Viagens na Minha Terra (Volume II)

Chapter 3

Chapter 34,017 wordsPublic domain

O dia declinava ja quando n'um hospital em Santarem entravam muitas maccas de feridos, e entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto de sangue que, assim pelos restos do uniforme como por certo ar bem conhecido--e charecteristica então, se via claramente ser do exército constitucional.

Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem; estenderam-n'o n'uma especie de tarimba sôbre que havia alguma palha, e quando lhe chegou a sua vez foi examinado e pençado como os outros. Não dava signal de padecer, tinha os olhos fechados, o pulso forte mas não agitado de febre; não proferia uma syllaba, não soltava um ai, e prestava-se a tudo o que lhe diziam e faziam, menos a soltar da mão esquerda que apertava contra o peito o que quer que fosse que alli tinha seguro e que lhe pendia ao pescosso de uma estreita fitta preta.

Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu. Não sería largo, mas foi profundo o seu dormir. Quando acordou ja se não viu no vasto caravanseray d'aquelle confuso hospital, mas n'um pequeno quarto arejado, limpo, e quasi confortavel que em tudo parecia cella de convento, menos na boa cama em que jazia o doente, e na extremada elegancia do infermeiro que o velava.

O quarto era comeffeito uma cella do convento de San'Francisco em Santarem, o doente o nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma bella mulher de estatura não acima de ordinaria mas nem uma linha menos, involvida nas amplissimas pregas de um longo roupão de seda d'aquella acertada côr que, em dialecto da rua Vivienne, se diz _scabieuse_; a cabeça toucada de finissima Bruxellas, com uns laços de preto e côr de granada que realçavam a transparencia das rendas, a infinita graça dos longos e ondados aneis louros do cabello, e a pureza symetrica de um rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade de expressão mas bello, bello, quanto póde ser bello um rosto em que pouco d'alma se reflecte, e em que a serena languidez de uns olhos azues entibía e modera a energia do sentimento que não é menos profundo talvez, mas certamente se expande menos.

De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a mão direita d'elle nas suas, os olhos seccos mas fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella mulher estava alli como a estátua da dor e da anxiedade. A uma porta interior e que abria para uma especie de alcova obscura, em pé, os braços cruzados e mettidos nas mangas, o capuz na cabeça, estava um frade velho, alto mas curvado do pêso dos annos ou dos soffrimentos.

O frade contemplava o infêrmo e a infermeira, mas visivelmente não queria ser visto n'essa occupação, porque ao menor estremecimento do doente recuava apressado e como assustado para o interior da sua alcova.

Uma so vela de cera allumiava este quadro, accidentando-o de fortes sombras, e dando-lhe um tom de solemnidade verdadeiramente magico e sublime.

Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo affêrro o relicario ou talisman, o que quer que era que não queria desprender de seu coração. A bella infermeira beijava de vez em quando aquella mão tenaz que estremecia a cada beijo, por mais suave e mimoso que fosse o leve contacto d'esses labios delicados.

A outra mão estava nas mãos d'ella, mas era insensivel a tudo, essa.

O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o respirar incerto e descompassado do infêrmo.

Derepente Carlos entreabriu as palpebras e exclamou em inglez: '_Oh Georgina, Georgina, I love you still._'--(Georgina, Georgina, eu ainda te amo).

Duas lagrymas--duas perolas, d'estas que se criam com tanta dor no coração e que ás vezes sahem com tanto prazer dos olhos--romperam do celeste azul dos olhos da dama e suavemente correram por aquellas faces de uma alvura pallida e mortal.

Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os fixamente no rosto angelico d'essa mulher.

Esteve assim minutos: ella não dizia nada nem de voz nem de gesto: fallavam-lhe so as lagrymas que corriam quietas, quietas, como corre uma fonte perenne e nativa d'agua que mana sem esfôrço nem impeto, por um declive natural e facil.

--'Onde estou eu, Georgina?'

--'Nos meus braços.'

--'Que me succedeu?'

--'Que não podes ser feliz senão n'elles: bem sabes.'

--'Sei... devia saber.'

--'Hasde sabe-lo agora. O passado...'

--'O passado! qual?'

--'O passado deixou de existir.'

--'E o futuro?'

--'Eu não creio no futuro.'

--'Porquê?'

--'Porque tu me disseste que não cresse.'

--'Eu!.. Eu sou um...'

--'Um homem.'

--'Oh!'

--'Basta e descança. Amanhan fallaremos.'

--'Estou ferido, muito; e doe-me agora... não me doía.'

--'Estás, mas sem perigo: e estou eu aqui. Dorme.'

