Viagens na Minha Terra (Volume II)
Chapter 2
Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que morreram moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.--Sancta Iria ou Irene, e Santarem.--Romance de Sancta Iria.--Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?
Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes spectaculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu ás almas de certa têmpera. Doce é gosar assim... mas em que doçuras da vida não predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a insipidez; deixae-lh'o, ulcéra porfim os orgams: o gôso é mais vivo porque a acção do stímulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o coração está em carne-viva... agora o prazer é martyrio.
Infeliz do que chegou a esse estado!
Bemaventurado o que póde graduar, como Goethe, a dóze d'amphião que quer tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as potencias de sua alma! N'esses porêm é a imaginação que domina, não o sentimento. Byron, Schiller, Camões, o Tasso morreram moços; matou-os o coração. Homero e Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a imaginação, que não despende vida porque não gasta sensibilidade.
Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir é viver activamente, cansa-a e consomme-a.
Isto é o que eu pensava--porque não pensava em nada, divagava--em quanto aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista do Tejo e das suas margens deante dos olhos.
Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que d'outro modo não sei escrever.
Muito me pêza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse titulo, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse, marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua fundação? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?..
Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade, ahi o acharás em amplo folio e gorda lettra: eu não sei compor d'esses livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.
So tenho pena de uma coisa, é de ser tam desestrado com o lapis na mão; porque em dois traços d'elle te dizia muito mais e melhor do que em tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta.
Santarem é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica parte das nossas chronicas está escripta. Ricco de illuminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal. Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o magnífico livro devia durar sempre em quanto a mão do Creador se não extendesse para apagar as memorias da creatura.
Mas ésta Ninive não foi destruida, ésta Pompeia não foi submergida por nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja história ella é o livro, ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuços com ellas.
Não se descreve por outro modo o que ésta gente chamada govêrno, chamada administração, está fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em Santarem.
As ruínas do tempo são tristes mas bellas, as que as revoluções trazem, ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorancia, os mesquinhos concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio.
Tal é a geral impressão que me faz ésta terra. Almocemos, que ja oiço chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei.
Ao almôço a conversação veio naturalmente a cahir no seu objecto mais óbvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de romanos e celtas.
Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de arte e litterarias da nossa peninsula são as xacaras e romances populares. Ha um de Sancta Iria.
Porque é a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria das legendas monasticas?
A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collação de muitas e várias versões provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que em geral é a que mais se deve seguir.[2]
Stando eu á janella co'a minha almofada, Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;
Passa um cavalleiro, pedia pousada; Meu pae lh'a negou: quanto me custava!
--'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada... Senhor pae, não digam tal da nossa casa,
Que a um cavalleiro que pede pousada Se fecha ésta porta á noite cerrada.'
Roguei e pedi--muito lhe pezava! Mas eu tanto fiz que porfim deixava.
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava; Ao lar o levei, logo se assentava.
Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava; Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.
Poucas as pallavras, que mal me fallava, Mas eu bem sentia que elle me mirava.
Fui a erguer os olhos, mal os levantava, Os seus lindos olhos na terra os pregava.
Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava; A cama lhe fiz, n'ella se deitava.
Dei-lhe as boas noites, não me replicava: Tam má cortezia nunca a vi usada!
Lá por meia noite que me eu suffocava, Sinto que me levam co'a bôcca tapada...
Levam-me a cavallo, levam-me abraçada, Correndo, correndo sempre á desfilada.
Sem abrir os olhos, vi quem me roubava; Callei-me e chorei--elle não fallava.
D'alli muito longe que me perguntava Eu na minha terra como me chamava.
--'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga; Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]
Andando, andando, toda a noite andava; Lá por madrugada que me attentava...
Horas esquecidas commigo luctava; Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava.
Tirou do alfange... alli me matava, Abriu uma cova onde me interrava.
No fim de sette annos passa o cavalleiro, Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.
--'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro, Se me perdoares, serei teu romeiro.'
--'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro, Que me degollaste que nem um cordeiro.'
Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio--o de que não tenho a menor idea--ou nos escriptos dos frades ha muita fábula de sua unica invenção d'elles que o povo não quiz acreditar: alias é inexplicavel a singeleza d'esta tradição oral.
Tam simples, tam natural é a narração poetica do romance popular, quanto é complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordações ecclesiasticas.
O caso é grave, fique para novo capitulo.
CAPITULO XXX.
Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance popular.
A milagrosa Sancta Iria--Sancta Irene--que deu o seu nome a Santarem, donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infêrmo de molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.
É sabido que a mais sancta lhe não pêza de que estejam a morrer por ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.
Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais não podia por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixão e o convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento--que não guardavam ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura--e foi-se a casa do namorado Britaldo.
Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na cabeça as lindas e bemdittas mãos, n'um instante o sarou de todo achaque do corpo; e se lhe não curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o adormentou, que parecia acabado.
Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que não sai d'elle senão para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em não menor personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella Iria.
