.
Nem eu ja sei quem são os meus: confunde-se, perde-se-me ésta cabeça nos desvarios do coração. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh! bem sei que estou perdido.
Perdido para todos, e para ti tambem. Não me digas que não; tens generosidade para o dizer, mas não o digas. Tens generosidade para o pensar, mas não pódes evitar de o sentir.
Eu estou perdido.
E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza é incorrigivel. Tenho energia de mais, tenho podêres de mais no coração. Estes excessos d'elle me mataram... e me matam!
Tu não comprehendes isto, Joanninha, não me intendes decerto; e é difficil.
Es mulher, e as mulheres não intendem os homens. Sempre o entrevi, hoje sei-o perfeitamente. A mulher não póde nem deve comprehender o homem. Triste da que chega a sabê-lo!..
E d'ahi... quando se tem de morrer, antes saber a morte de que se morre, do que expirar na ignorancia do mal que nos matou.
Tu es joven e inexperiente, a tua alma está cheia de illusões doces; vou dissipar-t'as em quanto se não condensam, que te offusquem a razão e te deixem para sempre escrava cega do maior inimigo que temos, o coração.
Quero contar-te a minha historia: verás n'ella o que vale um homem.
Sabe que os não ha melhores que eu; e tam bons, poucos. Olha o que será o resto!
Tu não ignoras ja hoje o porque fugi da casa materna: sabía-a manchada de um grande peccado, e imaginei-a polluida de um enorme crime.
Esse homem que é meu pae, não o podia ver; hoje que sei o que me elle é... Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!
Minha avó, julguei-a cumplice no crime; ella so o era no peccado. Perdoe-lhe Deus; e bem póde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha pobre mãe succumbiu por sua culpa, por sua irremissivel complacencia...
Deus póde e deve, repitto... mas eu, como lhe heide perdoar eu este rubor que sinto nas faces ao nomear minha mãe?
Tem padecido e soffrido muito... coitada! A sua penitencia é um martyrio, a sua velhice uma longa paixão, e esse homem que a perdeu um verdugo sem piedade. Mas tudo isso é com Deus, não é commigo.
Eu sou filho; minha mãe morreu sem perdoar--não posso perdoar eu.
E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, nem quero.
Não serás tu, minha irman; não, que não deves. Porque eu amei-te com um coração que ja não era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, sem o podêr possuir, trahi quando te amava, menti quando t'o disse, menti-te a ti, menti-me a mim, e não guardei verdade a ninguem.
Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio d'esta minha incrivel historia--incrivel para ti, bem simples para quem conheça o coração do homem.
Sahi de Portugal, e posso dizer que não tinha amado ainda. Inclinações de criança, galanteios de sociedade, ligações que nasceram da vaidade, ou que so os sentidos alimentam, não merecem o nome de amor.
Eu não tinha amado.
Ha tres especies de mulheres n'este mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja, e a mulher que se ama.
A belleza, o espirito, a graça, os dotes d'alma e do corpo geram a admiração.
Certas fórmas, certo ar voluptuoso criam o desejo.
O que produz o amor não se sabe; é tudo isto ás vezes, é mais do que isto, não é nada d'isto.
Não sei o que é; mas sei que se póde admirar uma mulher sem a desejar, que se póde desejar sem a amar.
O amor não está definido, nem o póde ser nunca. O amor verdadeiro; que as outras coisas não são isso.
Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram os primeiros que posso dizer que vivi. Levou-me o acaso, o destino--a minha estrella, porque eu ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este mundo creio ja--levou-me ao interior de uma familia elegante, ricca de tudo o que póde dar distincção n'este mundo.
Extranhei aquelles habitos de alta civilização, que me agradavam comtudo; moldei-me facilmente por elles, affiz-me a vejetar docemente na branda atmosphera artificial d'aquella estufa sem perder a minha natureza de planta extrangeira. Agradei: e não o merecia. No fundo d'alma e de character eu não era aquillo por que me tomavam. Menti: o homem não faz outra coisa. Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.
Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto Deus! para que sahiria a verdade da tua bôcca, e para que a mandaste ao mundo, Senhor?