--'Não posso. Que casa é ésta?'

--'San'Francisco de Santarem.'

--'Deus de misericordia!'

--'Es prisioneiro: sára, e eu te livrarei.'

--'Tu!--E tu aqui, como?'

--'Vim buscar-te, e achei-te assim.'

--'Georgina!'

--'Que tens tu ahi tam seguro na mão esquerda?'

--'Vê: a medalha com o teu cabello.'

--'Então amas-me tu ainda?'

--'Se te amo! Como no primeiro...'

--'Não mintas, Carlos... E dorme.'

--'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina aqui, eu n'este estado e... E a minha gente?'

--'A tua gente está salva.'

--'Aonde?'

--'Aqui mesmo, em Santarem.'

--'Quero... não quero... Oh sim, quero mas é morrer. Tende misericordia de mim, meu Deus!'

--'Socega, Carlos.'

Mas Carlos não socegava: immudeceu porque a torrente de seus pensamentos, o incontrado d'elles, e o inesperado d'aquella situação lhe imbargavam a voz, e o quebramento das fôrças lhe tolhia os movimentos do corpo; mas o espirito inquieto e alvoraçado revolvia-se dentro com um phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria.

Á fôrça de bebidas calmantes o accesso diminuiu, a noite passou mais tranquilla; e pela manhan o doente não dava cuidado ao facultativo que o veio ver.

Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem de lhe resistir, de lhe não responder todas as vezes que elle tentava quebrar o preceito de que dependia a sua vida... e a d'ella, porque a infeliz amava-o... oh! amava-o como se não ama senão uma vez n'este mundo.

Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor, estava salvo; Georgina pôde dizer-lhe um dia:

--'Carlos, meu Carlos, tu estás livre de perigo, vou restituir-te aos teus.'

--'Os meus!'

--'Os teus. Tua avó, tua prima...'

--'Joaninha! oh! Joanninha...'

--'Tua avó que tambem tem estado a morrer mas que emfim está escapa, ignora que tu estejas aqui. Occultámo-lo egualmente a tua prima.'

--'Ah!'

--'Sim, assentámos de lh'o não dizer a uma nem a outra até que tivessemos certeza da tua melhora. Hoje porêm vais ve-las. E eu...'

--'Tu!'

--'Eu não tenho aqui mais nada que fazer.'

--'Georgina!'

--'Carlos!'

--'Tu ja me não amas?'

--'Não.'

Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o da calma que precede as grandes tempestades. O rosto de Georgina estava impassivel, Carlos estorcia-se debaixo de uma compressão horrivel e incapaz de se descrever.

CAPITULO XXXIII.

Carlos e Georgina. Explicação.--Ja te não amo! palavra terrivel.--Que o amor verdadeiro não é cego.--Frade no caso outra vez. _Ecce iterum Crispinus_; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco.

--'Tu ja me não amas, Georgina, tu!' exclamou Carlos depois de uma longa e penosa lucta comsigo mesmo: 'Ja me não amas tu, Georgina? Ja não sou nada para ti n'este mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que derramavas em torrentes sôbre a minha alma, em que trasbordava o teu coração; aquelle amor que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, o mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mulher que ainda houve no mundo, esse amor acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte celeste d'onde manava? Nem as recordações de nossa passada felicidade, nem as memorias dos crueis lances que nos custou, dos sacrificios tremendos que por mim fizeste, nada, nada póde acordar na tua alma um echo, um echo sumido que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas--da nossa vida, Georgina, porque nós chegámos a confundir n'um só os dois seres da nossa existencia--Oh! porque vivi eu até este dia? E tu, tu que refinada crueldade te inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado, que tinhas sacrificado quando a separaste da tua?'

--'Carlos,' respondeu Georgina com a fria mas compassiva piedade que mais o desesperava:--'Carlos, não abuses da pouca saude que ainda tens. O esfôrço d'alma que estás fazendo póde-te ser prejudicial. Socega. Tu illudes-te, e sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. Entra em ti, Carlos, e discorramos pausadamente sôbre a nossa situação, que não é agradavel porcerto nem para um nem para outro, mas que póde supportar-se se tivermos juizo para a incarar toda e sem medo, e para nos convencermos com lealdade e franqueza do que ella realmente é. Ouve-me, Carlos: tu amaste-me muito...'

--'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...'

--'Poucos homens, é certo, amaram ainda como tu... quem sabe! talvez nenhum.--Não quero perder ésta última illusão... ja não tenho outra... Talvez nenhum amou como tu me amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu... oh! eu quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma cegueira d'alma, n'uma singeleza de coração, com um abandôno tam completo, uma abnegação tam inteira de mim mesma, que realmente creio, este é o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura póde consagrar licitamente.