Arde o frade em concupiscencia, e não obtendo nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se. Disfarçou porêm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparação, que apenas a sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer todos os signaes da mais apparente maternidade.
Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injúrias e os insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo, que se julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez de a esquecer com desprêzo--sente reviver-lhe, senão tam pura, muito mais ardente, toda a antiga paixão.
Tam mysterioso é o coração do homem!--tam vil! dirão os asceticos--tam inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes.
Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante... A sancta resiste a tudo, forte na sua virtude.
Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que jazia no fim da cêrca e juncto ao rio Nabão, para alli estar mais so com Deus, e desabafar com Elle á sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a occasião e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam.
Banam! é um verdadeiro nome de mellodrama.
Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hábito e lançou o corpo ao rio, que depressa a levou ás arrebatadas correntes do Zezere em que desagua; e logo este ao Tejo--que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu sepultura em suas louras areas, para maior glória da sancta e perpétua honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome.
Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegan fóra, até chegar á Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se retiraram cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado á maravilha pelas mãos dos anjos.
Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta, mas não o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da tunica, voltaram todos para a sua terra.
As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se abriram senão d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas orações fez aopé do rio pedindo á sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o mar Vermelho á voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o benditto sepulchro.
Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espôso e de toda a sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem os outros com todas as fôrças humanas, não poderam abrir o tumulo; quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de que um podêr sobrehumano não permittia que elle se abrisse, mandou a toda a pressa levantar um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, e tam alto que o rio na maior inchente o não podesse cubrir.
O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos, tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou sobresahindo por cima d'ellas.
Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da sancta.
Ainda lá está, assás mal cuidado com tudo; lá o vi com estes olhos peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu leito, e o padrão estava perfeitamente em sêcco, e em sêcco está todo o anno até começarem as cheias.
Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.
A das cantigas é, como ja disse, muito outra e muito mais simples, conta-se em duas palavras. A sancta está em casa de seus paes; um cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe, pretende fazer-lhe violencia... A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada no proprio sítio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta é, dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdão á sancta, que lhe lança em rosto o seu peccado e o amaldiçoa.
E acabou a historia.
Sería o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades que augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica é realmente bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma desprezar.
É difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para qualquer observador não vulgar, que n'estas crenças do commum, n'estas antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer estudar os homens e as nações e as edades onde elles mais sinceramente se mostram e se deixam conhecer.
A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle, d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que ésta seja das mais antigas composições não so da nossa lingua, mas de toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este é um d'aquelles poemas quasi aborigines que a tradição tem vindo intregando, e ao mesmo tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem não é porcerto dos que desceram do palacio ás choupanas e fugiram da cidade para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por lá tem vivido até agora.
A fórma metrica da composição é a que a phrase didatica das Hispanhas chamou _romance em endechas_. Eu, adoptando para elle, mais que para a fórma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo allemão, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio que estes são verdadeiros versos de dôze syllabas, e que as coplas não constam senão de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação da palavra. O povo cantando não separa os hemistychios d'estes versos como fazem os que os escrevem: e ao contrário nos romances da medida mais commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito syllabas sôbre si.
Não sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas últimas, em que muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito á cantiga original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes, em toda a parte.
CAPITULO XXXI.
Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em verso e Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As salgadeiras de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de Santarem.--Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes.
Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a começar a longa viasacra de reliquias, templos e monumentos que são hoje toda Santarem.
A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje é um livro que so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas éstas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, não ha mais nada: o presente não é, ou é como se não fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto.
Dá vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet sola civitas!' Portugal é, foi sempre uma nação de milagre, de poesia. Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive em _prosa_. Morrer, não morre a terra, nem a familia, nem as raças: mas as nações deixam de existir.--Pois embora, ja que assim o querem. A mim não me fica escrupulo.
Passámos a egreja da Alcaçova, que achámos ja fechada; e tomando sempre sôbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua mais _fashionavel_ d'esta villa cortezan. Aqui estão quasi aopé da egreja umas portas e janellas do mais fino lavor e gôsto mosarabe que me lembra de ter visto.
E a proposito, porque se não hade adoptar na nossa peninsula ésta designação de _mosarabe_ para characterizar e classificar o genero architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?
De que palacio incantado foram éstas portas tam primorosamente lavradas? Que bellezas se debruçaram d'essas arrendadas janellas para ver passar o cavalleiro escolhido do seu coração? São tam lindas, tam elegantes ainda éstas pedras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro insosso e grosseiro que as facea, que naturalmente despertam a mais adormecida imaginação a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos mysterios da edade-média.
Pouco mais adeante está, em um mau nicho escalavrado e feio, um pretendido busto de D. Affonso Henriques, a que attribuem grande antiguidade. Não me fez esse effeito a mim.
