Viagens na Minha Terra (Completo)

Chapter 9

Chapter 93,951 wordsPublic domain

--'Oh! elle ha frade no caso?'

--'Ha, e que frade! Um apostolico ás direitas! Tam feio, tão magro! apparece por ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e que famoso tiro que era! Quasi que me arrependo de não ter...'

--'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por instantes. Olha agora se lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que é...'

--'Um frade!'

--'Um frade não é gente?'

--'Não senhor.'

--'Está bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece é que nós temos cedo muita pancada rija.'

--'Venha ella, que isto ja abhorrece.'

Accenderam os cigarros e fumaram.

Com o mesmo socêgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos os sentimentos da natureza.

CAPITULO XXII.

Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle amava, e se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos leitores. Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade levantar a primeira pedra?--Dous modos differentes de accudir uma coisa ao pensamento.

No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de Joanninha.

Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera: dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda a segurança n'aquella entrevista.

Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia, incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e graciosa criança com quem vivêra como irmão desde os seus primeiros annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.

Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criança que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida...

Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança.

É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte... no longo cêrco do Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no verão, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braços para passar no hynverno os alagadiços do valle,--essa querida imagem não o abandonára nunca.

Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias--mais esquecidiças ainda!--pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o sentimento de seu coração.

A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a allumiasse.

Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!

Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo... a quem, sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra, comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da innocencia infantil em que a deixára!

Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e sentimentos.

Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem elle a si proprio o podéra explicar: era de um genero novo, unico na historia de suas sensações: não a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo de a analysar.

Sería annúncio d'amor?

Mas elle tinha amado, amado muito e devéras... e cuidava amar ainda, e devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do coração, era obrigado a amar ainda.

Oh obrigações d'amor, obrigações d'amor! se vós não sois, se vós ja não sois senão obrigações!..

Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: leal e sincero tinha intregue o seu coração á mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera d'amor e devoção; que descançava em sua fé, que não existia senão para elle: mulher môça, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um espirito, de uma educação superior, que atravessára, desprezando-as, turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer até elle, para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado.

Quem era essa mulher?

Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o qual se tinha por tam seguro para não ver na graciosa prima senão?..

Senão o quê?

A innocente criança que alli deixára?

Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joanninha lhe fizera, fosse ella qual fosse.

O que era então?

E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava?

E amava-a elle ainda?

Amava.

E Joanninha?

Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava sendo n'aquelle momento.

O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo: o que lhe ella será... Pódes tu, leitor candido e sincero,--aos hypocritas não fallo eu--pódes tu dizer-me o que hade ser ámanhan no teu coração a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou interessante?

Pódes responder-me da parte que tomará ámanhan na tua existencia a imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza das linhas, a expressão verdadeira e animada?

E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, responder-me-has tambem da parte que ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai impallidecendo, descórando... ja lhe não vejo senão os lineamentos vagos... ja é uma sombra do que foi... Ai! o que será ella ámanhan?

Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, não julgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o Filho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente... A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.

Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posição no mundo... e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido.

E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste, que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se Georgina; e é tudo quanto por agora póde dizer-vos, ó curiosas leitoras, o discreto historiador d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas perfeições, que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva, não podiam ter rival, nem a haviam de ter.

Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha... oh! que lhe tinha elle feito? Como o sentíra elle? Como lhe guardára o seu talisman o coração e a alma?..

Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra em claro.

A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez em quando, como um raio de luz transiente e magica, no meio d'ess'outras visões do passado que a reflexão lhe acordava. Ai! essas era a reflexão que as acordava... aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava...

Ha sua notavel differença n'estes dois modos de accudir ao pensamento.

A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada, sentiu-se outro.

Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a tarde.

CAPITULO XXIII.

Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau da familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes.--Desafio a todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.

Não ha nada como tomar uma resolução.

Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o caso é difficil e complicado, pouco a pouco as dúvidas solvidas começam a inliar-se outra vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces ainda não vistas da questão... em fim, se o intervallo é largo, quando a resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja não é por fôrça de razão e convicção que se faz, mas por capricho, ponto d'honra, teima.

Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe recorreram ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar n'alma aquella dança de fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama _nervosos_; em stylo de romance _sensiveis_, na phrase popular _malucos_.

Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?

Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma agora... talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da avó que tanto amára, em cujo maternal coração elle bem sabía que tinha a primeira, a maior parte... da avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido! Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque cegaria ella?

Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, mas que não explicou.

Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça aos pés de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um grande crime... um ser de mysterio e de terror.

Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim será tudo, mas tu não pódes abhorrecer esse homem.'

Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma accusação tremenda, que o fizera, a elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusação horrivel que tambem comprehendia a pobre velha, aquella avó que o adorava, e que elle, ainda criminosa como a suppunha, não podia deixar de amar...

E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha alguma coisa?

Esperava em Deus que não.

Desconfiaria alguma coisa?... O quê?

E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os labios da innocente criança com o esclarecimento de taes horrores?

Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo porque fugira da casa paterna?

Havia de?..

Não.--Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a.

Mentiria, juraria falso se fosse preciso.

E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a consolar a infeliz que só vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua filha?

Não, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado, infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e á sua honra de o não tornar a cruzar mais.

Mas que diria então elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato?

Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de desculpa, depois o tempo daria conselho.

_Veremos_!--é a grande resolução que se toma nas grandes difficuldades da vida, sempre que é possivel espaçá-las.

Carlos disse: '_Veremos!_'

Tomou todas as disposições para podêr estar seguro e socegado no sítio onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente, occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descançar o espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.

Mas um dia de abril é immenso, interminavel. E as últimas horas pareciam as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja não tinha que inventar para fazer: pôz-se a pensar.