Bem castigada estou: mereci-o.'

--'Georgina, Georgina!'

--'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigação de me ouvir.--Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve relampejar da imaginação desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva dedicação de todo o meu ser... dize-o tu.'

--'Não, minha alma, não, minha vida, não; tu és um anjo, tu es...'

--'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se não ama.'

--'Não, certo, não.'

--'Fomos felizes, é verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam felizes como nós nos breves dias que isto durou.--Tu partiste para a tua ilha; era forçoso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o mais puro sangue do teu coração. Nunca duvidei do que me ellas diziam: não se mente assim, tu não mentias então. É falso que o amor seja cego: o amor vulgar póde sê-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar fidelidade, e eu sabía, eu via que tu me eras fiel.--Assim passaram meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas confortava-me, vivia de esperanças... triste viver mas doce! Emfim vieste para Lisboa, para aqui... e as tuas cartas que não eram menos ternas nem menos apaixonadas...'

--'Se eu nunca deixei, nem um momento...'

Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegação, Georgina pôs a mão na bôcca do pobre Carlos, como para o impedir de dizer uma blasphemia. Elle segurou-a com as suas ambas e lh'a beijou mil vezes com um arrebatamento, uma _furia_, n'um paroxismo de lagrymas e de soluços, que partiriam o coração ao mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a inalteravel rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se as longas palpebras de seus olhos; mas se chegou até elles alguma lagryma mais rebelde, prompta refluiu para o coração, porque ao levantá-los outra vez e ao fixá-los tranquillamente nos do seu amante, aquelles olhos puros, celestes e austeros como os de um anjo offendido, estavam seccos.

Ella continuou:

--'As tuas cartas, que não eram menos ternas nem menos apaixonadas, começaram todavia a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram menos verdadeiras por fôrça. Senti-o, vi-o, e cuidei morrer. Uma familia da minha amizade vinha então para Portugal, accompanhei-a. Apenas cheguei, procurei e obtive os meios seguros de tranzitar pelos dous campos contendores: presagiava-me o coração que me havia de ser preciso. E foi; cheguei ao valle no dia em que tu o deixavas para aquella fatal acção que te ia custando a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio morto no hospital dos feridos. Aopé de ti estava um frade...'

--'Um frade! Meu Deus, se seria elle?'

--'Era elle.'

--'Pois tu sabes?..'

--'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me eras...'

--'Tu a elle... disseste?..'

--'Disse. Não sei se fiz mal ou bem, sei que me não importava o que fazia. Vi depois que me não inganára na confiança que posera n'elle. Trouxemos-te para este convento, trattámos de ti, conseguimos salvar-te a vida... E em quanto esse cuidado me livrava de outros, fui... fui feliz. A tua gente... a tua familia do valle tambem veio para Santarem... tua avó e tua prima, Carlos...'

--'Joanninha! Joanninha está aqui?'

--'Está; socega; ja t'o disse, logo a verás.'

--'Eu! Eu para quê? Eu não quero...'

--'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei tudo.'

--'Tudo o quê, Georgina?'

--'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que tu amas tua prima, que ella que te adora. E por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se fôra minha irman. Intendes bem agora que te não amo? Comprehendes agora que tudo acabou entre nós, e que não vejo, não posso ver em ti ja senão o espôso, o marido da innocente criança que tomei debaixo da minha protecção, e a quem juro que hasde pertencer tu?'

--'Juras falso.'

--'Como assim! Pois queres mais victimas? Não estás satisfeito com a minha ruina? Eu aomenos não sou do teu sangue. E essa velha decrepita que é tua avó, que duas vezes foi em verdade tua mãe porque te criou,--essa innocente que te ama na singelleza do seu coração... e esse pobre frade velho...'

--'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui anda o genio mau da minha familia. Malditto sejas tu, frade!'

O desgraçado não acabára bem de pronunciar éstas palavras, quando a porta da alcova se abriu de par em par, e a rigida, ascetica figura de Fr. Diniz estava deante d'elle.

CAPITULO XXXIV.

Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do drama.--

Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma longa cadeira de recôsto; Georgina em pé, com os braços cruzados e na attitude de reflexiva tranquillidade. Um sol brilhante e ardente, um sol de maio, feria os estreitos vidros da pequena janella que so dava luz áquelle quarto: a excessiva claridade era velada por uma longa e ampla cortina.