Chegámos á porta do _Sol_; sentamo'-nos alli a gosar da majestosa vista. É majestosa mas triste. A ribanceira que d'alli corta abaixo, até ao rio, é arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como a mal povoada nuca de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto rasteiro, meio _frutex_ meio herbaceo que aqui chamam 'Salgadeira' e que a tradicção diz ter vindo de Affrica para segurar a terra n'estes taludes e precipicios. O aspecto e hábito da planta é realmente affricano e oriental, não tem nada de europeu. Mas ésta derradeira e occidental parte da nossa Hespanha é, geologicamente fallando, ja tam affrica, tam pouco europa, que não sería necessaria a transplantação talvez; e porventura ficou ésta memoria entre o povo do uso que os moiros faziam da planta para esse fim.
Ésta porta do sol dizem que é onde se faziam as execuções em tempos antigos. Foi bem escolhido o sítio; não o ha mais triste e melancholico. Aopé está um torreão quadrado da muralha que ahi fórma canto para seguir depois na direcção de sul a norte. D'este lado as fortificações e lanços de muro estão todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos, póde-se formar perfeita idea do que era uma antiga cidade murada.
Sería aqui, dizia eu commigo, que o nosso Fr. Diniz de quem ja tenho saudades--o velho guardião de San'Francisco veio chorar o seu ultimo threno sôbre as ruinas da antiga monarchia? Sería aqui n'este logar de desolação e melancholia que correram as suas derradeiras lagrymas! Elle que ja não chorava, acharia aqui quem desse aos seus olhos as fontes de agua que o coração lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada velhice?
Passavam-me éstas ideas pelo pensamento quando o historiador que tantos capitulos nos retteve no vale, contando-nos os successos de Joanninha e da sua familia, nos disse:
'Sentemo-nos aqui na sombra que faz ésta muralha e acabemos a historia da menina dos rouxinoes. De tarde vamos á Ribeira saudar a memoria do Alfageme. Ámanhan de manhan está detalhado que iremos ver a Graça, o Sancto milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos hoje ésta historia.'
'Seja' respondemos nós.
Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora não tenhas medo das minhas digressões fataes, nem das interrupções a que sou sujeito. Irá direita e corrente a historia da nossa Joanninha até que a terminemos... em bem ou em mal? D'antes um romance, um drama em que não morria ninguem era havido por semsabor; hoje ha um certo horror ao tragico, ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo das commodidades materiaes em que vivemos.
Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em principios nem em fins tenho eschola a que esteja sujeito, e heide contar o caso como elle foi.
Escuta.
CAPITULO XXXII.
Tornámos á historia de Joanninha.--Preparativos de guerra.--A morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O infermeiro.--Georgina.
'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do último capítulo. Mas não basta que escute, é preciso que tenha a bondade de se recordar do que ouviu no capitulo XXV e da situação em que ahi deixámos os dous primos, Carlos e Joanninha.
N'este despropositado e inclassificavel livro das minhas Viagens, não é que se quebre, mas inreda-se o fio das historias e das observações por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com muita paciencia se póde deslindar e seguir em tam imbaraçada meada.
Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei por ser breve e ir direito quanto eu podér.
Lembra-te como n'uma noite pura, serena e estrellada, aquelles dous se despediram um do outro no meio do valle, como se despediram tristes, duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros do que d'antes foram.
N'essa mesma noite, a ordenada confusão de um grande movimento de guerra reinava nos postos dos constitucionaes. Á longa apathia de tantos mezes succedia uma inesperada actividade. Preparavam-se os sanguinolentos combates de Pernes e de Almoster, que não foram decisivos logo, mas que tanto appressaram o termo da contenda.
Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general, partiu immediatamente. O pensamento absorvido por ideas tam differentes, tam confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente o corpo. Foi, chegou, recebeu as instrucções que lhe deram, e voltou mais satisfeito, mais tranquillo.
Tractava-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia d'alma o que ainda não abençoou a morte que viu deante de si, o que a não invocou ainda como unico remedio de seu mal, ou, o que é mais desesperado, como unica sahida de suas fataes perplexidades.
Estes momentos são raros na vida, é certo; mas quando occorrem, não ha exaggeração nenhuma em dizer que antes, muito antes a morte do que elles.
Oh! e se a morte que se contempla é de honra e glória, se o enthusiasmo, tirando fortemente a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles tons secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam o coração do homem á sublime abnegação de si, e de tudo o que é piqueno, baixo e vil na sua natureza--oh então a morte parece um triumpho, uma bemaventurança porcerto!
Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada que affiou com escrupuloso cuidado, e das suas boas e seguras pistolas inglezas que limpou minuciosamente, carregou e escorvou com um verdadeiro amor de artista que se compraz no último acabamento de um trabalho predilecto.
O pouco da noite que lhe restava passou-se n'isto, a marcha começou antes do dia. E os primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzilar das espingardas, e pelo trovejar dos canhões.
Combateu-se larga e incarniçadamente--como entre irmãos que se odeiam de todo o odio que ja foi amor--o mais cruel odio que tem a natureza!