Que remedio!

Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia. A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria á redea sôlta pelo espaço...

Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim... todas éstas feições, confusas e indistinctas mas de estremada belleza todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiçavam. O desgraçado...--Porque não heide eu dizer a verdade?--o desgraçado era poeta.

Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; não é que fizesse versos: n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino sentimento d'arte, aquelle sexto sentido do _bello_, do _ideal_ que so teem certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os artistas.

Eis aqui um fragmento de suas aspirações poeticas. Vejam as amaveis leitoras que não teem metro, nem rhyma--nem razão... Mas emfim versos não são.

'Olhos verdes!..

'Joanninha tem os olhos verdes...

'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues.

'Nem o fogo--e o fummo das paixões, como nos pretos.

'Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a fluctuação e a transparencia do mar...

'Tudo está n'aquelles olhos verdes.

'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?

'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar, quanto tinha que dar.

'Os olhos azues de Georgina não dizem senão uma so phrase d'amor, sempre a mesma e sempre bella: _Amo-te, sou tua!_

'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que éstas palavras: _Ama-me, que es meu!_

'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, escripto em characteres moveis, cujas combinações infinitas excedem a minha comprehensão.

'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?

'Que lingua fallam eles?

'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?

'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul...

'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro.

'Mas todas as côres da natureza vêem de uma so, o verde.

'No verde está a origem e o primeiro typo de toda a belleza.

'As outras côres são parte d'ella; no verde está o todo, a unidade da formosura creada.

'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes.

'O ceo é azul...

'A noite é negra...

'A terra e o mar são verdes...

'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e bellos como a noite.

'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são tam lindas... mas no fim de uma longa noite quem não suspira pelo dia?

'E que se vão... oh! que se vão emfim as estrellas!..

'Vem o dia... o ceo é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar para elle.

'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina...

'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se n'ella, e não se cança na variedade infinita de seus matizes tam suaves.

'O mar é verde e fluctuante... Mas oh! esse é triste como a terra é alegre.

'A vida compõe-se de alegrias e tristezas...

'O verde é triste e alegre como as felicidades da vida.

'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..'

Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamou _maluco_ ao pensador de taes extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia.

Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas se pôde obter o fragmento que deixo transcripto.

Que honra e glória para a eschola romantica se podessemos ter a collecção completa!

Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, _britante_....

Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:--Echos surdos do coração--ou--Reflexos d'alma--ou--Hymnos invisiveis--ou--Pesadellos poeticos--ou qualquer outro d'este genero, que se não soubesse bem o que era nem tivesse senso commum.

E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador renascença de collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso!

Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,--(com menos grammatica, sim) e com mais triumphante desprêzo das absurdas e escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que não produziu nunca senão Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de outros nomes tam obscuros como estes?

CAPITULO XXIV.

Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os braços abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, meia prazer.

Formou Deus o homem, e o pôs n'um paraizo de delicias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs n'um inferno de tolices.

O homem--não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, appertando e forçando em seus moldes de ferro aquella pasta de limo que no paraizo terreal se affeiçoára a imagem da divindade--o homem, assim aleijado como nós o conhecêmos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.

Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo ainda e suberbo com as recordações do passado, baixo vil e miseravel pela desgraça do presente.

D'estas duas tam oppostas actuações constantes, que ja per si sos o tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden phantastico de sua creação,--verdadeiro inferno de tolices--e disse-lhe, invertendo com blasphêmo arremêdo as palavras de Deus Creador:

'De nenhuma árvore da horta comendo comerás;

'Porêm da árvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comerás se quizeres viver.'

Indigestão de sciencia que não commutou seu mau estomago, presumpção e vaidade que d'ella se originaram--tal foi o resultado d'aquele preceito a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado habitual.

E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar á natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sôbre elle, e o prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo doloroso de suas fôrmas.

Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijão.

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Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que sahíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado appêrto das constricções sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da natureza, como era o nosso Carlos.

Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade, é ainda fraco, falso e acanhado.

Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua alma lhe tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnações d'esse grande juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo.

Carlos estava quasi como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexão descia-o á vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum.

Dos melhores era, mas era homem.

Os seus pensamentos, as suas considerações em toda aquella noite, em todo o dia que a seguíra, na hora mesma em que ia incontrar-se com o objecto que mais lhe prendia agora o espírito, senão é que tambem o coração, todas participavam d'aquella fluctuação inquieta e doentia de seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas relampejava por acaso.

Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella organização d'aquella alma.

Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava de braços abertos, que o appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa modestia, e com o riso da alegria no coração e na bôcca lhe disse:

--'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aopé um do outro e conversemos, que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. Aqui na minha... Está fria a tua mão hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh! agora vai aquecendo... tanto tanto... é demais! Terás tu febre?'

--'Não tenho.'

--'Não tens, não: a cara é de saude. E como tu estás forte, grande, um homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via nos meus sonhos!.. Que é extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo, não te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como vens agora, forte, são, alegre. Mas tu não estás alegre hoje, como hontem; não estás... Que tens tu?'

--'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. Pensava...'

--'Em que pensas tu? dize-me.'

--'Pensava na differença dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava comtigo.'

--'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?'

--'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena, desinquieta, travêssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas, trepando a essas árvores... aquella Joanninha com quem eu andava ao collo, que trazia ás cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam criança como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre, cantando...'

--'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei desde o dia que tu partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram depois! Não houve nunca mais um so dia de alegria n'ésta casa. Oh!.. deixa-me te dizer: Fr. Diniz... Sabes que não gósto d'elle?'

--'Não gostas?'

--'Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! parece-me que é injusta a minha antipathia.'

--'Porquê?'