Carlos lançou derepente a mão a essa cortina e a affastou para avivar a luz do aposento. Um raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado rosto do frade, e reflectiu de seus olhos incovados, um como relampago de íra celeste que fez estremecer os dous amantes.

Não foi porêm senão relampago; sumiu-se, apagou-se logo. Aquelles olhos ficaram mortaes, mudos, fixos, invidraçados como os de um homem que acabou de expirar e a quem não cerraram ainda as palpebras.

E assim mesmo aquelles olhos tinham o podêr magnetico de fixar os outros, de os não deixar nem pestanejar.

Curvo, incostado a um bordão grosseiro, o seu chapeo alvadio debaixo do braço, o frade deu alguns passos tremulos para onde estavam os dous, arrastando a custo as sôltas alpercatas que davam um som baço e batido, e faziam--não sei por quê nem como--estremecer a quem as sentia.

Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e tenue, mas vibrante e solemne, do íntimo do peito, disse para Carlos:

--'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te. Tu detestas-me, Carlos, de todos os podêres da tua alma, com toda a energia de teu coração; e eu venho-te dizer que te amo, que tomára dar a minha vida por ti, que do fundo das intranhas se ergue este immenso amor que não tem outro egual, a pedir-te misericordia, a clamar-te em nome de Deus e da natureza, a pedir-te, por quanto ha sancto no ceo e de respeito na terra, que levantes essa maldicção, filho, de cima da cabeça de um moribundo.'

Eram dittas em tal som estas vozes, vinham pronunciadas lá de dentro d'alma com tal vehemencia, que lh'as não articulavam os labios, rompiam-n'os ellas e sahiam.

O soldado parecia desaccordado, confuso e sem intelligencia do que ouvia. Georgina impassivel até alli, rigida e inabalavel com o seu amante, sentia commover-se agora d'aquella angústia do velho. É que partia pedras a dor que vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que trassudava d'aquelle rosto cadaverico.

Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto vago e abafado de mil sons que pareciam arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e vindo, e dispersando-se para se tornar a unir, e tornando a dispersar-se emfim, reboava ao longe pela villa, extendia-se nas praças, concentrava-se nas ruas, e mandava áquella solitaria e remota cella do convento uns echos surdos, como os do mar ao longe quando se retira da praia no murmurar melancholico que precede um temporal d'equinoxio.

--'Ouves esse borburinho confuso, Carlos? É a tua causa que triumpha, é a d'estes loucos que succumbe, é a de Deus que a si mesmo se desamparou. A hora está chegada, escreveram-se as lettras de Balthasar; a confusão e a morte reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero ir morrer onde haja Deus... Perdoae-me, Senhor, a blasphemia!.. onde o seu nome não seja profanado e malditto...

Ao canto de uma pedra, debaixo de uma árvore hade ser, n'algum logar escuso d'essas charnecas, onde me não rasguem aomenos ésta mortalha, e m'a não insultem nos ultimos instantes, porque eu sou frade, frade, frade... o malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide morrer. Oh! assim tivera eu vivido!'

--'Mas que foi; que succedeu?'

--'O resto do exército realista evacua n'este momento Santarem; vão em fuga para o Alemtejo. Os constitucionaes venceram na Asseiceira, e tudo está ditto para nós. Para mim, Carlos, falta uma palavra so: quererás tu dizê-la?'

--'Eu?'

--'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis que proferiste, e em nome de Deus, filho, perdoa a teu...'

A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande lucta. O horror, a compaixão, o odio, a piedade iam e vinham-lhe alternadamente do coração ás faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma exclamação involuntaria lhe rebentou dos labios em meio d'este combate:

--'Padre, padre! e quem assacinou meu pae, quem cegou minha avó, e quem cubriu de infamia a minha... a toda a minha familia?'

--'Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh! mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. É decreto da divina justiça que seja assim. Oh! assim meu Deus! ás mãos d'elle, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça...'

O frade cahiu de bruços no chão, e com as mãos postas e extendidas para o mancebo, clamava:

--'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida ja: basta que me ponhas o pé sobre o pescoço; esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua familia e que fez a sua desgraça e a de quantos o amaram. Sim, Carlos, sê tu o executor das íras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia e de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me de mim e da íra de Deus que me persegue.'

CAPITULO XXXV.

Reunião de toda a familia.--Explicação dos mysterios.--O coração da mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e abraça a pobre da avó.

Georgina disse para Carlos:

--'Dá a mão a esse homem, levanta-o e dize-lhe as palavras de perdão que te pede.'

Carlos fez um gesto expressivo de horror e de repugnancia. Georgina ajoelhou aopé do frade, tomou as mãos d'elle nas suas, e lh'as affagou com piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o a si e gradualmente o foi accalmando. O velho parecia uma criança mimada e sentida que se vai accalantando nos braços da mãe: agora so murmurava de vez em quando alguns soluços, a mais e a mais raros.

Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; elle mal se tinha, ella amparava em seus braços e contra seu peito o amortecido corpo do velho. E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel que as filhas de Eva herdaram de sua primeira mãe, e que a ella ou lh'o tinham antes insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,--um som de voz que é a última e a mais decisiva da seducções femininas--disse:

--'Este homem vai morrer, Carlos: e tu hasde-o deixar morrer assim, _meu Carlos_?'

Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram deante d'aquellas palavras do anjo supplicante. _Meu Carlos_ ditto assim, não o ouvíra elle ha muito tempo, não lhe pôde resistir: extendeu os braços para o frade, cahiu de joelhos aopé d'elle, e um so abraço uniu a todos tres.

Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e os dous mancebos sentiam estreitar-se das cobras da mesma dor, e affogavam junctos da mesma angústia.

Assim estiveram longamente; e não se ouvía entre elles senão algum gemido sôlto, e aquelle sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve com o coração do que com os ouvidos.

O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel de timida e de fraca:

--'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh perdoa á memoria de tua desgraçada mãe!'

O mancebo saltou convulsamente como o cadaver na pilha galvanica. Em pé, hirto, horrivel, tremendo, exclamou com um brado de trovão:

--'Demonio! demonio incarnado em figura de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem indagora, monstro: so ás minhas mãos deves morrer. E hasde.'

Lançou-se a um enorme velador de pau-sancto que lhe jazia aopé, massa terrivel d'Hercules, e bastante a fender craneos de ferro, quanto mais a descarnada caveira do frade! D'ambas as mãos a levava no ar; e o velho extendeu para elle a cabeça como na ancia de morrer... Georgina fechou involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia consummar-se...

Dous gritos agudissimos, dous gritos de desespêro e de terror, d'aquelles que so sahem da bôcca do homem quando suspenso entre a morte e a vida--soaram repentinamente no apposento; uma velha decrepita e meia morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezeseis annos, estava deante de Carlos, e ambas cubriam com seus debeis corpos a fragil e extenuada figura da sua victima.

--'Filho, meu filho!' arrancou a velha com stertor do peito: 'é teu pae meu filho. Este homem é teu pae, Carlos.'

O ponderoso velador cahiu inerte das mãos do mancebo, e rolou pesado e baço pelo pavimento. Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo Georgina estava aopé d'elle, e o fez incostar na longa cadeira de braços. Estava lavado em sangue; era uma ferida do pescôço que o excesso da commoção lhe fizera rebentar. Os dous velhos vieram ajoelhar-se aopé d'elle. As duas mulheres moças lidavam pelo restaurar e lhe estancar o sangue. A cambraia dos lenços, as rendas do collo e das cabeças, tudo se fez em ataduras e compressas: o sangue parou emfim.

Admiravel belleza do coração feminino, generosa qualidade que todos seus infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam esse homem. Esse homem não merecia tal amor: não, por Deus! o monstro amava-as a ambas: está tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas que o sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes, ellas rivalizavam de cuidados e de ancia para o salvarem.

De tanto não somos capazes nós.

E por isso admirâmos tanto.

E perdoâmos tanto.

E esquecêmos tanto.

Mas amar tanto, não sabemos: verdade, verdade...

Amâmos _melhor_; sim, isso sim: _tanto_ não.

O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz e a velha rezavam. Georgina e Joanninha--ja vereis que era Joanninha--olharam uma para a outra, coraram e ficaram suspensas. A ingleza extendeu a mão á amavel criança, estremeceu involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza:

--'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o não amo; prometto.'

--'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle é tam infeliz!'

--'Juras-me tu de o não deixar, de velar por elle sempre, de o defender de si mesmo que é o peior inimigo que tem?'

--'Se juro!'

--'Então adeus, Joanninha! Eu estou de mais aqui. Ja tenho ouvido o que não devia ouvir. Os segredos da tua familia não me pertencem. O coração d'esse homem não é meu, nem o quero. É um nobre e grande coração, Joanninha; mas... Não te deixes dominar por elle se o queres segurar. Adeus!--Santarem está desamparada pelos realistas; eu vou para Lisboa. Consola tua boa avó, e esse pobre velho. Elle não é tam criminoso, estou certa...'